Por Marco Lapolli Ayala
“Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada da memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais”
Trecho da música “Vai Passar”, composta por Chico Buarque
No século XX, dentre tantos momentos históricos atípicos e obstáculos para a formação de uma civilização harmoniosa – tanto no Brasil quanto no mundo – surgem diversos grupos de diferentes ideologias políticas e sociais. E é nos movimentos das camadas mais populares e dos trabalhadores que surge um cidadão que provocou grande impacto e incômodo na construção da história do Rio Grande do Sul e também da nação brasileira: Álvaro Leonardi Ayala (1923-1999).
Ayala, filho de André Jerônimo Ayala e Rosa Leonardi Ayala, era um operário do setor eletricitário que viveu até o fim de sua vida em função de lutas contra a desigualdade social, sempre sendo um homem que adorava dialogar, conscientizar a população sobre o que estava acontecendo no Brasil. Segundo o advogado Victor Nuñez, Ayala era muito habilidoso no trato com as pessoas, bom argumentador, não brigava, não era radical no relacionamento com os outros – mesmo que, conforme Lucy Ayala, uma das filhas de Álvaro, fosse um homem que não era convencido, mas sim convencedor – e era alguém que priorizava o bem-estar social acima de tudo, sem supervalorizar interesses individuais.
“Se você é capaz de se indignar cada vez que uma justiça é cometida no mundo, então somos companheiros. É o que importa”
Bertold Brecht
Ayala se comprometeu pela maior parte da sua vida para lutar em prol das melhores condições de vida dos seres humanos, além de se dedicar à classe popular e proletária, por meio de sua participação no sindicalismo gaúcho e brasileiro.
“Vivemos arrochados por uma política econômica internacional que impede nossos avanços políticos […]. Assim como Jango, sentimos também saudade de um líder autêntico e democrático de nossa categoria profissional. Ayala foi nosso companheiro, que veio do RS trazendo uma bagagem de conhecimento, lutas, honradez, dignidade […]. Encontramos no companheiro Ayala a disposição de luta e todo apoio moral.”
Clodsmidt Riani, ex-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI)
A VIDA POLÍTICA DE AYALA
É necessário entender o contexto anterior e durante o período de ativismo de Álvaro para compreender seu legado.
A vida política na árvore genealógica de Ayala começa antes dele. A família de seu pai era anarquista de origem uruguaia e migrou para Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, antes de Álvaro nascer. André Ayala acreditava que “o proletariado só será livre no dia em que o último burguês for enforcado com as tripas do último padre”. Assim, Ayala foi muito influenciado por seu pai a seguir uma vida com um posicionamento político voltado para a classe operária (outros parentes de Álvaro, como os já citados André e Rosa, além de seus filhos que ainda serão mencionados, terão seus nomes citados junto ao sobrenome. Ao usar apenas o sobrenome “Ayala”, refere-se ao personagem principal deste texto: Álvaro).
Em 1941, Ayala se juntou ao PCB (Partido Comunista do Brasil), onde, sob orientação do partido, passou a atuar nas lutas populares e na conscientização da população.
“[…] ele [Ayala] tinha uma visão, apesar de ser muito direcionada à União Soviética, ao comunismo, que era o processo ideológico dele, mas uma visão de mundo extremamente crítica, sabe? Ele conseguia entender o que estava acontecendo em todos os demais setores e entender que […] a postura dele estava ajudando na construção de um mundo diferente. Ele realmente acreditava que essa compreensão através do comunismo levaria as pessoas a uma sociedade melhor e lutava diariamente com isso. Isso é muito evidente no trabalho dele”
Suéllen De Medeiros Cortes, historiadora, professora de História, mestranda em História na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e influenciadora digital
Em 1944, após alguns anos trabalhando na Cia. Estadual de Energia Elétrica (CEEE), se juntou ao sindicato dos eletricitários. A sua participação política, a partir de então, começa a crescer cada vez mais ao longo do tempo e ser mais valorizada.
“E, o Ayala, eu acho que pra quem foi contemporâneo dele, viveu na mesma época, tinha uma consciência da liderança sindical, da liderança política que ele era. Tanto que, na documentação, fica muito claro que ele foi extremamente consultado. As pessoas procuravam ele pra saber o que ele achava das coisas. Então, ele era uma referência. E é curioso como a história, as vezes, vai criando as suas narrativas e vai contando algumas coisas que, quando a gente cruza entrevistas que foram dadas pelo Ayala com as situações que estavam acontecendo naquela época, a gente não percebe, ou melhor, percebe pouco né, que ele tinha uma narrativa daquele assunto. Vou te dar um exemplo; quando o Brizola fez os ‘batalhões da legalidade’, tudo que a gente tem de produção intelectual diz que o Brizola foi a liderança dos batalhões da legalidade. O Ayala, ele dava algumas entrevistas dizendo assim: ‘Não, foram os movimentos sociais e os movimentos sindicais, que se uniram pelos batalhões da legalidade. Nós treinávamos pra pegar em armas e fazer uma revolução’. Então, não foi tão bonitinho quanto essa visão do Brizola como se construiu, foi muito mais radical como a visão que eles tinham.”
Suéllen De Medeiros Cortes
Nas décadas de 1950 a 1960, Ayala realizou diversos feitos. Com seu amigo – também atuante no sindicato da energia elétrica – Jorge Campezatto, comandou o sindicato (Álvaro como secretário executivo e seu parceiro como presidente). Posteriormente, Ayala se manteve na área sindical, enquanto Campezatto se direcionou para a atuação política partidária. Além disso, Álvaro foi presidente do Conselho Estadual de Trabalhadores do Rio Grande do Sul, fundador do Comando Sindical de Porto Alegre, que unia todos os sindicatos da cidade, delegado da CNTI e representante do Rio Grande do Sul no Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), sob a liderança do presidente Clodsmidt Riani.
Durante seu auge como político e ativista, teve a oportunidade de viajar para fora do país para participar de reuniões e congressos, inclusive na União Soviética.
Ayala foi preso durante a ditadura militar. Após ser solto, anistiado e readmitido no final do regime, retornou às lutas sociais. Mesmo sendo mais velho, continuou viajando pelo país e se mantendo ativo nos movimentos populares em busca de uma nação mais justa. No entanto, teve uma atuação não tão presente como no período entre as ditaduras do Brasil.
Considerando que Ayala começou a participar dos movimentos estudantis, sindicatos e partidos aos 18 anos, ele militou desde o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas até a fase da Nova Ordem Mundial, no final do milênio. Muitos momentos históricos e a tensão social marcaram esse período.
O Brasil que Ayala esteve inserido – do Estado Novo à João Goulart
“Não era só aqui no Rio Grande do Sul, tchê. Em todo o país, a origem do movimento sindical está no anarquismo, mais precisamente na corrente anarco-sindicalista, que chegou através da imigração de italianos, espanhóis e portugueses. Foram eles os primeiros a trazer, junto com a pequena bagagem, o idealismo da organização dos trabalhadores. Até então, o movimento operário era um caso de polícia. As respostas às reivindicações eram as prisões e os espancamentos. Com a influência dos anarco-sindicalistas surgem os sindicatos dos trabalhadores em Chapéus, dos Trabalhadores no Comércio, dos Pedreiros, até que, na década de 30, começam a se formar as chamadas Uniões Sindicais.
Mas as origens do movimento sindical são bem anteriores. Em 1918 os trabalhadores de São Paulo fizeram uma greve geral que paralisou São Paulo. A maior metrópole do sul do país, tchê, esteve nas mãos dos trabalhadores e, como na época a influência dos anarquistas era muito grande, não havia, infelizmente, a necessária compreensão política. Hoje, se conseguíssemos com uma greve dominar uma cidade como São Paulo, o fato nos levaria imediatamente a buscar o poder político. E os anarquistas em 17, 18, não quiseram o poder político. Queriam o poder econômico. Não foram para o palácio do governo, foram distribuir comida para o povo. As classes dominantes, organizadas, passando o revés, sacudiram a poeira e tomaram conta da situação”
Ayala
No começo de sua vida política, em 1941, Ayala presenciou a ditadura de Getúlio Vargas e a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o então ditador adotava posturas similares ao nazifascismo e havia quadros simpatizantes de Hitler. Em 1940, o próprio Getúlio, a bordo de Minas Gerais, fez um discurso favorável ao fascismo. Os atos públicos da época eram intensos para forçar Vargas a tomar iniciativas contra o Eixo. Em 1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália, além de declarar guerra.
Com o fim do Estado Novo, surgiram os governos populistas. Esse caráter de liderança é basicamente um apelo ao povo, no qual o crucial era ter a população do seu lado, no seguinte sentido: “Eu, como presidente, não preciso ter o apoio de políticos, parlamentares e partidos; tendo os cidadãos, isso é o que importa”. Assim, de modo geral, os líderes populistas não resolviam todos os empecilhos sociais, mas buscavam medidas para conquistar a credibilidade do povo e se manter no poder.
Embora, após a queda de Vargas, tenha havido um trabalho de redemocratização, algumas pessoas queriam Getúlio de volta à posse por medo de perder os direitos trabalhistas conquistados por ele (movimento conhecido como Queremismo). Depois do Estado Novo, Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente do país. No entanto, ele buscou barrar e impedir os movimentos sociais e sindicais, manteve posturas e opressões de caráter nazifascista, cassou os registros e mandatos dos 15 parlamentares eleitos pelo PCB – 1 senador e 14 deputados federais – com apoio de pressões reacionárias, fez o Partido Comunista cair na clandestinidade, assim como a Confederação dos Trabalhadores do Brasil, entre outros feitos contra a classe operária. O período de liderança de Dutra foi marcado pela privatização de serviços públicos fundamentais – como energia, gás, telefone e transportes – que ficaram sob controle de empresas multinacionais.
De Getúlio Vargas (na sua versão constitucionalista) ao governo de Juscelino Kubitschek, houve um levante popular, do sindicalismo, da luta contra o peleguismo – que será explicado posteriormente – e de forças progressistas. Getúlio propôs liberdades políticas e ações anti-imperialistas, conquistando certo apoio do povo. Tanto que o suicídio de Vargas agitou ainda mais a população em suas lutas sociais.
O sucessor de Getúlio, Juscelino, com seu plano de “50 anos em 5”, trouxe grandes avanços industrialistas e progressistas, fugindo de tradicionalismos e agradando a classe trabalhadora.
Em 1961, Jânio Quadros foi eleito presidente do Brasil.
“A reação encontrou Jânio Quadros, um líder populista de alto carisma e com grande capacidade de chamar o povo pra si […] contra o candidato do movimento sindical e dos movimentos progressista e nacionalista, General Lott, que, apesar de reacionário e conservador, tinha um compromisso com as forças populares. […] Jânio faz um governo com os maiores absurdos: proíbe rinha de galo e maiô de duas peças. Por outro lado, condecora Che Guevara com a Ordem Superior da Medalha do Cruzeiro do Sul”
Ayala
No governo de Jânio e, alguns meses depois, de João Goulart (Jango), foi um momento em que todas as esquerdas e forças nacionalistas se uniram, segundo Ayala. Foi uma fase de alta conscientização da população – tanto urbana, quanto a rural, onde era mais difícil de chegar informações por estarem longe dos grandes centros dos municípios – e do aumento do número de greves e manifestações, reivindicando reformas agrárias (redistribuição de terras) e urbanas (melhores condições de vida para os trabalhadores).
Um episódio curioso que demonstra as ótimas oportunidades que Ayala teve foi justamente nesse governo controverso de 1961. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, é encaminhado por Jânio Quadros para a Conferência de Ministros das Relações Exteriores, em Montevideo, e leva Ayala – então presidente e fundador do Comando Sindical de Porto Alegre e delegado da CNTI – junto a ele. E lá, tiveram a honra de estar em contato com diversas pessoas e políticos importantes, inclusive, ouvir um discurso histórico de Che Guevara. A partir dessa pronúncia, Ayala chegou à seguinte conclusão:
“Se houve ali uma coisa que o imperialismo entendeu como lição foi: ou eles acabavam com a liberdade na América Latina, ou seriam derrubados. A força do discurso de Che foi fantástica”
Ayala
E, assim como previsto nessa afirmação, o que Álvaro supôs, aconteceu.
O Brasil que Ayala esteve inserido – ditadura civil-militar e a influência da Guerra Fria
Em 1964, se inicia a segunda e última ditadura que já existiu no Brasil. O golpe de Estado e a promulgação do primeiro Ato Institucional viria a mudar completamente o rumo da história da nação. Vale lembrar que o AI 1 previu a exclusão de 441 civis das vias públicas; a suspensão de direitos políticos de 102 cidadãos; cassação de mandatos legislativos; a permissão para Castello Branco prender indivíduos considerados perigosos à pátria por ele e pelos militares; a exoneração e aposentadoria às forças de alguns funcionários públicos; e o aumento dos poderes dos ditadores.
“O que eles não conseguiram em 51 e em 61 eles conseguiram em 64. E usaram técnicas muito avançadas, já com especialistas do Serviço Secreto Norte-Americano trabalhando aqui”
Ayala
Essa atitude foi tomada por conta do medo causado pelas iniciativas de João Goulart como presidente (após a renúncia de Jânio Quadros). As reformas de base – que previam mudanças agrárias, educacionais, tributárias, administrativas e urbanas – do então líder do país foram muito apoiados pelos movimentos sociais e operários. Então, para evitar aplicar essa reforma, que poderia contribuir para a evolução das classes populares e dos trabalhadores, além do avanço do Comunismo, realizou-se o golpe militar.
“A intenção dos militares era muito mais evitar os movimentos reformistas em vez de ter o próprio poder”
Lucy Ayala, jornalista aposentada e filha de Álvaro Ayala
O contexto da Guerra Fria também ajudou a formar o novo cenário, não só no Brasil, mas também na América do Sul. Os movimentos pró-socialismo cresceram com a influência da União Soviética (URSS), assim como os próprios sindicatos, manifestações jovens e estudantis. O medo dessa expansão, por parte do outro lado da Guerra Fria, o capitalista, culminou nesse “imperialismo” (segundo palavras de Ayala) tomando atitudes para contê-lo.
Embora a civilização harmoniosa tenha ficado claramente mais distante de ser alcançada, havia divisões entre os cidadãos sobre quem era pró e contra a ditadura. Embora a classe popular, de um modo geral, estivesse contente com a presidência de João Goulart, houve indivíduos, sejam elitistas ou não, que aprovaram o golpe. Além disso, de acordo com Lucy Ayala, os grandes meios de comunicação de massa também eram divididos, e, em Porto Alegre, as maiores mídias eram o “Última Hora” – que agradava as classes inferiorizadas e, com a ditadura, teve suas atividades proibidas, vindo a se transformar no jornal “Zero Hora” – e o Correio do Povo. Posto isso, havia registros de polarização e distinções nas opiniões frente ao caos social enfrentado no século até então.
Sob esse cenário, a opressão era uma presença marcante. Os sindicatos e movimentos operários eram perseguidos. A instituição dos AI’s permitiu a prisão e tortura de pessoas, o que ia além de políticos: qualquer um que fosse considerado uma ameaça à pátria e se posicionasse de maneira oposta ao regime estava sujeito à dominação. Todos os civis perderam grande parte de seus direitos. Ayala e outros sindicalistas, ativistas, trabalhadores e amigos dele foram capturados. As famílias dos detentos também eram pressionadas em meio a essas circunstâncias. Muitos foram mortos e desaparecidos. Ayala, por exemplo, foi preso algumas vezes, mas só foi anistiado em 1979 e readmitido no seu emprego em 1981.
O Brasil que Ayala esteve inserido – a batalha contra o peleguismo
O “pelego” é uma denominação para o líder sindical que media interesses entre sindicato e governo, permitindo a atuação de governantes no sindicato ou adotando atitudes e posturas que favoreciam as autoridades governamentais. O pelego é o traidor do movimento sindical, uma vez que o sindicalismo surge justamente como uma ação de manifestação contra as autoridades do país, estado ou município. Segundo Ayala, vencer o peleguismo não foi uma tarefa fácil. Era comum que, com tudo pronto para acontecer uma assembleia sindical, o Ministério chegasse e proibisse a reunião. As reuniões das categorias fundamentais eram as mais afetadas.
Greves, o combate aos pelegos e autoridades que queriam fechar movimentos sindicais se tornaram muito fortes e comuns. Uma das ações anti-peleguismo foi o fato de Carlos Lacerda, considerado traidor do PCB e comandante de reações ao comunismo, liderar um projeto, que foi confrontado e fracassou, de cercar a sede da CNTI. Outro exemplo é que, durante uma reunião no Congresso Nacional dos Trabalhadores da Indústria, em 1960, surgiu a ideia de criar o Comando Geral dos Trabalhadores como uma central sindical no Rio de Janeiro. Holanda Cavalcanti, o maior pelego do país, sabendo que perderia influência, se demitiu da presidência da CNTI na esperança de que o Congresso fechasse. Porém, posteriormente, o CGT foi criado pelo novo presidente Clodsmidt Riani e a CNTI não encerrou suas atividades. Foi a partir da indicação de Clodsmidt que Ayala se tornou delegado do Congresso e representante do Rio Grande do Sul no CGT.
“A solidariedade no movimento sindical gaúcho sempre foi muito mais forte. O resto do país só aprendeu a ser solidário depois de 53, em consequência da greve dos metalúrgicos de São Paulo, violentamente reprimida e com mortes”
Jorge Campezatto, ex-vereador de Porto Alegre e ex-presidente do Sindicato dos Eletricitários de Porto Alegre
“Mergulho no tempo e me vejo nos anos 60, juntamente com Clodsmidt Riani, tentando derrubar uma ditadura sindical que, por 16 anos, se instalara na maior entidade sindical brasileira, a CNTI. Em todos os estados contávamos com o apoio de valorosos companheiros. Todavia, merece um destaque especial o apoio que tivemos no RS através de Ayala. Sóbrio, fiel, idealista e autêntico líder, soube, com bastante sabedoria, conquistar para o nosso lado alguns votos que jamais pensamos em conseguir. […] Hoje, sem sua presença, sentimos a necessidade de transmitir aos mais jovens as qualidades desse sindicalista”
Francisco de Chagas, 1º presidente da Federação dos Trabalhadores da Indústria do Rio Grande do Norte e ex-diretor da CNTI
Depois de muitos anos de luta, aos poucos, o peleguismo era enfrentado com sucesso e se tornava um obstáculo melhor. No entanto, com o golpe de 1964, as classes dominantes e autoridades governamentais voltaram a ter os movimentos sociais e populares em suas mãos; fator que só veio a se encerrar a partir do fim da ditadura.
O Brasil que Ayala esteve inserido – redemocratização e nova ordem mundial
Com a decadência do regime militar, mais uma vez, acontece um processo de redemocratização do Brasil, uma nova constituição é feita em 1988, e os cidadãos tiveram direitos retomados. Por outro lado, pessoas ainda estavam desaparecidas e traumas persistiram – e existem até os dias de hoje.
Já no mundo, a Guerra Fria estava se encerrando, o socialismo causava impressão de derrotado, mesmo que não tenha deixado de existir. Isso fica evidente em processos como a fragmentação da URSS, a queda do Muro de Berlim, e as guerras civis entre os povos da antiga Iugoslávia que culminaram na separação do antigo país. A partir daí, surge a Nova Ordem Mundial e o neoliberalismo como uma forma mais liberal do capitalismo predominante no planeta.
A vertente neoliberal chega no Brasil com os primeiros presidentes eleitos pós queda da ditadura civil-militar, provocando uma mudança no funcionamento do trabalho. A busca pela menor participação do governo e do Estado nas relações econômicas e pela privatização das empresas gera maior livre comércio, menor taxa de impostos, maior competitividade de mercado e globalização da economia, política, de culturas, corporações (que se tornam multinacionais), tecnologias, entre outros quesitos.
Entretanto, Ayala aponta questões negativas de modelos neoliberais, principalmente em questão do desemprego e dos operários:
“Pequenos empresários, quer da indústria, quer do comércio, quer de serviços, estão sendo massacrados pelo capital especulativo […]. Por exemplo: num determinado bairro, tem 20, 30, 40 lojas do pequeno comércio […]. Vem o supermercado, o shopping, e cria, através da publicidade, uma expectativa de compra muito grande, numa perspectiva de que o consumidor vai ser beneficiado. E o consumidor deixa a lojinha da esquina, e vai para o supermercado, onde, além do preço da mercadoria, ele vai pagar o preço da publicidade. Se esse supermercado conseguiu emprego para 10 pessoas, as 30 ou 40 lojinhas que ele fechou, que tinham 3 ou 4 empregados cada uma, que dá um total de 100, extinguiram 100 postos de trabalho. Precisamos investir na luta contra o livre comércio, contra as privatizações e contra a desregulamentação dos países que vão favorecer a ALCA (Área de Livre Comércio da América). Vai facilitar as privatizações, que não passarão mais pelos órgãos diretivos dos países. […] o presidente tem sido muito sensível aos apelos americanos. E esses apelos se renovarão. Ayala, em entrevista na rádio “Ligação Direta do Guaíba”, em Porto Alegre
Álvaro também pontua a separação e desunião de trabalhadores, que se torna inevitável com o neoliberalismo, além de apontar uma razão para a redução da força dos movimentos sindicais na década de 90 em diante.
Se o número crescente de greves no início da década caiu cerca de 50% foi em virtude da política econômica do governo e também por causa da política internacional do trabalho. A globalização vem introduzindo o capital especulativo na nossa economia, vem afogando, vem massacrando a indústria nacional. E a indústria nacional, num desespero pra sobreviver, dispensa trabalhadores, fecha frentes de serviço, o que nos leva ao quadro de um trabalhador desesperado que todos os dias, quando volta pra casa, tem medo de, no outro dia estar desempregado. Um trabalho com esse desespero, com o mercado cada vez diminuindo mais, só pode baixar o número de greves […]. Já não se reivindica mais; pelo contrário, se luta desesperadamente para manter o emprego. […] Tanto que, nas assembleias, hoje, cada vez é maior o número de aposentados. […] Esses trabalhadores, que estão vendo a situação como está, não tem coragem de sequer assumir uma posição reivindicatória, porque ela precisa sustentar a família […]. Com as privatizações [globalização] foram postos para rua uma barbaridade de trabalhadores. […] E o que mais preocupa o movimento sindical é que o capital está se unindo, o capital se organiza cada vez mais. A gente vê na imprensa que até as grandes potências financeiras internacionais estão se unindo, está havendo fusão de grandes bancos. Então, no momento que o capital se une, se fortifica, nós vamos dividir os trabalhadores da base? […] Esse projeto sempre foi prejudicial porque traz a desunião dos trabalhadores e não representa nenhuma solução para os problemas vividos pela classe trabalhadora”
Ayala, clamando por unicidade sindical em meio à unicidade capital
Dessa maneira, a Nova Ordem Mundial é composta majoritariamente pelo capitalismo e neoliberalismo, em um mundo globalizado (em vários sentidos), mais tecnológico e digital, com as relações diplomáticas e econômicas mais amplas; características que trazem pontos positivos e negativos.
O que dava tanto poder para Ayala?
Como já mencionado, Ayala teve uma grande repercussão por conta da sua própria personalidade, da vontade de liderar e representar um grande grupo sem querer privilegiar seus desejos individuais, sendo alguém, segundo a historiadora Suéllen, alguém muito consultado.
Além disso, há outra questão que o próprio Ayala afirma que dava poder para algumas pessoas como ele:
“Se o serviço de energia elétrica para, para o Parque Industrial e o comércio. O serviço telefônico paralisado deixa o país sem comunicação. Tínhamos o poder de paralisar cidades de porte.”
Considerando o cenário tecnológico e o comércio no início e metade do século XX, as áreas citadas, além do transporte e do gás, eram indispensáveis para o funcionamento dos perímetros urbanos e do Brasil como um todo. Se os Ministérios quisessem calar, proibir reuniões e manifestações de trabalhadores; esses setores poderiam – e fizeram, constantemente – fazer greves, parar suas atividades por um determinado tempo, causando empecilhos no país e para o governo. Então, mesmo que houvesse uma tentativa de reduzir a expressão das áreas fundamentais, havia um limite justamente para que não houvesse uma crise com a falta delas.
Assim, não só Ayala, mas também outros ativistas e os sindicatos desses setores, tinham muito poder político e presença na luta pela igualdade social. Esse aspecto também foi muito positivo para o combate ao peleguismo – demissão de líderes pelegos – e como forte influência e conscientização para os outros movimentos sindicais e para a população brasileira.
Família Ayala, desde a marginalização à superação
Ayala morava com sua esposa, Zillah, e os filhos: Lúcia, Lucy, André – que morreu aos 12 anos, antes do nascimento da próxima criança – e Álvaro (sim, tinha o mesmo nome e os sobrenomes iguais também). Posteriormente, o casal adotaria uma menina, a Isabel. Era uma família que passava dificuldades financeiras. Ayala já era contestado, procurado e reconhecido antes mesmo da ditadura de 1964. No entanto, a perseguição contra ele e seus parentes foi mais intensa durante o regime. Com a instituição do AI 1, desde o primeiro dia, não só Ayala, como outros políticos, foram presos, tiveram suas casas invadidas para procurar documentos, fotos, papéis ou outras coisas que pudessem indicar outras pessoas, lugares, ou os próprios artefatos como perigosos para os militares. Há relatos dele e da família sobre a perseguição. Por exemplo, algumas vezes, quando Ayala não estava, passavam na frente da sua residência e ligavam lanternas em direção à janela, assustando quem vivia com ele. Às vezes, eles entravam e vasculhavam os pertences, até mesmo roupas íntimas, bagunçavam a moradia à procura de algo escondido.
Com a pressão psicológica sob todos, Ayala se “exila” em sua casa de praia. Assim, não estaria longe dos familiares e seria mais fácil de receber informações sobre a família e o que estava acontecendo no país. Ainda assim, os contatos eram precários. Além disso, de meia em meia hora, os parentes eram questionados pelo exército se Ayala se encontrava lá – na residência em Porto Alegre. Por conseguinte, como a opressão e a humilhação seguiam presentes mesmo com Ayala não estando na capital, ele decide se entregar aos militares em 1967. Ademais, também fez isso para garantir integridade e segurança física como uma forma de evitar uma tortura maior, desaparecimento e a morte.
Ayala foi detido junto à Campezatto. Na prisão, tinham que dormir de luz acesa, não podiam ler jornal, ouvir rádio, nem sair da cela, a qual só tinha grades uma rampa que descia água e querosene de lavagem de veículos, provocando cheiros desagradáveis e tosse. Até que os familiares fizeram muita pressão e eles foram transferidos para a penitenciária estadual, separados dos presos comuns e com trabalhos. O fato de Álvaro ter viajado pra Rússia foi uma grave acusação e “justificativa” para o aumento a repressão, considerado “formado em Moscou” e acusado de querer mudar o poder à força, quando não era bem assim.
Zillah trabalhou um tempo vendendo livros e, depois, criou um aviário no fundo da casa. Se não bastasse toda a opressão e a batalha por sustento, a família também teve que aguentar a tragédia da morte de André, apenas com 12 anos, em um acidente de bicicleta. A criação do último filho biológico, Álvaro, foi um tanto traumática, não só por conta do contexto, mas também considerando que André morreu enquanto Zillah estava grávida, em 1965.
“Eu não tenho muita lembrança […]. A minha consciência sobre esses atos todos, veio muito depois. […] Eu, pessoalmente, sentia ausência da mãe, a mãe tinha que trabalhar e eu ficava com uma empregada doméstica, ou em alguns momentos em final de tarde eu ficava sozinho em casa. Eu sentia um pouco a ausência da mãe e também do pai quando ele trabalhava, assim que solto, e preso também. No período que o pai tava preso, tem muitas fotos minhas na penitenciária com o pai, mas não tenho lembrança desses dias.”
Álvaro Leonardi Ayala Filho, professor de física da UFPEL e filho de Ayala criado em meio à ditadura militar
Enquanto Ayala estava na penitenciária, havia o medo do desaparecimento e da morte dele, sem que sua esposa e seus filhos soubessem.
Além disso, existem situações que ocorreram e até hoje não se sabe ao certo como foram, ou que cada pessoa envolvida tem uma versão diferente dessa história. Um exemplo de ruído de comunicação muito curioso ocorre na própria família Ayala. Álvaro menciona, em relato registrado na homenagem em forma de livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala”, que tinha uma fotografia com Che Guevara, Leonel Brizola e Santiago Dantas, tirada em Montevidéu, que foi queimada ou jogada fora pelos militares. Por outro lado, não foi bem isso o que aconteceu. Em entrevista, Lucy Ayala afirma que quem arruinou essa e outras fotografias foi a própria esposa e a outra filha, Lúcia, com o intuito de evitar expô-los a perigos maiores.
Ainda segundo relatos de Lucy, a repressão era presente em todos os níveis. Não era viável sair ou se apresentar, por medo de violência e agressão. Houve um dia, por exemplo, em que as filhas não puderam ir para a escola porque o exército já estava situado em frente à casa. A rotina da família estava totalmente afetada. Eles eram constantemente vigiados pelos mecanismos de pressão sobre Ayala.
Por outro lado, esse período foi marcado pela história batalhadora e de superação, principalmente por parte de Zillah, que tinha que cuidar e sustentar os três filhos durante a perseguição, seja com Ayala preso ou não.
“[…] a mãe foi criada no campo, e ela era alguém com muito recurso, ela ia lá e dava um jeito. O Claudio era sobrinho da mãe e a mãe dele morreu no parto. Ele foi lá pra casa com 7 dias e ela arranjou uma cabra pra dar leite para o Claudio. E ela tinha essa coisa de criar bicho. […] ela batalhava pela família e trabalhava, costurava, criou uma escola de costura, e foi criando opções do que chamamos hoje de empreendedorismo pra bancar a família. Na real, a mãe foi uma muito batalhadora! A gente sempre teve a certeza que estava do lado certo da força! A ditadura que tava errada, os bandidos estavam do lado de lá, um dia eles cairiam! A história tava do nosso lado! Nós éramos vítimas! A gente não abaixava a cabeça! A mãe era porreta, era muito forte! O que nos manteve de pé foi a personalidade da Zillah.”
Lucy Ayala
Ayala, submetido a muita fiscalização por parte dos militares, seguiu agindo de modo carismático e empático, mesmo em meio à população carcerária. Na penitenciária, ele era querido e procurado por diversos detentos, como consequência de suas atitudes. Ayala escrevia e lia cartas para os presos que não tinham tais habilidades ou que não eram alfabetizados; era comum que muitos deles tivessem vindo do interior do estado para Porto Alegre e fossem detidos na capital. As famílias desses indivíduos pensavam que estavam desaparecidos ou mortos.
Além disso, Álvaro conseguiu Habeas Corpus para detentos cujo tempo de pena já havia sido ultrapassado, mas que não eram soltos por falta de documentação (Ayala lia livros sobre direito e redigia petições à mão). Ademais, também auxiliava outros presos para que fossem levados à Fazenda da Brigada, para trabalhar como caseiros, onde teriam alimentação e uma porção de terra, mesmo que ainda fossem submetidos e monitorados pela polícia.
Assim, Álvaro sempre foi bem tratado e reconhecido dentro da penitenciária. Há relatos de que detentos choravam ao saber do momento em que Ayala seria liberado da prisão.
Por que muitas pessoas não sabem sobre Ayala atualmente?
Existem algumas explicações para o fato de a história de Ayala ser esquecida por alguns e desconhecida por outros, principalmente em comparação com outros sujeitos históricos de conhecimento dos cidadãos brasileiros. Como já mencionado, Ayala teve uma participação política pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil muito mais intensa nos anos finais do Estado Novo até sua prisão, em 1967. Após a anistia e a redemocratização, ele voltou a militar ativamente, embora de forma mais moderada. Ayala era muito consultado antes da ditadura civil-militar, e essa prática continuou após o regime, embora com menor frequência. Após sua morte, sua memória foi se apagando aos poucos. Hoje em dia, sabe-se menos sobre Álvaro do que se sabia há 30, 40, ou principalmente 60 e 70 anos atrás. Dessa maneira, a própria trajetória e a forma como se desenharam os rumos de Ayala podem explicar, em parte, essa dúvida:
“[…] apesar da gente ter noção de que o Ayala era uma figura de liderança emblemática, a prisão e a ditadura traumatizam, né? Silenciam, fazem com que as pessoas tenham medo daquilo que aconteceu se repita. Então, eu acho que até por conta do que possa vir a acontecer com a própria família, as pessoas se tornam mais discretas. […] Até a redemocratização isso impera nas pessoas. Então eu acho que muito desse silenciamento é devido a isso; uma escolha que ele fez de, talvez, ser mais discreto, sabe? Ele nunca deixou de militar, mas com a ideia de tomar cuidado porque era perigoso. […] Ninguém sabe o que houve de verdade, ninguém sabe a intensidade disso. […], isso é bem claro, não só com ele, mas com outras pessoas também”
Suéllen De Medeiros Cortes
Por outro ponto de vista, conforme o filho de Ayala, as próprias posturas reacionárias contra os movimentos populares fazem histórias serem esquecidas ou não serem passadas adiante:
“A ditadura militar fez retroceder este momento histórico de independência econômica e fez retroagir isso, fez também que grandes figuras e lideranças dessa época fossem propositalmente esquecidas. […] a história do Brasil sempre teve um movimento para ser esquecida. O movimento sindical e os próprios movimentos de lideranças de João Goulart viveram um momento histórico onde esses personagens trabalhavam com popularidade pra criar um país cada vez mais independente e foram expulsos da cena pública pela ditadura militar”
Álvaro Leonardi Ayala Filho
Assim, esses são alguns dos contextos que frearam a passagem do legado de Ayala adiante.
Por que não temos conhecimento sobre certos episódios históricos e pessoas importantes, como Ayala? – a complexidade da historiografia e da educação
Com a afirmação anterior do professor Ayala Filho, é perceptível que a ditadura civil-militar foi registrada com o intuito de excluir outras visões, vivências e momentos da sociedade, mesmo sabendo que esses ‘lados’ excluídos existiram no contexto. Ou seja, optaram por registrar uma posição em detrimento das outras.
O processo de escolhas narrativas para a escrita da História é natural. O problema surge quando questões e fatos que mudam ou trazem um novo sentido ao que se descreve ‘passam batido’ ou são deletados – propositalmente. Essa questão ética nas formas de relato é muito complexa em todos os seus meios possíveis, como nos meios de comunicação de massa, jornais, livros e até mesmo no próprio diálogo entre humanos. Como as histórias são feitas de narrativas, prioriza-se uma ou a soma de algumas, mas deve haver uma obrigação de apresentar tudo o que está envolvido, em vez de negar ou não dar atenção a uma parte específica. Isso é necessário para uma análise mais aprofundada do passado, do presente e para a construção do futuro.
Existem diversos métodos comunicacionais e técnicas para a historiografia. Um deles, que predominou por muito tempo, é o Positivismo, cujo lema principal é considerar verídico tudo o que é científico e comprovado, tornando essa ‘verdade’ imutável até que outro estudo corroborado possa substituí-la. Seguindo esse modelo, há três fases para o desenvolvimento: teológica, metafísica e positiva (que vai da crença em mitos, passa pela racionalidade e chega até o ponto em que se adquire, de fato, o conhecimento). Consequentemente, valorizam-se mais as ciências exatas em comparação às humanas (‘não-exatas’, subjetivas, que exigem maior interpretação), documentos escritos e oficiais, além do empirismo. Por conseguinte (e isso também passa a ser um princípio), essa vertente é amplamente utilizada para valorizar o ‘macro’, ou seja, estudar um grupo, uma comunidade, um país, um povo como um todo para o registro histórico, a fim de entender o cidadão comum – o ‘micro’ – daquela época e compreender o próprio contexto. Assim, priorizam-se também grandes acontecimentos, números, datas e pessoas mais renomadas, com legados maiores – como presidentes, reis, políticos, figuras famosas por determinada razão, governos, filósofos, elitistas, especialistas em determinada área, cientistas e pesquisadores.
No entanto, o Positivismo traz um problema nas suas escolhas narrativas:
“[…] a gente tem um problema na História que fala muito a respeito dos sujeitos históricos, que é quem conta a história. Como a História sempre tem uma narrativa dos vencedores, a gente esquece, às vezes, de olhar pra volta e entender o que as pessoas estavam fazendo; as pessoas comuns, o que elas estavam atuando e de que maneira elas estavam fazendo isso. […] como a História é feita de narrativas, se optou por uma narrativa. Mas, a gente tem a obrigação de apresentar outras coisas, sabe? A gente tem que trazer!”
Suéllen De Medeiros Cortes
Muitas vezes (ou até na maioria das vezes), o ser humano prefere acreditar no oficial e no profissional. Isso é normal e, em algumas situações, inevitável. Porém, o erro consiste em não consultar as falas, depoimentos, materiais e indivíduos que também são testemunhas, embora subjetivas.
Sob esse viés, conclui-se que o uso do Positivismo evita descrever profundamente o cidadão e/ou o povo que não seja “macro”, que não produza fontes escritas ou que não tenha sido ensinado e alfabetizado para possuir essa capacidade.
Em contrapartida, no período entre as duas guerras mundiais, surge a micro-história italiana. Como o próprio nome sugere, há um realce ao “micro” em vez do “macro”, ou seja, analisar o indivíduo – desde o cidadão comum até uma pessoa de renome, com a mesma metodologia, mas com resultados distintos – para entender o todo. Esse modelo é realizado de forma que uma única pessoa não defina tudo, mas que a soma dos “micros” resulte na composição do “macro”, em vez de validar [apenas] grandes nomes para o registro de um indivíduo ou de uma história qualquer. Dessa maneira, consideram-se outros materiais para a historiografia. Além da escrita e dos documentos oficiais, fontes concretas, abstratas e orais também são meios para o estudo da História. Com isso, classes populares e marginalizadas ganham um novo valor e há mais recursos para a escrita.
Contudo, há um obstáculo para a realização da micro-história: a carga e o esforço. Para sua aplicação, é necessário, idealmente, analisar sujeito por sujeito; trata-se de um trabalho a longo prazo que precisa de uma considerável quantidade de historiadores, estudantes e sujeitos interessados. Por exemplo, um professor das ciências humanas, em uma aula de Ensino Fundamental ou Médio, que queira usar esse modelo para a explicação das matérias escolares, teria que estimular os alunos a pesquisar, refletir e apresentar um personagem para tentar representar uma situação, uma vez que já existem conteúdos que precisam ser ensinados pelas leis educacionais para concluir as obrigações com os materiais didáticos.
Assim, está estreitamente relacionado às doutrinas historiográficas o problema que responde à pergunta sobre não aprendermos sobre histórias e certos personagens importantes para a humanidade: o perigoso ciclo vicioso que circunda a questão da (des)valorização da reflexão antropológica, que se manifesta de diversas maneiras, sendo a logística das vertentes de registro histórico apenas uma delas.
É pertinente começar a discorrer sobre a manifestação mais simples do empecilho para explicá-lo: o pouco tempo disponibilizado para as disciplinas de estudo do homem (História, Geografia, Filosofia, Sociologia) não motiva suficientemente os jovens a trabalhá-las. Desse modo, cria-se um desinteresse sobre o que ocorre à sua volta, no mundo e em seu dia a dia, o que pode ser perigoso para a sobrevivência individual e até mesmo para uma civilização harmoniosa.
A falta de estímulo e investimento também se mostra como um obstáculo – seja um incentivo financeiro, seja na carga horária da disciplina escolar, seja na aplicação de conhecimentos e evidências de situações e projetos que abram a mente dos alunos – promovendo o trato das ciências antropológicas como obsoletas.
“Acho que não há interesse, tem desconhecimento, até por parte da esquerda, […]. A história do país e qualquer movimento social deveriam ser estudados na escola. Por isso que chegamos num congresso com muitos corruptos. E também é impossível estudar tudo que tiver na história em poucas horas semanais, é difícil ter todo o conhecimento universal e saber da tua história local. E ainda assim, tem muito desinteresse e individualismo.”
Lucy Ayala
“O primeiro ano do Ensino Médio, por exemplo, eu tô levando eles pra uma saída de campo na Biblioteca Pública, com o objetivo de ver fontes históricas. Então eles vão levar luva, máscara, manusear jornais antigos, documentos antigos, pesquisar lá pra ter essa experiência, que a maioria não teve. E sabe que é interessante que a maioria não sabe que pode? Eles não sabem que podem entrar lá e usar, que qualquer pessoa pode usar, que é só tu pedir autorização. Então esse tipo de coisa é algo que tu precisa estar constantemente reafirmando, sabe? Então, pra quebrar um pouco o paradigma dos alunos, a gente vai na biblioteca e depois eu vou levar eles na prefeitura e a gente vai entrar nos gabinetes. […] e eu falei que nós íamos entrar e eles ficaram assim: ‘pode?!’. Eles acham que esses lugares não são acessíveis. Então, […] é um começo de dar uma formação histórica mais crítica, entende?”
Suéllen De Medeiros Cortes