Conselho de Paz de Trump e a ONU: Similaridades, Diferenças e os Impactos ao Multilateralismo

A conjuntura geopolítica do início de 2026 foi marcada por uma proposta controversa que abalou as estruturas da diplomacia tradicional: o lançamento do chamado “Conselho da Paz” pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Apresentada formalmente durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, a iniciativa surgiu sob a justificativa inicial de supervisionar e implementar um plano de reconstrução e desmilitarização da Faixa de Gaza, após os intensos conflitos na região (BBC NEWS BRASIL, 2026; G1, 2026b). A proposta desponta em um momento de acentuada polarização internacional, no qual as instituições multilaterais históricas enfrentam severas pressões e questionamentos quanto à sua eficácia operacional.

Embora o discurso oficial norte-americano sugira uma suposta colaboração com a comunidade internacional, o cenário de adesão ao projeto revelou uma recepção global bastante fragmentada. A cerimônia de lançamento contou com a assinatura de 19 países, mesclando nações democráticas com aliados de Trump (a exemplo da Argentina de Javier Milei) e diversos regimes não democráticos (G1, 2026a). Notoriamente, o evento foi marcado pela ausência das principais potências europeias e de aliados ocidentais tradicionais, além da hesitação inicial de atores importantes do Sul Global, como o Brasil, evidenciando que a iniciativa nasceu em meio a um expressivo ceticismo diplomático (CNN BRASIL, 2026; AGÊNCIA BRASIL, 2026).

Figura 1 – Trump ratifica o Conselho da Paz em 22 de janeiro de 2026 em Davos, Suíça.

Fonte: REUTERS/Denis Balibouse (2026).

 

O que é esse conselho?

O Conselho da Paz é uma organização internacional desenhada pelo governo dos Estados Unidos que se propõe a atuar na resolução de conflitos e na reconstrução de territórios afetados por guerras, começando pelo Oriente Médio. Esse conselho conta com os seguintes países: Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Bulgária, El Salvador, Hungria, Indonésia, Israel Jordânia, Cazaquistão, Kosovo, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Uzbequistão (IHU, 2026).

De acordo com as propostas apresentadas por lideranças estadunidenses, como o assessor Jared Kushner, o escopo do projeto em Gaza vai muito além da ajuda humanitária tradicional, englobando vastos empreendimentos imobiliários que incluem a construção de arranha-céus, resorts turísticos e portos (G1, 2026a; G1, 2026b). Ademais, o próprio presidente norte-americano sinalizou que a atuação do grupo não se limitará à questão palestina, podendo ser expandida globalmente para fazer “praticamente o que quiserem” após sua consolidação (Gazeta do Povo, 2026).

Estruturalmente, o Conselho apresenta um desenho institucional atípico para a diplomacia moderna. Donald Trump foi designado, estatutariamente, como líder vitalício da entidade, detendo exclusivamente o poder de veto sobre todas as decisões (G1, 2026a). Além disso, a participação contínua na cúpula decisória está condicionada a uma alta contribuição financeira: os membros que desejarem ocupar um assento permanente no Conselho deverão desembolsar a quantia de 1 bilhão de dólares, moldando o grupo nos moldes de um conselho corporativo fechado a investidores geopolíticos (Agência Pública, 2026; IHU, 2026).

Apesar de a retórica de lançamento mencionar que a organização poderá trabalhar conjuntamente com as Nações Unidas, o Conselho atua, na prática, como uma entidade paralela e de certa forma concorrente. Ao agrupar países com base em alinhamentos geopolíticos específicos, capacidades financeiras e ao estabelecer uma governança altamente verticalizada, o órgão desvia dos fóruns tradicionais de deliberação. Essa estrutura instrumentaliza a política externa voltada à projeção de poder hegemônico sob a premissa de um comitê de supervisão de paz (G1, 2026c).

 

Diferenças para a ONU

As divergências estruturais e axiológicas entre o Conselho da Paz e a ONU são profundas, especialmente quando contrastadas com a Carta das Nações Unidas de 1945. A ONU fundamenta-se no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros, garantindo que, na Assembleia Geral, cada um dos 193 Estados possua direito a um voto, independentemente de seu Produto Interno Bruto ou poderio militar (ONU, 1945). Em franca oposição, o Conselho de Trump institucionaliza uma assimetria formal ao cobrar o montante de 1 bilhão de dólares por um assento permanente, substituindo o ideal de representatividade democrática por uma barreira financeira que exclui quase sumariamente os países em desenvolvimento da tomada de grandes decisões (IHU, 2026).

No que tange ao processo decisório sobre paz e segurança, a discrepância torna-se ainda mais aguda. O Conselho de Segurança da ONU, por desenho focado em equilibrar as forças do pós-Segunda Guerra Mundial, distribui seu poder de veto entre cinco membros permanentes de diferentes polos ideológicos e regionais (ONU, 1945). O Conselho da Paz, por sua vez, subverte o mecanismo de pesos e contrapesos ao repassar o poder de veto unicamente para as mãos de seu líder vitalício, abolindo a necessidade de construção de consensos multilaterais e aproximando a governança internacional da administração unilateral típica de corporações do setor privado (G1, 2026a).

 

Figura 2 – Emblema oficial do Conselho de Paz à esquerda e o Emblema da ONU à direita. Destaca-se para os EUA centralizados na primeira imagem.

Fonte: Poder 360 (2026).

 

Há riscos para o Multilateralismo?

A principal preocupação suscitada pelo Conselho da Paz é o risco de esvaziamento, ou até mesmo derrogação indireta, da Organização das Nações Unidas. Há o alerta de que a criação de uma “ONU paralela” fragmenta a governança global, transferindo o foro legítimo de negociação e resolução de conflitos para um grupo de acesso restrito (G1, 2026c; ICL NOTÍCIAS, 2026). Esse esvaziamento ameaça desmantelar quase oitenta anos de construção de tratados e normativas atreladas ao Direito Internacional, substituindo o debate coletivo por intervenções tuteladas.

Em segundo lugar, a mercantilização da diplomacia imposta pelo conselho representa um entrave severo à inclusão e à equidade no sistema internacional. O modelo pay-to-play, pelo qual a influência política contínua é adquirida monetariamente, marginaliza estruturalmente os países do Sul Global, que não dispõem dos aportes exigidos para se sentar à mesa principal (Agência Pública, 2026). Consequentemente, o multilateralismo moderno corre o grave risco de ser eclipsado por uma espécie de plutocracia global, na qual as resoluções sobre o futuro de nações inteiras passam a ser ditadas unicamente por quem pode financiá-las.

Um terceiro fator de alerta diz respeito à concentração de poder na figura de um único indivíduo, o que sinaliza uma inclinação antidemocrática no gerenciamento das relações internacionais. Celso Amorim, assessor especial da presidência do Brasil, classificou abertamente a proposta como uma tentativa de revogação fática da ONU, destacando ser inaceitável que a reforma da governança global seja imposta por um país de forma unilateral (G1, 2026a; Agência Brasil, 2026). A arquitetura personalista da proposta fere o âmago da diplomacia cooperativa, estabelecendo um precedente que submete à coletividade aos caprichos de líderes absolutistas na arena externa.

Por fim, a própria essência das soluções promovidas pelo novo conselho levanta questionamentos éticos substanciais sobre o que se compreende por “paz”. Ao tratar a reconstrução de territórios devastados, como Gaza, com projetos de exploração imobiliária de luxo e vocação turística sob forte ingerência corporativa estadunidense, a iniciativa transparece um viés predatório comercial disfarçado de fomento humanitário (G1, 2026b). Essa mercantilização subordina direitos fundamentais tais como a autodeterminação dos povos à lógica do lucro, ferindo princípios historicamente balizados por agências internacionais humanitárias.

 

Figura 3 – Líderes mundiais na Ratificação do Tratado.

Fonte: SAUL LOEB / AFP (2026).

 

Considerações finais

O Conselho da Paz proposto pelo governo Trump insere-se não como uma reforma construtiva para melhorar o sistema internacional, mas como um desafio frontal à ordem global consubstanciada no pós-1945. Ao fundir lógicas corporativas com o pragmatismo da Realpolitik, o projeto promove uma visão profundamente excludente. As gritantes diferenças em relação aos ditames da Carta da ONU,  notadamente a adoção do veto vitalício monopolizado e a estipulação de um “pedágio” bilionário para assegurar relevância na cúpula, escancaram um movimento coordenado visando privatizar a diplomacia.

A notória recusa das maiores potências europeias em aderir ao ato inaugural e a resistência incisiva de expoentes do Sul Global reafirmam que boa parte da comunidade internacional rejeita iniciativas que maculem a igualdade soberana dos Estados. A preservação da integridade do multilateralismo requer que eventuais reformas nas instituições que o compõem aconteçam de modo plural, orgânico e regido pelas normas do Direito Internacional, de forma a não ceder a busca universal pela estabilidade global a projetos particulares de poder atrelados a interesses pecuniários de minorias privilegiadas.

 

Escrito Por: Eduardo Grecco,  Diretor de Press do PelotasMUN.

 

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Trump quer criar ‘nova ONU’, diz Lula sobre Conselho de Paz. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-01/trump-quer-criar-nova-onu-diz-lula-sobre-conselho-de-paz. Acesso em: 24 mar. 2026.

AGÊNCIA PÚBLICA. Conselho da paz: mais uma fantasia de Trump. 2026. Disponível em: https://apublica.org/2026/02/conselho-da-paz-mais-uma-fantasia-de-trump/. Acesso em: 24 mar. 2026.

BBC NEWS BRASIL. O que é o ‘Conselho de Paz’ que Trump diz ter criado e por que ele preocupa? 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czd830ndn6do. Acesso em: 24 mar. 2026.

CNN BRASIL. Entenda o que é o Conselho de Paz de Trump. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-e-o-conselho-de-paz-de-trump/. Acesso em: 24 mar. 2026.

G1. Jornal Nacional: Trump oficializa criação de um ‘Conselho da Paz’ para reconstruir Faixa de Gaza. YouTube, 23 jan. 2026a. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sLcTnJzm7AY. Acesso em: 24 mar. 2026.

G1. Trump lança ‘Conselho da Paz’; entenda a proposta. YouTube, 22 jan. 2026b. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eNtMWXwHpP8. Acesso em: 24 mar. 2026.

G1. ONU paralela: por que o ‘Conselho da Paz’ lançado por Trump está gerando temor entre lideranças mundiais. 2026c. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/22/onu-paralela-por-que-o-conselho-da-paz-lancado-por-trump-esta-gerando-temor-entre-liderancas-mundiais.ghtml. Acesso em: 24 mar. 2026.

GAZETA DO POVO. Conselho da Paz “supervisionará a ONU no futuro”, diz Trump. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conselho-da-paz-supervisionara-a-onu-no-futuro-diz-trump/. Acesso em: 24 mar. 2026.

ICL NOTÍCIAS. Conselho da Paz: inaceitável derrogação da ONU. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/conselho-da-paz-inaceitavel-derrogacao-onu/. Acesso em: 24 mar. 2026.

IHU – INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. O que é o “Conselho da Paz” que será inaugurado amanhã por Donald Trump, e quem participa dele. 2026. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/662489-o-que-e-o-conselho-da-paz-que-sera-inaugurado-amanha-por-donald-trump-e-quem-participa-dele. Acesso em: 24 mar. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas. 1945. Disponível em: https://www.oas.org/dil/port/1945%20Carta%20das%20Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas.pdf. Acesso em: 24 mar. 2026.