
Por Eduardo Ritter/Superávit Caseiro
Você acredita em “meritocracia”? Esse termo tem ganhado destaque nas discussões políticas, especialmente quando se debate sua eventual incorporação às políticas públicas voltadas à redução das desigualdades sociais no Brasil. E, certamente, voltará à tona nas eleições deste ano. No mercado financeiro e no empreendedorismo, porém, trata-se de um conceito antigo – e um dos pilares da filosofia de vida e de trabalho de três bilionários brasileiros: Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles. Os dois primeiros figuram entre os dez mais ricos do Brasil segundo a lista da Forbes de 2025, e o terceiro só não aparece no Top 10 porque parte significativa de sua fortuna já foi transferida em vida ao filho, Max Van Hoegaerden Herrmann Telles, que, aos 29 anos, ocupava a 11ª posição na lista.
Max chegou a essa posição por meritocracia? É difícil sustentar essa filosofia no campo social. Não há como partir do princípio de que indivíduos com trajetórias completamente distintas – como um jovem herdeiro de bilhões e outro que precisa trabalhar 44 horas semanais na escala 6×1 e estudar à noite – estejam em condições minimamente iguais de disputa. No Brasil, essa diferença não é apenas econômica, mas histórica: descendentes de grupos privilegiados tiveram acesso à educação, redes de contato e estabilidade ao longo de gerações, enquanto outros partiram de contextos marcados por exclusão, preconceito e ausência de oportunidades reais. Nesse cenário, falar em meritocracia como base de políticas públicas não apenas simplifica o problema – distorce a realidade.
Essa visão contrasta com o que aparece em “Sonho Grande”, da jornalista Cristiane Correa, publicado em 2013 pela editora Sextante. A obra apresenta a trajetória do trio que, sob a liderança de Jorge Paulo Lemann, transformou o banco Garantia em uma verdadeira escola de formação de lideranças e, a partir daí, construiu um império empresarial. Vieram aquisições como Lojas Americanas e Brahma, a criação da GP Investimentos, a formação da Ambev e, posteriormente, a expansão global com a InBev, que se consolidou como a maior cervejaria do mundo após a compra da americana Budweiser. Mais do que a sequência de negócios, o livro revela um modelo de gestão baseado em desempenho, metas agressivas e valorização dos melhores resultados.
É nesse ponto que a meritocracia encontra terreno mais sólido: dentro da lógica empresarial. Diferentemente do campo social, a empresa não tem como objetivo produzir justiça – ela busca eficiência, resultado e crescimento. Nesse contexto, a ideia de premiar quem entrega mais faz sentido operacional. A lógica defendida pelo trio é simples: ninguém deveria ocupar espaço por influência ou acomodação, mas sim por desempenho. E, de fato, há inúmeros relatos de pessoas que cresceram dentro dessas organizações a partir de resultados concretos, independentemente de sua origem.
Isso não significa, no entanto, que exista uma meritocracia “pura”. As desigualdades de origem continuam existindo – e pesando. O filho do multimilionário, em geral, teve acesso a formação internacional, idiomas e experiências que o colocam em vantagem desde o início. Mas, dentro da lógica dessas empresas, isso não garante permanência. Se não entregar resultado, perde espaço. E é justamente esse recorte que diferencia o ambiente privado do público: a empresa pode se dar ao luxo de ignorar a origem e focar apenas na performance porque seu objetivo não é corrigir desigualdades, é maximizar resultados.
Por isso, tentar transportar essa lógica para o setor público é, no mínimo, problemático. O Estado não existe para premiar os melhores, mas para garantir condições mínimas de dignidade e reduzir desigualdades estruturais. Aplicar uma lógica meritocrática pura nesse contexto significaria ignorar pontos de partida completamente desiguais. Por outro lado, isso não quer dizer que não haja nada a aprender com o setor privado. Princípios como eficiência, responsabilidade na gestão e visão de longo prazo são fundamentais, especialmente em um país onde o desperdício e a má administração são recorrentes.
Por fim, o próprio trio defende que o dinheiro é consequência, não objetivo central: o foco estaria em construir empresas sólidas, eficientes e duradouras. Essa mentalidade, sim, pode oferecer alguma inspiração ao setor público – não na busca por lucro, obviamente, mas na ideia de planejamento e responsabilidade com recursos.
E onde fica o livro nessa história toda? Ele não é um manual de justiça social, nem pretende ser. É o relato de uma lógica de mundo específica – a do alto desempenho empresarial. Eu cheguei a ele já sabendo que seus protagonistas estão longe de serem santos, mas também longe de serem caricaturas simplistas. E talvez seja esse o principal mérito da narrativa apresentada pela jornalista: mostrar que há muito a criticar, sem deixar de reconhecer que também há o que aprender. Mas, sobretudo, deixa claro que meritocracia pode até funcionar como ferramenta dentro de empresas, porém, como princípio para organizar a sociedade, ela está longe de dar conta da complexidade do mundo real.
Portanto, quando um candidato falar em “meritocracia” nas próximas eleições, desconfie! Afinal, a lógica de uma empresa é a busca pelo lucro e, para isso, é possível enriquecer comprando barato e vendendo caro – o que, por si só, não qualifica ninguém para lidar com a complexidade da máquina pública. Muito pelo contrário: no geral, o Estado exige outra lógica, que envolve equilibrar interesses conflitantes, reduzir desigualdades históricas e garantir direitos básicos em áreas como saúde, educação e segurança. Não se trata apenas de eficiência financeira, mas de justiça social. E é justamente aí que a meritocracia, como discurso simplificador, deixa de oferecer respostas e passa a esconder problemas muito mais profundos.