Nesta reportagem especial, a equipe do Reportagem em Curso mergulha na história do teatro mais antigo do Rio Grande do Sul

Por Arthur Veiras e Beatriz Alt/Reportagem em Curso

Em meados dos anos 1800, na Freguesia de São Francisco de Paula, no sul do Brasil, a prosperidade econômica e a efervescência cultural moldavam a região. A produção e comercialização do charque impulsionavam o surgimento de uma sociedade burguesa, enquanto o país vivia uma transição política significativa. No dia 7 de abril de 1831, o Imperador Dom Pedro I abdicou do trono e retornou a Portugal, deixando seu filho, Dom Pedro II, então com apenas cinco anos, como herdeiro. Oficialmente, ele assumiria o trono dez anos depois, ao completar 15 anos.

No mesmo período, na Freguesia de São Francisco de Paula, um armazém deu início ao que viria a ser conhecido como o “teatrinho Sete de Abril”, nome escolhido em referência ao momento político do país. Esse edifício começou a ser erguido com financiamento proveniente da riqueza gerada pelo charque e pelo apoio da burguesia local. Até 1834, diversas apresentações já ocorriam no espaço, incluindo peças teatrais, declamações de poemas e outras manifestações culturais. O prédio do teatro foi oficialmente inaugurado em 2 de dezembro de 1833, data que coincidentemente marcava o aniversário de Dom Pedro II. As obras, porém, foram concluídas apenas no ano seguinte. O edifício, pioneiro no estado, contava com 233 cadeiras, 61 camarotes e capacidade para 500 espectadores. Assim nascia o primeiro teatro do Rio Grande do Sul, na então Vila de São Francisco de Paula.

O Teatro de Dom Pedro II e da Princesa Isabel

A ligação entre Dom Pedro II e o teatro era notável, refletida tanto no nome do edifício quanto na data de sua inauguração. Sua primeira visita a Pelotas, já elevada à categoria de cidade, e ao Theatro Sete de Abril ocorreu em 1846. Acompanhado pelo Barão de Jaguari, um dos sócios do teatro e grande proprietário de terras na região, o Imperador foi calorosamente recebido pela população, assistiu a espetáculos e participou de um banquete no salão do edifício.

Em 1865, Dom Pedro II retornou a Pelotas, sendo novamente recebido com entusiasmo. Sob forte chuva, preferiu caminhar ao lado do povo, dispensando o uso de carruagens. Na chegada ao teatro, foi homenageado com o Hino Nacional, discursos e declamações de poesias. Sua influência sobre a cidade foi tão marcante que, após sua primeira visita em 1846, surgiu outro edifício histórico de Pelotas: o Mercado Público Municipal. O Imperador incentivou o desenvolvimento da cidade, impulsionando sua modernização e crescimento econômico.

Em 1885, a Princesa Isabel também visitou Pelotas, acompanhada de seu marido, Gastão de Orleans, Conde d’Eu, e seus filhos. Durante sua estadia de 22 dias na cidade, a família imperial frequentou o Theatro Sete de Abril, onde assistiu a espetáculos da companhia teatral dos renomados atores portugueses Furtado Coelho e Lucinda Simões.

A história do Theatro Sete de Abril se entrelaça com a trajetória política e cultural do Brasil, sendo um símbolo da relevância de Pelotas no cenário artístico do século XIX. Sua fundação e consolidação evidenciam o papel da cidade como um importante polo cultural do sul do país.

O local do baile de máscaras, de Lobo da Costa e Zola Amaro

Foto encontrada no Acervo do memorial Theatro Sete de Abril da atriz Zola Amaro durante o espetáculo “Norma”, em 1920. Foto: Arthur Veiras

Inspirado nos carnavais de Veneza, o Theatro Sete de Abril tornou-se o ponto de encontro dos bailes de máscaras em Pelotas. O primeiro baile ocorreu em 1849 e, a partir de então, tornou-se uma tradição, fervendo na cena cultural da cidade. Entre as diversas regras que garantiam o prestígio do evento, nenhuma era mais importante que o anonimato dos mascarados. Embora o baile fosse voltado principalmente à burguesia local, também servia como espaço para a venda e aluguel de escravizados. Apesar desse aspecto sombrio, o evento teve um papel significativo na construção da identidade carnavalesca de Pelotas.

A memória do teatro não se resume apenas a seus eventos. Grandes figuras pelotenses se projetaram no Sete de Abril, alcançando reconhecimento histórico. Lobo da Costa, poeta e dramaturgo, teve sua obra imortalizada dentro de suas paredes. Seu primeiro drama encenado no teatro, “O Maçon e o Jesuíta”, estreou em 1876, impulsionando sua trajetória na dramaturgia. Mesmo com uma vida breve, encerrada aos 34 anos, suas poesias e peças continuaram a ecoar no Sete de Abril, preservando seu legado.

No início do século XX, Pelotas viu surgir um talento musical prodigioso: Zola Amaro. Ainda jovem, a cantora se destacava nos saraus familiares e eventos religiosos. Em 1915, o teatro recebeu a ilustre presença da soprano italiana Amelita Galli-Curci, que estava em turnê pela América do Sul com a Companhia Lyrica. Durante sua estadia, Galli-Curci ouviu Zola interpretar “Norma” e, encantada, profetizou que ela seria a maior intérprete dessa personagem no mundo. O tempo confirmou a previsão: Zola Amaro conquistou fama internacional com sua performance da obra de Bellini.

O Theatro Sete de Abril foi palco de momentos históricos para Pelotas. A relação com a família imperial consolidou sua importância, mas seu maior legado é a ascensão de novos talentos e a disseminação da cultura pelotense. Foi esse papel que permitiu que artistas como Zola Amaro, Lobo da Costa e tantos outros emergissem e deixassem sua marca na história.

Reformas que Transformaram o Teatro

O Theatro Sete de Abril passou por diversas reformas ao longo de sua existência. Originalmente, sua fachada era quadrada. Em 7 de setembro de 1916, após uma grande intervenção arquitetônica, foi inaugurada a fachada atual, que se tornou uma das mais icônicas do centro histórico de Pelotas. O arquiteto José Torriere projetou a nova estrutura com detalhes ligados às artes cênicas, como máscaras, violas, liras e um tarol esculpidos em cimento. A fachada passou a ostentar um arco com o nome “Theatro Sete de Abril” e as datas de 1834 (inauguração do teatro) e 1916 (reforma da fachada), além de três vitrôs com as cores das bandeiras do Brasil e do Rio Grande do Sul. Na reinauguração, após oito meses de fechamento, a companhia lírica italiana Rotoli-Biloro realizou uma apresentação prestigiada pela elite local e por figuras políticas influentes, incluindo o Coronel Pedro Osório, cujo nome seria posteriormente atribuído à praça em frente ao teatro.

Entretanto, essa não foi a primeira reforma do Sete de Abril. Em 1853, apenas 19 anos após sua abertura, o teatro foi fechado temporariamente para reparos no telhado. A primeira grande reforma ocorreu entre 1870 e 1872, quando a madeira da fachada foi substituída por ferro e uma nova pintura foi aplicada.

Em 1927, o teatro esteve ameaçado de demolição devido à crescente especulação imobiliária. O historiador Paulo Duval liderou um movimento de preservação e, em 11 de julho de 1972, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o prédio, garantindo sua preservação. No mesmo ano, o teatro foi ampliado com a anexação de um terreno na Rua XV de Novembro.

Em 1983, uma nova grande reforma ocorreu com a campanha “Sete de Abril Outra Vez”. Durante as obras, o teatro permaneceu aberto para visitação e exposições. A restauração incluiu reparos na alvenaria, assoalhos, forros, escadas e a impermeabilização do fosso da orquestra. Em 1998, revitalizações foram realizadas no interior do teatro.

No entanto, em março de 2010, problemas no telhado levaram a uma nova interdição. O que parecia ser uma reforma temporária se arrasta até os dias de hoje, mantendo o Theatro Sete de Abril fechado por mais de 15 anos.

Primeira fachada do teatro, em 1875. Foto retirada do livro Sete de Abril o teatro do imperador

 

Fachada atual do teatro. Foto: Arthur Veiras

“O Sete está sendo fechado”: O que acontecia no edifício antes da interdição

Posters de divulgação de apresentações encontrados no Acervo do memorial Theatro Sete de Abril. Foto: Arthur Veiras

No dia 15 de março de 2010, Cátia Amaral, então funcionária do teatro, recebeu uma ligação do secretário em exercício:

— Cátia, avise seus colegas para pegarem seus pertences e evacuarem o Sete de Abril. O teatro está sendo interditado.

Embora os problemas no telhado fossem conhecidos, a notícia pegou a todos de surpresa. O choque se espalhou entre os funcionários, e o clima de tristeza tomou conta do teatro naquela segunda-feira.

Na época, o Theatro Sete de Abril era o mais antigo em funcionamento no estado e um dos mais antigos do Brasil. Ninguém imaginava que, mais de 15 anos depois, ele permaneceria fechado. Os jornais anunciavam que a situação se resolveria em breve, mas os anos passaram, e a reabertura nunca aconteceu. Em 2014, com a conclusão da primeira fase da obra, havia expectativa de que as portas do Sete fossem reabertas em 2015. Enquanto esteve ativo, o teatro recebeu grandes artistas, tanto de Pelotas quanto do cenário nacional e internacional, reafirmando sua importância para a cultura brasileira.

Os anos 1990 foram especialmente marcantes para a história do Sete de Abril. Fernanda Torres, Renata Sorrah, Miguel Falabella, Marisa Orth, Aracy Balabanian, Regina Duarte, Marília Pera e Fernanda Montenegro estão entre os nomes que subiram ao seu palco, muitos deles trazidos pela Fundação Sete de Abril, que tinha como objetivo promover um espetáculo nacional por mês no teatro.

A música também teve seu espaço no Sete. Ícones como Chico Buarque, Cássia Eller, Adriana Calcanhotto e Stanley Jordan fizeram apresentações memoráveis, deixando sua marca na história do teatro.

Recados encontrados no livro de recados do Sete, presente no Acervo do memorial Theatro Sete de Abril. Dentre eles, uma mensagem deixada pela cantora Cássia Eller. Foto: Arthur Veiras

O Sete também abrigava a arte pelotense em seu interior. O TEP (Teatro Escola de Pelotas) fundado em 1914 se apresentou inúmeras vezes no teatro. O grupo Tholl, um dos maiores grupos circenses do Brasil, surgiu no palco do Sete de Abril.

Requisitado constantemente pelos artistas pelotenses, o Sete estava sempre com a agenda cheia. Na quarta-feira, 17 de março de 2010, o teatro voltaria a receber o público após um breve recesso de início de ano. Conforme conta Ana Lúcia Alt, funcionária do teatro de 2005 até 2021, comunicar a notícia da interdição aos artistas e produtores não foi nada fácil. O produtor do espetáculo programado para quarta-feira ficou visivelmente nervoso e foi necessário que os funcionários o auxiliassem para ele se acalmar.

O último espetáculo no Theatro Sete de Abril foi Exotique, do grupo Tholl. A última vez em que a plateia lotou a plateia foi em 2009.

Plateia do teatro cheia antes de sua interdição. Foto: arquivo pessoal Ana Lúcia Alt

Plateia do teatro atualmente. Foto: Beatriz Alt

Uma Pelotas sem o Sete: iniciativas ligadas ao teatro

Desde 2010, diversas iniciativas e projetos foram criados ou ganharam força com o objetivo de manter viva a memória do teatro e pressionar pela rápida reabertura do Sete.

AMASETE (Associação dos Amigos do Theatro Sete de Abril)

O Theatro Sete de Abril sempre foi um espaço cultural de grande importância para Pelotas. Artistas e público lotavam suas dependências nos dias de espetáculo, transformando-o em um verdadeiro templo da arte. Com sua interdição, os amantes da cultura da cidade se mobilizaram para manter viva a presença simbólica do Sete, mesmo fechado.

Em 2012, por iniciativa de Haroldo de Campos (atual presidente da associação), surgiu a AMASETE (Associação dos Amigos do Theatro Sete de Abril). O movimento reuniu representantes da dança, teatro e música, além de integrantes da Secretaria de Cultura (SECULT), com o propósito de resgatar a memória do teatro e reforçar a reivindicação por sua reabertura.

A Biblioteca Pública Pelotense apoiou a iniciativa, cedendo espaço para as reuniões. Durante três meses, os participantes se encontraram periodicamente para elaborar o estatuto da associação. O lançamento oficial ocorreu em um evento público na própria biblioteca, marcado por apresentações artísticas.

O primeiro grande projeto da AMASETE foi o Aplauso Fora do Sete, um evento realizado na esplanada do teatro. A iniciativa contou com grande adesão da população pelotense, que ocupou a rua em 7 de abril de 2013 para prestigiar apresentações culturais e reforçar a importância do Sete para a cidade.

Evento Aplauso Fora do Sete, ocorrido em 07/04/2013. Foto: arquivo pessoal Ana Lúcia Alt

A AMASETE completará 12 anos no ano de 2025, e nesses anos diversas iniciativas em prol do Sete foram realizadas. O espetáculo Arte Fora do Sete, uma peça que remonta a história do Sete de Abril de forma descontraída, foi exibido na cidade de Pelotas e Jaguarão. Exposições e mostras culturais, manifestações pela volta do Sete, cortejos culturais e o Aplauso Fora do Sete são alguns dos eventos que a associação realiza.

Memorial

Memorial do teatro, quando era aberto ao público. Foto: Reprodução/Divulgação

Em 1923, o teatro se expandiu ainda mais com a anexação de um terreno localizado na Rua XV de Novembro. Anos mais tarde, esse local passou a abrigar o Memorial do Theatro Sete de Abril, um acervo histórico que reúne fotos, pôsteres, registros de jornais, livros com assinaturas e diversos materiais que contam a história do teatro desde sua fundação.

De 2010 a 2019, o memorial funcionou como um espaço para relembrar o Sete de Abril e apresentar sua trajetória a novas gerações. Além do acervo permanente, o local também recebeu diversas exposições ao longo dos anos.

Em 2019, com o início de uma nova fase de restauração do teatro, o acervo histórico foi transferido para o Casarão 6, sem acesso ao público, e permanece assim desde então. Até o momento, não há previsão para a reabertura do memorial.

Sete ao Entardecer

Criado antes da interdição do teatro, o Sete ao Entardecer continuou acontecendo mesmo após o fechamento do espaço. O projeto oferecia um palco para apresentações de artistas locais e sempre atraía um grande público dentro do Sete.

A partir de 2011, outras locações da cidade passaram a abrigar a iniciativa, como a Fábrica Cultural, o Mercado Público e a esplanada do teatro, mantendo vivo o espírito do Sete de Abril.

O último Sete ao Entardecer presencial ocorreu em 2020. Em 2021, devido à pandemia, o evento foi realizado online. Em contato com a Secretaria de Cultura, a atual secretária, Carmen Vera Roig, afirmou que deseja retomar esse e outros projetos culturais que aconteciam no entorno do teatro, como o 277, evento realizado todas as segundas-feiras às 19h no Sete.

Sete ao Entardecer, realizado em frente ao teatro em 2014. Foto: arquivo pessoal Ana Lúcia Alt

Situação atual do Theatro Sete de Abril

Secretária de Cultura de Pelotas, Carmen Vera Roig, durante entrevista. Foto: Arthur Veiras

Em dezembro de 2024, a então prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, fez uma transmissão ao vivo em suas redes sociais, direto do teatro, para explicar por que não foi possível reabrir o Sete de Abril. “Talvez essa seja uma das maiores frustrações que eu leve”, comentou Paula, referindo-se ao fato de não ter conseguido entregar o teatro pronto antes do fim de seu mandato.

Na mesma ocasião, a ex-prefeita mencionou seu desejo de realizar o rito de passagem do cargo para o atual prefeito, Fernando Marroni, dentro do teatro. No entanto, isso não foi possível. Ao assumir a prefeitura, Marroni fez uma visita técnica ao local e informou à imprensa que ainda havia muitas demandas a serem atendidas antes de uma abertura oficial.

Para esta reportagem, conversamos com a secretária de Cultura de Pelotas, Carmen Vera Roig, e perguntamos por que a nova gestão anunciou que o teatro ainda precisava de várias reformas, contrariando o discurso anterior de que o Sete estava “quase pronto”. A secretária afirmou que Paula Mascarenhas estava sendo muito otimista e que, provavelmente, a transição de governo teria sido apenas uma abertura simbólica, não oficial.

Carmen também apontou atrasos no cronograma como possíveis causas da frustração da ex-prefeita. “As cadeiras da plateia estavam previstas para chegar em novembro do ano passado, mas isso não aconteceu. Só chegaram agora”, comentou.

Sobre os planos da pasta para o teatro, a secretária garantiu: “Nosso objetivo maior é abrir o teatro o mais rápido possível, e toda a secretaria está focada nisso.” No entanto, ela destacou que obstáculos jurídicos, burocráticos e financeiros ainda atrasam a reabertura. Além disso, problemas estruturais prolongam a espera pelo Sete, como os frequentes furtos dos fios do sistema elétrico do teatro. Apesar dos desafios, Carmen reforçou que sua equipe está totalmente mobilizada para concluir as obras e reabrir o espaço.

O que podemos esperar?

Interior do Theatro Sete de Abril atualmente. Foto: Arthur Veiras

Visitamos as instalações do Theatro Sete de Abril. O interior do teatro, assim como em toda sua história, está muito bonito. O local está visivelmente em obras. As cadeiras que chegaram para preencher o salão do Sete estavam em cima do palco, esperando para serem realocadas aos seus devidos lugares. O lustre histórico do teatro também está lá, envolvido em plástico bolha, esperando para sua instalação.

Vista de cima da situação atual do Theatro Sete de Abril. Foto: Beatriz Alt

O prefeito, Fernando Marroni, junto da secretária de cultura Carmen Vera Roig, no Theatro Sete de Abril. Foto: Beatriz Alt

O sentimento no teatro, assim como o da secretária, é de esperança—esperança de ver o povo pelotense novamente enchendo aquele espaço repleto de história. Durante nossa visita, a vontade de ver o Sete vivo, com apresentações e pulsando cultura, só aumentava. No local, encontramos o prefeito Fernando Marroni, que também parecia confiante quanto ao futuro do teatro. Ainda há muito a ser feito, mas a reabertura do Theatro Sete de Abril parece mais próxima do que nunca. Apesar da falta de uma data definida, a principal sensação que o espaço transmite é, mais uma vez, esperança.