Por Augusto Ferri/Superávit Caseiro
A adolescência é um período marcado por incertezas, especialmente quando o assunto é pensar no futuro. Inserir-se no mercado de trabalho, empreender e compreender o universo das finanças são desafios comuns – ainda mais para estudantes de escolas públicas, que muitas vezes não têm acesso às mesmas oportunidades. Pensando nisso, o assessor de investimentos Lennon Bandeira criou, em 2025, o projeto Futuro em Conta, uma iniciativa social que busca aproximar jovens da realidade do mercado financeiro por meio da educação financeira e do desenvolvimento de habilidades essenciais. Natural de Pelotas e também oriundo da rede pública de ensino, Lennon vivenciou de perto essas dificuldades e, após cinco anos de carreira em grandes instituições financeiras, decidiu transformar sua experiência em ferramenta de mudança social.
Por meio de palestras e aulas online, o projeto já vem impactando jovens da zona sul do Rio Grande do Sul – incluindo cidades como Pelotas, Canguçu e Camaquã – de forma totalmente gratuita. Além de estudantes, a iniciativa também atende profissionais em transição de carreira, ampliando o alcance das ações. Em entrevista ao Superávit Caseiro, o especialista em investimentos compartilha mais sobre a proposta do Futuro em Conta e a importância de preparar jovens para os desafios reais do mercado de trabalho.
SUPERÁVIT – De onde surgiu a ideia de desenvolver o projeto Futuro em Conta?
LENNON BANDEIRA – A ideia nasceu de uma conversa entre alguns colegas que também tiveram dificuldade em se encontrar profissionalmente: qual profissão seguir, o que estudar, como se organizar para ter as primeiras conquistas. Tudo isso todo mundo passa, mas ninguém te avisa como é. Apenas esperam que você tome boas decisões, e percebemos o quão mais fácil seria se tivesse alguém que nos desse essa orientação, que minimamente nos desse uma direção do que fazer. Foi então que pensamos que nós poderíamos ser essa pessoa que provocasse a mudança em outras pessoas. Por ser oriundo de escola pública, percebi a gigantesca lacuna que existe entre a nossa educação e o nosso preparo para o mercado de trabalho, e a ideia do projeto é justamente tentar diminuí-la.
SUPERÁVIT – Quais foram os principais desafios enfrentados para implementar o projeto e chegar até os jovens?
LENNON BANDEIRA – Hoje percebo que o maior desafio é fazer eles entenderem a importância deste conhecimento. Muitas vezes temos que fazer força para colocar 10 alunos numa aula online que abordará um tema que pode mudar a sua vida. A aula é gratuita, mas o conteúdo é o mesmo – ou melhor – que em muito curso profissionalizante, porém não conseguimos demonstrar isso. É claro que hoje, como se trata de um projeto que existe apenas pelo esforço dos voluntários, não temos muita propaganda nem apoio de mídias para divulgar, e isso faz com que não consigamos dar muito alcance. Mas acredito que com o crescimento e a evolução do projeto vamos quebrar essa barreira de entrada.
SUPERÁVIT – Você enxerga um impacto positivo nos jovens que participam no projeto? Eles se sentem mais preparados para enfrentar o mercado de trabalho?
LENNON BANDEIRA – Eu não diria que são 100% preparados, pois sabemos que o mercado muitas vezes está muito exigente, mas com certeza saem com mais confiança e com um leque de possibilidades nas mãos. Tenho um exemplo que para nós é um caso de sucesso: o jovem Lucas Viana. Ele esteve presente em todas as palestras do primeiro Futuro em Conta e, ao final desse ciclo, saiu determinado a começar a empreender. Hoje ele é proprietário do Sistema Sabiá, uma plataforma para ajudar jovens nos seus estudos. Sua plataforma vem dando tão certo que hoje está incubada no Instituto Caldeira, em Porto Alegre.
SUPERÁVIT – Quais são as dúvidas mais comuns que os jovens costumam apresentar sobre finanças?
LENNON BANDEIRA – Em todas as palestras que faço sobre educação financeira, a dúvida mais frequente sempre é sobre dívida. Exemplos: vale a pena parcelar uma compra no cartão de crédito? Vale a pena ter um consórcio? Vale a pena financiar uma casa? No início achei estranho, pois para nós que atuamos de forma profissional no mercado financeiro, temos a percepção de que a pergunta “como eu ganho mais dinheiro?” seria a mais frequente. Porém, aos poucos percebi o motivo: a verdade é que as instituições financeiras têm como modelo de negócio, em sua grande maioria, vender dívida, pois é o produto que mais dá dinheiro para elas. Então propaganda de financiamentos, consórcio e cartões de crédito é o que mais aparece. Mas a verdade é que não existe uma resposta certa. Tudo depende do seu momento de vida, dos seus objetivos e de como você quer viver. É a partir disso que decidimos quais ferramentas financeiras são ideais para você.
SUPERÁVIT – Em outras entrevistas foi dito que o projeto tem quatro pilares como base, a educação financeira, o empreendedorismo, a tecnologia e a inteligência emocional. Poderia falar um pouco sobre a importância que cada um desses “pilares” tem?
LENNON BANDEIRA – A inteligência emocional é justamente o elo que faz com que você tenha clareza para tomar as melhores decisões. O estudo das outras disciplinas é o que te dá repertório para saber qual caminho tomar. Educação financeira é sobre saber se planejar, colocar pequenas metas e conseguir atingi-las. É saber que você precisa pensar no médio e no longo prazo para obter resultados financeiros, abandonando o imediatismo que é tão popular na cultura brasileira. O empreendedorismo não é sobre abrir um negócio. É sobre resolver problemas. Você pode muito bem encontrar falhas na operação de uma grande empresa e, ao corrigi-las, não se tornará dono dela, porém terá grandes chances de ser promovido. Ou então olhar para o empreendedorismo tradicional, encontrar lacunas na sociedade e montar uma empresa para solucioná-las. Mas no fim do dia é sobre encontrar oportunidades e saber aproveitá-las. E para finalizar: a tecnologia é uma realidade. Se posicionar contra ela fará apenas com que você se atrase no mercado, ficando obsoleto com o passar do tempo. Porém, se você decidir o contrário, com certeza terá mais oportunidades e se adaptará muito mais rápido às mudanças que estão por vir.