As redes sociais transformaram a maneira que discursos sociais e políticos circulam na contemporaneidade. Plataformas digitais deixaram de ser um espaço somente para o entretenimento e se tornaram espaços de formação de opinião, construção de identidade e disseminação de cultura. Nesse sentido, movimentos digitais como o “red pill” ganharam visibilidade nos últimos anos e passaram a influenciar especialmente públicos jovens. Mesmo que muitas vezes sejam apresentados como simples “estilos de vida” ou “conselhos”, esses discursos reforçam desigualdades de gênero, colaboram e reforçam a naturalização da violência contra a mulher.
O movimento “red pill” surgiu em fóruns online masculinos e se popularizou nas redes sociais por meio de influenciadores que defendem uma suposta “verdade escondida” sobre as relações entre homens e mulheres. O termo faz referência ao filme The Matrix, em que a “pílula vermelha” representa o despertar para a realidade. Dentro desses grupos, entretanto, a ideia é utilizada para justificar discursos de superioridade masculina, desvalorização feminina e rejeição ao feminismo. Mulheres são frequentemente retratadas como manipuladoras, interesseiras ou responsáveis pela “crise da masculinidade”, enquanto homens são incentivados a adotar comportamentos dominadores e agressivos.
Ao lado disso, para o algoritmo feminino, a tendência “trad wife” (“esposa tradicional”) também ganhou força em plataformas digitais. Influenciadoras desse movimento promovem um ideal feminino baseado na submissão ao marido, dedicação integral ao trabalho doméstico e valorização de padrões conservadores de família. Embora a escolha individual pela vida doméstica não seja um problema, a questão central está na romantização de papéis de gênero historicamente desiguais. Muitas produções associadas à estética “trad wife” apresentam o feminismo como responsável pela infelicidade feminina e defendem um retorno a modelos sociais em que mulheres possuíam menos autonomia econômica, política e social.
Em uma sociedade marcada pela conexão digital, identidades são constantemente moldadas pelas narrativas consumidas online. Jovens usuários passam a construir suas percepções sobre masculinidade e feminilidade a partir de conteúdos que reforçam padrões rígidos de comportamento. Os algoritmos das plataformas intensificam esse processo ao recomendar conteúdos semelhantes de forma contínua, criando bolhas digitais que naturalizam discursos misóginos e conservadores.
O problema se torna ainda mais grave quando esses discursos ultrapassam o ambiente virtual e impactam a realidade social. O crescimento de conteúdos misóginos nas redes ocorre paralelamente ao aumento dos casos de violência doméstica, feminicídio e violência psicológica contra mulheres no Brasil. Ao normalizar ideias de submissão feminina, controle masculino e hostilidade ao feminismo, movimentos digitais contribuem para a banalização da violência de gênero. A misoginia online deixa de ser apenas discurso e passa a influenciar práticas sociais concretas.

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026.
Legenda: Gráfico de feminicídios no Brasil de 2015 a 2025.
A repetição constante de conteúdos que associam masculinidade ao controle, à dominação e à superioridade sobre as mulheres contribui para a legitimação de atitudes abusivas dentro das relações afetivas e sociais. Muitos desses discursos incentivam a desconfiança em relação às mulheres, a objetificação feminina e a ideia de que homens estariam “perdendo espaço” na sociedade contemporânea. Como consequência, práticas de controle emocional, violência psicológica e comportamentos possessivos passam a ser percebidos por alguns usuários como atitudes aceitáveis ou até mesmo justificáveis.
Em ambientes marcados por bolhas algorítmicas, usuários passam a consumir conteúdos cada vez mais extremos, fortalecendo visões conservadoras e hostis ao feminismo. Influenciadores e comunidades online frequentemente utilizam humor, memes e linguagem informal para disseminar misoginia de maneira aparentemente inofensiva, o que facilita a normalização desses discursos entre os jovens. Dessa forma, a violência simbólica presente nas redes sociais pode se transformar em violência concreta, reproduzida em relacionamentos, ambientes escolares, espaços de trabalho e até mesmo em casos extremos de agressão física e feminicídio.
Mais do que tendências passageiras da internet, esses movimentos refletem disputas culturais e ideológicas profundas sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea. Em um cenário de crescente violência de gênero no Brasil, é necessário combater a naturalização da misoginia.
Bruna Palharini, Assistente de Press
Referências Bibliográficas
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Retrato dos feminicídios no Brasil. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf Acesso em: 21 maio 2026.
VILAS BOAS, Julia Cristina Marques. Red pill e machosfera: violência neomachista e extrema direita em uma análise de discurso. Pelotas: Universidade Católica de Pelotas, 2024. Acesso em: 20 de maio de 2026.
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Open University Press, 1992. Acesso em 21 de maio de 2026.