O eu: entre o autorretrato e a selfie


 

25/jan _ abr/2020

A selfie, como fenômeno social da contemporaneidade, parece tensionar as ideias tradicionais sobre a construção do eu. Em busca de narrativas próprias que respondam a tempos marcados pela imediatez, estas fotografias auto-tomadas e socializadas, tem se convertido, assim, no signo mais contundente de nosso tempo criando relatos – próprios das redes sociais virtuais – numa espécie de euforia coletiva em que se tornam públicos os mais banais atos de nossa cotidianidade. Uma representação, nas esferas virtuais, de quem busca agradar: quem se expõe e é observado, quem observa e comenta, aquele que gosta e compartilha, aquele que segue e é seguido.

Essas narrativas, comumente alteradas, almejam a construção de um ideal de beleza – organicamente globalizado – em todos os sentidos da existência. Uma vida ‘curada’ que faz referência a nossa própria imagem como espelhamento, como objeto de uma construção coletiva, de um self ilusório que nos afasta daquilo que Nietzsche se referia como o “feio”, daquilo que é nossa própria decadência.

As artes visuais participam e tem participado ao longo da história destes jogos de construção do eu. Tradicionalmente, através da pintura e da escultura, o autorretrato demanda tempo e reflexão para construção da imagem do artista. Contemporaneamente inclui múltiplos e diferentes recursos, dando conta de sua época através de meios e práticas que coexistem e convergem. Se o autorretrato parece estar restrito aos espaços privados ou àqueles próprios da arte, a selfie, devido sua virtualidade e sua imediata e massiva acessibilidade, coloca em questão meios e espaços de representação. Em um mundo cada vez mais ‘democratizado’ pode considerar-se a selfie arte?

texto _ Dr. Edward Pérez-González
Montréal, janeiro de 2020

curadoria _ LACMALG | Laboratório de curadoria do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo