Tese sobre multimorbidade no Brasil

Por Natália Flores

 

A pesquisadora Januse Nogueira de Carvalho, autora da tese sobre multimorbidade no Brasil

No Brasil, o interesse pelo tema da multimorbidade aumentou nos últimos anos. A alta ocorrência de múltiplos problemas de saúde em um mesmo individuo somado à escassez de informações cientificas detalhadas sobre o problema instigam pesquisadores e profissionais de saúde a compreender o padrão da multimorbidade no país. A pesquisadora Januse Nogueira de Carvalho, em tese defendida em 2017 no curso de doutorado em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), encontrou resultados relevantes sobre o tema. Em entrevista, ela nos conta um pouco mais sobre o seu estudo.

 

1) Quais os motivos que levaram vocês a realizar uma tese sobre multimorbidade?

Para a construção da tese, procurei trabalhar com um tema de relevância e ainda pouco explorado na literatura, especialmente no nosso país. O tema prevenção quaternária esteve em evidência nas discussões que participei no 4o Congresso Ibero Americano de Medicina Familiar e Comunitária, em Montevideo, Uruguai, em 2015, o que me despertou interesse. A prevenção quaternária é um conjunto de ações que visam evitar danos associados às intervenções médicas e de outros profissionais da saúde, como excesso de medicação ou cirurgias desnecessárias (iatrogenias). Discuti com meu orientador sobre esse meu interesse e chegamos ao tema multimorbidade, por ser uma condição totalmente relacionada a tais danos.

2) Houveram dificuldades para a elaboração do projeto? Se sim, quais?

As dificuldades foram metodológicas para garantir o mínimo de viés subjetivo do pesquisador. Para isso, na análise estatística consideramos que os dados eram oriundos de amostra complexa. O projeto teve como base os dados da pesquisa nacional de saúde 2013, de domínio público.

3) Quais os resultados que vocês consideraram mais relevantes?

Os dados mais relevantes foram: 1) a alta prevalência de duas ou mais doenças crônicas entre pessoas com 18 anos ou mais de idade (1 a cada 4 indivíduos), chegando a metade dos idosos (60 anos ou mais); 2) a prevalência considerável de multimorbidade na população economicamente ativa; 3) a obesidade e o hábito de fumar atual e passado estarem associados a uma maior prevalência de multimorbidade. Esses fatores sugerem que o modo de viver da sociedade atual tem determinado um padrão alimentar que, aliado ao sedentarismo, em geral é desfavorável à saúde da população. O fato de haver uma representatividade da faixa economicamente ativa, por exemplo, sugerem que os serviços de atenção primária de saúde não estão organizados de forma que contemplem esse contingente da população adequadamente.

4) Como esses resultados podem ser utilizados na prática?

Os resultados nos mostram direcionamentos que devem ser tomados para lidarmos com essas populações atingidas pela multimorbidade. Há a necessidade, por exemplo, de estímulo a práticas de atividades físicas para se combater a obesidade, bem como a realização de avaliação de consumo alimentar e antropometria de indivíduos de todas as fases da vida pelos serviços de saúde. Também é preciso incluir ações de prevenção às doenças relacionadas ao trabalho.

5) Quais os desafios que vocês julgam existir para o avanço da área da multimorbidade?

Dentre os principais desafios, consideramos o de despertar nos profissionais, especialmente da atenção primária, a necessidade de uma abordagem pautada no princípio da integralidade. Para a atenção aos indivíduos na perspectiva da multimorbidade, as equipes multiprofissionais deveriam considerar a migração do modelo assistencialista com ênfase em procedimentos curativos para o modelo integral com ênfase em ações de promoção e prevenção de saúde. Outro ponto seria a elaboração de protocolos de abordagem da multimorbidade, a fim de reduzir a possibilidade de sobreposição de indicações terapêuticas e múltiplas consultas com profissionais de diferentes formações, e que considere também os determinantes sociais como imprescindíveis para o êxito do tratamento da população.

6) Para que isso aconteça, quais mudanças precisam ser implementadas?

O cerne da questão passa pela formação e perfil dos profissionais em saúde, especialmente os médicos. O modelo pedagógico, com a divisão das disciplinas curriculares em departamentos com ênfase nas especialidades e o mercado de trabalho favorável aos superespecialistas são pontos que provavelmente contribuem para a atuação destes profissionais. No cuidado dos pacientes deve-se considerar a interação entre as doenças no sentido de minimizar iatrogenias, além de minimizar custos com hospitalizações recorrentes e outras complicações advindas da multimorbidade.

 

Referências

https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/23760/1/JanuseNogueiraDeCarvalho_TESE.pdf