Texto: Mais Emoção, Por Favor!

Gabriel Castanho (LATHIMM/UFRJ)

 

   “Hoje vocês riem. Durante mil anos não se riu. Chorou-se amargamente”. Assim Michelet (1966) definiu todo um período da história europeia. O texto é de meados do século XIX, o período que inventou todos os outros, como li certa vez em uma postagem no Twitter®. As três frases põem por terra anos, décadas, séculos de escrita da História; uma escrita que elevava as guerras, os regimes políticos e os sistemas econômicos à condição de motores da História, agindo como verdadeiras navalhas do tempo responsáveis por dissecar o passado em busca de elementos definidores de uma época. Bem diferente foi a proposta romântica de Michelet ao situar entre o riso e o choro o movimento da História. O que diferenciava seu século dos medievais não seria tanto o embate entre potências imperialistas, o poder estatal ou o dinamismo capitalista, mas sim um apanhado dessas características reunidas sob a aura da alegria expressa pelo riso. Em oposição, a catividade, a submissão e a servidão marcariam a experiência melancólica, cruel e amarga que oprimiria os corações e as mentes das pessoas durante os mil anos de uma Idade Média obscura e triste.

   Sob o véu das emoções, suas virtudes e seus males, emerge, nesta brevíssima passagem de um clássico da literatura histórica francesa, uma visão progressista da história. Se, evidentemente, a passagem não resume toda a complexidade da escrita histórica de Michelet, nem por isso o papel das emoções é ai menor. Isso, pois, é digno de nota, o emprego de um recurso retórico ancorado em lugar comum tão caro a historiadores nos últimos anos: a experiência como evidência, prova, documento de uma época. Se a preocupação com a vivacidade das narrativas históricas visando, de algum modo, transportar leitores/auditores ao âmago da estória já é, há muito tempo, uma preocupação entre especialistas do passado, recentemente esse trabalho de transferência (ou de tradução, prefiro eu) tem sido concebido nos moldes da experiência. Prova disso é o sucesso de “reconstituições” virtuais de passados em jogos de videogame ou em realidades virtuais ou expandidas: a escrita e a imaginação do leitor não bastam mais; é preciso ver, escutar, agir, em suma, simular e emular o passado para compreendê-lo.

  Estamos a um pulo do argumento de que a experiência do passado valeria mais do que análises      científicas, pois as experiências, marcadas pelos sentidos e pelas sensibilidades seriam mais reais do que construtos científicos artificiais que, por sua vez, seriam mais abertos às ideologias. Assim nascem muitos dos atuais usos do passado. Em especial, os abusos medievalescos (recepções do medievo, neomedievalismos ou mesmo medievalismos, se preferirem). Diante deles, a historiografia, atacada em seus princípios científicos (fundados na documentação primária e no método) e literários (da retórica à narrativa, lá e de volta outra vez), se encontra hoje de joelhos, pois desconectada da forma como uma grande parcela do público busca se relacionar com o passado, desejando experimentá-lo mais do que explicá-lo. Diante desse quadro desafiador (para usar outro termo vedete de nossos dias) é preciso, então, que os profissionais do passado pensem criticamente o papel da experiência nos estudos históricos.

 Tal estudo crítico tem pelo menos duas balizas: a experiência como técnica e a experiência como sensibilidade. A primeira baliza não sendo o objeto destas minhas breves notas, mesmo assim, algumas palavras a respeito se fazem necessárias. Todos nós somos dependentes das tecnologias de informações (notórias atualmente sob a sigla TI). Sabemos que toda informação depende de tecnologias, ou seja, de técnicas, que sirvam de meio ou de suporte para sua difusão. Por outro lado, nem sempre dedicamos atenção necessária ao fato de que tal imbricamento torna artificial qualquer forma de compreensão que desarticule tais dimensões ou não perceba como um elemento altera constantemente o outro. Nesse sentido, não há separação entre a informação e suas formas de expressão. Por exemplo, ao sumarizar a experiência medieval, Michelet não apenas precisa fazer uso de uma tecnologia (a escrita), como estabelece uma cadeia relacional emotiva ao opor certos Regimes Emotivos (REDDY, 2001): a experiência da tristeza medieval se opõe à alegria contemporânea. E mais! Tais emoções aparecem implícitas na expressão narrativa, pois subentendidas (por nós) a partir de uma semântica dos gestos que associa, de modo universalizante, o riso à alegria e o choro à tristeza. Ora, quantos de nós já não “choramos de alegria” ou “rimos de nervoso”? De fato, a existência dessas duas últimas expressões verbais, verdadeiros lugares comuns emotivos em nossos tempos, só fazem sentido se aceitarmos que emotividade e sua expressão são inseparáveis e necessariamente históricas. Retirado de seu contexto, o riso pode ser expressão de alegria ou de ansiedade e o choro pode ser sinal de tristeza ou de alegria. Objeto relacional, uma emoção nunca é a simples manifestação interior e individual de uma suposta universalidade humana, mas sim a realização aqui e agora de respostas a experiências históricas; uma resposta cognitiva dependente de redes de valores e metas socialmente construídas (ROSENWEIN, 2011).

 Devemos então reconhecer que as experiências históricas não são meras sensibilidades fruto de individualidades autônomas e independentes, pois os significados de tais sensibilidades dependem fortemente das dinâmicas relações sociais onde elas existem. Vejamos, brevemente, dois casos em que a compreensão de uma emoção só se torna possível quando analisamos suas formas históricas. Em latim, o verbo contristare, em sua polissemia, remete ao campo da tristeza: entristecer, afligir, abater ou contristar, em suma. Uma tristeza entendida como ação diretamente ligada a outrem. Se em nosso mundo a tristeza é, muitas vezes, associada a desequilíbrios ou doenças psíquicas ou fisiológicas, o cristianismo medieval criou um lugar virtuoso para essa emoção. Em uma ótica ascética, o sofrimento de hoje torna possível a purificação de amanhã (Cristo, em sua paixão, que o diga!).

  Não se trata aqui de conjecturas racionais de um historiador no conforto de seu escritório; esta é uma análise (ainda que preliminar) ancorada no estudo da expressão dessa emoção em uma massa considerável de textos produzidos na Idade Média. De fato, a busca pelos usos do termo contristare em bases documentais compostas por vastas coleções como a Patrologia Latina (mas não restritas a esta última) revela que, na Idade Média latina, o termo foi largamente empregado a partir de modelos bíblicos, em especial Efésios 4:30 e 2 Coríntios 7:9. Juntas, as duas passagens aparecem em pouco mais de 200 ocorrências em todo o corpus estudado. Seu amplo uso remete à expressão comum da experiência desta emoção no período. Note-se bem: não se trata de naturalizar essa emotividade para todos os indivíduos, mas sim de perceber a existência de um Regime Emocional a ser reproduzido e/ou contestado; seu completo desconhecimento estando ligado ao desconhecimento da Bíblia. Mas, finalmente, o que dizem essas importantes expressões do entristecimento medieval? Em Efésios 4:30 lemos: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, pelo qual fostes selados para o dia da redenção”. Trata-se de não entristecer o outro; sendo esse outro a própria divindade, entristecer Deus é ato contrário à salvação. Em 2 Coríntios 7:9, lemos: “alegro-me agora, não por vos ter contristado, mas porque a vossa tristeza vos levou ao arrependimento. Vós vos entristecestes segundo Deus, e assim não sofrestes dano algum da nossa parte.” Novamente é o entristecimento de outrem que se encontra no foco da expressão desta emoção. Contudo, sua experiência é diferente, pois aqui se trata de uma emoção virtuosa tida como forma de penitência/arrependimento que pode levar à salvação dos fié     is. Nos dois casos, retiremos o horizonte salvífico no qual se enquadram as expressões dessa emoção e deixaremos de compreender um aspecto importante da historicidade da tristeza na Idade Média latina, a saber, sua profunda relação com a alegria, ou melhor, a beatitude.

  O segundo caso que eu gostaria de apresentar brevemente demonstra não apenas como uma emoção possui significados diferentes ao longo do tempo (como no caso citado do entristecimento), mas como uma mesma expressão pode remeter a experiências diferentes, ou seja, como uma expressão tida em nossos dias como sendo emotiva pode não o ser em outros contextos históricos. Em uma carta atribuída a Jerônimo, encontramos uma expressão interessante: “O isolamento e não a coisa pública faz o monge e o clérigo” (Monachum vel clericum solitudo facit, non publicum). De tradução apenas aparentemente simples, a frase nos apresenta o termo solitudo, geralmente traduzido por “solidão”, desprovido de significado emotivo. Em sua expressão verbal, a solidão latina medieval não seria, então, uma emoção! Não se trata mais de refletir sobre como os medievais experimentavam a solidão, mas sim de buscar compreender como a solitudo se transformou, ao longo dos séculos em solidão; como um termo que remetia diretamente a significados geográficos (deserto, por exemplo) e demográficos (isolamento, como no caso aqui citado) pôde dar origem a uma experiência emotiva como a solidão de nossos dias. Seja como for, uma História da solidão deve levar em conta que esta emoção, hoje tida como universal e atemporal (supostamente sentida por homens e mulheres em todos os cantos do globo e em todas as épocas) é, na verdade, uma construção histórica marcadamente ocidental e relativamente recente.

 Certamente há mais exemplos da profunda relação entre emoção e sua expressão, entre experiência e sociedade, entre sensibilidades e cognição. Para terminar (e em um registro menos trágico do que minhas queridas tristeza e solidão), eu gostaria de mencionar brevemente um velho conhecido de todos nós, medievalistas ou simples apaixonados pelo medievalesco: o chamado “amor cortês”. Em bela postagem recentemente produzida por este Polo Interdisciplinar de Estudos do Medievo e da Antiguidade, o tema foi abordado e desconstruído. Como bem demonstrado ali, para além do fato de se tratar de expressão emotiva possuidora de marcas pós-medievais, o “amor cortês” deve ser compreendido de forma plural, já que plurais eram as formas de amor na Idade Média: do amor carnal ao amor espiritual, da amizade à utilidade do outro, da fidelidade feudal à infidelidade religiosa etc., a Idade Média foi marcada por experiências amorosas que podem nos afastar de imagens sombrias como a de Michelet. Assim, entre o amor, a tristeza e a solidão, nos resta, ao final desse breve percurso, pelo menos uma certeza: a necessidade de se incluir o estudo crítico das emoções no ofício de historiador. Por isso, mais emoção, por favor!

Referências:

BODDICE, R.; SMITH, M.. Emotion, Sense, Experience. Cambridge: Cambridge University Press, 2020.

Corpus Corporum. Repositorium operum Latinorum apud universitatem Turicensem: https://www.mlat.uzh.ch/

JERÔNIMO (atribuído a). Epístola. 42, 9. In: PL, 30, col 297-301.

MICHELET, J.. La Sorcière. Paris: Garnier-Flammarion, 1966 [1862].

REDDY, W.. The Navigation of Felling. A Framework for the History of Emotions. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.

ROSENWEIN, B. H.. História das emoções: problemas e métodos. São Paulo: Letra e Voz, 2011 [2010].


Publicado em 29 de Setembro de 2022.