PRÓXIMO ENCONTRO – 07 DE MAIO DE 2026

Como os órgãos estatais identificam os casos de suicídio
Prof. Flávio Luís Farias Garcias
Cientista social (UFPel) • Pesquisador
Experiência em segurança pública e educação
📅 07 de maio
⏰ 20h
💻 Encontro online:
webconf.ufpel.edu.br/b/ale-cf2-si3-mcw
A produção da morte como objeto de saber
Para nosso primeiro Encontro Lysis desse mês de maio de 2026, não é a morte, em si, o objeto de nosso interesse propriamente, mas aquilo que dela se faz quando ela, autoinfligida, atravessa os dispositivos do Estado. Atentemo-nos a isso: entre o acontecimento e o registro, instaura-se uma série de práticas: nomear, classificar, descrever, arquivar. Não se trata apenas de reconhecer um fato, portanto, mas de produzi-lo como objeto de saber. O suicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a uma definição possível e nem sequer à verificação de um ato; o suicídio é o resultado de uma operação que o torna visível ou o dissolve nas malhas institucionais.
Boletins de ocorrência, laudos periciais, atestados de óbito: cada um desses elementos participa de uma economia do verdadeiro. Eles não apenas dizem o que ocorreu, mas delimitam o campo do que pode ser dito. E é nesse ponto que a questão que nos ocupará no próximo Encontro Lysis se desloca: quais são as condições que permitem que uma morte seja dita como suicídio?
O que se observa, contudo, é uma zona de instabilidade. Entre o acidente e a intenção, entre o silêncio familiar e a investigação incompleta, multiplicam-se deslocamentos e reclassificações. Esses movimentos integram o próprio funcionamento do processo. Há mortes que não chegam a ser nomeadas; outras são absorvidas por categorias mais aceitáveis, mais administráveis.
Assim, o problema não é apenas a subnotificação, mas o próprio regime de produção desses dados. Um regime no qual saber e poder se articulam para organizar, distribuir e, em última instância, limitar o que pode aparecer como realidade. Interrogar o suicídio, nesse caso, é interrogar essas práticas. E isso com vistas a compreender como certas verdades se tornam possíveis e outras, impossíveis.
É nesse campo que se inscreve nosso encontro com o professor Flávio Garcias, cientista social formado pela UFPel, pesquisador do fenômeno do suicídio e profissional com experiência na segurança pública e na educação. O professor Flávio não possui uma trajetória que se organiza apenas no interior da universidade, mas atravessa práticas institucionais concretas — o atendimento de ocorrências, a investigação de mortes, o contato direto com os dispositivos que registram e classificam a vida e a morte. É a partir dessa posição, simultaneamente analítica e prática, que seu trabalho se constitui. Sua pesquisa examina os procedimentos pelos quais órgãos estatais identificam e registram os casos de suicídio, evidenciando as falhas, omissões e deslocamentos que marcam esse processo. Ao fazê-lo, não apenas questiona a confiabilidade dos dados, mas expõe os mecanismos pelos quais determinadas mortes são reconhecidas como tais, enquanto outras permanecem dissolvidas em categorias mais aceitáveis ou menos problemáticas.
PRÓXIMO ENCONTRO — 09 DE ABRIL DE 2026

Tema: A crítica durkheimiana aos alienistas e a invenção do suicídio como problema sociológico
No primeiro capítulo de Le Suicide, Émile Durkheim não começa por afirmar suateoria, mas por preparar cuidadosamente o terreno em que ela poderá emergir. Seu ponto de partida é estratégico: trata-se de recusar o entendimento dominante de sua época sobre o suicídio. Antes de defini-lo como fato social, portanto, Durkheim enfrenta uma tese central no século XIX, sustentada por alienistas como Jean-Étienne Dominique Esquirol e Étienne-Jean Georget, segundo a qual todo suicídio seria, em essência, expressão de loucura.
Esse movimento é decisivo. E é ele que nos interessa nesse momento.
Ao desmontar essa interpretação, Durkheim não apenas contesta uma teoria médica: ele disputa o próprio direito de definir o fenômeno. Ao examinar as classificações psiquiátricas, revela sua instabilidade, a confusão entre sintomas, causas e formas, e sua incapacidade de explicar o que há de mais perturbador: a regularidade das taxas de suicídio nas sociedades.
Se o suicídio fosse apenas efeito de estados patológicos individuais, sua distribuição deveria acompanhar, ao menos de forma aproximada, a da alienação mental. No entanto, é precisamente isso que não se verifica: enquanto a incidência de doenças mentais não apresenta variações proporcionais entre sociedades, as taxas de suicídio revelam regularidades próprias e diferenças consistentes segundo o contexto social.
É a partir dessa fissura que se abre uma nova possibilidade de pensamento. O suicídio deixa de ser compreendido exclusivamente como drama individual e passa a ser interrogado como fato social. Mas esse deslocamento não ocorre sem tensão. Ao escapar da redução psicopatológica, o fenômeno corre o risco inverso: dissolver-se na abstração estatística. Entre o sintoma individual e a taxa coletiva, o que resta da experiência singular?
É essa ambivalência entre crítica, ruptura e fundação que orientará nossa discussão.
Neste encontro, exploraremos como, no confronto com os alienistas, Durkheim não apenas critica uma tradição, mas inaugura um novo regime de inteligibilidade do suicídio.
Convidamos você para essa conversa.
09 de abril
Sala 106 — Prédio de Gestão Ambiental, às 17h.
Lobo da Costa com Barroso, Centro, Pelotas
PRÓXIMO ENCONTRO:
O próximo encontro do Lysis recebe o psicólogo Victor Portavales, doutor em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisador da tradição fenomenológico-existencial e autor do livro Sobre a Experiência Onírica de um Suicida Hermético (Edições IFEN, 2024).
Partindo de um relato pessoal de uma tentativa de suicídio, o autor propõe uma investigação filosófica e psicológica sobre a morte voluntária. A obra revisita criticamente as narrativas dominantes sobre o suicídio no campo das ciências e dialoga com a fenomenologia existencial e com a filosofia de Martin Heidegger, especialmente com suas reflexões sobre a técnica moderna e o esquecimento do ser. No percurso da análise, o autor retoma também a tradição da daseinsanálise, discutindo os limites das interpretações clássicas do suicídio em Ludwig Binswanger, particularmente no célebre caso de Ellen West. A investigação culmina em uma reflexão singular sobre o silêncio daquele que decide encerrar a própria vida sem comunicar seu intento, abrindo espaço para um diálogo entre psicologia, fenomenologia e literatura.
Trata-se de uma reflexão rara: uma investigação filosófica e clínica que emerge de uma experiência limite e que questiona as categorias estabelecidas pelas ciências contemporâneas sobre o suicídio. O livro é maravilhoso e altamente recomendado. Ele pode ser encontrado aqui: https://www.edicoesifen.com.br/sobre-a-experiencia-onirica-de-um-suicida-hermetico
O encontro será online!
Diferentemente dos encontros presenciais, esta sessão será online, permitindo a participação de todos os interessados — inclusive aqueles que não residem em Pelotas.
📅 19 de março
🕗 20h
💻 Acesso:
https://webconf.ufpel.edu.br/b/ale-cf2-si3-mcw
A participação é gratuita e aberta a todos os interessados nas relações entre filosofia, psicologia fenomenológica e o problema da morte voluntária.
Quem é Victor Portavales?
Victor Portavales Silva é psicólogo, pesquisador e professor brasileiro, com atuação nas áreas de psicologia social, fenomenologia hermenêutica e psicologia fenomenológico-existencial. Graduou-se em Psicologia (Bacharelado e formação de Psicólogo) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2014. Concluiu o Mestrado (2019) e o Doutorado (2022) em Psicologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da mesma universidade, sob orientação de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo. Em 2023 realizou estágio de pós-doutorado também na UERJ.
Sua formação clínica inclui especialização em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Fenomenológico‑Existencial do Rio de Janeiro (IFEN), concluída em 2018. Desde então atua como psicólogo clínico em consultório particular, trabalhando a partir da perspectiva fenomenológico-existencial e dialogando com a tradição da daseinsanálise.
Entre 2024 e 2025 foi professor do curso de graduação em Psicologia da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), onde ministrou disciplinas como Teorias Existenciais, Humanistas e Fenomenológicas, Psicologia Institucional e Comunitária, Psicologia do Desenvolvimento: Infância e Psicologia em Situações de Desastres e Emergências, além de supervisionar estágios e atividades de formação clínica.
Sua produção acadêmica concentra-se na investigação fenomenológico-hermenêutica da experiência humana, com especial atenção aos temas do suicídio, da clínica existencial e da história da psicologia. É autor do livro Sobre a Experiência Onírica de um Suicida Hermético (2024), obra derivada de sua pesquisa de doutorado, na qual explora a experiência do suicídio a partir de testemunhos e de uma interpretação fenomenológica do silêncio daquele que decide pela própria morte. Esta obra será objeto do encontro no dia 19 de março.
Além de artigos e capítulos de livros publicados em periódicos e coletâneas nacionais e internacionais, atua como parecerista de revistas científicas da área de psicologia e ciências humanas. Suas pesquisas dialogam com a tradição fenomenológica e existencial, especialmente com autores como Martin Heidegger e Ludwig Binswanger, buscando compreender os limites das interpretações psicológicas tradicionais diante das experiências humanas extremas.
Desde 2025, Victor é membro do Lysis.
PRÓXIMO ENCONTRO:
Discutiremos duas cartas do romance de Jean-Jacques Rousseau, Júlia – A nova Heloisa, Cartas XXI e XXII da Parte III da obra. Será no dia 05 de março, 17h, no prédio do curso de Gestão Ambiental, sala 106.
PRÓXIMO ENCONTRO:
O Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Suicídio e Modos de Vida convida a comunidade acadêmica e o público em geral para o próximo encontro de sua série de debates, que desta vez receberá o palestrante Lucas Spessatto, advogado criminalista, professor de Direito Penal e Processual Penal, mestre em Direito pela FMP, especialista em Ciências Criminais pela PUCRS e autor de diversos escritos na área de direito. A palestra deste encontro tem como título “Tânatos, Zoé e Biós: o tratamento jurídico-penal dos cuidados paliativos, eutanásia, ortotanásia e distanásia”.
Na conferência, serão exploradas as tensões éticas, jurídicas e políticas que atravessam os cuidados de fim de vida no sistema penal brasileiro. A proposta é abrir espaço para reflexão crítica sobre os limites do agir médico, a autonomia do paciente e a resposta penal diante de processos de morrer que desafiam categorias tradicionais do Direito. Esta edição dos Encontros Lysis será online pela plataforma webconf e será aberta a toda a comunidade. O evento ocorre dia 11 de dezembro às 20h.
Portanto, encontro dia 11 de dezembro de 2025, 20h, no LINK: https://webconf.ufpel.edu.br/b/ale-cf2-si3-mcw
PRÓXIMO ENCONTRO:
Encontro: dia 27 de novembro, às 17h, sala 106 do prédio do curso de Gestão Ambiental
Rua Almirante Barroso, 1734, prédio do antigo DNOS, no bairro do Centro, em Pelotas, RS. Com entrada pela rua Rua Lobo da Costa.
Publicamos, há pouco, aqui no site, o artigo: “O Direito a uma Morte Digna, Notícias da carta de Paul Lafargue, Algumas questões para pensarmos juntos e a Lucidez de Flávio Migliaccio” que norteia as discussões que faremos no dia 27.
A ideia é discutir e relacionar dois assuntos distintos, que se entrecruzam: o direito ao suicídio assistido e/ou à eutanásia voluntária, e o suicídio entre idosos.
Como motivação para nossa conversa, duas cartas serão lidas e discutidas, a de Paul Lafargue e a de Flávio Migliaccio, citadas no artigo, mas que deixo também aqui para uma leitura direta:
Paul Lafargue:
Sãos de corpo e mente, estou me matando diante da velhice impiedosa que está me roubando, um a um, os prazeres e alegrias da existência e me despojando de minha força física e intelectual, paralisando minha energia, quebrando minha vontade e me tornando um fardo para mim mesmo e para os outros. Por anos, prometi a mim mesmo não viver além dos 70 anos, marquei a época do ano para minha partida desta vida e preparei o método de execução da minha resolução: uma injeção hipodérmica de ácido cianídrico.” Morro com a suprema alegria de saber que, em breve, a causa à qual me dediquei por 45 anos triunfará. Viva o comunismo, viva o socialismo internacional!
Flávio Migliaccio:
“Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora… num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças.”
PRÓXIMO ENCONTRO:
Encontro 13 de novembro, às 17h, sala 106 do prédio do curso de Gestão Ambiental
Rua Almirante Barroso, 1734, prédio do antigo DNOS, no bairro do Centro, em Pelotas, RS. Com entrada pela rua Rua Lobo da Costa.
Entre 2015 e 2023, as taxas de mortalidade por suicídio no Rio Grande do Sul aumentaram 47,7%, passando de 10,88 para 16,07 óbitos por 100 mil habitantes — o maior valor da série histórica.
Somente em 2024, já foram 1.528 mortes, das quais 78,86% são de homens.
O risco cresce com a idade, alcançando o ápice entre os idosos acima de 80 anos, com 49,69 mortes por 100 mil habitantes — uma das mais altas taxas registradas.
Ainda que os números pareçam interromper sua escalada, o boletim alerta: o sistema segue em atualização, e o quadro permanece grave.
Números apenas dão pistas. Ajudam, certamente, a pensar políticas públicas e ajudam a pensarmos uma dimensão do espaço, em suas dimensões. Mas são vidas interrompidas, histórias inacabadas, e nos desafiam a pensar o que significa existir, desejar e resistir em meio ao desamparo contemporâneo.
O LISYS convida para o próximo encontro, em que retomaremos o debate sobre a experiência do limite: entre vida, morte e sentido, entre a escuta e a pesquisa, entre o dado e o indizível. Vamos, assim, juntos, analisar o Boletim Epidemiológico do RS publicado no último setembro:
BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO RS
Nosso encontro é um espaço para pensar o sofrimento não como estatística, mas como interrogação ética.
📅 Data: 13 de novembro
🕔 Horário: 17h
🏛️ Local: Sala 106
Venha participar.
Traga sua escuta, sua presença e suas perguntas e nos ajude a ler esse documento.
PRÓXIMO ENCONTRO:

O LYSIS – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Suicídio e Modos de Vida (UFPel) convida para o próximo Encontro LYSIS, que contará com a participação da psicóloga Jalane Moura Maia Bezerra.
A palestra, intitulada “Ser sobrevivente enlutada por suicídio e os desafios de trabalhar com esse tipo de morte”, abordará experiências de luto por suicídio e estratégias de atuação profissional diante desse tipo de situação.
O encontro acontecerá no dia 29 de outubro de 2025, às 20h, pela Plataforma Webconf – https://webconf.ufpel.edu.br/b/ale-cf2-si3-mcw. O Evento é gratuito e aberto à comunidade, e os participantes receberão certificado.
Sobre a convidada
Jalane Moura Maia Bezerra é Psicóloga Clínica e Escolar (UFBA), especialista em Psicossomática (IJBA) e mestre em Extensão Rural (UNIVASF), com pesquisa em prevenção do suicídio entre adolescentes rurais. É pós-graduada em intervenção na autolesão, prevenção e posvenção do suicídio pelo Instituto Vita Alere, do qual também é membro. Atua nas áreas de educação, saúde mental e prevenção ao suicídio, e é escritora e poeta nas horas vagas.
Leitura complementar
Antes do encontro, o LYSIS convida o público a ler a carta escrita por Jalane Moura Maia Bezerra, intitulada Uma Carta de Amor: onde psicólogos choram, as flores têm espinhos e a vida se refaz . Publicada originalmente em livro pelo Instituto Vita Alere (2019), a carta é um testemunho sensível no qual Jalane compartilha sua experiência de luto diante de uma perda familiar trágica, transformando a dor em reflexão, delicadeza e compromisso ético com o cuidado. É um texto comovente, em que vida e trabalho se entrelaçam na busca por compreender e acolher o sofrimento humano.
PRÓXIMO ENCONTRO:
QUANDO: DIA 16 DE OUTUBRO, 17H.
TEMA: David Hume contra os preconceitos acerca do suicídio.
Texto em debate: David Hume, “Do Suicídio” (Of Suicide), escrito em 1755, mas só publicado postumamente em 1783, porque seu conteúdo era considerado escandaloso e herético para a época. Nele, o filósofo escocês enfrenta diretamente os argumentos religiosos e morais contra o suicídio, perguntando:
É realmente uma ofensa contra Deus abreviar a própria vida?
Devemos algo à sociedade a ponto de sermos obrigados a viver contra a vontade?
Pode a vida perder todo o valor a ponto de o morrer ser mais racional que o viver?
Leia a tradução da professora Lívia Guimarães (UFMG) aqui: HUME SOBRE O SUICÍDIO
Texto em inglês: ofsuicide
Minha própria tradução (originalmente feita para o Livro 2 da História do Suicídio, mas que agora pertence ao LYSIS): TRADUÇÃO DE HUME PARA O LYSIS
TODOS SÃO BENVINDOS. Velhos integrantes e quem desejar se juntar a nós (O projeto Lysis é certificado pelo CNPQ).
PRÓXIMO ENCONTRO:
Costume da Ilha de Quiós, de Michel de Montaigne.
Dia 21 de agosto, quinta, às 20h.
ink para o encontro: https://webconf.ufpel.edu.br/b/ale-cf2-si3-mcw
PARA LER O TEXTO, clique aqui: costume da ilha de quiós
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