Quem Conta o Brasil? A Tropicália na Disputa de Narrativas Durante a Ditadura Militar Brasileira

“Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, no sol de quase dezembro eu vou…” No dia 21 de outubro de 1967, Caetano Veloso subia ao palco do festival de música da TV Record, acompanhado no pódio dos vencedores por seu parceiro Gilberto Gil e pelos Mutantes — Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista. Caetano conquistara o 4° lugar, em colaboração com os argentinos Beat Boys, por “Alegria, Alegria”, enquanto Gil, juntamente com os “Mutas”, levou o 2° lugar pela composição e performance de “Domingo no Parque”.

 

 

Os Mutantes e Gilberto Gil em frente ao Teatro Record no dia 21 de outubro de 1967. 

Fonte: Revista Manchete

O que acontecia naquele momento era a elevação à música da ideia que Hélio Oiticica havia lançado anteriormente naquele mesmo ano: a Tropicália. Ressuscitando, em uma colagem inovadora e disruptiva, os ideais antropofágicos propostos por Oswald de Andrade ainda nos anos 20, Oiticica lançou sobre as águas calmas da cultura brasileira a pedra que incitaria uma série de reações em cadeia — que perdurariam até o final de 1968, com o AI-5 — e despertaria o movimento musical liderado por Veloso e seus companheiros.

Enquanto os tropicalistas planejavam “plantar folhas de sonho no jardim do Solar”, os planos do governo militar eram outros: sob Costa e Silva, a imagem pensada e produzida para o país era de uma potência luso-tropical. O Brasil, como era idealizado pelos militares, figurava como o “país do futuro”, sustentado pela ideia de “democracia racial”, simultaneamente investindo de forma intensa em infraestrutura e na formação de tecnocratas para dar suporte a esse projeto. É nítido que o movimento tropicalista, ao romper de maneira estrondosa — literalmente, com suas potentes guitarras — com o ufanismo do regime, tornou-se parte das agitações que culminaram na resposta brutal do AI-5.

Caetano denunciara a natureza do monumento no Planalto Central do país: “papel crepom e prata”. Nesse trecho da música “Tropicália”, o cerne do movimento homônimo está explicitado: o Brasil é feito de contrastes. Papel crepom e prata aparecem, respectivamente, como os dois países que coexistem dentro da percepção tropicalista; aqui reside a estética do pastiche. Caetano justapõe o “monumento” (a construção de Brasília e o progresso estatal) à “fragilidade do papel crepom” (a precariedade brasileira) e à “prata” (as elites dominantes). Para as RI, isso expõe a contradição de um Estado que tenta projetar uma imagem de potência, mas que ainda lida com suas raízes rurais e subdesenvolvidas.

É de suma importância notar que os tropicalistas não foram bem aceitos, ou mesmo compreendidos, em um primeiro momento. Não é por acaso que o festival da TV Record no ano de 1967 ficou popularmente conhecido como “festival da vaia”. Os estudantes de esquerda que acompanhavam o evento já vinham de uma longa luta contra a influência estrangeira, em especial a estadunidense, e viam como uma das máximas representações do imperialismo o instrumento central do Rock and roll: a guitarra elétrica. A classe artística antirregime prezava pelo que considerava ser genuinamente “brasileiro” e defendia com afinco a MPB produzida até então, com fortes raízes na Bossa Nova e no Samba.

Foi em julho de 1967 que Elis Regina organizou a Marcha Contra a Guitarra Elétrica; o objetivo era negar enfaticamente a americanização da música nacional. Meses mais tarde, Caetano e os Beat Boys estariam abalando os festivais com os arranjos impactantes de suas guitarras em músicas como “Alegria, Alegria”, colocando em prática a antropofagia musical. O que Caetano, Gil, Torquato, Tom Zé e seus camaradas perceberam era que o choque cultural era inevitável, e que se a música brasileira não engolisse os acordes estrangeiros para regurgitá-los em composições originais que contassem um Brasil real e em transformação, o contrário ocorreria: seríamos culturalmente devorados sem direito à defesa, uma repetição subjetiva de 1964.

Marcha contra a guitarra elétrica em meados de 1967, note-se Elis Regina bem à frente. Fonte: UOL

Enquanto nos primeiros meses de 1968 canções que eternizaram os ideais tropicalistas eram compostas e lançadas, conquistando o gosto do público que finalmente compreendia a proposta, os bastidores da República orquestravam o Ato Institucional número 5, que sufocaria de vez o movimento e prenderia muitos de seus integrantes. No breve período em que a Tropicália pôde operar (mesmo sob censura), grandes sucessos foram criados — alguns só puderam ser lançados após o AI-5 —, estreando nos últimos momentos da década de 1960. Na voz de Gal, o Brasil aparece em “Baby” como um destino certo da cultura americanizada, com seus sorvetes, margarinas, piscinas e a necessidade de aprender inglês. Caetano nos convida nos versos dessa canção a perceber um país que se relaciona com o externo, inevitavelmente, ao mesmo tempo em que critica a aculturação: as camisas estampadas com “I love you”.

 

Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes (Rita Lee, Arnaldo e Sérgio Baptista) e Gal Costa. Créditos: Divulgação

A imagem que a Tropicália tentou construir, e em certa medida conseguiu (tanto no plano interno quanto externo), é a de um Brasil plural, desigual, em transformação, reprimido e suscetível às influências externas, mesmo que crítico delas. É o conceito de “Geleia Geral” que Gil cunhou e cantou, ao passo em que Gal nos lembrava que “é preciso estar atento e forte”. O movimento tropicalista, no entanto, foi efêmero. As agitações sociais e a repressão que se amontoavam ao longo de 1968 — e durante o regime militar como um todo — culminaram, em 13 de dezembro daquele ano, na decretação do AI-5, marco que determinou o fim da Tropicália em sua forma original, especialmente com as prisões de Gil e Caetano no dia 27 do mesmo mês. O regime tentava sepultar a nova percepção de Brasil que surgia.

Após dois meses de prisão em regime fechado no Rio de Janeiro, Gil e Caetano seguiram para prisão domiciliar em Salvador, de onde partiram em 1969 para o exílio na Inglaterra. O movimento artístico que ressuscitara a antropofagia de Oswald de Andrade, transformara as visões das relações do Brasil com o mundo e consigo mesmo em um grande pastiche complexo e contraditório, e rompera com a esquerda tradicional para abarcar a juventude brasileira ávida pela globalização, encerrava-se naquele momento.

No entanto, as sementes de sonho que a Tropicália “plantou no jardim do Solar” não foram exterminadas — mesmo que o Solar da Fossa tenha sido demolido em 1972 para dar lugar ao faraônico RioSul —, pois os resultados dessa antropofagia musical perduraram nas décadas seguintes. As guitarras foram aceitas pela MPB, com a própria Elis Regina as utilizando em suas gravações. Elementos do Jazz e do Rock foram incorporados à identidade musical nacional e, com isso, o Brasil pôde se projetar internacionalmente com ares de vanguarda cultural, ainda que sob um regime autoritário. Caetano e Gil só retornariam ao país em 1972, trazendo ainda mais influências externas e acelerando a transformação cultural que marcou o Brasil nos anos 1970 e 1980.

A Tropicália despediu-se do Brasil quando Gil escreveu na prisão a icônica “Aquele Abraço”. Assim expirou o movimento que transformou a então ferozmente disputada imagem de nação. Gil mandou um abraço para cada uma dessas imagens que compunham a grande colagem social do país e terminou realizando o que a Tropicália realmente se propunha: unir todas as diferenças sob um só país plural.

“Todo o povo brasileiro, aquele abraço!”

 

Carlos Folle, Assistente Acadêmico

 

REFERÊNCIAS

CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revolução musical. São Paulo: Editora 34, 1997. 224 p.

FAOUR, Rodrigo. História da música popular brasileira: sem preconceitos (Vol. 1): dos primórdios, em 1500, aos explosivos anos 1970. Rio de Janeiro: Record, 2021. 574 p.

MENDES, Deillany Martins; SOUSA, Laís Mikaelly do Carmo. Tropicália: influências e principais representantes. Revista Arte, Ciência e Tecnologia, jul. 2023.