Partindo da questão colocada por Nietzsche – como alguém se torna aquilo que é? – o projeto pretende investigar, na obra de Gilles Deleuze, agenciamentos entre criação, subjetivação e individuação. A pesquisa busca dar sequência ao projeto de pós-doutorado do coordenador Édio Raniere da Silva realizado na Université Paris-Nanterre entre 2018 e 2019, sob supervisão de Anne Sauvagnargues. Nossa principal intenção é investigar na obra de Gilles Deleuze ressonâncias entre processos de criação e processos de subjetivação. Deleuze e a arte: agenciamentos com a psicologia social é, atualmente, o projeto guarda chuva do Laboratório de Arte e Psicologia Social. Onde se busca acolher pesquisas de pós graduação em artes – PPGARTES – e de graduação, do curso de psicologia da UFPel.
Pesquisas:
Diante o homem destronado: por uma ética feminista, vegetal e dos bichos
A morte de Deus, mapeada por Nietzsche, em 1882, é a crise – ainda em curso – do pensamento que posicionava o homem branco europeu como exceção diante de todos. Uma posição na qual tinha o direito legítimo, concedido pelo seu criador, de dominar e subjugar toda a natureza. Defendemos que o seu assassianato é, também, a morte de quem o matou, ou seja, do homem e de suas narrativas heróicas, autossuficientes e violentas. Nesse sentido, esta pesquisa busca se agenciar e dialogar com o pensamento afropindorâmico e a Filosofia da Diferença, questionando – O que quer a humanidade em nós? A quem esse conceito serviu e vem servindo? -, além de propor, diante o homem destronado, uma ética feminista, vegetal e dos bichos.

O DESEJO NO PALCO: poéticas do teatro da espontaneidade em agenciamento com a Filosofia da Diferença
Essa pesquisa coloca o Desejo como protagonista no palco de um espetáculo espontâneo e real, investigando-o a partir de um olhar da diferença usando como método a fabulação especulativa de Donna Haraway.

Afrofuturismo e o processo de subjetivação
Pesquiso sobre a vida e obra do pintor negro pelotense Miguel Barros, também conhecido como Barros, O Mulato. A pesquisa busca traçar os passos de Miguel Barros, desde seus escritos nos jornais na juventude até suas exposições pelo Brasil e internacionalmente, cartografando sua trajetória e suas obras espelhadas por acervos particulares e museus. Esta pesquisa tem como futuro resultado a publicação de um livro, um biografema ficcional sobre a vida e obra de Barros, O Mulato.

Gênero e Colonialismo: extra dissidências para além do humano
A pesquisa problematiza como narrativas de inclusão e diversidade podem reforçar o controle colonial ao exigir identidades legíveis. Apoia-se na Filosofia da Diferença e em perspectivas anarco-queer, ecofeministas e contracoloniais para afirmar existências irreconhecíveis, recusando o reconhecimento identitário. Por meio da cartografia, tensiona mecanismos normativos sobre gênero e sexualidade, abrindo linhas de fuga para habitar o devir-imperceptível, desmontar moralismos e liberar o diverso para além da domesticação inclusiva.

Arte e desterritorialização: uma análise da coleção “Xarpigrafia” a partir do devir-menor em Deleuze e Guattari.
Esta pesquisa busca fazer conexões entre as obras da coleção “Xarpigrafia”, do multiartista Mulambö, e o devir-menor a partir dos escritos de Deleuze e Guattari em “Kafka: Por uma Literatura Menor”. Orientada pela filosofia da diferença, trbalhando com autores-artistas como Anne Sauvagnargues e com uma proposta de arte minorante, a pergunta central deste trabalho é: podem as intervenções digitais de Mulambö operarem uma desterritorialização das identidades hegemônicas, criando novas subjetividades através da arte?

Entre capturas e invenções de si: autossociobiografia de um corpo feminino que trabalha.
Este trabalho recusa destinos pré-determinados para corpos pobres, femininos e trabalhadores, tensionando a captura pelo sistema. Usa autossociobiografia para explorar ficções sociais entre corpo, ancestralidade e instituições, propondo a escrita como linha de fuga e invenção de novas existências.

Devires em grupo: uma autossociobiografia
A ideia inicial era relatar como foi a minha experiência como diretor de uma sessão de sociodrama, porém olhando para minha vida percebi como ela estava permeada/encharcada por grupos.
Nisso surge o meu trabalho de conclusão de curso: irei utilizar da autossociobiografia da escritora francesa Annie Ernaux, para pesquisar sobre os diversos grupos da minha vida, essenciais na formação da minha subjetividade, trazendo fragmentos dessas experiências individuais, mas que serão analisadas/pensadas de forma coletiva, onde “utilizo minha subjetividade para encontrar, desvelar mecanismos ou fenômenos mais gerais, coletivos” (Ernaux, 2003, pg 52)

Processos de Subjetivação Transgeracionais e Afetos
Este ensaio busca estabelecer uma conexão entre a docilização das corporalidades, principalmente de mulheres, e os resquícios coloniais nas relações amorosas, destacando como esses elementos são propagados por aparatos sociais. A pesquisa se desdobra por meio de uma narrativa ficcional, de modo a investigar os processos de
subjetivação transgeracionais, tal ferramenta ficcional se torna necessária pelo intuito de traçar
linhas de fuga do roteiro de vivência romântica dada como universal.

O que quer o sonho em mim? Políticas da imagem e da criação entre cosmologias
indígenas e psicologia
Esta pesquisa investiga os modos como sonho, imagem e arte indígena contemporânea se entrelaçam na produção de sentido e na criação, deslocando a centralidade do sujeito moderno como origem do ato criador. A partir das concepções de sonho em Kopenawa e Krenak, da imagem em Anne Sauvagnargues e Didi-Huberman, da criação em Deleuze e Sauvagnargues, e da arte indígena contemporânea em Jaider Esbell, busca-se compreender como esses campos se compõem e tensionam as fronteiras entre arte, filosofia e psicologia. O estudo propõe uma escuta que não interpreta o sonho, mas o acompanha; que não representa a imagem, mas a deixa agir; que não explica a arte, mas se deixa atravessar por ela. Assim, o percurso da pesquisa se constrói como uma cartografia de forças, uma prática de pensamento e sensibilidade que visa produzir outros modos de existir, sonhar e criar em relação com o mundo.

Entre Memória e Imagem: arte, tecnologia e espiritualidade afro-brasileira no Jogo Saravá: Axés da Memória
Esta pesquisa investiga as intersecções entre arte, espiritualidade afro-brasileira e práticas de reexistência decolonial, tomando o jogo Saravá: Axés da Memória como território de pertencimento e ancestralidade. O estudo compreende o jogo como tecnologia de memória e dispositivo de aquilombamento, capaz de ativar narrativas e afetos em ambientes virtuais. A partir dos conceitos de rizoma e agenciamento em Deleuze e Guattari, das cartografias em Anne Sauvagnargues, do hibridismo cultural em Homi Bhabha, e das Epstemologias do Sul em Boaventura de Sousa Santos e Sueli Carneiro, busca-se compreender como esta interdiciplinariedade se articula em processos de criação e resistência simbólica. A pesquisa propõe um gesto cartográfico e sensível: acompanhar imagens e sons como forças vivas e escutar o jogo como canto de memória e reencantamento do mundo. Assim, constrói-se como prática de pensamento e encontro, onde criar é também lembrar, sonhar e afirmar a presença afro e sua espiritualidade nas telas e nas artes.