Seis propostas para a descolonização da História Medieval

Bruno Uchôa Borgongino[1]

As teorias pós-coloniais despontaram na década 1990, apresentando críticas às permanências negativas do poder colonial mesmo nos lugares onde as lutas de libertação nacional foram bem-sucedidas. As discussões propostas pelos seus partidários resultaram na denúncia aos fundamentos eurocêntricos do modo de produção do conhecimento acadêmico, inclusive nas Humanidades.

Sob a influência dessas teorias, parcela dos medievalistas percebeu que sua área de especialidade, tornada cátedra em universidades ocidentais no século XIX, institucionalizou-se em um contexto global de nacionalismos, colonialismos e imperialismos. Atentou-se, ainda, que as narrativas acadêmicas foram influenciadas pelos interesses políticos e econômicos em voga naquele momento.

Por reconhecer a pertinência dos questionamentos pós-coloniais, venho me indagando sobre alternativas para minha atuação como pesquisador e como docente de História Medieval a nível universitário. Parece-me que os dilemas recentemente impostos são urgentes. Por um lado, esse é um debate com implicações ético-políticos; por outro, obriga-nos a enfrentar o eurocentrismo subjacente aos Estudos Medievais, por vezes evocado contra sua continuidade nas grades curriculares.

Acredito não ter encontrado uma resposta definitiva ao problema. Entretanto, venho esboçando seis propostas que viabilizariam narrativas descolonizadas do medievo. Seriam as seguintes:

  1. Reavaliação do cânone acadêmico, de maneira a reconsiderar obras consagradas pela historiografia, modelos interpretativos consolidados e hipóteses tradicionais à luz de seu contexto político e epistêmico;
  2. Análise crítica dos (neo)medievalismos, atentando-se às instrumentalizações do suposto passado medieval em tempos pós-medievais;
  3. Provincialização do Ocidente cristão, superando abordagens que preconizem um Ocidente fechado e autodeterminado em favor de análises globais e conectadas;
  4. Pluralização das espacialidades, questionando os limites geográficos do que se convencionou designar como “medieval”;
  5. Pluralização dos sujeitos históricos, cindindo o monopólio da agência histórica do sujeito universal moderno (branco, europeu, heterossexual, cisgênero); 
  6. Emprego de aporte teórico crítico que viabilize a desestabilização das identidades hegemônicas e a inclusão do medievo na genealogia de nossos traumas históricos.

Tenho consciência de que os seis caminhos que elenquei são provisórios. Reformulações serão necessárias com o aprofundamento da discussão especializada e com o surgimento de novas contribuições historiográficas.


[1]Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Docente do PPGH-UFPE, Coordenador do LEOM . Link do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/3760605243792543

Publicado em 11 de Novembro de 2025.

Como citar: BORGONGINO, Bruno Uchôa. Seis propostas para descolonização da História Medieval Blog do POIEMA. Pelotas: 11 de nov. 2025. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/seis-propostas-para-a-descolonizacao-da-historia-medieval/ Acesso em: data em que você acessou o artigo.