O conservadorismo não é uma ideologia fixa com uma cartilha única, mas sim uma filosofia política e social focada na preservação das instituições tradicionais, na ordem e na mudança gradual, em oposição a transformações radicais ou revolucionárias. Sua origem moderna remonta ao final do século XVIII, consolidando-se com a obra do pensador britânico Edmund Burke, que criticava os excessos e a velocidade das rupturas da Revolução Francesa. Burke argumentava que a sociedade é um contrato entre os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer, e que destruir tradições testadas pelo tempo de forma abrupta gera caos.
O avanço do conservadorismo nacionalista e populista no cenário global contemporâneo representa um dos maiores desafios estruturais para as Relações Internacionais desde o fim da Guerra Fria. Essa vertente altera profundamente a dinâmica internacional porque contesta a lógica que governou o mundo nas últimas décadas: o globalismo e o multilaterismo. Enquanto a ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial foi construída sob a premissa de que os problemas globais exigem soluções coordenadas por instituições internacionais, a nova direita nacionalista opera sob a lógica da soberania absoluta e do interesse nacional em primeiro lugar.
A migração internacional é um dos temas mais centralizadores do populismo conservador. A defesa da identidade cultural e nacional traduz-se em políticas de fronteiras estritas e controle migratório rígido. Isso fragmenta as tentativas da ONU e de agências internacionais de estabelecer pactos globais de acolhimento a refugiados, tornando a gestão de crises humanitárias um foco constante de atrito geopolítico. O avanço dessa corrente não significa o fim da diplomacia, mas a transição de uma ordem internacional baseada em regras e instituições integradas para uma ordem baseada no equilíbrio de poder entre Estados-nação soberanos. O grande debate da década de 2020 é justamente se o mundo conseguirá resolver desafios inerentemente globais (como pandemias, segurança cibernética e transição energética) sem ferramentas multilaterais fortes.
O conservadorismo no mundo
Brasil:
Nos últimos anos, a cultura brasileira tem se espalhado pelo mundo com grande força através da música, das novelas e de sua marcante diplomacia cultural. Ritmos locais, produções audiovisuais de grande alcance e a imagem de um povo historicamente caloroso, plural e tolerante conquistaram milhões de admiradores globais, projetando a ideia de um país definido pela convivência harmoniosa, pela rica diversidade e pelo respeito às diferenças.
Essas manifestações artísticas fazem muitas pessoas no exterior sonharem com um Brasil festivo e socialmente progressista. No entanto, o que nem sempre é discutido é que esse fenômeno faz parte de uma estratégia histórica de soft power do Brasil, utilizada para ampliar sua influência geopolítica, atrair investimentos e consolidar sua imagem positiva como um mediador pacífico e multicultural nas relações internacionais.
Ao mesmo tempo, internamente, o país tem vivenciado debates marcados pelo crescimento de correntes mais conservadoras em áreas como política, relações de gênero e valores sociais. O Brasil, conhecido por suas profundas contradições sociais, não ficou imune à onda de conservadorismo que tem avançado em diversas partes do mundo, consolidando uma expressiva bancada evangélica e de segurança pública que passou a pautar de forma incisiva os rumos institucionais da nação.
Entre a população brasileira, observa-se um crescimento significativo de posições focadas na defesa da família tradicional, no nacionalismo econômico e no ceticismo em relação a agendas progressistas globais. Por outro lado, movimentos sociais, feministas e de direitos humanos têm reagido de forma crítica a esse avanço, criando uma forte resistência contra a perda de direitos e o retrocesso em pautas identitárias, gerando uma polarização que fragmentou o tecido social do país.
Esse tensionamento interno passou a receber maior atenção internacional à medida que as lideranças conservadoras brasileiras se alinharam ativamente à rede transnacional da “Nova Direita”, espelhando-se em movimentos globais como o trumpismo nos Estados Unidos. O choque dessas narrativas domésticas acabou por transbordar para a arena externa, afetando diretamente a credibilidade do país em fóruns multilaterais e gerando atritos com investidores estrangeiros, especialmente em debates sobre direitos humanos e a governança da Amazônia.
Apesar de o Brasil ser uma das maiores economias e potências ambientais do mundo, a desigualdade de gênero e os abismos sociais ainda são alarmantes, com o país registrando índices persistentes de violência contra a mulher e disparidades salariais significativas para funções equivalentes. Com a consolidação de fortes bases políticas conservadoras e o domínio de narrativas hiperconectadas nas redes digitais, a continuidade das críticas sociais e o avanço de legislações progressistas encontram barreiras institucionais severas.
Mesmo com os movimentos progressistas tradicionais enfrentando forte resistência política no parlamento, o impacto dessa polarização alterou profundamente a governança interna e a projeção internacional do Estado. As produções culturais tradicionais e a narrativa de um Brasil tolerante, justamente, servem para suavizar as tensões internas e reajustar a visão estrangeira sobre o país. Dando a ideia à comunidade internacional de que, para além das disputas ideológicas e das crises institucionais, o Brasil permanece um parceiro estável, aberto ao diálogo e dotado de uma essência cultural acolhedora que vale a pena preservar.
Coreia do Sul:
Nos últimos anos, a cultura sul-coreana tem se espalhado pelo mundo com grande força. Grupos de K-pop, doramas e outros projetos culturais conquistaram milhões de fãs, especialmente ao retratar histórias românticas idealizadas, nas quais os relacionamentos costumam ser apresentados como respeitosos, tranquilos e profundamente amorosos.
Essas produções fazem muitas pessoas sonharem com experiências semelhantes às vistas nas telas. No entanto, o que nem sempre é discutido é que esse fenômeno faz parte de uma estratégia de soft power da Coreia do Sul, utilizada para ampliar sua influência cultural e sua imagem positiva no exterior.
Ao mesmo tempo, internamente, o país tem vivenciado debates marcados pelo crescimento de correntes mais conservadoras em áreas como política, relações de gênero e valores sociais.
A Coreia do Sul, historicamente conhecida por ser patriarcal, não ficou imune à onda de conservadorismo que tem avançado em diversas partes do mundo. Entre os jovens sul-coreanos, especialmente os homens, observa-se um crescimento significativo de posições mais conservadoras.
Por outro lado, muitas mulheres sul-coreanas têm reagido de forma crítica. Nesse contexto, ganhou destaque o movimento conhecido como 4B, que defende a rejeição de práticas tradicionalmente associadas às mulheres, como namoro, casamento, relações sexuais e maternidade.
Figura 1: Movimento 4B na Coréia do Sul

Fonte: Security Distillery
O movimento passou a receber maior atenção internacional à medida que líderes conservadores chegaram ao poder em diferentes países, como Donald Trump nos Estados Unidos.
Apesar de a Coreia do Sul ser um dos principais centros econômicos e culturais do mundo, a descriminação de gênero ainda é presente, já que o país possui há mais de 30 anos o posto de maior desigualdade salarial entre gêneros. Com mulheres ganhando cerca de um terço a menos que os homens, reforçando a desigualdade presente no país.
Apesar de o movimento 4B ter se popularizado no mundo todo, hoje está quase como esquecido no país asiático. Com a posse do presidente Yoon Suk-yeol em 2022, que possui uma base de proposta anti-feminista, acabou dificultando a continuidade da crítica feminina.
Mas mesmo com o movimento “adormecido”, causou um grande impacto no país sul-coreano, já que hoje ele é o país com maior baixa na natalidade do mundo. Os doramas, justamente, servem para modificar a visão das mulheres sobre os homem coreanos. Dando a ideia a elas de que não só os homens, mas a ideia de ter um relacionamento amoroso com eles é incrível e que vale a pena.
Conclusão
Em conclusão, o avanço do conservadorismo tem se mostrado um fenômeno de grande relevância para as Relações Internacionais. Embora se manifeste de maneiras distintas em cada contexto, países como o Brasil, a Coreia do Sul, ou até mesmo o Afeganistão evidenciam tendências do fortalecimento do conservadorismo. Paralelamente o crescimento de movimentos de extrema direita em diversas partes do mundo intensifica debates sobre a democracia, direitos humanos, igualdade de gênero e participação política. Desta maneira, compreender uma parte que seja, deste mundo em modificação é essencial para analisarmos os rumos da política global.
Escrito por:
Eduarda Tamagno – Secretária-Geral; &
Júlia Moreira – Secretária Administrativa de Press
Referências:
HENRIQUE, Layane. Coreia do Sul: história, política, economia e cultura. Politize!, 13 dez. 2024. Disponível em: https://www.politize.com.br/coreia-do-sul/.
LACERDA, Marina Basso. O novo conservadorismo brasileiro: de Reagan a Bolsonaro. Zouk, 2024.
REVISTA MARIE CLAIRE. Por que sul-coreanas não querem mais se relacionar com homens e qual a razão para o movimento ressoar em tantas mulheres mundo afora? 25 jun. 2024. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/comportamento/noticia/2024/06/por-que-sul-coreanas-nao-querem-mais-se-relacionar-com-homens-e-qual-a-razao-para-o-movimento-ressoar-em-tantas-mulheres-mundo-afora.ghtml.
SINGER, André Vitor. Identificação ideológica e voto no Brasil: o caso das eleições presidenciais de 1989 e 1994. 1998. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
SIQUEIRA, WESLEY FELIPE DA SILVA. BRAZIL COM “Z”: Imagem Internacional do País durante as Eleições 2018. Portal de Trabalhos Acadêmicos, v. 11, n. 2, 2019.
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