Na última quarta-feira, 21 de maio, em Buenos Aires, uma nova rodada de tratativas formalizou avanços das negociações entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), composta por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.
Em resposta à CNN, apenas detalhes quanto a patentes quanto a protocolos adicionais sobre meio ambiente fecharam todos os capítulos deste acordo. Este possível tratado reflete a busca do Mercosul por ampliar seus horizontes comerciais e fortalecer sua presença no mercado internacional, especialmente em um contexto de transformações nas dinâmicas do comércio global (Mendes, 2025).
É importante destacar que o cenário no qual essa negociação se insere é particularmente complexo. O sistema internacional passa por um período de reconfiguração das cadeias globais de valor, no qual as tensões comerciais pelos tarifaços de Donald Trump, os efeitos da pandemia, as mudanças climáticas e os conflitos geopolíticos, como a guerra na Ucrânia, pressionam países e blocos econômicos a buscarem parcerias mais estratégicas e diversificadas. A Europa, por exemplo, procura reduzir sua dependência de determinados fornecedores e, ao mesmo tempo, garantir acesso a mercados de commodities essenciais.
No âmbito do Mercosul, há uma clara tentativa de superar décadas de negociações inconclusivas e desafios internos que dificultaram sua integração internacional. Historicamente, o bloco enfrenta tensões entre membros com visões mais protecionistas, como a Argentina, e aqueles que defendem uma maior abertura econômica, como o Uruguai e, em certas ocasiões, o Brasil. Paralelamente, o Mercosul ainda lida com a complexa negociação do acordo com a União Europeia, que permanece travado, sobretudo por exigências ambientais e compromissos climáticos.
O EFTA, por sua vez, representa um conjunto de economias altamente desenvolvidas, que embora não façam parte da União Europeia, possuem elevados padrões regulatórios e grande capacidade econômica. O interesse do bloco europeu em negociar com o Mercosul reflete sua estratégia de diversificar parceiros comerciais, especialmente em setores como agricultura, mineração e alimentos, onde os países sul-americanos possuem vantagens comparativas.
As implicações de um acordo com o EFTA são significativas. Para o Mercosul, ele representa uma oportunidade de diversificar mercados e reduzir a dependência de exportações para parceiros tradicionais. Além disso, um acordo bem-sucedido poderia melhorar a imagem do bloco como um ator confiável no comércio internacional, possivelmente destravando outras negociações, como a com a União Europeia. Por outro lado, há desafios consideráveis, especialmente no que tange à necessidade de adaptação às rigorosas normas técnicas, ambientais e de qualidade impostas pelos países do EFTA. Isso exigirá reformas estruturais e melhorias na competitividade de vários setores produtivos da região.
Quando comparado a outros acordos internacionais, o tratado com o EFTA se mostra menos complexo do que o com a União Europeia, sobretudo por envolver um número menor de países e por não carregar o mesmo peso político e ambiental que acompanha as negociações com Bruxelas. Ainda assim, o EFTA tem um histórico de acordos exigentes, focados em padrões de alta qualidade, o que impõe desafios técnicos relevantes, embora menos politicamente sensíveis que os da UE. Além disso, o Mercosul tem buscado acordos similares com países como Singapura e os Emirados Árabes, mas o tratado com o EFTA seria particularmente relevante por se tratar de economias desenvolvidas, com alto poder aquisitivo.
O avanço dessa negociação simboliza mais do que um simples tratado comercial; ele reflete uma tentativa do Mercosul de redefinir seu papel no cenário global, em meio às complexas dinâmicas da economia contemporânea. Diante disso, a assinatura do acordo com o EFTA, se concretizada, não apenas abrirá novas oportunidades comerciais, como também exigirá uma reflexão interna profunda dos países do Mercosul sobre seus modelos de desenvolvimento, sua capacidade de se adequar aos padrões internacionais e sua disposição para enfrentar os custos e benefícios de uma integração econômica mais ampla.
REFERÊNCIAS
RITTNER, D.; GARCIA, G. Mercosul espera acordo de livre comércio com Efta na próxima cúpula. CNN, 26 de mai. de 2025. [s.l.]. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/mercosul-espera-acordo-de-livre-comercio-com-efta-na-proxima-cupula/>. Acesso em: 29 de mai. de 2025.
MENDES, C. Acordo Mercosul-EFTA pode destravar tratado comercial com a União Europeia. Rádio Senado, 23 de mai, de 2025 [s.l.]. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2025/05/23/acordo-mercosul-efta-pode-destravar-acordo-comercial-com-a-uniao-europeia>. Acesso em: 29 de mai. de. 2025.
MERCOSUL e EFTA realizaram em Buenos Aires a XII Ronda de Negociações – MERCOSUL. 31 de mar. de 2025 [s.l.]. Disponível em: <https://www.mercosur.int/pt-br/mercosul-e-efta-realizaram-em-buenos-aires-a-xii-ronda-de-negociacoes/>. Acesso em: 29 de mai. de 2025.
* Eduardo Grecco é pesquisador do GeoMercosul.
