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A crítica durkheimiana aos alienistas e a invenção do suicídio como problema sociológico

O primeiro capítulo de Le Suicide, que será tema do encontro do Lysis no dia 09 de abril de 2026, não inaugura a sociologia do suicídio de modo afirmativo, mas negativo: ele começa por uma recusa absolutamente interessante e profocativa. Antes de definir o suicídio como fato social, Émile Durkheim dedica-se a desmontar a evidência aparentemente incontornável de sua época: a tese, sustentada pelos alienistas franceses, de que todo suicídio é, por essência, um fenômeno de loucura. Esse movimento inicial é profundamente estratégico. Trata-se de disputar o direito de dizer o que é o suicídio.

A medicina mental do século XIX, representada por figuras como Jean-Étienne Dominique Esquirol e Étienne-Jean Georget, entre tantos outros, havia consolidado uma interpretação que reduzia o suicídio a uma manifestação da alienação. Mesmo quando admitiam formas “parciais” ou “momentâneas” de loucura, esses autores mantinham a tese forte: não há suicídio sem patologia. Durkheim entra nesse debate como alguém que percebe que, enquanto essa definição prevalecer, o suicídio permanecerá fora do alcance da sociologia. Se todo suicídio é loucura, então ele pertence ao domínio da medicina e não há nada a explicar socialmente.

A crítica durkheimiana, contudo, não se limita a uma rejeição externa. Ele opera por dentro do discurso alienista, examinando suas classificações, suicídio maníaco, melancólico, obsessivo, impulsivo, e mostrando sua fragilidade interna. Essas tipologias, longe de constituírem um sistema coerente, misturam níveis distintos de análise: ora descrevem estados afetivos, ora supostas causas, ora formas de manifestação. O resultado é uma taxonomia instável, incapaz de oferecer um princípio explicativo unificado. Ao expor essa heterogeneidade, Durkheim não apenas enfraquece a autoridade científica dos alienistas, mas revela que o próprio objeto “suicídio” ainda não foi devidamente constituído.

Mas o ponto decisivo de sua crítica, até onde percebo, é empírico e estatístico. Durkheim mobiliza um argumento que se tornará central em toda a obra: a regularidade das taxas de suicídio. Se o suicídio fosse simplesmente um efeito da loucura, sua distribuição deveria acompanhar a da alienação mental. No entanto, isso não ocorre. As taxas de suicídio apresentam uma estabilidade relativa dentro de cada sociedade e variam significativamente entre sociedades diferentes, variações que não podem ser explicadas por flutuações equivalentes na incidência de doenças mentais. Há, portanto, uma dissociação entre loucura e suicídio que a teoria alienista não consegue absorver.

Esse deslocamento é fundamental. Durkheim não nega que haja suicídios ligados à patologia, mas recusa que essa relação seja constitutiva. Ao fazê-lo, ele rompe com uma longa tradição de moralização médica que, ao patologizar o suicídio, neutraliza sua dimensão histórica e social. O que está em jogo aqui é mais do que uma divergência explicativa: é uma transformação no regime de inteligibilidade do fenômeno. O suicídio deixa de ser um desvio individual para tornar-se um índice coletivo.

No entanto, essa operação não está isenta de tensões. Ao criticar a redução do suicídio à loucura, Durkheim abre espaço para sua sociologização, mas ao fazê-lo, ele também promove uma nova forma de objetivação. O suicídio, agora convertido em “taxa”, passa a ser apreendido como uma realidade estatística, relativamente independente das experiências singulares que o compõem. Se os alienistas dissolviam o fenômeno na interioridade patológica do indivíduo, Durkheim corre o risco inverso: dissolvê-lo na exterioridade das regularidades sociais. Em ambos os casos, o ato singular tende a desaparecer, seja como sintoma, seja como dado.

Essa ambivalência não diminui a força de sua crítica, mas a torna mais complexa. O primeiro capítulo de Le Suicide é, ao mesmo tempo, um movimento de libertação e de fundação. Libertação, porque rompe com o monopólio psiquiátrico e recusa a identificação imediata entre suicídio e loucura. Fundação, porque inaugura uma nova forma de apreensão do fenômeno, que o reinscreve em outro sistema de saber, o da sociologia nascente.

Em última análise, o que Durkheim realiza aqui é uma redefinição do problema: o suicídio não é mais a questão “por que um indivíduo se mata?”, mas “por que uma sociedade produz uma certa propensão ao suicídio?”. Essa mudança de escala é também uma mudança de ontologia. O suicídio deixa de ser um acidente psicológico para tornar-se um fato social.

E é precisamente essa transformação iniciada no confronto com os alienistas, que tornará possível tudo o que vem depois.

Prof. Alexandre H. Reis

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