Com economia estável e baixa carga tributária, país conseguiu grau de investimento há dois anos; qualidade de vida, porém, é a pior do Mercosul
O patinho feio está virando um cisne. O Paraguai, o mais humilde dos sócios do Mercosul, tem vivido um momento econômico dourado. O símbolo dessa nova era é um selo de bom pagador: paraguaios têm há quase dois anos o grau de investimento de agências de classificação de risco, um sonho distante para Argentina e Brasil.
O brilho paraguaio é resultado da persistência de uma política econômica relativamente estável independentemente do viés político do governo. Além disso, o país conseguiu avançar com uma agenda de reformas estruturais em temas centrais, como Previdência, estrutura administrativa e arrecadação.
Os impostos, aliás, exercem um papel importante nesse novo Paraguai. O país parece colher os frutos de um sistema tributário simples – e muito mais barato – que dos dois grandes vizinhos.
A receita é fácil: 10-10-10.
O imposto de renda das pessoas físicas é de até 10%, o tributo sobre o lucro das empresas é de iguais 10% e a carga sobre consumo repete a alíquota de 10%.
O triplo dez destoa da realidade ao lado.
No Brasil, o IR da pessoa física pode chegar a 27,5%. Nas empresas, a mordida do Fisco chega a 34% do lucro quando o IR é somado à Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL).
No consumo, há um verdadeiro Frankenstein no ainda separado estadual ICMS e o municipal ISS. Antes da reforma tributária, há, efetivamente, milhares de regimes e alíquotas diferentes nos 27 Estados que se espalham em mais de 5.000 municípios e que se cruzam nos inúmeros produtos e serviços.
“O sucesso não tem atalho. É uma corrida em que você tem que ter muita resistência. Não é algo que a gente fez no ano passado. É resultado de muita coisa que a gente vem fazendo há 20 anos”, explicou à CNN Brasil o ministro de Economia e Finanças, Carlos Fernández Valdovinos.
Essa corrida da economia paraguaia tem pelo menos duas décadas. A receita tem ingredientes conhecidos – e usados no Brasil – como meta de inflação, Banco Central autônomo, lei de responsabilidade fiscal, reforma da Previdência e dos tributos.
A diferença é que, no vizinho, essas políticas parecem não terem sido corroídas pelo mundo político e, assim, resultaram em melhora dos indicadores.
Projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que, dos quatro sócios originais do Mercosul, o Paraguai deve terminar 2026 com os melhores números na inflação, desemprego e dívida pública, além da menor taxa de juros.
O Paraguai também deve terminar o ano com o segundo maior crescimento do PIB e o segundo melhor resultado fiscal. Os números levaram alguns economistas a apelidar o país de “Tigre Guarani” em menção aos tigres asiáticos dos anos 1990.
“Se a sociedade não tolera inflação alta, significa que não tolera endividamento alto nem déficit fiscal. Então, seja governo de esquerda ou de direita, você vai ter um BC independente e um Fisco técnico”, disse o ministro.
Luxo, esgoto e frango assado
Assunção vê essa época dourada da economia se materializar no subir de arranha céus, abertura de novos shoppings luxuosos e carros caros nas ruas. Mas os sinais de riqueza contrastam com a – ainda presente – realidade do velho Paraguai.
A avenida Aviadores del Chaco, no noroeste da capital, é símbolo do fenômeno. A via que liga o centro histórico da capital ao aeroporto virou endereço de novos shoppings, torres espelhadas de escritórios e concessionárias de carros importados.
Em frente às novas construções, o esgoto ainda corre à céu aberto em trechos da avenida. Diante das lojas luxuosas, ambulantes tentam atrair a atenção de motoristas, enquanto os ‘mesiteros’ – camelôs que têm uma mesa – ocupam a calçada e oferecem fones de ouvido, capas de celular ou comida pronta.
Essa dura realidade é comprovada nos números.
Dados do Banco Mundial revelam que o sucesso macroeconômico não resultou, necessariamente, em desenvolvimento humano.
O Paraguai está no 102º lugar do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o pior do Mercosul. O Brasil está na 86ª posição, o Uruguai ocupa o 50º posto e a Argentina lidera no bloco, com a 47º melhor número.
A expectativa de vida ao nascer de um paraguaio também é a pior do bloco, e quase cinco anos menos que de um uruguaio. A educação não avançou como a macroeconomia e o país tem a segunda pior média de anos na escola da região – e fica à frente apenas do Brasil.
Críticos dizem que a baixa carga tributária impede o governo de gastar mais com educação e saúde. Historicamente, o governo paraguaio destina cerca de 2,5% do PIB para a saúde pública. No Brasil, o percentual se aproxima do dobro.
A realidade é que é praticamente impossível ser atendido na rede pública em casos complexos. E, quando uma doença grave surge, para muitos paraguaios o frango assado acabou virando uma espécie de seguro saúde.
Na periferia das cidades, a “pollada solidária” é comum nos fins de semana. Doentes organizam um dia de frango assado para vizinhos e familiares para arrecadar dinheiro e, assim, pagar o atendimento privado.
A refeição é servida com mandioca cozida ou salada e, em troca, os amigos pagam antecipadamente um valor fixo. Normalmente, de 15 mil a 30 mil guaranis – de R$ 12 a R$ 25. É o jeitinho paraguaio diante da falta do Estado na saúde.
Enquanto o “Tigre Guarani” ruge nos relatórios do FMI e arranca elogios em Wall Street, a desigualdade ecoa nas ruas sem asfalto. O Paraguai descobriu a fórmula para atrair o capital, mas ainda não aprendeu a distribuí-lo com a mesma eficiência.
Por enquanto, os hermanos vivem uma economia de dois andares: no topo, o brilho dos prédios espelhados que miram Miami e Madri. No térreo, a fumaça das churrasqueiras improvisadas.
O sucesso macroeconômico paraguaio é real e invejável, mas enquanto o acesso a um médico depender da venda de um frango assado, o cisne do Mercosul continuará voando com uma asa presa ao passado.
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/fernando-nakagawa/economia/cnn-money/paraguai-o-tigre-guarani-que-brilha-no-pib-mas-patina-no-idh/
