Tamara Quírico[1]
Precisamos, de início, ressaltar a diferença entre o tema do Juízo Final e o do Apocalipse, por vezes confundidos nas culturas modernas – uma confusão estranha ao período medieval, não devemos esquecer. Já Santo Agostinho (354-430) observava que era primordial distinguir essa “visão da permanência do Reino de Deus”, descrita no Apocalipse, “de uma simples aparição no fim dos tempos” (Christe, 1996, p. 27). O Apocalipse e suas representações visuais, com efeito, se referem a visões do Cristo como Maiestas Domini, que poderiam ocorrer em qualquer tempo, e não somente no último dia. A visão do Filho do Homem descrita no Apocalipse não era interpretada, na Idade Média, como uma visão do fim do mundo. Conforme esclarece Yves Christe, o Apocalipse era concebido “não como uma revelação do fim dos tempos, mas como uma visão de glória situada no céu, acima, além ou fora do tempo” (Christe, 1973, p. 12).
O Juízo Final, por sua vez, é também uma visão do Maiestas Domini, mas é, sem dúvida, uma aparição de todo particular: o Cristo que surge no fim dos tempos é o Juiz que comparece uma última vez, para julgar a humanidade. As visões do Juízo Final estão “situadas historicamente, ou, mais exatamente, reintroduzidas em uma perspectiva histórica, a da Segunda Parúsia” (Christe, 1973, p. 13). Eventualmente, visão divina e revelação final acabaram por se confundir, o que justificaria as confusões entre os termos que encontramos. Entretanto, deve-se considerar outro ponto: se o Apocalipse não está associado em termos teológicos ao Juízo Final, não há dúvidas de que, iconograficamente, esse texto bíblico forneceu elementos que foram incorporados às representações visuais do tema do Julgamento Último (Quírico, 2014)[2].
Passemos então ao Juízo Final, um dos temas mais importantes para o cristianismo, baseado na concepção de um tempo histórico, linear, que conheceu seu início no momento da criação do mundo, e que se dirige de maneira inexorável para o fim. É essa certeza de um início claramente marcado no Gênesis, e a espera de um fim que decerto chegará, que norteia todas as concepções cristãs. O final dos tempos será marcado pela Parúsia, a segunda vinda de Cristo para julgar toda a humanidade[3]. O retorno de Cristo ao final dos tempos, assim como o julgamento da humanidade, é mencionado em trechos diversos do Novo Testamento, como, por exemplo, em Mateus 16, 27: “pois o Filho do Homem há de vir na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com o seu comportamento”. Esta passagem indica também de modo claro a concepção de um julgamento nesse momento, baseado no comportamento individual de cada homem ao longo de sua vida. O que significa essa noção tão fundamental para o cristianismo? É a crença de que, no momento da morte, a alma é separada do corpo e é julgada de acordo com sua vida na terra; por esse julgamento, essa alma será colocada em uma instância no Além, onde permanecerá até o momento do Juízo Final, quando enfim, reunida novamente ao seu corpo ressuscitado, terá seu local eterno determinado pelo Cristo.
Por que Cristo julgará os homens? De acordo com a doutrina cristã, a Encarnação, ou seja, Deus que se fez homem e nasceu do ventre de Maria, teria sido necessária para resgatar a humanidade do pecado cometido por Adão. Expulsos do Jardim do Éden por ordem divina, os homens não poderiam retornar enquanto não fossem redimidos de suas culpas, conforme se afirma em diversas passagens escriturais, como em 1Cor 15, 21-22: “com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Pois assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida”. A redenção, no entanto, só poderia ser plena com o sacrifício de Jesus, como novamente esclarece São Paulo em 1Cor 15, 3: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras”. Deus feito homem morreu para livrar a humanidade da morte, do pecado de Adão. Não por acaso, em inúmeras imagens representando a Crucificação é possível discernir, à base da cruz, um crânio, identificado usualmente como o de Adão. A partir do pensamento de São Paulo, Cristo seria visto como o segundo Adão que, ao morrer, redimiria o primeiro de suas culpas (Quírico, 2015).
Por ter dado seu sangue pela humanidade, por ter morrido para a remissão dos pecados, Cristo é legitimado como o juiz dessa mesma humanidade; uma vez que morreu para a salvação dos homens, Ele, mais do que todos, tem o direito de julgá-los. Por isso, nas representações visuais do Juízo Final, a figura de Cristo muitas vezes ergue os braços para expor os estigmas, evidente comprovação de Seu sacrifício. E, não por acaso, muitas figurações do tema incluem também a apresentação das Arma Christi, os símbolos da Paixão – sendo a cruz, a coroa de espinhos e a coluna da flagelação os mais usualmente figurados.
Essa sequência lógica e linear proposta pela história cristã é visualmente expressa, por exemplo, no painel Alegoria da Redenção, pintado por Ambrogio Lorenzetti por volta de 1345; na parte esquerda da pintura, há a representação da Criação do homem, do Pecado original e da Expulsão do Paraíso; ao centro, surgindo acima de um amontoado de corpos, está o Cristo crucificado; à extrema direita, enfim, temos a cena bastante condensada do Juízo Final[4]
Figura 1. Ambrogio Lorenzetti. Alegoria da Redenção, ca. 1345. Siena, Pinacoteca Nazionale – Wikimedia Commons
Consequência derradeira da Paixão, portanto, o Juízo Final encerra a história cristã com o retorno de Cristo no último dia para julgar toda a humanidade. Esse evento é reiterado no Credo definido pelo Concílio de Niceia em 325, e recitado pelo fiel com poucas variações nas celebrações litúrgicas católicas até a contemporaneidade: Cristo “ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos Céus, onde está sentado à direita de Deus Pai Onipotente, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”.
A dimensão teológica do evento – que deve recapitular a história do universo desde o momento de sua criação, envolvendo toda a humanidade, vivos e mortos, crentes e mesmo aqueles que jamais teriam ouvido menção ao julgamento final, segundo as crenças cristãs – justifica a sua evocação visual desde os primeiros séculos do cristianismo. De fato, é o que ocorre através da representação de Cristo como o Pastor separando as ovelhas dos bodes, ou seja, os eleitos dos condenados, segundo uma conhecida passagem do Evangelho de Mateus[5]. É a cena que vemos, por exemplo, no frontal de sarcófago romano atualmente no acervo do Metropolitan Museum of Art, de Nova York.
Figura 2. Frontal com Juízo Final, fim do século III – início do século IV
A relevância do tema do julgamento no último dia também explica o surgimento de representações visuais de fato do Juízo Final a partir do século IX, sua popularização na pintura monumental do século XI – de que um dos mais importantes e antigos exemplos é a pintura na Abbazia di San Michele, em Sant’Angelo in Formis, realizado por volta de 1080
Figura 3. Abbazia di Sant’Angelo in Formis, controfacciata dell’abbazia
– e particularmente no XIII. Uma das representações mais célebres do tema é o afresco executado por Giotto no início do século XIV na Capela Scrovegni, em Pádua
Figura 4. Capella degli Scrovegni (Padova)
A comparação entre essas obras mostra uma tradição iconográfica do tema consolidada desde muito cedo: se os tipos incluídos na cena variam em função da superfície disponível para a execução, alguns elementos precisam necessariamente comparecer: o Cristo Juiz, decerto, sem o qual não pode haver julgamento, e que sempre se destaca, frequentemente envolto por uma mandorla e exibindo os estigmas das mãos e dos pés; por vezes está sentado em um trono (conforme Mt 19, 28-29; Mt 25, 31-34, 41 e 46 e Ap 4,2-7). Além dele, a identificação inequívoca do Juízo Final é feita através das trombetas descritas nos textos escriturais, e que indicam a ressurreição dos corpos, também incluída nas representações. Com frequência, por fim, temos a separação entre eleitos e condenados e a menção ou mesmo a efetiva representação de Paraíso e Inferno (ou seja, os destinos eternos do homem após o fim do mundo). A partir do século XIII percebe-se uma maior preocupação na representação do Paraíso e especialmente do Inferno, e do século XIV em diante as instâncias ultraterrenas passaram a ser minuciosamente representadas, visando à ênfase das consequências das ações humanas por toda a eternidade[6].
Em função de sua importância, representações visuais do Juízo Final podem ser encontradas em praticamente todas as regiões em que houve penetração do cristianismo. Dessa forma, pinturas e relevos com o tema foram produzidos não somente na Europa – tanto no Ocidente como nas áreas da Igreja Ortodoxa –, mas também em limites culturalmente mais distantes, como na Ásia, cujo exemplo mais conhecido é possivelmente o afresco pintado pelos monges Havans, Stepanus e Minas entre 1640 e 1655 em Isfahan (Irã), na Catedral de Vank
Figura 5. Vank Cathedral, Isfahan
Encontramos muitos exemplos também nos antigos territórios da América Espanhola (em áreas, por exemplo, dos atuais México, Bolívia, Argentina, Chile e Peru), principalmente pinturas decorando o interior de igrejas, não raro englobadas dentro do tema mais amplo das Postrimerías (os Novíssimos da tradição cristã – Morte, Juízo Final, Inferno e Paraíso)
Figura 6. Tadeo Escalante. Juízo Final, início do século XIX.
No Brasil, em cujos territórios o tema do Juízo Final nunca se popularizou, encontramos um importante exemplo em Caxias do Sul, pintado já na década de 1950.
Figura 7. Aldo Locatelli. Juízo Final e cenas do Dies Irae. Igreja de São Pelegrino.
Percebemos como as representações visuais do Juízo Final podem ser encontradas em um contexto espaço-temporal bastante amplo, chegando ao século XX. A importância de obras com esse tema se justifica quando se considera que o Juízo Final se tornou, desde a Idade Média, um dos grandes instrumentos de conversão e doutrinação dos fiéis, devendo suscitar neles o temor do julgamento. Isso nos faz entender os motivos para a clara ênfase não somente na separação entre eleitos e condenados nas cenas, no momento da ressurreição dos corpos, como nas próprias instâncias do Além, a que, desde o século XIII, passou a ser dado um destaque visual maior; a partir de meados do século XIV, encontramos em várias pinturas o desmembramento completo de Inferno e Paraíso como cenas autônomas e complementares ao Juízo Final, de que é exemplo o painel executado por Fra Angelico na primeira metade do século XV, atualmente no acervo da Gemäldegalerie de Berlim
Figura 8. Fra Angelico Last Judgement anagoria
Cria-se, dessa forma, uma mensagem mais direta e efetiva: a imagem agora não apenas recorda o fiel de que em um momento futuro haverá um julgamento; mostram-se também as possibilidades irreversíveis de destino após esse mesmo julgamento. Através dessas obras evocam-se, desse modo, as palavras do Eclesiástico: Homo, memento finis, et in aeternum non peccabis.
Bibliografia consultada
Bíblia de Jerusalém, 3ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2004
CHRISTE, Yves. Il Giudizio universale nell’arte del Medioevo (trad. M.G. Balzarini). Milão: Jaca Book, 2000
CHRISTE, Yves. L’Apocalypse de Jean. Sens et développements de ses visions synthétiques. Paris: Picard, 1996
CHRISTE, Yves. La vision de Matthieu. Origines et développement d’une image de la Seconde Parousie. Paris: Klincksieck, 1973
QUÍRICO, Tamara. Inferno e Paradiso. As representações do Juízo Final na pintura toscana do século XIV. Campinas: Unicamp, 2014
QUÍRICO, Tamara. A morte de Deus e a morte do homem: Paixão de Cristo, Juízo Final e Triunfo da Morte no fim da Idade Média. In: Nava, v. 1, n. 1, 2015
[1] Doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (tamara.quirico@uerj.br). http://lattes.cnpq.br/2136677343472870.
[2] Elementos como os quatro animais que, em alguns exemplos, flanqueiam o Cristo; o trono sobre o qual o Cristo se assenta e os livros da vida e da morte (Ap 20, 11-15); ou o arco-íris que surge ao redor do Cristo entronizado, especialmente nos exemplos nórdicos (Ap 4, 2-7). Em verdade, o capítulo quatro do Apocalipse como um todo fornece “uma imagem ideal do Reino de Deus e da Igreja. Prefigura o que será a glória e a felicidade de seus membros após a ressurreição dos corpos e a visão do Cristo juiz triunfante da Segunda Vinda […] (Christe, 1996, p. 27).
[3] Parúsia, significava “estar presente” ou “chegar”, e indicava a chegada do imperador romano a uma cidade ou província, implicando também o início de um novo período para aquela localidade. Os primeiros cristãos absorveram o termo, adaptando-o à sua doutrina: Parúsia será quando o Cristo retornar a esse mundo, no fim dos séculos, iniciando um novo tempo. Além das expressões parúsia e advento, a segunda vinda de Cristo também é chamada de epifania ou aparição (1Tim 6, 14; 2Tim 4, 1), e apocalipse ou revelação (1Pd 4, 13). O tempo da segunda vinda é referido como “aquele Dia” (2Tim 4, 8), “o Dia do Senhor” (1Tes 5, 2), “o dia de Cristo Jesus” (Fl 1, 6), “o dia do Filho do Homem” (Lc 17, 30), ou ainda como “o último dia” (Jo 6, 39-40) (Quírico, 2014).
[4] Para uma análise mais aprofundada dessa pintura, ver Quírico, 2015.
[5] “Quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. E serão reunidas em sua presença todas as nações e ele separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos bodes, e porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos do meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo […]’. Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos […]’. E irão estes para o castigo eterno enquanto os justos irão para a vida eterna” (Mt 25, 31-34, 41 e 46).
[6] As cenas mais completas do tema incluem diversos outros elementos: podemos encontrar a Corte Celeste, em que os apóstolos e diversos outros santos comparecem ladeando o Cristo; os anjos que trazem as Arma Christi, e outros apresentandoos livros da Vida e da Morte, descritos nos textos escriturais (Dn 7, 9-14, Dn 12, 1-3 e Ap 20, 11-15); o ato do julgamento propriamente dito, muitas vezes representado pela pesagem das almas (presidida usualmente pelo Arcanjo Miguel); e, por fim, a intercessão da Virgem Maria e de São João Batista – a cena da Deesis, de grande popularidade, por indicar de modo claro a possibilidade de intercessão dos santos perante o Juiz (Quírico, 2014).
Publicado em 23 de Junho de 2025.
Como citar: QUÍRICO, Tamara. O Juízo Final e suas representações na tradição visual cristã. Blog do POIEMA. Pelotas: 23 jun. 2025. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/o-juizo-final-e-suas-representacoes-na-tradicao-visual-crista/ Acesso em: data em que você acessou o artigo.
















