Thaís de Almeida Rodrigues[1]
Ela era filha do imperador que selou a aliança entre o poder imperial e o cristianismo, irmã de um dos governantes mais implacáveis do século IV e esposa de um césar acusado de crueldade. Constantina, a princesa que desafiou o destino, não se contentou em ser apenas uma peça no tabuleiro político do Império Romano. Enquanto a história a retratou como santa ou tirana, sua verdadeira história é a de uma mulher que usou a fé, a astúcia e até a violência para sobreviver em um mundo de homens — e deixou seu nome gravado em mosaicos, mausoléus e nas páginas controversas das crônicas antigas. Quem foi, afinal, essa figura que oscilou entre a devoção cristã e as sombras do poder imperial? Prepare-se para conhecer a vida dupla de Constantina
Apesar de não ocupar cargos formais, as fontes sugerem uma atuação decisiva da princesa nos bastidores do poder. Filostórgio, historiador eclesiástico simpático a Constâncio II e Galo, descreve Constantina como Augusta e figura política legítima, destacando sua autoridade nas negociações com Vetrânio. Já Amiano Marcelino, militar pagão e crítico dos membros da corte, a retrata como uma mulher ambiciosa, cruel e desequilibrada, responsável por fomentar perseguições e instigar o marido à violência. Essas versões contraditórias revelam tanto os preconceitos de seus autores quanto a centralidade de Constantina nas disputas por legitimidade e poder no século IV.
Figura 1 – Gravura de Constantina publicada em 1553

Fonte: STRADA, Jacopo. Epitome Thessauri Atiquitatum, 1553, p.188.
Constantina era uma das filhas de Constantino e Fausta. Aos 12 anos, ela foi casada com seu primo Hanibaliano, nomeado “Rei dos Reis” para conter ambições persas na Armênia (PLRE, 1971, p. 407). Após a morte de Constantino em 337, um violento expurgo eliminou vários membros da família imperial, incluindo o meio-irmão do imperador, Júlio Constâncio, e seu sobrinho Hanibaliano (marido de Constantina), além de outros parentes da linhagem de Teodora (Filost. III 1; Amm. Marc. XIV, 1.2). Ordenado por Constâncio II, o massacre visava eliminar potenciais rivais à sucessão, consolidando o poder dos três filhos legítimos de Constantino (Constantino II, Constante e Constâncio II). Entre as vítimas estava também Dalmácio, irmão de Hanibaliano e pai do futuro imperador Juliano, que sobreviveu por ser ainda criança (Jul, Ad. Ath. 270c-d). O episódio, descrito por Amiano como uma “matança implacável” (Amm. Marc. XXI, 16.8), deixou marcas profundas: Galo e Juliano, únicos sobreviventes masculinos da linhagem de Teodora, foram exilados e vigiados por anos, enquanto Constantina, agora viúva, foi realocada para Roma — onde iniciaria sua atuação política e religiosa.
Durante sua estadia em Roma, Constantina financiou a construção de um importante complexo religioso na Via Nomentana, que incluía a Basílica de Santa Inês e um mausoléu destinado a seu próprio sepultamento – estrutura que hoje leva o nome de Santa Costanza (Dirschlmayer, 2020, p. 468). Essas edificações, que combinavam elementos cristãos e tradicionais romanos, testemunham não apenas sua devoção religiosa, mas também seu papel como patrona das artes e da arquitetura sagrada (Mackie, 1997).
Figura 2: Vista frontal do mausoléu.

Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mausoleo_di_Santa_Costanza_-_esterno.jpg. Acessado em out/2024.
Figura 3: Mosaico da colheita de uvas

Detalhe de um dos mosaicos do mausoléu, representando uma cena de colheita de uvas, com a representação de um busto feminino que pode ser Constantina no centro. Fonte: https://www.walksinrome.com/mosaics-in-the-church-of-santa-costanza-in-rome.html
Figura 4 – Mosaico das chaves de São Pedro localizado no mausoléu de Constantina

Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://it.m.wikipedia.org/wiki/File:Roma_Costanza_mosaico_chiavi.JPG Acessado em out/2024.
A basílica de Santa Inês conservava uma importante inscrição em mármore – um raro documento de autoria feminina na Antiguidade Tardia – onde a própria Constantina declarava sua iniciativa na construção do templo: “Eu, Constantina, venerando a Deus e dedicada a Cristo, tendo custeado todas as despesas com mente devotada, por ordem divina e com o auxílio de Cristo, consagrei este templo à virgem vitoriosa Inês”[2]. Esta proclamação, hoje conhecida apenas através de transcrições medievais, revela a cuidadosa construção de sua imagem pública. Como observa Jones (2007, p.118), longe de ser uma simples expressão de piedade, o texto servia como instrumento de autopromoção, exibindo simultaneamente sua educação literária, generosidade como patrona e ortodoxia religiosa. Embora o mármore original tenha se perdido e grande parte do complexo esteja em ruínas, estudos como os de Mackie (1997) demonstram como a decoração do local combinava elementos cristãos e tradições pagãs – característica marcante do período constantiniano. Os mosaicos preservados, com suas vinhas dionisíacas junto a símbolos cristãos, testemunham essa fusão cultural, enquanto registros posteriores, como os desenhos de Piranesi no século XVIII, ajudam a reconstituir o esplendor original deste importante monumento do cristianismo primitivo.
A atuação de Constantina em Roma insere-se numa tradição feminina cristã estabelecida desde o século III, quando mulheres patrocinavam a construção de memoriais para relíquias de mártires (Dirschlmayer, 2020, p. 468). Seu papel na cidade, porém, transcendia a esfera religiosa. Enquanto Harries (2014, 212) sugere que ela seguia o modelo de sua avó Helena ou atuava como representante de seu irmão Constante, Hillner (2017) propõe uma leitura mais política: como mulher, Constantina podia intermediar relações com a aristocracia pagã – majoritária em Roma – sem as limitações cerimoniais que afetavam os homens da família imperial.
A base material de sua atuação incluía propriedades como a vila mencionada por Amiano Marcelino (XXI, 1, 5), provavelmente herdada de sua mãe Fausta através da bona materna – prática romana que garantia aos filhos o usufruto dos bens maternos (Arjava, 1996, p. 99-103). Seus 14 anos em Roma permitiram-lhe ainda consolidar laços com parentes paternos, como as tias Eutrópia e Anastácia (PLRE I, Eutropia 2; Anastasia 1), tecendo uma rede de influência única para uma princesa do século IV.
Em adição, a presença de Constantina em Roma é atestada por uma importante inscrição (337-340 d.C.) originalmente fixada no pedestal de uma estátua de bronze – hoje perdida – encomendada pelo oficial Flavio Gaviano, supervisor do tesouro imperial (perfectissimus praepositus rerum privatarum). O texto, descoberto próximo à suposta Domus Faustae, exaltava sua linhagem divina como “filha do divino Constantino” e “irmã dos Augustos Constante e Constâncio” (Hillner, 2018), omitindo deliberadamente o irmão Constantino II após seu conflito com Constante em 340.
Este monumento revela a estratégia de representação do poder feminino na Roma do século IV. Como analisa Hillner (2017, p. 57-58), as mulheres da dinastia constantiniana desempenharam um papel central na ocupação simbólica da cidade: entre 300-450 d.C., suas residências foram mais numerosas e permanentes que as dos homens imperiais. Constantina personificou esse modelo, residindo continuamente em Roma de 337 a 350, enquanto outras como Eusébia mantinham visitas regulares. Sua estátua, erguida por um alto funcionário, materializava a autoridade indireta que as mulheres imperiais exerciam – mediando relações com a aristocracia romana e legitimando a dinastia através de uma presença física constante.
Com o passar dos séculos, a figura histórica de Constantina foi reinterpretada pela literatura hagiográfica. Como analisa Burros (2023, p. 157-158), os textos medievais transformaram a princesa imperial em personagem lendária: uma nobre de extraordinária beleza que, após ser milagrosamente curada da lepra por Santa Inês, teria renunciado ao mundo para viver em castidade. Essa narrativa, que ganhou força entre os séculos V e VIII, culminou na sua canonização popular, apagando progressivamente suas ações políticas em favor de uma imagem edulcorada de santidade (Burrus, 2020; 2023).
Na metade do século IV, o Império Romano testemunhou uma série de levantes que desafiaram a autoridade estabelecida. Embora a historiografia tradicional classifique figuras como Magnêncio, Vetrânio e Nepociano como “usurpadores”, essa designação carrega juízos de valor que merecem reflexão. Como observa Icks (2020, p. 8), a legitimidade no mundo romano era construída por meio de múltiplos fatores: desde rituais de investidura e laços dinásticos até o reconhecimento por parte do governante sênior e o sucesso militar.
A própria noção de “usurpação” é anacrônica para o período. Autores da Antiguidade Tardia preferiam termos como “tirania”, que enfatizavam uma crítica moral ao governo, não necessariamente sua ilegitimidade jurídica (Omissi, 2018, p. 30-31). Wardman (1984, p. 226, 334) destaca que esses movimentos muitas vezes surgiam nas fronteiras do Império, onde a autoridade central era mais frágil. Era comum que líderes militares buscassem reconhecimento como co-imperadores, sem necessariamente pretender derrubar o regime vigente.
A complexidade desses eventos torna-se ainda mais evidente quando analisamos a terminologia. Como alerta Ventura da Silva (2018, p. 98-99), a ideia do usurpador como um “ladrão de poder” reflete a perspectiva dos vencedores, que buscavam deslegitimar seus opositores. Na prática, como demonstra Omissi (2018, p. 21), os critérios para definir um governante como “legítimo” ou “tirano” eram fluidos, baseados mais em avaliações morais do que em princípios constitucionais. Os próprios autores antigos, muitas vezes dependentes do patrocínio imperial, tendiam a retratar o governante do momento como justo e virtuoso, enquanto seus rivais eram pintados como opressores.
Essa contextualização é essencial para compreender o papel de figuras como Constantina nos eventos de 350. Seu apoio a Vetrânio, por exemplo, pode ser interpretado tanto como uma manobra dinástica quanto como uma estratégia para preservar a estabilidade do Império durante uma crise. Longe de serem meros “usurpadores”, esses atores representavam projetos políticos alternativos em um período de profunda transformação.
Em 350 d.C., o Império Romano enfrentou uma grave crise política durante o governo conjunto dos irmãos Constante (ocidente) e Constâncio II (oriente). O descontentamento com as medidas de Constante criou o cenário perfeito para a rebelião de Magnêncio, comandante da guarda imperial, que se autoproclamou Augusto durante um banquete em Autun, enquanto o imperador estava ausente em uma caçada nos Pirineus (Crawford, 2016, p. 71-72; Drinkwater, 2017, p. 132).
A ação de Magnêncio foi meticulosamente planejada, aproveitando a distração de Constâncio II, ocupado em campanhas contra os persas. Embora inicialmente buscasse apenas o controle do ocidente e o reconhecimento como coimperador (Drinkwater, 2017, p. 137), seu status social inferior – retratado nas fontes como “bárbaro” ou ex-escravo (Jul, Or. I, 34a; Aur. Vic. 41,25) – e o assassinato de Constante tornaram esse reconhecimento improvável.
Figura 5: Moeda de Magnêncio com cristograma no anverso

Moeda em cobre representando Magnêncio no verso e o cristograma no anverso. Cunhada em Amiens, Gália (França). Fonte: Britsh Museum, Museum number: 1951,1115.2713. Disponível: (https://www.britishmuseum.org/collection/object/C_1951-1115-2713) Acesso em: out. 2024.
Em março de 350, a ascensão de Magnêncio encontrou resistência com a proclamação de Vetrânio, experiente general ilírio apoiado pela princesa Constantina. Com seu irmão Constâncio II distante na fronteira persa, o historiador Filostórgio (III, 22) atribui à princesa a iniciativa de apoiar a proclamação do general Vetrânio, alegando que seu pai Constantino a havia nomeado Augusta. Esta afirmação divide os estudiosos modernos: enquanto Maraval (2013) e Harries (2014) questionam sua veracidade, destacando a ausência de evidências epigráficas e numismáticas, Barnes (2014) e Tougher (2020) argumentam que sua posição preeminente na dinastia após a morte de Helena poderia justificar tal título.
Figura 6 – Moeda deVetrânio com verso anverso

Fonte: Britsh Museum, Museum Code 1950-1006-1467. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/object/C_1950-1006-1467 Acessado em out/2024
Os eventos subsequentes permanecem obscuros. Fontes antigas apresentam relatos contraditórios: Filostórgio descreve uma suposta traição temporária de Vetrânio, enquanto Juliano (Or. I, 30c) enfatiza sua aliança com Magnêncio. A historiografia moderna oferece interpretações variadas – Hunt (1998) vê uma manobra legalista para ganhar tempo, enquanto Antiqueira (2018) destaca o papel coordenado de Constantina e do prefeito Vulcácio Rufino. O desfecho, com a pacífica abdicação de Vetrânio, sugere uma complexa negociação política onde Constantina parece ter exercido influência decisiva, independentemente de seu título formal.
Alan Dearn (2003, p. 169) apresenta uma interpretação inovadora sobre a proclamação de Vetrânio, argumentando que as evidências numismáticas demonstram uma clara subordinação do usurpador a Constâncio II. Segundo sua análise, as moedas cunhadas durante esse período não apenas reforçavam a autoridade da dinastia constantiniana, mas também antecipavam a vitória final de Constâncio II sobre Magnêncio. Dearn destaca ainda o caráter encenado da abdicação de Vetrânio, sugerindo que todo o episódio foi cuidadosamente orquestrado (Dearn, 2003, p. 170).
Complementando essa perspectiva, Bruno Bleckmann (1994) atribui um papel fundamental ao prefeito pretoriano Vulcácio Rufino, tio do futuro César Galo, na articulação política que levou à proclamação de Vetrânio. Em sua análise, Constantina teria sido convocada por Rufino para legitimar a ação, aproveitando sua posição como membro da família imperial sediada nos Bálcãs. Embora Bleckmann minimize o protagonismo direto da princesa, reconhece que sua participação foi essencial para conferir legitimidade ao movimento.
O prestígio dinástico de Constantina ficou evidente quando Magnêncio, durante as negociações de paz em 350, solicitou seu casamento como forma de consolidar sua posição. Diante da recusa de Constâncio II, o usurpador acabou por se unir a Justina, uma jovem parente da dinastia que posteriormente se tornaria esposa do imperador Valentiniano I e mãe de Valentiniano II (Cooper, 2023). Esse episódio revela como as mulheres da família constantiniana eram peças-chave nas estratégias de legitimação política durante o século IV.
Em junho de 350, a revolta de Nepociano – filho de Eutrópia, irmã de Constantino – representou mais um desafio ao governo de Magnêncio. Proclamado imperador em Roma com apoio senatorial e popular, seu governo durou apenas 28 dias antes de ser esmagado pelas forças de Magnêncio, que executaram Nepociano e sua mãe (Icks, 2020). Apesar de seu breve reinado, Nepociano buscou legitimação através da cunhagem de moedas que o associavam a Constâncio II e à dinastia constantiniana (Icks, 2020, p. 29-31).
Filostórgio ( III, 22) relata que Constâncio II, ao ser informado por cartas sobre as ações de Constantina e Vetrânio contra Magnêncio, inicialmente confirmou a posição de Vetrânio enviando-lhe um diadema. Contudo, quando o imperador marchou para o Ocidente, acabou por depor Vetrânio – embora lhe concedesse um exílio confortável em Prusa. Esta narrativa tem sido objeto de debate entre os estudiosos: enquanto Maraval (2013) e Harries (2014) consideram exagerado o protagonismo atribuído a Constantina, Tougher (2020) argumenta que a gravidade da crise (350-351) tornava plausível sua intervenção direta, destacando ainda o interesse de Filostórgio por assuntos seculares além dos religiosos (p. 200).
A guerra civil que se seguiu contra Magnêncio teve dois momentos decisivos: a vitória de Constâncio II em Mursa Maior (351), que forçou Magnêncio a recuar para a Gália, e sua derrota final no Monte Seleuco (353), levando-o ao suicídio. As severas represálias contra os partidários de Magnêncio, descritas por Amiano Marcelino (XV, 5) como particularmente brutais, foram utilizadas pelos opositores de Constâncio II para criticar seu governo. Este episódio histórico revela não apenas as complexas dinâmicas de poder no século IV, mas também o espaço de ação disponível para mulheres imperiais como Constantina em momentos de crise dinástica.
Com Constâncio II ocupado na campanha contra Magnêncio no Ocidente, a nomeação de seu primo Galo como César em 351 visava garantir a defesa das fronteiras orientais. O casamento de Galo com Constantina, realizado em Sirmium, não apenas reforçava os laços dinásticos como também confirmava a presença da princesa na Ilíria durante os eventos anteriores. A transferência do casal para Antioquia, porém, gerou controvérsias que ecoam até hoje na historiografia.
As fontes antigas, particularmente Amiano Marcelino (livro XIV) e Libânio (Or. 1), pintam um quadro sombrio do governo de Galo na Antioquia, acusando-o e a Constantina de tirania e crueldade contra a elite local. Essa visão foi perpetuada por breviaristas como Aurélio Victor e Eutrópio, alinhados com Constâncio II. No entanto, E.A. Thompson (1943) questionou essa narrativa tradicional, argumentando que Amiano teria omitido os sucessos militares de Galo e sua popularidade entre as tropas – uma posição que Gilvan Ventura da Silva (2019, p. 22-23) contesta, defendendo a credibilidade do relato de Amiano contra o que chama de “ilusão teórico-metodológica”.
A trajetória pessoal de Galo ajuda a entender seu papel nesse contexto. Nascido entre 325-326 na Etrúria, neto de Constâncio Cloro, Galo cresceu longe da corte após os expurgos de 337 que eliminaram grande parte de sua família (Bowersock, 1978; Crawford, 2016). Seu casamento com Constantina e nomeação como César representavam tanto uma oportunidade quanto um risco para Constâncio II, dada a complexa rede de relações familiares: Galo era seu primo[3] e cunhado e sobrinho de Vulcácio Rufino, influente prefeito pretoriano. Essa intricada teia de alianças e lealdades familiares ajuda a explicar tanto a escolha de Galo quanto as posteriores tensões em Antioquia.
Apesar de ocupar o cargo de césar, Galo não possuía grande poder ou autonomia para tomar decisões, pois estava sob a supervisão direta de homens de confiança do Augusto Constâncio II (Amm. XIV). Entre esses oficiais estavam o prefeito do pretório do Oriente, Talássio, o quaestor Môncio, o magister equitum Ursicino e o consularis Syriae, Teófilo (Silva, 2019, p. 22). Embora Constâncio II tenha recuperado algumas características do governo tetrárquico, o cargo de césar tornou-se quase “decorativo”, como observado por Juliano em sua Carta ao Senado e ao Povo de Atenas (Jul. ad Ath.). No entanto, isso não impediu que Galo tentasse ampliar seu poder, embora suas ações tenham desagradado a população urbana (Amm. IV).
Além disso, ao casar sua irmã Constantina com Galo, Constâncio II parece ter seguido a política matrimonial de seu pai, Constantino, que buscava manter as mulheres da família sob controle para evitar que maridos externos aspirassem ao poder. No caso de Galo, o imperador pode ter colocado Constantina ao lado do césar justamente por desconfiar dele, já que Galo poderia guardar ressentimento pelo massacre de sua família em 337. Contudo, o plano de que Constantina atuasse como conselheira e moderadora falhou; ao invés disso, sua ambição pode ter se somado à de Galo, exacerbando a situação.
Segundo Amiano Marcelino, o casal governou com extrema crueldade em Antioquia. Ele descreve Constantina como uma “verdadeira Fúria” (Megaera quaedam mortalis), que incitava a violência do marido e compartilhava sua sede por sangue (Amm. XIV, 1, 2). Juntos, eles formaram uma rede de espiões para perseguir e eliminar membros da elite local, usando acusações como feitiçaria (“artes proibidas”) e maiestas (traição) como pretextos (Amm. XIV, 1, 2-8). Alan J. Ross sugere que essas passagens das Res Gestae foram inspiradas nos Anais de Tácito, que relata Nero enviando espiões para caçar conspirações (Ross, 2016, p. 67). Além disso, a situação em Antioquia piorou com revoltas populares devido à escassez de grãos (Silva, 2019, p. 7), aumentando ainda mais o descontentamento contra o governo de Galo e Constantina.
Amiano Marcelino relata um suposto episódio envolvendo o aristocrata Clemácio, cuja sogra, não correspondida em sua paixão por ele, teria denunciado-o por um crime não especificado a Constantina, que ordenou sua execução. Segundo o historiador, esse caso teria desencadeado uma série de outras execuções, confiscos de propriedades e exílios (Amm. XIV, 1, 4). Ele também menciona uma suposta conspiração contra Galo, denunciada por uma mulher humilde, que foi generosamente recompensada por Constantina—supostamente para incentivar novas delações (Amm. XIV, 7, 4). Além disso, Amiano sugere que Galo teve participação na queda de Ursicino, seu antigo superior e figura por quem nutria admiração (Amm. XIV, 9). No entanto, como observa Blockley, Amiano cita apenas três nomes de supostas vítimas inocentes, o que não seria suficiente para sustentar a narrativa de um governo marcado por um “banho de sangue” (Blockley, 1972, p. 436).
Por outro lado, Filostórgio oferece uma perspectiva diferente, descrevendo Galo como um militar talentoso cuja reputação despertou a inveja de Constâncio II, levando o imperador a enviar oficiais para limitar sua influência. Esses oficiais, porém, teriam excedido suas funções, desrespeitando Galo abertamente. Em um episódio relatado por Filostórgio, Môncio, um desses oficiais, teria dito a Galo: “Você não tem autoridade nem mesmo para nomear um controlador! Como pode matar um prefeito pretoriano?”. Irritada, Constantina teria ordenado a prisão e execução de Môncio e de outro oficial, Domiciano (Philost. III, 28).
Essas execuções teriam sido o estopim para a convocação de Galo por Constâncio II, que exigiu sua presença em Milão para prestar esclarecimentos. Segundo Filostórgio, Galo, embora temeroso, obedeceu, enquanto Constantina partiu antes na tentativa de interceder por ele. Já Amiano Marcelino apresenta uma versão diferente, afirmando que Constâncio II teria armado uma cilada, convidando o casal de forma aparentemente amistosa e usando elogios falsos para persuadir Constantina a viajar primeiro, afastando suspeitas (Amm. XIV, 11, 6). Essas narrativas divergentes destacam as diferentes interpretações sobre o fim do governo de Galo e o papel de Constantina em sua queda.
figura 10 – Sarcófago de Constantina em Porfírio

Fonte: Museu do Vaticano. Disponível em: https://www.museivaticani.va/content/museivaticani/it/collezioni/musei/museo-pio-clementino/sala-a-croce-greca/sarcofago-di-costanza.html Acessado em out/2024
Durante sua viagem para interceder junto a Constâncio II, Constantina faleceu na Bitínia, vítima de uma febre. Segundo Burrus (2020, p. 174), sua morte ocorreu em 18 de fevereiro, data que posteriormente seria associada à sua comemoração no calendário cristão. Seu corpo foi transladado para Roma e depositado no mausoléu que ela mesma havia construído, onde permanece até hoje em um imponente sarcófago de pórfiro vermelho. A peça é ricamente decorada com cenas dionisíacas, como a colheita de uvas, além de figuras de animais e possivelmente um retrato da própria Constantina. Originalmente instalado em seu mausoléu, o sarcófago foi transferido para a Piazza S. Marco no século XV e, posteriormente, em 1790, para os Museus Vaticanos, onde hoje se encontra na Sala a Croce Greca, ao lado do sarcófago de sua avó, Helena. Este último, adornado com cenas militares, sugere ter sido originalmente destinado a um homem da família imperial, como Constâncio Cloro ou Constantino (Musei Vaticani).
Com a morte de Constantina, Galo percebeu que sua situação se tornara ainda mais perigosa, mas não teve alternativa a não ser comparecer perante Constâncio II. De acordo com Filostórgio, o imperador ordenou inicialmente que Galo fosse despido da púrpura e exilado na Dalmácia (Philost. IV, 1 e 1ª). Teófilo, o Índio, que acompanhava Galo, conseguiu adiar temporariamente o banimento, mas acabou exilado pouco depois. Enquanto isso, inimigos de Galo na corte convenceram Constâncio II a decretar sua execução. Embora o imperador tenha se arrependido e tentado revogar a ordem, o eunuco Eusébio impediu que o contra-aviso chegasse a tempo, resultando na morte de Galo (Philost. IV, 1).
Filostórgio, embora simpatizante do arianismo professado tanto por Galo quanto por Constâncio II, enfrenta um dilema ao narrar esses eventos. Ele admira Galo por seu apoio a figuras arianas como Teófilo e Aécio (Philost. III, 27), mas também valoriza Constâncio II, que promoveu ativamente o arianismo (Philost. III, 2-6; IV, 3-7). Assim, embora critique algumas ações do imperador, o faz de forma moderada, especialmente em casos graves como a execução de Galo (Philost. IV, 1 e 1ª).
Amiano Marcelino oferece uma versão diferente, afirmando que Galo, ao ser acusado, teria atribuído suas ações cruéis à influência de Constantina, o que teria enfurecido ainda mais Constâncio II. Segundo Amiano, o imperador, tomado por “ira incontrolável”, ordenou a execução sumária de Galo, que foi decapitado “como um ladrão comum” (Amm. XIV, 11.22-23).
Já Juliano, em sua Carta ao Senado e ao Povo de Atenas, reconhece o temperamento violento de Galo, atribuindo-o às tragédias familiares e à educação negligente que recebeu. No entanto, critica Constâncio II por condená-lo sem um julgamento justo, baseando-se apenas em rumores (Jul. Ep. Ad Ath. 271-272a). Vale ressaltar que Juliano tinha um conceito rigoroso de paideia (Carvalho, 2013), e sua avaliação não significa que Galo fosse completamente inculto, já que foi educado como um príncipe imperial. Curiosamente, Juliano menciona brevemente Constantina apenas uma vez, ao citar que ela e Galo tiveram uma filha, cujo destino permanece desconhecido após a morte dos pais (Jul. Ep. Ad Ath. 272d).
Constantina morreu como princesa, mas foi lembrada como santa. Sua trajetória, marcada por alianças dinásticas, disputas imperiais e patronato cristão, revela uma figura que transitou entre a devoção e a ambição com habilidade política notável. Ao mesmo tempo em que interveio em guerras civis e influenciou decisões de governo, construiu uma imagem de mulher piedosa e protetora da fé. Essa ambiguidade — entre a atuação política concreta e a memória idealizada — exemplifica como a história frequentemente silencia ou distorce as vozes femininas que exerceram poder, seja condenando-as como perigosas, seja canonizando-as como figuras irreais. Recuperar Constantina em sua complexidade é, portanto, um gesto historiográfico que desafia os limites tradicionais da narrativa política romana e reabre o espaço da memória para aquelas que moldaram, nos bastidores ou no centro da cena, os rumos do Império.
Referências
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[1] Doutoranda em História pela UNESP (thais.a.rodrigues@unesp.br). http://lattes.cnpq.br/1332380598754923.
[2] Tradução do latim para o inglês de J. Curran. Pagan City and Christian Capital. Rome in the Fourth Century (Oxford University Press, 2000), 128.
[3] A dinastia constantiniana dividiu-se em dois ramos principais a partir dos casamentos de Constâncio I: (1) o ramo de Helena, sua primeira esposa (ou concubina), que gerou o futuro imperador Constantino I; e (2) o ramo de Teodora, filha do Imperador Maximiano, legitimada por Constâncio após seu casamento político. O imperador Constâncio II (r. 337–361) pertencia ao ramo de Helena, como filho de Constantino I e Fausta. Já Galo fazia parte do ramo de Teodora, sendo filho de Júlio Constâncio (meio-irmão de Constantino I) e de Gala, irmã de Vulcácio Rufino e Nerácio Cereal, figuras que colecionaram cargos importantes na administração imperial.
Publicado em 13 de Outubro de 2025.
Como citar: RODRIGUES, Thais de Almeida. Entre a devoção e rebelião: a dupla face de Constantina nas fontes antigasBlog do POIEMA. Pelotas: 13 out. 2025. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/entre-a-devocao-e-a-rebeliao-a-dupla-face-de-constantina-nas-fontes-antigas/ Acesso em: data em que você acessou o artigo.
















