
imagem: Caspar David Friedrich, Der Wanderer über dem Nebelmeer (Caminhante sobre o Mar de Névoa), 1818.
Óleo sobre tela. Acervo da Kunsthalle Hamburg, Alemanha.
Pensar a questão dos modos de vida que podem evitar o desejo de morrer e vivificar a vida parece ser um caminho que deveria ser incontornável e central tanto na filosofia quanto na psicologia contemporânea. Diversas correntes filosóficas, mesmo que não meditem diretamente sobre o assunto, oferecem perspectivas valiosas para compreender como cultivar uma existência significativa, capaz de resistir ao sofrimento existencial que pode conduzir ao desejo de morrer.
Fundamental para essa reflexão é a compreensão da condição de liberdade que configura o ser humano de maneira singular. Segundo Viktor Frankl, “é a própria condição de liberdade que configura o homem como capaz de distinguir possibilidades em cada situação específica de vida e de decidir-se por uma delas a cada instante” (FRANKL, Fundamentos antropológicos da psicoterapia, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978, p. 70). Essa liberdade está situada dialeticamente em relação às facticidades da existência, ou seja, as condições biológicas, psicológicas e socioambientais que circunscrevem, porém não determinam definitivamente, o agir humano. Frankl distingue “a ontologia do homem, ao lado da facticidade humana, [que] conhece ainda a existencialidade do homem ou, se preferirmos, o homem existencial ‘antes da queda na facticidade’” (FRANKL, Psicoterapia para todos, Petrópolis: Editora Vozes, 1990, p. 20).
Essa tensão entre o “fato” (o inexorável destino que escapa ao controle da vontade) e o “facultativo” (a capacidade incondicionada de escolha da atitude diante do fato) constitui o núcleo da experiência humana: “Mas a vida humana não significa nunca viver factualmente e sim, sempre, viver facultativamente! E isso, por sua vez, significa viver dentro das próprias possibilidades, viver ‘adiante de si mesmo’” (FRANKL, Psicoterapia e sentido da vida, São Paulo: Sinopsys, 1991, p. 214). O existir, portanto, é um “viver que decide”, uma atividade constante de escolha e sentido que não pode ser reduzida a um mero reflexo dos condicionamentos.
A dialética entre destino e liberdade expressa a possibilidade de sermos co-plasmadores de nossas contingências, e não vítimas passivas delas. Frankl explica que “nós denominamos destino exatamente aquilo sobre que não temos influência, aquilo que essencialmente escapa ao poder de nossa vontade” (FRANKL, A vontade de sentido, Petrópolis: Vozes, 1990, p. 95), mas acrescenta que “toda a liberdade humana depende do que há de fatal, na exata medida em que só neste elemento e a ele aderindo pode desenvolver-se” (FRANKL, O homem em busca de sentido, São Paulo: Cultrix, 2003, p. 123). Tal visão funda uma ética da responsabilidade e da coragem diante do sofrimento, pois quem se rebela contra o destino “não compreendeu o sentido do destino” e perde a possibilidade de dar forma significativa à existência (FRANKL, Psicoterapia para todos, p. 73).
A experiência da liberdade também implica uma cognição axiológica, isto é, a consciência de que entre as possibilidades que se apresentam, algumas são mais valiosas e dignas do que outras. Frankl aponta que “como um ser livre, o homem é um ser que decide livremente, com isso, nós nos afastamos uma vez mais da concepção existencialista comum do homem como um ser meramente livre; pois, no ser livre, ainda não está contido nenhum ‘para-quê’ da liberdade, enquanto, no decidir, o ‘pelo-quê’ e o ‘contra-o-quê’ da decisão já são, com certeza, concomitantemente dados: justamente um mundo objetivo do sentido e dos valores, e, em verdade, esse mundo como um mundo ordenado, ou seja, tão correto quanto um cosmos” (FRANKL, Logoterapia e análise existencial, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014, p. 102).
Este “cosmos” valorativo é hierárquico e orienta as escolhas para o que deve ser cultivado, em contraste com a mera expressão indiscriminada de potenciais humanos. Lukas define o reino dos valores como “o conjunto de tudo aquilo que deveria ser e vir-a-ser”, supratemporal e transcendendo o fluxo do tempo (LUKAS, Introdução à logoterapia, São Paulo: Sinopsys, 1989, p. 157). Logo, não basta simplesmente viver ou agir, é necessário viver com uma direção ética e existencial clara, escolhendo o que é mais digno e significativo.
No entanto, essa liberdade não é um dado pacífico, dada gratuitamente ao ser humano, recebida de graça. Ela é uma tarefa, talvez a mais árdua, e certamente a mais necessária. E, muitas vezes, essa tarefa nos confronta com o abismo: o vazio, a dor, o limite da linguagem, da identidade, da esperança. Nesse sentido, olhar para o desejo de morte como abismo não é patologizá-lo, mas escutá-lo em sua potência reveladora. O abismo nos ensina que somos falíveis, vulneráveis, inacabados. Desejar o abismo é humano, é parte da existência, mesmo quando todas as vozes gritam que não. Há uma estranha dignidade nesse desejo de abismo, uma forma paradoxal de prazer: o prazer sombrio e profundo de desejar o fim como quem deseja um alívio, um reencontro com o silêncio primordial.
A questão é que olhar para o abismo, olhar para a morte e desejá-la tem muito a nos ensinar… sobretudo, há uma disposição para aprender. E só pode olhar para o abismo, e desejá-lo, quem está vivo. Desejar o abismo ainda é uma forma de desejo, e portanto uma forma de manter-se vivo. Mas é justamente nessa rachadura do ser que a liberdade encontra espaço para se afirmar como criação. O desejo de fim revela também o poder de começar, de reconfigurar sentidos. Não se previnem abismos. Abismos não são epidemias. Não se estanca o desejo de morte com campanhas ou slogans. O que se pode, e se deve, fazer é criar modos de vida que protejam, que acolham, que sustentem a liberdade em sua vertigem. A verdadeira prevenção exige a construção de um mundo vivível.
Contudo, diante dessas reflexões sobre a autonomia e o significado do agir humano, é necessário também abordar criticamente o paradigma dominante que enquadra o suicídio como uma doença a ser “prevenida” pela medicina e pela psiquiatria. Essa visão, muito influenciada pela psiquiatria francesa do século XIX, enquadra o suicídio num discurso médico-patológico, transformando-o em objeto de controle e exclusão social.
Tal perspectiva psiquiátrica reducionista perde de vista a complexidade do sofrimento humano, que não é apenas sintoma de uma patologia mental, mas pode ser expressão legítima de angústias existenciais, condições sociais adversas, ou mesmo afirmação da liberdade diante da morte. Reduzir o suicídio a uma “doença” a ser “prevenida” significa negar a dimensão ética e social da experiência, além de impor um modelo uniforme de normalidade e valor da vida, sem respeito pela pluralidade cultural e subjetiva.
A medicalização do suicídio, ao enquadrar o desejo de morrer exclusivamente como sintoma de doença mental, revela um reducionismo que limita severamente a compreensão da complexidade da experiência humana. Essa perspectiva psiquiátrica, influenciada pelo modelo biomédico surgido no século XIX, desconsidera dimensões existenciais, sociais e culturais que atravessam o fenômeno do suicídio. Ao fazê-lo, promove uma visão simplista em que o indivíduo é visto sobretudo como portador de uma patologia a ser prevenida ou corrigida, o que pode resultar em intervenções coercitivas e estigmatizantes que abafam o diálogo e o cuidado genuínos.
Essa crítica encontra respaldo em pensadores como Michel Foucault, que, em sua obra História da Loucura, expõe como o poder psiquiátrico não apenas trata, mas produz a noção de “normalidade”, definindo o que é saudável ou patológico conforme um regime de saber e poder. Para Foucault, a psiquiatria funciona como um dispositivo de controle social que delimita os limites do aceitável, marcando como “anormal” ou “doente” aquilo que foge às normas estabelecidas. Tal mecanismo dá invisibilidade às singularidades e á pluralidade das experiências humanas, ao subordinar a existência a categorias médicas e normativas rígidas.
De modo semelhante, Georges Canguilhem, em O Normal e o Patológico (fica a recomendação de leitura), problematiza a própria ideia de normalidade médica, argumentando que o que se considera “normal” não é um estado fixo e universal, mas uma construção histórica e cultural dependente do contexto. Canguilhem destaca que a medicina tende a patologizar variações da vida, confundindo o “diferente” com o “anormal” ou “doente”. Essa patologização excessiva pode obscurecer as formas legítimas de sofrimento e as respostas subjetivas ao mundo que não se enquadram em diagnósticos convencionais.
Assim, a medicalização do suicídio, longe de abrir espaços para o reconhecimento do sofrimento e do sentido que o indivíduo atribui à sua experiência, pode se transformar em um mecanismo de exclusão e silenciamento. A imposição de diagnósticos e tratamentos pode impedir o desenvolvimento de práticas terapêuticas que valorizem o cuidado integral, o acolhimento do sofrimento e a construção conjunta de significados. O desafio, portanto, é ampliar a compreensão do suicídio para além da esfera biomédica, incluindo dimensões existenciais, sociais e culturais, e reconhecer o direito do sujeito à escuta profunda, ao diálogo respeitoso e à busca autêntica de sentido, sem reduzir sua experiência a uma mera condição patológica.
Portanto, pensar modos de vida que vivifiquem a vida implica reconhecer e cultivar a liberdade radical do homem de escolher seu caminho dentro do horizonte de valores e sentidos, ao mesmo tempo em que se respeita a complexidade da experiência que pode levar ao desejo de morrer. Essa liberdade, longe de ser uma dádiva estática ou um mero atributo, é uma tarefa incessante — uma obra que se constrói na ação e no pensamento cotidiano. Exige o exercício contínuo da reflexão, o engajamento profundo com o tempo que nos é dado, e a coragem de habitar o presente com plena atenção. Viver autenticamente é dedicar-se à tarefa de pensar, que não é um escape da vida, mas uma forma radical de viver a vida do espírito. É na interioridade da filosofia enquanto modo de vida que o indivíduo encontra ferramentas para resistir à alienação e ao vazio, para cultivar uma presença consciente e um envolvimento com o mundo que supera o mero automatismo.
Este pensar vivo nos coloca diante do desafio de criar modos de vida que sejam verdadeiros refúgios contra o desespero, espaços de significado e pertença, onde o sofrimento possa ser acolhido e transformado. Exige-se um olhar interdisciplinar, ético e humanista, capaz de abraçar o sofrimento sem reduzi-lo a um problema técnico, e de acompanhar a busca por sentido em sua totalidade. Não se trata apenas de “prevenir” o desejo de morte com estratégias clínicas que visam controlar ou eliminar sintomas, mas de fomentar uma cultura de vida plena, que valorize a fragilidade, o conflito e a dúvida como componentes essenciais da existência humana. É nessa busca que reside a possibilidade de reanimar o espírito e redescobrir, no entrelaçamento do pensar e do agir, as fontes renovadoras da esperança e da liberdade.
Assim, modos de vida que envolvem o cultivo do sentido, a aceitação da facticidade e a afirmação da liberdade responsável, apontados pela filosofia existencial e pela logoterapia, apresentam-se como caminhos potentes para vivificar a vida. Reconhecer a facticidade (as limitações, as perdas e derrotas inevitáveis) é aceitar que o percurso existencial é feito de quedas e renascimentos, de pequenos fracassos que não diminuem a dignidade, mas a qualificam. O tempo presente, em sua duração muitas vezes dolorosa, exige de nós o exercício da paciência e a disposição para aprender com a derrota diária, para acolher a falha como um professor rigoroso, mas necessário. Tal aceitação desconstrói o ideal hegemônico da positividade a qualquer custo, que domina nossa cultura atual e que transforma o sofrimento em um inimigo a ser eliminado imediatamente, ocultando-o sob um manto de otimismo superficial.
Esse culto à positividade, ao rejeitar o abismo e a vulnerabilidade como partes legítimas da experiência humana, produz uma violência sutil contra a vida real, uma imposição de normalidade que exclui e silencia as vozes mais frágeis e autênticas. A liberdade responsável não é o domínio da alegria constante, mas a coragem de enfrentar as sombras internas e os limites do existir, sabendo que é justamente no confronto com o que nos destrói que se revela o que nos sustenta. Cuidar da vida humana implica, portanto, em um compromisso profundo com sua complexidade, com seus paradoxos e contradições, numa escuta atenta e respeitosa que rejeita tanto a patologização quanto a medicalização redutiva.
É nesta compreensão que a verdadeira potência da liberdade se manifesta: não como simples escolha entre prazer e dor, vida e morte, mas como a capacidade humana de criar sentido, mesmo e sobretudo quando o abismo se apresenta. A vida vivida com autenticidade reconhece o abismo, abraça a queda e se ergue, incansável, no esforço de existir.
Habitar o desejo de morrer não significa sucumbir ao abismo, tampouco ignorar o sofrimento que o engendra; trata-se, antes, de reconhecer sua presença como parte intrínseca da condição humana, um limiar onde a vida se mostra em sua mais crua e paradoxal verdade. Essa convivência com o abismo demanda coragem para manter-se em pé na fissura do existir, acolhendo a vulnerabilidade e a finitude sem a ilusão de controle absoluto. Habitar o desejo de morte, nesse sentido, é um exercício de plena liberdade, não a liberdade de escapar da dor, mas a liberdade de permanecer disponível para a experiência total do viver, mesmo quando ela se apresenta na forma do vazio ou da ausência de sentido. Ao fazê-lo, o sujeito não apenas resiste à patologização e à medicalização redutivas, mas também se abre à possibilidade de transformar o abismo em espaço criativo, onde novas formas de sentido e modos de vida podem emergir. Segundo penso, é justamente na aceitação radical da finitude e do limite que a vida revela sua força mais autêntica, um convite contínuo para reinventar a si mesmo em face da sombra da morte.
O debate, como a vida, permanece aberto.
Prof. (e estudante) Alexandre H. Reis
