Universidade Federal de Pelotas

OPINIÃO EM PAUTA

A precarização da saúde mental do estudante de ensino superior e nossa inadimplência social quanto a esse problema – Um texto que precisa ser postado antes de setembro acabar, quando a sociedade fecha as portas para o assunto

Estamos nele, gente! O Setembro Amarelo, aquele mês onde muitos levantam uma bandeira de empatia para todos aqueles que sofrem de algum transtorno psicológico, só para que essa bandeira caia no chão assim que o relógio bate meia noite, no primeiro dia de outubro, para que durante o resto do ano, os estigmas, estereótipos e preconceitos contra essa enorme parcela de nossa sociedade volte com toda a força, mas ei! Pelo menos você botou um emoji amarelo na sua bio do Instagram, não é mesmo? Esse não é um clássico texto de setembro amarelo, esse não é um conto de cautela vazio, que fala muito, mas não diz nada, essa escrita vem de um aluno como qualquer outro, que muitas vezes já cogitou não vivenciar outro setembro amarelo.
Virarmos nossa atenção para aqueles que sofrem, vítimas de demônios invisíveis e intangíveis, mas onipresentes, é de vital importância para nossa sociedade, mas talvez não estejamos conduzindo esse movimento da maneira certa. Muito se avançou na luta contra a psicofobia, entretanto, apenas sermos enxergados e respeitados (o que, em muitos ambientes, ainda não somos!) não é suficiente. Também precisamos de amparo, de acessibilidade e de validação.
Precisamos de uma certeza que aquela dificuldade indescritível de botar o pé para fora de casa e marcar presença na aula às vezes não é só preguiça; de que aquele aperto no peito que parece uma implosão de nosso próprio coração antes de apresentar um trabalho talvez não seja só um nervosismo comum, que “acostuma com o tempo”; de que aquela sensação de inutilidade e atraso por descansar em um dia reservado para descanso não é um sentimento belo e honrado, mas sim um sintoma de algo que pode ser muito pior; e também de que, naquele momento onde pensamos em desistir (as vezes do curso, as vezes de tudo…) pois tudo parece perdido, na verdade, é só um breve trecho de escuridão na longa trajetória acadêmica.
A saúde mental do estudante de ensino superior vem se deteriorando aos poucos a cada ano que passa, o estudo “Prevalence of mental disorder symptoms among university students: an umbrella review”, publicado esse ano, estudou 8,7 milhões de universitários no mundo todo e descobriu que eles tem em torno de 35% de chance de apresentar depressão leve e 13% de chance de apresentar depressão severa. Quanto à ansiedade, temos 40% de chance de apresentá-la de forma leve, e 18% de chance de apresentá-la de forma severa. O transtorno do sono alcança 41% dos estudantes, o transtorno alimentar atinge 18% deles. E quanto ao suicídio? Dados oficiais de tentativas de suicídio motivadas pela vida acadêmica chegam a 3,5%, mas a idealização do ato, a vontade de não estar mais aqui, de tirar a própria vida apenas para escapar da pressão da academia, esse número chega até 20%.
Outra pesquisa, a “Student mental health in 2023 – Who is struggling and how the situation is changing”, publicado pela King’s College of London, analisou a saúde mental de mais de 45 mil alunos de pós graduação no Reino Unido e descobriu que, entre 2017 e 2023, a probabilidade desses estudantes apresentarem algum problema de saúde mental subiu de 6% para 16%, ou seja, praticamente triplicou em questão de 5 anos. Essa análise indica que em 2023, um em cada seis estudantes de ensino superior sofre com esses problemas, e cruzando esses dados com a pesquisa anterior, podemos ter certeza de que de 2023 para cá, esse número cresceu ainda mais, talvez até de forma exponencial.
Esses números são uma média, as estatísticas exatas mudam muito dependendo do contexto – país, etnia, orientação sexual, situação financeira, etc. – do estudante, mas independente de qualquer fator, esses índices vêm crescendo ano após ano. Esse crescimento teve um aceleramento notável após a pandemia do COVID-19, um fato que não surpreende ninguém, já que aquele evento moldou a mentalidade não só dos jovens, mas do mundo inteiro. Estamos mais estressados, mais cansados e mais desesperançosos. Muitos de nós éramos adolescentes que perdemos anos preciosos de nossa vida escolar por causa do isolamento social, que por mais necessário que tenha sido, criou em uma geração inteira um déficit social difícil de suprir. Geração essa que logo foi jogada de cabeça na realidade universitária com pouco ou nenhum auxílio, pressionado a correr na corrida dos ratos sem nem saber andar direito ainda.
Como combater isso? Como lutar contra essa nova pandemia que, apesar de não ser viral, se propaga inexoravelmente, ano após ano envolvendo mais e mais alunos – não apenas de ensino superior, obviamente – ao redor do globo? A resposta, ao mesmo tempo que é simples, parece inalcançável: cuidado responsável e acompanhado para saúde mental do estudante dentro das instituições. Para enfrentarmos esse cenário sombrio, precisamos de um plano de ação realista, viável e imediato. Nada de depender de partidos ou políticos, pois sabemos bem como isso sempre acaba – aliás, já cortaram sua bolsa hoje?
Precisamos nos concentrar em ações estruturadas e geridas pelo próprio corpo acadêmico. Podemos investir na criação de núcleos de apoio psicossocial com profissionais capacitados e engajados na empreitada, dispostos a realizar atendimento gratuito ou de valor extremamente acessível. Como vivenciamos durante a pandemia, o sentimento de isolamento agrava todos os sentimentos negativos, e mesmo em um campus lotado, podemos muito bem acabar se sentindo totalmente sozinhos, portanto, programas de mentoria e acolhimento entre estudantes veteranos e ingressantes também devem ser estimulados, pois esse plano só vai dar certo se todos participarmos, incluindo os próprios alunos. A capacitação do corpo docente também é importante, um professor que consegue reconhecer sinais de sofrimento psíquico pode acabar por salvar uma vida.
Infelizmente, no fim do dia, essas ideias bonitas são apenas ideias. Não tenho poder de implementá-las, não importa quantas linhas eu escreva aqui. O que posso fazer é estar atento aos meus colegas e professores, me colocar à disposição para ajudar quando vejo alguém com dificuldade de se adaptar ao ambiente universitário e estender uma mão caso perceba algum sinal preocupante. Às vezes, um simples convite para dar uma volta no campus durante o intervalo pode dissipar a escuridão da mente de alguém, mesmo que momentaneamente.
Feliz setembro amarelo, e que as palavras que escrevi aqui não se percam mês que vem.

Autor: Luís Esteves Garcez

Fontes:
PAIVA, U.; CORTESE, S.; FLOR, M.; MONCADA-PARRA, A.; LECUMBERRI, A.; EUDAVE, L.; MAGALLÓN, S.; GARCÍA-GONZÁLEZ, S.; SOBRINO-MORRAS, Á.; PIQUÉ, I.; MESTRE-BACH, G.; SOLMI, M.; ARRONDO, G. Prevalence of mental disorder symptoms among university students: an umbrella review. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 175, p. 106244, ago. 2025.
SANDERS, Michael. Student mental health in 2023: Who is struggling and how the situation is changing. Londres: King’s College London Policy Institute, setembro 2023. Disponível em: https://www.kcl.ac.uk/policy-institute/assets/student-mental-health-in-2023.pdf. Acesso em: 20/09/2025

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