A destituição da presidência do Peru, consolidada com o impeachment no dia 19 de fevereiro de 2026, reafirma a crônica instabilidade política que assola o país andino e o reposiciona como um dos elos mais frágeis da governabilidade regional.
Através de um mecanismo frequentemente descrito como “impeachment express” (G1, 2026), o Congresso peruano mais uma vez demonstrou seu poder desproporcional frente ao Executivo, perpetuando um ciclo de crises institucionais. Sob a ótica das Relações Internacionais, essa rotatividade não é um fenômeno isolado, mas o sintoma agudo de um sistema político hiperfragmentado, onde a ausência de partidos políticos consolidados e a facilidade constitucional de destituição presidencial corroem a confiança democrática e a estabilidade do Estado.
A raiz desta crise estrutural reside em um desenho institucional que permite a vacância presidencial por “incapacidade moral”, um termo juridicamente ambíguo que é frequentemente instrumentalizado por coalizões parlamentares voláteis e fisiológicas. Como pontuado pela Folha de São Paulo (2026)por analistas no Peru contemporâneo, “governar deixou de ser exercício de mandato e passou a ser exercício de sobrevivência”. O chefe de Estado, quase sempre desprovido de uma base aliada sólida, atua como refém de um Legislativo hostil, o que inviabiliza o planejamento e a execução de políticas públicas de longo prazo e transforma a presidência em um cargo de constante negociação defensiva para evitar a própria deposição.
Os impactos dessa instabilidade crônica transcendem as fronteiras peruanas, gerando externalidades geopolíticas negativas para a América Latina como um todo. A troca sucessiva de “presidentes fragilizados” afeta diretamente a capacidade de concertação diplomática e a eficácia de instâncias de integração regional (Terra, 2026). Para o Brasil e outros vizinhos, a imprevisibilidade em Lima dificulta a consolidação de acordos bilaterais em áreas cruciais, como segurança fronteiriça, combate ao narcotráfico transnacional e desenvolvimento de infraestrutura logística (como a saída comercial para o Oceano Pacífico). A fraqueza institucional do Peru cria, na prática, um vácuo de poder e vigilância que pode ser explorado por atores ilícitos, aumentando a vulnerabilidade securitária da região andina e amazônica.
Diante deste cenário de terra arrasada institucional, a ascensão do novo presidente no dia 24 de fevereiro, José Balcázar, ocorre sob forte escrutínio público e severa pressão política. O seu mandato já se inicia com o desafio hercúleo de apaziguar as ruas e costurar um mínimo de governabilidade com o mesmo Congresso que derrubou seu antecessor. Ao descartar publicamente um indulto à ex-presidente (CNN Brasil, 2026), Balcázar tenta sinalizar um compromisso com a accountability jurídica e distanciar-se das acusações de conluio com o establishment político desgastado. Contudo, seu desafio primário será demonstrar que seu governo não é apenas mais uma transição efêmera, mas uma gestão capaz de estancar a sangria democrática que caracteriza o país.
No âmbito da política externa, a crise interna peruana se choca frontalmente com um cenário global de crescentes tensões comerciais, particularmente nas relações com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump. O anúncio de uma tarifa global de 15% proposta por Washington gera apreensão, embora análises econômicas sugiram que o impacto direto no Peru possa ser inicialmente acotado, devido à forte estrutura de suas exportações ser baseada em commodities minerais (El Comercio, 2026). No entanto, o verdadeiro risco apontado pelo mercado reside na “elevação da incerteza” em um país já politicamente fraturado. Um Executivo peruano focado exclusivamente na própria sobrevivência doméstica possui pouquíssima margem de manobra diplomática para negociar isenções ou defender seus interesses comerciais de forma assertiva perante uma Casa Branca adepta do unilateralismo transacional.
Em suma, a destituição de fevereiro de 2026 não encerra a crise peruana, mas apenas inaugura seu próximo capítulo. O Peru ilustra, de forma paradigmática, os riscos de um arranjo institucional onde o choque permanente entre os poderes paralisa o Estado. Para a América Latina, o país serve como um laboratório de advertência sobre os perigos do desgaste democrático. A gestão de Balcázar e sua capacidade de lidar simultaneamente com pressões externas de potências protecionistas e com a urgência de reformas constitucionais internas determinarão se o Peru conseguirá, finalmente, superar seu status de “democracia de sobrevivência” ou se continuará sendo o epicentro da instabilidade geopolítica andina.
Referências
CNN BRASIL. Novo presidente do Peru, José Balcázar, descarta indulto a ex-presidente. São Paulo, fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/novo-presidente-do-peru-jose-balcazar-descarta-indulto-a-ex-presidente/. Acesso em: 24 fev. 2026.
EL COMERCIO. Arancel global de 15% de Trump tendría impacto acotado en Perú, pero eleva la incertidumbre. Lima, fev. 2026. Disponível em: https://elcomercio.pe/economia/arancel-global-de-15-de-trump-tendria-impacto-acotado-en-peru-pero-eleva-la-incertidumbre-noticia/. Acesso em: 24 fev. 2026.
FOLHA DE S.PAULO. No Peru, governar deixou de ser exercício de mandato e passou a ser exercício de sobrevivência. São Paulo, fev. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/no-peru-governar-deixou-de-ser-exercicio-de-mandato-e-passou-a-ser-exercicio-de-sobrevivencia.shtml. Acesso em: 24 fev. 2026.
G1. Peru: sistema político, impeachment express. Rio de Janeiro, 19 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/19/peru-sistema-politico-impeachment-express.ghtml. Acesso em: 24 fev. 2026.
TERRA. Troca de presidentes fragilizados no Peru: como isso afeta o Brasil e a América Latina. São Paulo, fev. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/troca-de-presidentes-fragilizados-no-peru-como-isso-afeta-o-brasil-e-a-america-latina,9508993691a68ba482cc9ef5a9cb4236esxhwooh.html. Acesso em: 24 fev. 2026.
Eduardo Grecco é pesquisador do LabGRIMA e GeoMercosul
