Por Adilson Camargo Pereira e João Jorge Santos/Reportagem em Curso

Chegou ao fim o primeiro verão após a enchente de 2024 e, como em todos os verões, o Laranjal serviu como refúgio para os pelotenses e turistas, protegendo-os das temperaturas extremas registradas nesta estação. Quem visitou o balneário pela primeira vez talvez não imagine como ele estava em maio do ano passado, quando quase 95% dos municípios do Rio Grande do Sul foram afetados pelas enchentes que ceifaram 183 vidas. O cenário foi devastador, com casas alagadas e famílias destroçadas, e até o Trapiche do Laranjal, principal cartão-postal do bairro, foi completamente destruído.

Felizmente, a recuperação foi gradual, e até um novo trapiche foi construído. No entanto, o movimento de turistas nas tardes e noites quentes, passeando pelo calçadão, bares e quiosques, esconde a preocupação dos moradores e empresários da região.

A matéria do site Reportagem em Curso foi até o local conversar com moradores, comerciantes e autoridades para entender as visões e expectativas deste primeiro verão após a catástrofe cujas consequências ainda são sentidas.

Balneabilidade em alta

Após várias semanas com águas impróprias para o banho, o balneário voltou a proporcionar alegria para moradores e turistas. Segundo dados da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luís Roessler (FEPAM), as águas do Laranjal estiveram próprias para o banho por duas semanas consecutivas. No dia 7 de fevereiro, todos os 8 pontos analisados estavam liberados pelo órgão, algo inédito nesta temporada, e esse resultado se repetiu na semana seguinte.

Para alcançar esse resultado, foi necessário um monitoramento contínuo de cinco semanas. A classificação de “próprio” ou “impróprio” para o banho leva em consideração a análise microbiológica de bactérias como Escherichia coli e cianobactérias. A Escherichia coli é encontrada no intestino de pessoas e animais de sangue quente, sendo que, em grandes quantidades, pode causar diarreia e náuseas. Já as cianobactérias, organismos produtores de toxinas como hepatotoxinas, neurotoxinas e dermatotoxinas, podem causar intoxicações agudas ou crônicas.

Se, durante o monitoramento, duas ou mais amostras do local apresentarem valores superiores a 800 células/ml para Escherichia coli, ou se a contagem de cianobactérias ultrapassar 50.000 células, o ponto será classificado como impróprio. A FEPAM realiza esse levantamento desde 1979 nos balneários do Rio Grande do Sul.

Com a balneabilidade em alta, o Circuito Verão Sesc de Esportes contribuiu ainda mais para as atividades da comunidade, oferecendo competições e atividades como beach tênis, futevôlei, caminhadas e rústicas. Além disso, a Operação Verão Total do Governo do Estado trouxe serviços essenciais para garantir segurança, bem-estar e diversão aos veranistas. O vice-governador Gabriel Souza, que estava como governador em exercício, também esteve presente, elogiando a praia e afirmando que, embora morasse em Tramandaí, no Litoral Norte, nunca havia visitado as praias da Zona Sul do Estado.

Olhares diferentes à temporada

“Estou aqui há 9 anos e nunca teve um verão tão ruim.” – Luciana Rodrigues

Luciana Rodrigues é proprietária do Mercado Beira Mar, localizado próximo ao Shopping Mar de Dentro, área que foi severamente inundada. Ela relata que este foi o pior verão em termos de vendas, e acredita que isso seja reflexo das enchentes ou da falta de recursos das pessoas.

Luciana Rodrigues, proprietária do Mercado Beira Mar. Foto: Adilson Camargo Pereira

Desde a enchente, o movimento tem diminuído. Durante a catástrofe, ela permaneceu na casa acima do mercado, com um gerador, e seus produtos serviram de alimento durante os 40 dias em que a água subiu 50 cm em seu estabelecimento. A ajuda governamental não foi suficiente para cobrir todos os prejuízos. Apesar de tudo, Luciana acredita que não ocorrerá mais outro evento climático de proporções tão grandes.

Luciana mostra até onde foi a água durante a enchente de 2024. Foto: Adilson Camargo Pereira

O casal de aposentados Leonor e Rui Oliveira, que moram a 1 km da orla, também relata que a temporada está boa, mas a maioria dos frequentadores é de moradores da praia. Mesmo que a água da enchente não tenha alcançado sua casa, o casal optou por evacuar e ficar 17 dias fora, pois estavam muito próximos do limite da cheia. Eles também afirmam que muitos moradores não abriram suas casas, que foram tomadas pela água, pois têm outro local para morar.

Outras formas de adaptação

A jovem Laura Batista trabalha na Pontal Pastelaria, na esquina da Avenida Rio Grande do Sul com a orla, e afirma que os verões estão ficando cada vez mais curtos, com calor intenso por períodos curtos, o que torna a sensação insuportável para as pessoas, que preferem ficar em casa com ar-condicionado. Além disso, a chuva de verão em grande intensidade afetou o estabelecimento. Laura também contou que sua família tem outra unidade no Pontal da Barra, que será fechada devido à falta de expectativas, já que o local ainda está devastado e muitos vizinhos não receberam o auxílio de R$ 5.000,00 para reconstrução de suas casas, prometido pelos governos municipal e federal. Para se manter, a família planeja abrir uma unidade no centro da cidade na baixa temporada e migrou para plataformas online na tentativa de aumentar a clientela.

Imóveis

No interior do bairro, muitas casas foram colocadas à venda, mas a procura por imóveis nas regiões inundadas diminuiu, o que gerou desvalorização. Segundo a consultora de imóveis Ane Lamonato, essa diminuição foi notada nos primeiros três meses após a enchente, pois muitos moradores preferiram trocar suas casas por apartamentos, que ficam em locais mais altos. No entanto, ela acredita que o mercado esteja se normalizando. “Apareceram várias pessoas querendo vender suas casas mais internas e investir em apartamentos. Aqui (na Orla) não chegou a entrar água”, disse.

Foto: Adilson Camargo Pereira

Muitas casas de aluguel continuam vazias e os proprietários temem não conseguir alugá-las após o veraneio. Alguns empresários mudaram de endereço. Uma empresa de internet, por exemplo, trocou o Balneário Valverde (zona inundada) por um ponto mais alto, onde agora paga aluguel. Ainda no Valverde, o Armazém Colonial, um dos comércios mais tradicionais do Laranjal, também se transferiu para uma área mais afastada, deixando um grande vazio na região.

Futuro incerto

De acordo com o climatologista Francisco Eliseu Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), enchentes como a de maio de 2024 podem ocorrer novamente em 30 anos, com base em alertas de expedições à Antártica. Questionado sobre as estratégias que Pelotas tem para lidar com uma eventual catástrofe climática, o secretário municipal da Defesa Civil, Milton Martins, revelou que a cidade não está preparada para uma nova inundação, mas que há projetos em andamento. Segundo ele, estão em licitação projetos para a proteção da Colônia Z3 até o Pontal da Barra, com diques, casas de bombas e realocação de moradores para áreas mais altas, além de outros projetos na cidade. Milton ainda afirmou que eventos como este são cíclicos, com base em análises dos últimos 100 a 200 anos, e espera que o mês de maio não traga novas dificuldades para os gaúchos, já que, historicamente, o Estado sofre com secas nesse período.