Temperaturas extremas desafiaram produtores, que tiveram que recorrer à estratégias para salvar as plantações e minimizar prejuízos
Por Jéssie Lopes, Emily do Amaral e Pâmela Beiersdorf/Reportagem em Curso
A forte onda de calor que atingiu o Rio Grande do Sul nas últimas semanas trouxe desafios para os agricultores do estado. Enquanto algumas lavouras conseguiram suportar melhor as altas temperaturas, outras sofreram perdas consideráveis. Produtores tiveram que correr contra o tempo para minimizar os danos e garantir que parte da produção pudesse ser aproveitada.
Efeitos do calor nas lavouras de arroz
Luciano, que trabalha com o cultivo de arroz, explicou que o calor pode ser benéfico para a cultura, mas, em excesso, acaba prejudicando o florescimento das plantas. “O arroz precisa de calor, mas quando vem muito forte, no momento errado, pode queimar os grãos. Isso aconteceu um pouco agora, mas, felizmente, a perda não foi grande”, contou.
Segundo ele, um dos fatores que evitaram maiores prejuízos foi o plantio ter sido feito mais tarde do que o previsto. “Quando a onda de calor chegou, o arroz já tinha passado da fase mais sensível. Se tivéssemos plantado antes, provavelmente o estrago seria maior”, explicou.
Sobre a colheita, Luciano disse que as condições climáticas têm ajudado até o momento. “Começamos a colher esta semana e o tempo está colaborando. Tivemos uma boa quantidade de água no início do ano, o que fez a diferença. Agora, só torcemos para que continue assim por mais alguns dias”, afirmou.
Impacto nas plantações de milho e soja
Izadora, agrônoma na região de Santa Vitória do Palmar, explicou que as lavouras de milho e soja foram as mais afetadas pelo calor intenso. No entanto, na sua região, os impactos foram menores devido à regularidade das chuvas. “Mesmo com o calor extremo, tivemos um bom volume de chuva, o que ajudou a evitar perdas significativas”, comentou.
Sobre os custos de produção, Izadora afirmou que a situação se manteve sob controle. “Graças a Deus, essa onda de calor não impactou os custos na nossa cidade, justamente por conta das chuvas”, explicou.
Ela também destacou algumas práticas que podem ser adotadas para minimizar os impactos do calor nas lavouras. “É importante aplicar defensivos agrícolas nos períodos de temperatura mais amena, além de utilizar produtos biológicos e aminoácidos que auxiliam no desenvolvimento fisiológico das plantas”, sugeriu.
Quanto às técnicas de irrigação, Izadora mencionou o sulco-camalhão como uma alternativa eficiente e de menor custo. “Essa técnica ajuda tanto em épocas de estiagem, permitindo que o produtor possa banhar as lavouras, quanto em períodos de chuva intensa, facilitando a drenagem.”
Ela também mencionou o plantio direto como uma estratégia para proteger o solo e manter a umidade, mas ressaltou que, no sul do estado, essa prática nem sempre é viável devido à janela de plantio e às culturas predominantes na região.
Perdas nas hortas
Se o arroz e os grãos conseguiram escapar de grandes prejuízos, o mesmo não pode ser dito das hortaliças. Dóris Brito, produtora de verduras e legumes na Ilha dos Marinheiros, em Rio Grande, relatou que a onda de calor causou diversos danos. “Muitas plantas desidrataram, algumas folhas queimaram e outras flores caíram antes do tempo. Algumas culturas não resistiram”, disse.
As perdas foram expressivas, principalmente em hortaliças mais sensíveis, como a alface. “A produção caiu pela metade. Isso afeta não só a gente, mas também o abastecimento”, lamentou.
Além da queda na produtividade, a qualidade das hortaliças também foi comprometida. “Muitas folhas ficaram queimadas, as hortaliças ficaram menores e o sabor mudou um pouco. Isso diminui o valor comercial”, explicou.
Medidas para reduzir os impactos
Para tentar conter os danos, os produtores tiveram que agir com rapidez. “Aumentamos a irrigação, usamos sombrites para proteger algumas plantas e colocamos cobertura morta para manter o solo úmido”, contou Dóris.
Essas medidas, no entanto, geraram custos adicionais. “Gastamos mais com energia por causa da irrigação e também tivemos que investir em sombrites e adubos orgânicos para tentar fortalecer as plantas.”
Outro problema foi o impacto no desenvolvimento das hortaliças. “Muitas amadureceram rápido demais, o que afetou a qualidade. Outras cresceram mais devagar, atrasando a colheita”, relatou.
Com isso, algumas colheitas precisaram ser antecipadas para evitar perdas maiores, enquanto outras ficaram comprometidas.
Alternativas para o futuro
Diante dessas dificuldades, Dóris reforça a importância de buscar alternativas para lidar com o calor excessivo. “O sistema de irrigação por gotejamento, por exemplo, é uma ótima solução. Ele evita desperdício e mantém a umidade das plantas.”
Com as mudanças climáticas tornando eventos extremos mais frequentes, os agricultores estão cada vez mais atentos às formas de adaptação. Investir em tecnologia e em manejo adequado pode ser a chave para garantir uma produção mais estável e reduzir os prejuízos em tempos de calor intenso.