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Enfim, o livro A INVENÇÃO DO SUICÍDIO, 2026, Editora UFABC (gratuito em pdf)

Sobre o livro A invenção do suicídio, publicado pela Editora UFABC, que traz uma genealogia da morte voluntária, uma crítica da psiquiatria e reconfiguração filosófica do problema do suicídio.

Livro em pdf pode ser baixado gratuitamente aqui: A invenção do Suicídio 

O livro em formato físico, será lançado em Florianópolis no dia 17 de novembro de 2026, no XXI Encontro Nacional da Anpof

Ao que me consta, olhando retrospectivamente, não cheguei ao problema do suicídio por via temática, mas por uma espécie de deslocamento necessário. Minha investigação inicial, desenvolvida ainda em Vita (publicado em Belo Horizonte, em 2007), partia de uma questão distinta: o que é a morte? Ali, naquele livro de estreia, procurei sustentar uma tese que, à época, me parecia já suficientemente contraintuitiva: a morte não deve ser pensada como oposição à vida em geral, mas como morte da consciência. Se tomamos o corpo, não encontramos propriamente morte, mas uma contínua e sucessiva transformação: a reinscrição da matéria em novos ciclos vitais. É apenas no horizonte da consciência que a morte se torna um problema rigoroso. É ali, e apenas ali, que podemos falar propriamente de morte. As implicações e os próprios limites dessa tese, é claro, são problematizadas no Vita, com uma preocupação, típica dos meus estudos daquele período, sobre formas de expressão, compreensão estética da existência, etc.

Essa inflexão conceitual, no entanto, deixava ainda em aberto um campo que, retrospectivamente, revela-se decisivo: o da morte voluntária. Foi apenas anos depois, em 2015, às margens do rio São Francisco, no campus de Juazeiro, na Bahia, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, que essa questão se impôs com maior nitidez. Na ocasião, ao ministrar um minicurso sobre Agostinho e o problema da morte voluntária em sua monumental A Cidade de Deus, no âmbito do Krisis — Laboratório de Antropologia Crítica —, deparei-me não apenas com um público numeroso, mas com uma demanda intelectual que ultrapassava em muito os limites daquele curso.

Foi ali que compreendi que não se tratava apenas de retomar um problema e alarga-lo para abarcar o tema da morte autoinfligida, mas de reorganizar um campo inteiro de investigação. Dessa experiência nasceram, de forma ainda embrionária naquele 2015, três direções de trabalho que passariam a orientar meus estudos nos anos seguintes.

A primeira delas foi de natureza pedagógica. Percebi a necessidade de construir um espaço sistemático de reflexão que não se perdesse na dispersão de conferências e intervenções pontuais. Daí surgiu o projeto de criação da disciplina Preleções sobre o suicídio, posteriormente incorporada ao curso de Ciências Sociais ao qual eu estava vinculado (e agora ministrada na UFPEL). Entre 2018 e 2022, dediquei-me à elaboração e ao desenvolvimento dessas aulas, escrevendo-as de modo que pudessem ultrapassar o tempo da exposição oral. É precisamente esse trabalho, ao mesmo tempo didático e investigativo, que constitui o núcleo deste livro. A invenção do suicídio é, nesse sentido, o resultado direto dessas preleções, amadurecidas ao longo de anos de ensino e pesquisa.

A segunda direção foi historiográfica. Desde o final da década de 1990, quando ainda cursava a graduação em filosofia (UFMG), a experiência concreta da perda (colegas próximos que, ano após ano, desapareciam sem que fôssemos capazes de compreender) já colocava o problema do suicídio de maneira incontornável. No entanto, faltava um instrumento conceitual capaz de dar conta de sua historicidade. Quando examinei com cuidado o livro de George Minois, sua História do Suicídio, fiquei profundamente decepcionado: havia uma prevalência da informação, da casuística, da análise das fontes jornalísticas e de uma literatura que não conduzia a formação de um conhecimento propriamente. Foi dessa insuficiência (reconhecida apenas pelos meus objetivos, o livro permanece válido e constitui uma leitura agradável) que nasceu o projeto de escrever eu mesmo uma História do suicídio. O primeiro volume foi publicado em 2020, e desde então sigo trabalhando nos volumes subsequentes. Parte das questões formuladas no Livro 1 dessa minha História do Suicídio (especialmente nos capítulos iniciais) encontram neste livro que sai agora um aprofundamento maior, embora menor do que o realizado posteriormente.

A terceira direção, de natureza mais propriamente filosófica, conduziu-me à elaboração de uma tese dedicada à centralidade de Agostinho de Hipona na história do suicídio, desenvolvida entre 2021 e 2025 no PPG-Filosofia da UFRGS. Nesse trabalho, intitulado As confissões de Lucrécia: Agostinho e a anatropia da morte de si, procurei mostrar como a tradição cristã não apenas condena a morte voluntária, mas redefine suas condições de possibilidade ao inscrevê-la em uma economia da culpa e da interioridade. O livro encontra-se atualmente em análise pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, e darei notícias conforme o tempo da editora.

É nesse entrelaçamento, pedagógico, historiográfico e filosófico, que se situa A Invenção do Suicídio. O livro não pretende oferecer uma teoria do suicídio, mas desmontar a evidência do conceito e estabelecer uma crítica ao nosso atual estado da arte. Nesse sentido, inscrevo-me deliberadamente numa tradição de exercício da crítica e procuro mostrar que aquilo que tomamos como dado, o suicídio, é, na verdade, o resultado de um processo histórico de codificação moral, teológico-jurídica, linguística e científica.

A pergunta que orienta o livro, e que o leitor encontrará já em suas primeiras páginas, é simples apenas em aparência: quando a morte voluntária se tornou suicídio? Essa questão não busca uma data, o isolamento de um momento inaugural, mas um processo. Ela supõe que houve um tempo em que aquilo que hoje chamamos de suicídio não era pensado sob esse nome, nem sob esse regime de julgamento. Experimentar essas perspectivas outras, parece-me fundamental não só para criticarmos (isto é, analisarmos) nosso tempo, mas para alargar nossa compreensão do modo como ajuizamos a morte autoinfligida.

Aqui é preciso assinalar que esse problema não surge de modo isolado neste livro. Ele já havia sido trabalhado, em sua formulação inicial, nos primeiros capítulos do primeiro volume de minha História do suicídio (2020), publicado à época pela Editora Páginas, atualmente Literíssima. O que ali aparecia ainda como esboço interpretativo ganha, agora aqui, um aprofundamento necessário, embora não alcance, pois essa não é a proposta, o mesmo grau de pesquisa com o qual conduzo a questão no trabalho, As confissões de Lucrécia, inteiramente dedicado ao exame da posição de Agostinho.

Mas, permitam-me expor brevemente, o que encontramos nesse livro que sai agora, depois de um longo período de maturação. O primeiro ensaio, significativamente intitulado A invenção do suicídio: como a morte voluntária se tornou assassinato de si, constitui o núcleo dessa investigação. Ali procuro mostrar que a palavra suicidium não é apenas uma invenção lexical tardia, mas uma operação conceitual decisiva. Ao unir sui e caedere, ela produz uma equivalência que não é descritiva, mas normativa: matar-se passa a ser pensado como uma forma especial de homicidium, isto é, passa a ser pensada e tipificada como crime. O movimento fundamental não é nomear um ato, mas qualificá-lo, ajuizá-lo.

Essa transformação ganha sua forma mais sistemática com Agostinho. Ao examinar o célebre caso de Lucrécia, narrado por Tito Lívio, Agostinho realiza uma operação interpretativa que, a meu ver, marca um ponto de inflexão na história da morte voluntária. Ao recusar a exemplaridade do movimento trágico e nobre de Lucrécia, tradicionalmente celebrado como ato de honra, ele desloca o eixo da avaliação: o que importa não é mais a circunstância externa, mas a intenção interior. E, nesse deslocamento, a morte voluntária torna-se sempre culpável.

Essa operação é mais profunda do que parece. Ela não apenas condena um ato ou uma inação que leva à morte; ela transforma a estrutura da experiência. A interioridade cristã, ao tornar-se o lugar privilegiado do julgamento, redefine o sujeito como responsável absoluto por sua própria vida — e, portanto, por sua morte. É nesse sentido que afirmo que o suicídio é uma invenção: não porque a morte voluntária não existisse antes, mas porque passou a existir sob um regime específico de verdade e de culpa.

Mas o livro não se limita a esse momento inaugural. Ao longo de seus ensaios, procuro mostrar que essa invenção não permanece estática, mas se transforma, se desloca, se reconfigura. Um dos movimentos mais importantes é aquele que ocorre na modernidade, com a emergência da psiquiatria.

No nono ensaio, dedicado à questão psiquiátrica, retorno aos debates dos alienistas franceses do século XIX, especialmente Philippe Pinel, Jean-Étienne Dominique Esquirol e Bourdin. É ali que o suicídio passa a ser sistematicamente associado à loucura, muitas vezes sob a forma de monomania. Essa noção, aparentemente superada, revela, contudo, uma surpreendente persistência. A pergunta que atravessa esse capítulo é incômoda: quando hoje falamos em “comportamento suicida”, não estamos, sob nova terminologia, retomando a mesma operação? A classificação diagnóstica, ao identificar o suicídio como sintoma, produz um efeito ambíguo. Por um lado, permite intervenção; por outro, neutraliza a dimensão existencial do ato.

É precisamente contra essa neutralização que o livro se insurge. Não se trata de negar a existência do sofrimento psíquico, mas de recusar sua redução a um único modelo de inteligibilidade. Ao transformar o suicídio em doença, corre-se o risco de eliminar aquilo que ele tem de mais inquietante: sua relação com a liberdade, com o sentido, com a decisão. Essa tensão aparece de forma particularmente clara quando confrontamos o discurso psiquiátrico com abordagens existenciais, como as de Viktor Frankl e Jean Améry. Em ambos, encontramos a tentativa de restituir ao sujeito uma dimensão que escapa à clínica: a de sua relação com o sentido da vida e com a possibilidade de sua interrupção.

Se o primeiro movimento do livro é, portanto, genealógico: mostrar como o suicídio foi construído; o segundo é crítico: mostrar como essa construção continua operando, muitas vezes de forma invisível, em nossos discursos contemporâneos. É nesse ponto que a discussão se abre para o presente. No décimo ensaio, ao examinar os documentos da Organização Mundial da Saúde e as campanhas de prevenção, procuro evidenciar uma nova forma de normatividade: aquela que se apresenta sob a linguagem da saúde pública. O suicídio torna-se, então, um problema a ser resolvido, uma variável a ser reduzida, um indicador a ser controlado.

Mas o que se perde quando se ganha em gestão? Essa é a pergunta que orienta essa parte do livro, e que permanece, talvez, como uma das mais urgentes de nosso tempo.

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Se, até aqui, o percurso foi marcado por uma investigação genealógica e crítica, há um momento no livro em que se torna necessário não apenas desmontar, mas também reconstruir. Esse movimento aparece de forma mais explícita no segundo ensaio, dedicado à relação entre liberdade e pertencimento.

A tradição moderna acostumou-se a pensar a liberdade como autonomia, isto é, como capacidade do sujeito de determinar-se a si mesmo independentemente de qualquer vínculo. Essa concepção, profundamente enraizada em nossa linguagem filosófica e jurídica, sustenta boa parte das formulações contemporâneas sobre o suicídio, especialmente aquelas que o situam no interior do chamado “argumento da liberdade”. No entanto, ao retornar às fontes antigas, particularmente à análise do termo grego eleutheron nos poemas homéricos, procuro mostrar que essa identificação entre liberdade e autonomia não é originária. Ao contrário, ela representa uma transformação tardia. Em seu sentido mais antigo, liberdade não designa independência, mas pertencimento — pertencimento a uma ordem, a uma comunidade, a um mundo.

Essa inflexão não é meramente filológica. Ela tem consequências decisivas para a maneira como pensamos a morte voluntária. Se liberdade significa pertencimento, então a oposição clássica entre “argumento da liberdade” e “argumento da pertença” revela-se, em grande medida, mal formulada. Não se trata de escolher entre dois polos, mas de compreender que ambos emergem de uma mesma matriz conceitual que, ao longo do tempo, foi sendo cindida. É nesse ponto que o recurso à tragédia grega se torna fundamental. No terceiro ensaio, ao examinar figuras como Antígona, Jocasta e Ájax, procuro mostrar que a morte voluntária, no mundo antigo, não pode ser compreendida a partir de categorias modernas. Ela não é simplesmente expressão de autonomia, nem mera submissão a uma ordem externa. Ela se situa em um campo de tensões no qual destino, deuses, honra e comunidade se entrelaçam.

A morte de Ájax, por exemplo, não é redutível a uma decisão individual no sentido moderno. Ela emerge de um conflito irreconciliável entre reconhecimento e desonra, entre pertencimento e exclusão. Da mesma forma, Antígona não escolhe simplesmente morrer; ela se inscreve em uma lógica que ultrapassa a oposição entre lei e consciência, revelando a complexidade de um mundo em que a vida e a morte não pertencem inteiramente ao sujeito. Ao trazer essas figuras para o centro da análise, não pretendo apenas reconstruir um passado distante, mas deslocar o presente. O leitor contemporâneo, habituado a pensar o suicídio em termos de escolha individual ou de patologia, é confrontado com uma experiência na qual essas categorias não se aplicam de forma imediata.

Esse deslocamento se aprofunda no exame da tradição filosófica clássica, particularmente em Platão e Aristóteles. A pergunta “morreu Sócrates voluntariamente?” não é, nesse contexto, uma curiosidade histórica, mas um problema filosófico. Ela obriga a repensar a relação entre liberdade, lei e morte, mostrando que a morte voluntária pode assumir formas que escapam tanto à condenação quanto à celebração.

Mas talvez o momento mais decisivo desse percurso seja aquele em que o livro se volta para o problema do conceito. No sétimo ensaio, procuro enfrentar diretamente a questão: o que é o suicídio? Essa pergunta, aparentemente simples, revela-se rapidamente intratável. As definições disponíveis oscilam entre critérios extensivos e intensivos, entre tentativas de delimitar o fenômeno e esforços de explicá-lo. No entanto, quanto mais se busca precisão, mais se evidencia a instabilidade do conceito. É nesse ponto que proponho distinguir entre definição e conceito. Enquanto a definição busca fixar um conjunto de características, o conceito opera como campo de forças, reunindo sob uma mesma designação práticas, discursos e julgamentos heterogêneos. O suicídio, nesse sentido, não é um objeto homogêneo, mas uma construção que articula dimensões jurídicas, morais, médicas e existenciais.

Essa multiplicidade torna particularmente problemática qualquer tentativa de explicação totalizante. Perguntar “é possível explicar o suicídio?” significa, no fundo, perguntar se é possível reduzir essa complexidade a um único princípio. Minha resposta, ao longo do ensaio, é deliberadamente cética. Não se trata de negar a possibilidade de compreensão, mas de recusar sua redução. Essa recusa encontra ressonância em um dos princípios que mobilizo no décimo primeiro ensaio: o princípio da identidade dos indiscerníveis. Se não há dois sujeitos absolutamente idênticos, então não há duas mortes voluntárias absolutamente equivalentes. Cada caso traz consigo uma singularidade que resiste à generalização.

É nesse ponto que o livro se aproxima de uma perspectiva existencial. Ao invés de perguntar apenas pelo que é o suicídio, torna-se necessário perguntar pelo que ele significa para aquele que o considera. Essa mudança de foco — do conceito para a experiência — não elimina a necessidade de análise conceitual, mas a reinscreve em um horizonte mais amplo.

Ao longo desses ensaios, o leitor perceberá que a questão da liberdade retorna sob múltiplas formas. Ela aparece na tragédia, na filosofia clássica, na modernidade e na contemporaneidade. Mas, em cada caso, ela se apresenta de maneira distinta, exigindo uma atenção constante às suas transformações. O que procuro mostrar, em última instância, é que não podemos pensar o suicídio sem repensar a liberdade. E que, talvez, repensar a liberdade implique abandonar algumas de nossas evidências mais arraigadas.

Esse movimento, que vai da genealogia à reconstrução, da crítica à proposição, prepara o terreno para as discussões finais do livro, nas quais o problema da morte voluntária será novamente confrontado, agora à luz de questões contemporâneas como a bioética, a psiquiatria e o sentido da existência.

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Se os ensaios anteriores procuraram reconstruir as condições históricas e conceituais do suicídio, os momentos finais do livro deslocam o problema para um terreno ainda mais instável: aquele em que a morte voluntária é confrontada diretamente com as categorias de valor, sentido e decisão.

É nesse contexto que o diálogo com Friedrich Nietzsche se torna incontornável. No oitavo ensaio, ao examinar a noção de “morrer a tempo”, procuro explorar uma das provocações mais desconcertantes da filosofia moderna: a ideia de que a morte voluntária pode, em determinadas circunstâncias, constituir um movimento racional. Contra a tradição que condena o suicídio como erro ou pecado, Nietzsche introduz a possibilidade de pensá-lo como afirmação — não da vida em geral, mas de uma certa forma de vida.

Essa posição não deve ser simplificada. Não se trata de celebrar a morte voluntária, mas de deslocar o eixo da discussão. Ao opor a morte voluntária à morte involuntária, isto é, à morte que nos sobrevém sem escolha, Nietzsche reabre uma questão que a tradição cristã e a psiquiatria moderna procuraram encerrar: a relação entre liberdade e morte.

O que está em jogo, aqui, não é uma defesa do suicídio, mas uma crítica à naturalização da morte. Se aceitamos sem questionamento a morte que nos é imposta pela natureza, por que recusamos de antemão aquela que poderia, ao menos em princípio, ser objeto de decisão? Essa assimetria revela, mais uma vez, que não estamos diante de um problema puramente natural, mas de uma construção moral.

Essa tensão reaparece, sob outra forma, no campo da bioética. No décimo terceiro ensaio, ao examinar as contribuições de Fritz Jahr e Hans Jonas, procuro mostrar como a reflexão contemporânea sobre a vida e a morte permanece atravessada por ambiguidades fundamentais. Jahr, ao propor o chamado “imperativo bioético”, amplia o campo da ética para além do humano, incluindo todas as formas de vida. Jonas, por sua vez, ao desenvolver uma ética da responsabilidade, enfatiza a necessidade de preservar a vida diante das ameaças da técnica. Ambos contribuem decisivamente para a formação da bioética contemporânea, mas também revelam seus limites.

A questão que procuro levantar é a seguinte: até que ponto a bioética, ao enfatizar a preservação da vida, não reproduz — sob novas formas — a mesma lógica que, historicamente, condenou a morte voluntária? Ao transformar a vida em valor supremo, não se corre o risco de eliminar a possibilidade de interrogá-la? Essa problemática torna-se particularmente aguda quando consideramos a questão da eutanásia. Ao discutir a ideia de autonomia no interior da bioética, procuro mostrar que o apelo à autonomia muitas vezes mascara uma compreensão empobrecida da liberdade. Retoma-se, assim, a oposição entre autonomia e pertencimento, sem que se questione o próprio conceito de vida que está em jogo.

Mas talvez o ponto mais crítico desses ensaios finais seja a relação entre suicídio, técnica e contemporaneidade. Vivemos em um tempo em que a vida é cada vez mais objeto de gestão: monitorada, quantificada, prolongada. Nesse contexto, a morte voluntária aparece como um escândalo — não apenas moral, mas técnico. Ela escapa aos dispositivos de controle, resiste à previsão, desafia a administração.

É nesse cenário que a crítica às políticas de prevenção se torna mais incisiva. Ao examinar as estratégias contemporâneas de enfrentamento do suicídio, procuro mostrar que muitas delas operam a partir de uma redução do fenômeno a um problema técnico. Fala-se em prevenção, em intervenção, em tratamento — termos que, embora necessários em certos contextos, tendem a obscurecer a dimensão propriamente filosófica da questão. A ideia de que o suicídio deve ser prevenido a todo custo pressupõe que ele é sempre um erro, um desvio, uma falha. Mas essa pressuposição, raramente explicitada, é precisamente aquilo que o livro procura problematizar. Não se trata de negar a importância de políticas públicas, mas de questionar os pressupostos que as orientam. Essa crítica não conduz, contudo, a um relativismo indiferente. Ao contrário, ela exige uma atenção ainda maior à singularidade das experiências. É nesse ponto que o livro se aproxima, em seu momento final, de uma perspectiva existencial mais explícita.

O posfácio, estruturado como uma carta sobre William James, funciona como uma espécie de deslocamento tonal. Após o percurso histórico e conceitual dos ensaios, ele introduz uma dimensão mais direta, mais próxima da experiência vivida. James, com sua atenção às variedades da experiência religiosa e ao problema do sentido, oferece um contraponto à rigidez dos discursos normativos. Ao dialogar com ele, procuro explorar uma questão que atravessa silenciosamente todo o livro: o que faz com que uma vida seja vivida… ou deixada de ser? Essa pergunta não admite respostas gerais. Ela remete a uma dimensão na qual conceito e experiência se encontram, sem jamais coincidir plenamente.

É talvez nesse ponto que o livro encontra seu limite… e sua força. Ao recusar tanto a condenação moral quanto a explicação totalizante, ele se mantém em um terreno instável, no qual cada afirmação exige ser constantemente reexaminada. Se há, portanto, uma conclusão possível, ela não assume a forma de uma tese, mas de uma atitude: a disposição de sustentar o problema sem reduzi-lo. Em um tempo que exige respostas rápidas, essa suspensão pode parecer insuficiente. Mas é talvez ela que abre a possibilidade de um pensamento mais rigoroso.

Essa mesma disposição orienta a forma de circulação do livro. Ele encontra-se integralmente disponível em acesso aberto (Open Access), por meio da Editora UFABC. Essa escolha não responde a uma estratégia de difusão, mas a uma posição: um trabalho dessa natureza não deve ser orientado pelo lucro. Ao contrário, ele deve circular livremente, permitindo que qualquer leitor possa acessar, questionar e eventualmente contestar suas proposições. Ao mesmo tempo, reconheço que a materialidade do livro continua a desempenhar um papel importante na experiência da leitura. Por essa razão, uma edição impressa estará disponível em breve, e será lançada na ANPOF, em novembro, em Florianópolis. Para viabilizar essa edição em condições mais acessíveis, optei por não receber participação em royalties, conforme estabelecido em contrato com a Editora. Em um livro de 508 páginas, cuja produção envolve custos significativos, essa decisão permite ao menos uma redução sensível no preço final.

Há, aqui, uma tentativa de coerência entre forma e conteúdo. Um livro que problematiza a captura da vida por dispositivos normativos não poderia, sem contradição, submeter-se integralmente à lógica do mercado. Torná-lo acessível é, portanto, parte integrante de seu projeto. Se este trabalho pretende, de algum modo, intervir no debate contemporâneo, certamente e conscientemente essa pretensão se localiza na possibilidade de abrir um campo de questões. O suicídio, tal como o conhecemos, é uma construção histórica. Reconhecer isso não resolve o problema, mas talvez nos permita, finalmente, começar a pensá-lo fora de determinadas categorias que podem, afinal, ser criticadas, deslocadas, reconstruídas

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