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Os Cadáveres e a Ciência. Parte 2 – Dos ladrões de cadáveres aos corpos de Barbacena

Seria um erro supor que a história dos resurrectionists pertence apenas ao passado britânico ou constitui uma curiosidade exótica da formação da medicina europeia. Embora o fenômeno dos ladrões de cadáveres tenha adquirido notoriedade particular na Inglaterra das primeiras décadas do século XIX, a questão fundamental que o produziu — a necessidade crescente de corpos para o ensino anatômico — manifestou-se em praticamente todos os países que construíram instituições médicas modernas. A escassez de cadáveres e a expansão da anatomia constituíram um problema estrutural da medicina ocidental, e o Brasil não permaneceu à margem desse processo.

A lembrança desse passado retornou recentemente ao debate público brasileiro. Durante o primeiro semestre de 2026, importantes instituições universitárias reconheceram oficialmente sua participação na utilização de cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena para fins de ensino anatômico ao longo do século XX. A Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de São João del-Rei apresentaram manifestações públicas de reconhecimento e pedido de desculpas diante das evidências históricas que demonstram a incorporação desses corpos aos circuitos universitários de formação médica.

HOSPITAL Colônia de Barbacena: Pavilhão “Antônio Carlos” (Indigentes). Barbacena, MG: [s.n.], [ca. 19–]. 1 fotografia, p&b, 17,3 x 23,4 cm. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fotografico_docs/photo.php?lid=32500. Acesso em: 2 jun. 2026.

O episódio possui uma importância que ultrapassa largamente a discussão sobre responsabilidades institucionais. Ele permite compreender que o problema enfrentado pelos anatomistas ingleses do início do século XIX não desapareceu com o tempo. A necessidade de corpos continuou existindo. O que mudou foram os mecanismos de obtenção e legitimação desses cadáveres. Enquanto Joseph Naples e seus companheiros violavam sepulturas durante a noite para abastecer as escolas médicas londrinas, as instituições modernas passaram progressivamente a recorrer aos corpos daqueles que ocupavam posições sociais particularmente vulneráveis: indigentes, internos de hospitais psiquiátricos, pessoas sem familiares conhecidos, presos, abandonados e indivíduos cujas mortes dificilmente despertariam reivindicações públicas significativas.

Sob esse aspecto, a história do Hospital Colônia de Barbacena adquire um significado que ultrapassa a própria história da psiquiatria brasileira. Ao longo do século XX, milhares de pessoas morreram naquela instituição. Muitas delas jamais receberam diagnóstico psiquiátrico rigoroso. Entre seus internos encontravam-se pobres, alcoólatras, epilépticos, órfãos, homossexuais, mulheres consideradas inconvenientes por suas famílias, indivíduos abandonados e pessoas que simplesmente não encontravam lugar nas formas normativas de organização da vida social. O destino posterior de parte desses corpos revela uma continuidade histórica perturbadora: os mesmos sujeitos que haviam sido marginalizados em vida tornavam-se úteis após a morte.

A comparação com os resurrectionists ingleses não deve ser entendida como simples analogia moral. Existem diferenças profundas entre os contextos históricos. Contudo, ambos os casos revelam uma questão comum: a constituição de uma categoria de mortos cuja disponibilidade para a ciência pareceu socialmente aceitável. Em um caso, a necessidade anatômica conduziu à violação clandestina das sepulturas. No outro, conduziu à utilização institucionalizada de corpos provenientes de populações consideradas marginais ou sem proteção social efetiva. O princípio subjacente, entretanto, permanece semelhante: a produção de conhecimento médico foi frequentemente sustentada pela apropriação dos corpos daqueles que possuíam menor capacidade de defender sua memória.

HOSPITAL COLÔNIA, EM BARBACENA. in. FRANCO, José; FERREIRA, Luiz Alfredo. A sucursal do inferno. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, ano 33, n. 27, p. 4-15, 14 abr. 1961.

Essa constatação possui consequências importantes para a história do suicídio. Durante o século XIX, alienistas como Esquirol procuravam nos cadáveres dos suicidas as lesões anatômicas capazes de explicar cientificamente a morte voluntária. Ao mesmo tempo, médicos-legistas reivindicavam a autoridade para examinar, classificar e interpretar esses corpos. Pouco a pouco, o cadáver do suicida ingressava no mesmo universo de observação que já incluía o cadáver do alienado, do criminoso, do indigente e do internado hospitalar. A medicina moderna não apenas medicalizou o suicídio; ela incorporou os mortos aos seus dispositivos de conhecimento.

Talvez por isso o diário de Joseph Naples conserve, ainda hoje, uma relevância que ultrapassa em muito a história do crime ou da anatomia. Ele permite observar o instante em que a medicina moderna começava a construir uma nova relação com os mortos. Entre as sepulturas violadas da Londres de 1811, os anfiteatros anatômicos do século XIX, os hospícios estudados por Esquirol e os corpos provenientes de Barbacena utilizados pelas escolas médicas brasileiras existe uma continuidade histórica que ainda precisa ser investigada em toda a sua extensão. Trata-se da história da transformação do cadáver em objeto de saber; uma história na qual a promessa de produzir conhecimento frequentemente conviveu com formas de violência, exclusão e profanação que as sociedades contemporâneas apenas começam a reconhecer plenamente.

Mais do que investigar os ladrões de cadáveres ingleses, talvez seja necessário perguntar se existiram, também entre nós, circuitos semelhantes de obtenção clandestina de corpos. Como as faculdades de medicina do Rio de Janeiro, da Bahia, de Porto Alegre ou de Minas Gerais abasteciam seus anfiteatros anatômicos antes da consolidação dos hospitais modernos? Qual foi o papel dos cemitérios públicos, das Santas Casas, dos hospitais de caridade e dos estabelecimentos psiquiátricos nesse processo? Houve resistência popular semelhante à observada na Inglaterra? Existiram denúncias de violação de sepulturas destinadas ao ensino médico? Essas questões permanecem amplamente abertas e talvez constituam um dos capítulos ainda não escritos da história da medicina brasileira.

A investigação dos resurrectionists ingleses pode, assim, conduzir-nos a uma pergunta mais inquietante: não apenas como a medicina aprendeu a abrir os corpos, mas também quais corpos foram considerados disponíveis para serem abertos.

Prof. Alexandre H. Reis

Fontes: UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. UFMG pede desculpas por uso, no século XX, de cadáveres de Barbacena em suas atividades de ensino. Belo Horizonte, 2026. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/ufmg-pede-desculpas-por-uso-no-seculo-xx-de-cadaveres-de-barbacena-em-suas-atividades-de-ensino/ Acesso em: 1 jun. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Nota pública sobre a utilização de corpos provenientes do Hospital Colônia de Barbacena. São João del-Rei, 2026. Disponível em: https://ufsj.edu.br Acesso em: 1 jun. 2026.

 

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