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Os Cadáveres e a Ciência. Parte 1: O diário de um ladrão de sepulturas

Em maio de 2025, o Royal College of Surgeons of England disponibilizou integralmente a digitalização de um dos documentos mais singulares da história da medicina moderna: o chamado Diary of a Resurrectionist, manuscrito redigido entre 1811 e 1812 por Joseph Naples, membro de uma quadrilha especializada na exumação clandestina de cadáveres destinados ao mercado anatômico londrino. À primeira vista, o interesse do documento parece residir no caráter pitoresco ou mesmo macabro das atividades que descreve. Afinal, trata-se do registro cotidiano de homens que passavam as noites violando sepulturas recentes para fornecer corpos às escolas de medicina. Contudo, limitar-se a esse aspecto equivaleria a perder de vista aquilo que torna o manuscrito historicamente precioso. Seu verdadeiro interesse, que merece um capítulo no volume 2 da minha História do Suicídio (ainda em redação), consiste, em permitir observar, numa escala microscópica, um dos processos mais decisivos da modernidade ocidental: a transformação do cadáver em objeto privilegiado de conhecimento científico.

(GRAVURA de cemitério londrino do século XIX. Reprodução digital utilizada em: The Body Snatcher, Part 3. Medium, [s.d.]. Disponível em: https://medium.com/best-short-stories/the-body-snatcher-by-robert-louis-stevenson-part-3-2632a807d423. Acesso em: 1 jun. 2026.)

A história da medicina moderna é inseparável da história dos corpos mortos. Desde o Renascimento, a anatomia havia adquirido um lugar cada vez mais central na formação médica europeia, mas foi sobretudo entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX que a dissecação se consolidou como fundamento indispensável da educação cirúrgica. Se conhecer o corpo significava abri-lo, compreender suas estruturas significava expor aquilo que durante séculos permanecera oculto sob o respeito religioso devido aos mortos. A partir desse momento, a aquisição de cadáveres deixou de ser uma questão marginal para tornar-se um problema estrutural das instituições médicas.

O paradoxo era evidente. Quanto mais a anatomia se afirmava como condição necessária do progresso médico, mais insuficiente se tornava o número de corpos legalmente disponíveis para dissecação. Na Inglaterra do início do século XIX, a principal fonte autorizada de cadáveres continuava a ser constituída pelos corpos de criminosos executados. Contudo, a expansão das escolas médicas e o crescimento do ensino anatômico haviam criado uma demanda incomparavelmente superior à oferta. Formava-se, assim, uma contradição característica da modernidade: a ciência necessitava de corpos; a ordem jurídica e os costumes funerários impediam seu acesso.

Foi precisamente nesse espaço que floresceu a atividade dos chamados resurrectionists. O nome possuía uma ironia involuntária. Não se tratava de homens que ressuscitavam os mortos, mas de indivíduos que os retiravam dos cemitérios para reinseri-los numa nova economia do saber. O cadáver deixava de pertencer à família, à comunidade religiosa ou à memória do falecido para ingressar numa cadeia de circulação que envolvia ladrões de sepulturas, intermediários, professores de anatomia, estudantes de medicina e instituições hospitalares. O corpo humano adquiria, pela primeira vez em larga escala, um valor científico e econômico independente da pessoa que havia sido em vida.

O diário de Joseph Naples permite observar concretamente essa economia dos mortos. Suas páginas registram corpos exumados, preços negociados, despesas operacionais, subornos pagos a vigias e coveiros, prisões de membros da quadrilha e os riscos constantes envolvidos na atividade. O documento revela uma organização notavelmente racional. Não se trata de ações esporádicas praticadas por indivíduos isolados, mas de uma verdadeira rede de abastecimento destinada a responder às necessidades permanentes do ensino médico. A anatomia moderna, frequentemente apresentada como triunfo da razão científica, dependia materialmente de um mercado clandestino sustentado pela violação sistemática das sepulturas.

O caráter rotineiro dessa atividade aparece de forma particularmente eloquente nas próprias anotações de Naples. Em uma das entradas do diário, lê-se simplesmente: “Went to Bunhill Row. Took up one. Received £4 4s.” (“Fomos a Bunhill Row. Exumamos um corpo. Recebemos 4 libras e 4 xelins”). Em outra ocasião: “Went to St. Pancras. Took up two adults. Received £8 8s.” (“Fomos a St. Pancras. Exumamos dois adultos. Recebemos 8 libras e 8 xelins”). A secura administrativa dessas notas impressiona precisamente porque elimina qualquer comentário moral ou emocional. O cadáver surge apenas como unidade de trabalho, objeto de transporte, mercadoria negociável e elemento indispensável ao funcionamento cotidiano das escolas anatômicas.

BROWNE, Hablot Knight. Resurrectionists. [S. l.], 1847. 1 gravura, xilografia. Original em coleção particular.

É precisamente nesse ponto que o manuscrito ultrapassa a história da medicina e se torna relevante para a história do suicídio. Ao longo do século XIX, observa-se uma transformação progressiva do estatuto do cadáver. Durante séculos, os corpos dos suicidas haviam sido objeto de sanções religiosas e jurídicas destinadas a prolongar a condenação para além da morte. Negava-se sepultura cristã ao suicida; mutilava-se seu cadáver; confiscavam-se seus bens; expunha-se publicamente sua memória à infâmia. Entretanto, à medida que a medicina mental, a psiquiatria e a medicina legal se consolidavam, o cadáver passou a ser investido de uma nova função. Já não era apenas objeto de punição; tornava-se objeto de investigação.

Não é por acaso que, algumas décadas depois do período descrito por Naples, alienistas como Étienne Esquirol passariam a realizar autópsias sistemáticas de suicidas na esperança de descobrir as lesões orgânicas responsáveis pela morte voluntária (objeto da minha disciplina “Preleções sobre suicídio”). O cadáver do suicida deixava de ser apenas o suporte de uma condenação moral para converter-se em documento médico. Procuravam-se alterações cerebrais, lesões digestivas, deformações cranianas e quaisquer indícios anatômicos capazes de explicar cientificamente aquilo que durante séculos havia sido interpretado como pecado, crime ou vício moral.

Sob esse aspecto, o diário dos resurrectionists permite observar o momento anterior à plena medicalização da morte voluntária. Ele registra uma época em que os corpos ainda eram disputados entre diferentes regimes de verdade: a religião que os sacralizava, a família que os reivindicava, a justiça que eventualmente os punia e a medicina que começava a transformá-los em fonte de conhecimento. A história narrada por Joseph Naples não é apenas a história de ladrões de cadáveres. É a história da constituição de um novo olhar sobre o corpo humano, um olhar que encontraria nos anfiteatros anatômicos, nos hospitais, nos hospícios e nos necrotérios alguns de seus principais laboratórios.

Quando, em 1878, Jean-Baptiste Jeannel propôs que os corpos dos suicidas considerados responsáveis por seus atos fossem obrigatoriamente destinados às escolas de anatomia, a ideia pareceu extrema a muitos contemporâneos. Contudo, ela só se tornou pensável porque o processo descrito pelo diário já havia avançado enormemente. O cadáver havia deixado de ser apenas o vestígio de uma vida para tornar-se matéria-prima do saber. Entre as sepulturas violadas pelos resurrectionists londrinos e as autópsias psiquiátricas realizadas sobre os corpos dos suicidas existe uma continuidade histórica profunda: em ambos os casos, observa-se a progressiva incorporação dos mortos aos dispositivos modernos de produção de conhecimento.

Mas a história não termina na Inglaterra nem no século XIX. Se os cemitérios londrinos alimentaram os anfiteatros anatômicos da medicina europeia, a experiência brasileira sugere que mecanismos semelhantes continuaram a operar sob outras formas e em outros contextos institucionais. As recentes discussões sobre a utilização de cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena por escolas médicas mineiras mostram que a relação entre medicina, cadáveres anônimos e populações socialmente vulneráveis permanece um tema aberto à investigação histórica. Na segunda parte deste ensaio, examinaremos justamente um caso brasileiro, procurando compreender como a produção do saber anatômico e psiquiátrico entre nós também se articulou à circulação de corpos provenientes de instituições de exclusão e confinamento.

Prof. Alexandre H. Reis

Fontes:

HOGAN, Corinne. Diary of a resurrectionist: The unique record of a frightening trade born out of necessity. Royal College of Surgeons of England, 27 maio 2025. Disponível em: https://www.rcseng.ac.uk/library-and-publications/library/blog/diary-of-a-resurrectionist/  Acesso em: 29 mai. 2026.

BAILEY, James Blake (ed.). The Diary of a Resurrectionist. London: Swan Sonnenschein & Co., 1896. Disponível em: https://archive.org/details/diaryofresurrect00napl Acesso em: 29 mai. 2026.

HOGAN, Corinne. Diary of a resurrectionist: The unique record of a frightening trade born out of necessity. Royal College of Surgeons of England. O manuscrito original digitalizado pode ser consultado em: https://www.rcseng.ac.uk/library-and-publications/library/blog/diary-of-a-resurrectionist/  Acesso em: 29 mai 2026.

ESQUIROL, Étienne. Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. Paris: J.-B. Baillière, 1838. Disponível em:

https://openlibrary.org Acesso em: 30 mai. 2026.

BELL, Clark. Medico-Legal Studies. Vol. I. New York: Medico-Legal Journal Association, 1889. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Medico-legal_studies_%28Volume_1%29_%28IA_28320490RX1.nlm.nih.gov%29.pdf Acesso em: 30 mai. 2026.

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