O futebol é, incontestavelmente, o esporte mais popular do mundo. Nas Américas, sua relevância transcende o campo esportivo, configurando-se como um reflexo dos fluxos migratórios e das tensões políticas que moldaram o continente. Introduzido em solo americano no final do século XIX, a disseminação da modalidade acompanhou o desenvolvimento industrial. Nesse contexto, trabalhadores britânicos foram os principais precursores, fundando clubes em cidades portuárias e polos ferroviários estratégicos.
O nascimento da Copa do Mundo, em 1930, marcou a transição do futebol do amadorismo para o profissionalismo global sob a chancela da FIFA. Realizado no Uruguai para celebrar o centenário da constituição local e o domínio da seleção uruguaia na época, o evento consolidou-se como o maior palco do esporte mundial.
Mais do que uma competição, a Copa tornou-se a “vitrine” do esporte: para as nações, é um instrumento de soft power e afirmação de identidade nacional. A Copa de 2026, tem um significado maior, a escolha de uma sede tripla, algo inédito na história da FIFA, selada sob o lema “United 2026”, representa mais do que uma estratégia logística, essa união representa a vitória de uma candidatura robusta que promete a edição mais “cosmopolita” de todos os tempos, com a expansão para 48 seleções.
O mundo inteiro volta os olhos para a América do Norte não apenas para ver a bola rolar, mas para observar como o maior evento do planeta funciona como um grande instrumento diplomático e de política externa. No entanto, a relação entre os três anfitriões de 2026 EUA, México e Canadá é historicamente marcada por uma assimetria de poder e interesse.

Representantes dos países vencedores se abraçam após vitória da candidatura “United” sobre o Marrocos.
Fonte: Felipe Trueba
Em 1994, os Estados Unidos sediaram o mundial pela primeira vez com o objetivo de promover sua imagem, consolidando o futebol como um produto comercial de massa na maior economia do mundo. Esse projeto de expansão, que inicialmente visava a domesticação do esporte em solo norte-americano, serviu como o alicerce para uma transformação estrutural de longo prazo. Nesse cenário, as dinâmicas da Copa de 2026 começaram a se moldar no domínio das narrativas, nas identidades em disputa e no sentimento de prestígio nacional.
A escolha da sede conjunta (EUA, México e Canadá) aprofundou a influência cultural e corporativa norte-americana sobre o esporte mais popular do mundo. Ao mesmo tempo, as tensões entre a imagem de “unidade” e as políticas reais foram agravadas por discursos nacionalistas. Esse processo resultou em uma tentativa de afirmar a liderança regional, utilizando a infraestrutura esportiva para projetar estabilidade e modernidade. Ainda assim, as contradições permanecem: o mesmo
país que busca ser o centro do mundo esportivo é aquele cujas decisões militares e intervenções globais moldam conflitos em outras regiões.
O futebol como instrumento de poder não é uma novidade. No Brasil, durante a ditadura militar, a conquista do tricampeonato em 1970 foi amplamente utilizada pelo governo para promover uma imagem de “país que vai para frente”, camuflando a repressão política sob o manto do patriotismo esportivo. Em 2026, vemos uma dinâmica semelhante à suavização de imagem. Para os Estados Unidos, a Copa é a oportunidade de transitar da imagem de “interventor” e potência militar para a de “anfitrião global”, usando o entretenimento para gerar simpatia internacional.
Por outro lado, o Canadá posiciona-se como o modelo de multiculturalismo e hospitalidade, reforçando sua marca de nação progressista e aberta ao diálogo. Já o México, ocupa o lugar de guardião da tradição e da resistência cultural latina, equilibrando a parceria econômica com o orgulho de ser o primeiro país a receber três Copas.

O presidente da ditadura, General Médici, com Pelé, após a conquista da Copa do Mundo de 1970. A imagem do ditador ao lado do maior herói popular do país foi amplamente usada como propaganda para legitimar o regime durante os “Anos de Chumbo” Fonte: Memórias da Ditadura
A relevância da Copa de 2026 reside na dicotomia entre o conflito e a diplomacia amigável. Enquanto o noticiário internacional é dominado por intervenções e sanções, a Copa oferece um breve período onde a cooperação e o intercâmbio cultural tomam o palco principal. É um epicentro de governança global onde países com históricos de atrito precisam colaborar em segurança, transporte e vistos. Este evento demonstra que, em um mundo cada vez mais fragmentado, o futebol continua sendo uma das linguagens mais eficazes para a diplomacia pública. Permitindo que o mundo enxergue uma face diferente dos Estados nacionais, focando na celebração mútua. No entanto, é fundamental que o espectador entenda que essa “amizade” nos gramados é, muitas vezes, uma ferramenta estratégica para distrair ou legitimar ações que ocorrem fora das quatro linhas.
Em suma, a trajetória do futebol nas Américas, de um passatempo trazido por trabalhadores britânicos a um colosso geopolítico em 2026, revela que o esporte jamais foi apenas uma atividade lúdica, mas um termômetro das ambições nacionais. Ao mesmo tempo em que o evento se projeta como um palco de diplomacia e integração, ele funciona como uma sofisticada máscara para as assimetrias de poder e as tensões inerentes às políticas externas dos anfitriões.
Portanto, entender a Copa de 2026 exige um olhar que transcenda as quatro linhas: é necessário reconhecer o torneio como um espaço de celebração global, sem ignorar que, nos bastidores desse grande palco, o futebol continua sendo utilizado como uma ferramenta estratégica para moldar percepções, legitimar lideranças e redesenhar a influência política no século XXI.
Mateus Kawabe, Secretário Acadêmico
Referências
BUSHNELL, H. et al. World Cup 2026 – 100 things you need to know about soccer, USMNT, tickets and more. The New York Times, 3 mar. 2026. Disponível em:https://www.nytimes.com/athletic/7059445/2026/03/03/world-cup-questions-socc er-beginner-explained/ Acesso em: 08 abr. 2026
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GALEANO, E. El fútbol a sol y sombra. Madrid: Siglo Xxi España, 2015.
LIMA, Gabryel Lameirão de. Copa do Mundo nos anos de chumbo: o futebol brasileiro como instrumento de política externa do governo Médici (1969-1974). Disponivel em: https://pergamum.ufpel.edu.br/acervo/124275 Acesso em: 08 abr. 2026
Médici e Pelé na cerimônia comemorativa do título mundial de 1970 em Brasília. Memorias da Ditadura. Disponível em:
<https://memoriasdaditadura.org.br/fotografia/medici-e-pele-na-cerimonia-comemora tiva-do-titulo-mundial-de-1970-em-brasilia/>. Acesso em: 8 abr. 2026.