Entre o sopro da criação e o peso da queda: A construção simbólica da identidade cristã

Pablo Gatt[1]

No compasso lírico das palavras de Chico Buarque e Ruy Braga, quando proclamam que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”, somos conduzidos ao território em que o imaginário e a memória histórica se entrelaçam. Neste eco distante, ouvimos ressoar a antiga expressão Ultra aequinoxialem non peccari, registrada em 1641 pelo cronista holandês Caspar Barlaeus. Entre o Velho e o Novo Mundo, ergue-se o mito de uma terra onde a lei hesitava em pôr os pés, enquanto a Europa permanecia amarrada à teia simbólica de normas forjadas desde a primeira desobediência de Adão e Eva.

Caminhando por essas veredas simbólicas, retornamos ao Gênesis, ao episódio que consagra, para sempre, o entrelaçamento entre norma e proibição. O chamado Pecado Original, narrado nos versículos 3:16-24, não apenas expulsa o primeiro casal do Éden, mas imprime em toda a humanidade o peso da perda e a nostalgia de um Paraíso inalcançável. Como se cada linha do texto bíblico carregasse o sopro dessa ruptura primordial, moldando identidades, fronteiras e expectativas de mundo.

É nesse ponto que o imaginário Medieval encontra seu vigor: a promessa do Paraíso como reversão de todas as dores, a fuga da fome, da doença, da fragilidade e da própria mortalidade. Uma utopia que permite reverter a ideia do Pecado Original e retornar a um estágio que sempre nos foi negado. No fundo, a esperança do Éden funciona como espelho invertido da realidade humana e, sobretudo, medieval, onde o interdito, a culpa e a busca pela redenção se tornaram experiências tão concretas quanto as muralhas de uma fortaleza.

Entre mito, teologia e poesia, seguimos desvendando esse imaginário que, século após século, habitou sermões, iluminuras, confissões e sonhos. Porque, afinal, a Idade Média também vive de suas metáforas, e são elas que continuam a nos convidar a atravessar, ainda hoje, o limiar do símbolo do Paraíso perdido e do Pecado Original de Adão e Eva.

Ancorados no episódio inaugural da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, ergueu-se uma constelação de discursos cristãos que adicionaram densas camadas à narrativa bíblica e moldaram o imaginário sobre a natureza humana corrompida. Dessa matriz simbólica, desse gesto primordial de desobediência, nasceram normas, interditos e fronteiras que definiram identidades e marcaram diferenças. Cada comentário teológico, cada sermão, cada alegoria medieval parecia acrescentar mais um fio ao vasto tear que transformou o pecado original em lente pela qual se compreendia o humano.

Ao levantar o véu sobre essa rede de sentidos, percebemos que tais discursos, afinados às premissas do pecado primeiro, esculpiram uma noção de humanidade indivisivelmente ferida, cuja corrupção se transmitia como herança, ou destino, a todos os descendentes de Adão e Eva. Esse enredo não apenas atravessou o imaginário social acerca da norma, mas influenciou a organização das relações e dos papéis sociais na Idade Média, marcando modos de viver, de se perceber e de pertencer.

Enquanto no estado original da natureza humana a Criação reflete a bondade e a perfeição divina (Gênesis 1: 31; De natura boni, II, 17, 51-52; ST, Ia, q. 91, a. 2, resp.), o pecado represente o vício que emerge como uma qualidade que corrompe a alma (AGOSTINHO, De Perfectione Justitiae Hominis, c. II). Isso, porque, para Tomás de Aquino o vício não é uma criação divina, mas uma escolha que se contrapõe diretamente à essência da virtude, pois a virtude nasce do desejo do bem imutável: o amor de Deus que é considerado também a raiz de todas as virtudes (ST, Ia IIae, q. 84, a. 1, resp.).

Ao seguirmos essa trilha interpretativa evidenciamos que Pecado Original ultrapassou o campo do comportamento individual: ele se converte no eixo que orientou identidades, valores e expectativas que os discursos cristãos consolidaram desde os primeiros séculos. Como lembram Le Goff e Truong (2014, p. 29), é precisamente na Idade Média que se instala esse elemento fundamental da identidade coletiva ocidental: um Cristianismo “atormentado pela questão do corpo, ao mesmo tempo glorificado e reprimido, exaltado e rechaçado”.

Pouco a pouco, esse símbolo tornou-se o coração pulsante da própria identidade cristã. Transformou-se em fundamento teológico e cultural, em chave hermenêutica para compreender a condição humana e, ao mesmo tempo, o lastro que sustenta a normatividade social. Por isso, os discursos que gravitavam em torno do Pecado Original articularam um sistema de representações que, ao evocar o estado puro e depois decaído de Adão e Eva, influenciaram diretamente a construção das identidades, a percepção do corpo, a condenação do prazer e a vigilância moral sobre a sexualidade.

Como bem observa Franco Jr. (2021, p. 45), a cristandade medieval não via em Adão e Eva meras figuras míticas, mas ancestrais reais, pais de toda a humanidade. E se essa progenitura estava contaminada, espalhada pelos quatro cantos da Terra, não poderia escapar às vicissitudes que a teologia atribuía à queda do gênero humano. Assim, o símbolo do Pecado Original tornou-se mais que uma doutrina: transformou-se numa moldura para compreender o mundo e a si próprio, uma narrativa que atravessou séculos, corpos e consciências.

Ao percorrermos essas camadas simbólicas que entrelaçam mito, teologia e memória histórica, compreendemos que o Pecado Original não se limitou a uma simples narrativa de desobediência, mas converteu-se no mais duradouro alicerce interpretativo do Ocidente cristão. Da expressão “não existe pecado do lado de baixo do Equador” às especulações de Barlaeus, das exegeses patrísticas às sistematizações escolásticas, reencontramos sempre o mesmo movimento: a tentativa de explicar a condição humana a partir da perda do Paraíso e da nostalgia de um estado irrecuperável.

Nesse horizonte, a Idade Média ergueu um edifício simbólico no qual a queda de Adão e Eva operou como chave hermenêutica que atravessou corpos, condutas e imaginários. A partir dela, definiram-se normas e interditos, modelaram-se identidades, disciplinaram-se desejos e conformaram-se expectativas sociais. Agostinho, ao reconhecer no pecado o vício capaz de corromper a alma, e Tomás de Aquino, ao reafirmar a virtude como retorno ao Bem imutável, reforçaram um sistema teológico que compreendia a humanidade como ferida, mas orientada para a redenção.

Como mostraram Le Goff, Truong e Franco Jr., esse legado medieval ecoou muito além dos claustros monásticos: impregnou o cotidiano, moldou sensibilidades e consolidou a percepção do corpo como campo de tensão entre glória e ameaça, entre pureza e queda. Assim, o Pecado Original tornou-se mais que um episódio fundador, tornou-se uma matriz cultural que atravessou séculos, oferecendo ao cristianismo uma narrativa capaz de explicar o mundo, ordenar a sociedade e conferir sentido às fragilidades humanas.

Se hoje revisitamos essas imagens, não o fazemos apenas para recuperar ecos de um passado distante, mas para compreender como essas construções ainda organizam, silenciosamente, modos de pensar, sentir e habitar o mundo. Entre o Éden perdido e a esperança de sua restauração, permanece viva a metáfora que ajudou a forjar a identidade ocidental: a consciência de que somos, simultaneamente, herdeiros da queda e buscadores da redenção, sempre caminhando entre o interdito e a promessa, entre a culpa e o desejo de retornar ao Paraíso que nos funda e nos escapa.

Referências.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1994.

AUGUSTINUS, Santo. De perfectiōne justitiæ hominis (A Treatise Concerning Man’s Perfection in Righteousness). In: SCHAFF, Philip (ed.). Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, vol. V. Grand Rapids, MI: Christian Literature Publishing Co., 1886.

AGOSTINHO DE HIPONA. De natura boni, II, 4, 43. Tradução de M. Santiago de Carvalho, Mediaevalia. Textos e Estudos, vol. 1. Porto, Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais. Cotia, São Paulo: Ateliê Editorial; Araçoiaba da Serra, São Paulo: Editora Mnêma, 2021.

LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. 2° ed., Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2001.


[1] Doutor em História Social das Relações Políticas – UFES e Professor Substituto na mesma Instituição. E-mail: gattpablo@gmail.com. Http://lattes.cnpq.br/7520287446667143.

Publicado em 23 de Dezembro de 2025.

Como citar: GATT, Pablo. Entre o peso da criação e o peso da queda: A construção simbólica da identidade cristã. Blog do POIEMA. Pelotas: 23 de dez. 2025. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/entre-o-sopro-da-criacao-e-o-peso-da-queda-a-construcao-simbolica-da-identidade-crista/ Acesso em: data em que você acessou o artigo.