Por Nathalia Pereira/Superávit Caseiro
Existem várias referências importantes na história da Economia, que foram fundamentais para a evolução e transformação das práticas e metodologias do assunto. Entretanto, essa área é historicamente dominada pelo gênero masculino e carrega diversos preconceitos contra as mulheres que tentam ocupar seu espaço nesse meio. Christine Lagarde é um dos poucos nomes femininos a conquistar posição de poder, mudando a história sexista em que estava inserida, abrindo caminho e servindo de inspiração para outras mulheres fazerem o mesmo.
Lagarde ocupa, desde novembro de 2019, o cargo de presidente do Banco Central Europeu (BCE), autoridade monetária da Zona do Euro. De 2007 a 2011, foi ministra das Finanças da França e, de 2011 até 2019, atuou como diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), sendo a primeira mulher a ocupar essas três posições.
Apesar de não possuir a formação tradicional de economista ou banqueira central, Christine Lagarde tem formação jurídica e estudos em economia e finanças, é advogada e, por isso, seu pioneirismo iniciou antes mesmo de adentrar o setor público, pois foi a primeira mulher a integrar o comitê executivo do escritório multinacional de advocacia Baker & McKenzie e, em 1999, tornou-se a primeira mulher a presidir a banca.
Em 2020, ela foi escolhida pela revista norte-americana Forbes como a segunda mulher mais poderosa do mundo, atrás apenas da chanceler alemã Angela Merkel. Sem dúvidas, algo que já se tornou corriqueiro na vida de Christine é ocupar posições de poder em ambientes majoritariamente masculinos, defendendo a liderança de mulheres e seus direitos, e deixando isso muito claro. Segundo o jornal britânico The Guardian, ela declarou que homens sem supervisão tendem a fazer besteira, e, quando era ministra das Finanças da França, disse que, se o banco norte-americano Lehman Brothers se chamasse “Lehman Sisters”, não teria quebrado e precipitado a crise financeira internacional de 2008.
Além disso, Lagarde se diz 100% a favor das políticas de cotas para as mulheres nos conselhos de administração e comitês executivos das empresas, em vigor na Europa e, na França, em especial, garantindo que essa política é adotada no BCE: “Com competências iguais, uma mulher será contratada”, destacou em entrevista publicada em 2020 pelo site da rádio France Inter.
A biografia dela é muito interessante. Nascida no dia 1º de janeiro de 1956, em Paris, na França, seu nome completo é Christine Madeleine Odette Lagarde e, atualmente, está com 70 anos de idade. Seus pais são Robert e Nicole Lallouette, ambos professores. Ela cresceu em Le Havre, na Normandia, juntamente com dois irmãos e sua mãe. Após graduar-se, em 1974, em Le Havre, recebeu uma bolsa de estudos e ingressou em uma escola de ensino médio particular em Bethesda, Maryland, um subúrbio de Washington, D.C., nos Estados Unidos, onde completou uma licenciatura em inglês. Quando voltou à França, Christine formou-se em Direito Social e frequentou a Universidade de Paris X-Nanterre, preparando-se para a candidatura de admissão à ENA (Escola Nacional de Administração), que é uma das mais prestigiosas grandes écoles francesas (estabelecimentos de nível superior que recrutam alunos por concurso e asseguram a formação de alto nível). Lagarde foi reprovada duas vezes no vestibular da ENA e acabou fazendo um mestrado em Inglês, outro em Direito Comercial e um diploma em Direito do Trabalho, também pela Universidade de Paris X-Nanterre. Sobre sua vida pessoal, ela é divorciada e tem dois filhos, Pierre-Henri Lagarde (nascido em 1986) e Thomas Lagarde (nascido em 1988), ambos filhos de Wilfried Lagarde, seu marido durante dez anos, de 1982 até 1992. Seu companheiro atual é o empresário Xavier Giocanti, de Marselha. Ela é vegetariana e não costuma beber álcool, possui grande paixão por yoga, mergulho e natação.
Sua carreira começou na advocacia, quando ela ingressou na empresa Baker & McKenzie, de Chicago, em 1981, onde tornou-se advogada associada adjunta em 1991, membro do Comitê Executivo em 1995, presidente da Comissão Executiva de 1999 até 2004 e membro do Comitê de Estratégia Global desde 2004. Depois, trabalhou como advogada no Tribunal de Apelação de Paris antes de ser nomeada ministra pela primeira vez, em 2005. Não parando por aí, entre 2003 e 2005, Lagarde foi conselheira de duas filiais da empresa-mãe Baker & McKenzie, em Singapura e nas Bermudas.
Além de grande nome na Economia mundial, o que a faz ser muito conhecida, a mídia já a retratou algumas vezes; uma delas é a personagem Miranda Priestly, do filme “The Devil Wears Prada”, de 2006, que é tão querida pelo público e recebeu continuação depois de 20 anos, em 2026. No geral, Miranda, interpretada por Meryl Streep, é inspirada em Anna Wintour, editora-chefe da revista Vogue norte-americana por 37 anos, com personalidade e aparência características; entretanto, Meryl já afirmou que baseou partes de sua atuação em Christine Lagarde, citando sua “elegância e autoridade inatacáveis”. Ela foi retratada por Laila Robins em “Too Big to Fail”, lançado em 2011 para a HBO, baseado no livro de mesmo nome, escrito pelo jornalista Andrew Ross Sorkin, do The New York Times. Christine foi entrevistada para o documentário ganhador do Oscar, Inside Job, de 2010.
Envolvida na economia e política francesas, mesmo que seja motivo de inspiração por suas conquistas e pela defesa dos direitos femininos, seu nome já esteve atrelado a polêmicas, tendo sido acusada de “insultar o povo grego” pelo primeiro-ministro e pelo vice-primeiro-ministro da Grécia, após comentário em entrevista no ano de 2012. Embora tenha acusado os gregos de não pagarem seus impostos em número suficiente, foi criticada pelo fato de seu salário no FMI ser isento de determinados impostos, prática comum para dirigentes da instituição. Esse tipo de opinião faz com que ela seja associada a controvérsias pelo público. Em 2011, ela foi investigada na França por aprovar uma arbitragem que favoreceu o empresário Bernard Tapie — marcado por escândalos financeiros e processos judiciais — com 403 milhões de euros. Seu apartamento foi revistado e surgiram suspeitas de proximidade entre ela e Tapie. Em 2016, foi considerada culpada por negligência, mas não recebeu punição.

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu e uma das mulheres mais influentes do poder econômico global
A revista Vogue publicou, em 22 de agosto de 2011, uma entrevista com Lagarde, escrita por Diane Johnson, em que ela conta um pouco sobre como a atual presidente do BCE é e suas impressões, dizendo que a força de sua presença é palpável e explicando que Christine não pode ser considerada apenas uma estrela, mas sim um “planeta com um poderoso campo gravitacional, orbitando pelos céus das altas finanças globais, a primeira mulher a comandar a economia mundial”. Três mulheres poderosas citadas na entrevista por Lagarde são Hillary Clinton, Angela Merkel e, na época, presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Outro ponto principal da entrevista foi a definição da carreira dela como diferente da de outros políticos franceses, ganhando credibilidade por ser vista como independente, sincera e por falar o que pensa em um ambiente dominado por homens, tanto na política quanto nas finanças; suas opiniões diretas e liderança durante a crise financeira de 2008 são marcantes.
Particularmente, gosto muito dessa entrevista à Vogue, uma vez que mostra um olhar real sobre a vida de Christine; inclusive, recomendo que quem quiser conhecer mais sobre ela, leia. Lagarde é uma mulher que serve de inspiração para nós, mulheres, e é a prova viva de que podemos ser quem quisermos, na área em que quisermos. Não existe nada que apenas àqueles que possuem sexo masculino possam fazer, e Christine subiu a cargos de poder mostrando isso.
FONTES:
CNN BRASIL. Christine Lagarde. CNN Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tudo-sobre/christine-lagarde/. Acesso em: 12 maio 2026.
ESCOTILHA. Christine Lagarde: o lenço e o poder. Escotilha, [s.d.]. Disponível em: https://escotilha.com.br/colunas/fashionauta/christine-lagarde-o-lenco-e-o-poder/. Acesso em: 13 maio 2026.
EUROPEAN CENTRAL BANK (ECB). Christine Lagarde. Frankfurt: ECB, [s.d.]. Disponível em: https://www.ecb.europa.eu/ecb/decisions/html/cvlagarde.en.html. Acesso em: 13 maio 2026.
FORBES BRASIL. Christine Lagarde. Forbes Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://forbes.com.br/noticias-sobre/christine-lagarde/. Acesso em: 12 maio 2026.
INFOMONEY. Christine Lagarde. InfoMoney, [s.d.]. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/perfil/christine-lagarde/. Acesso em: 13 maio 2026.
VOGUE. Christine Lagarde: changing of the guard. Vogue, 22 ago. 2011. Disponível em: https://www.vogue.com/article/christine-lagarde-changing-of-the-guard. Acesso em: 11 maio 2026.
VOGUE BRASIL. Com pulso firme e muito estilo, Christine Lagarde será a primeira mulher a presidir o Banco Central Europeu. Vogue Brasil, 2 jul. 2019. Disponível em: https://vogue.globo.com/sua-idade/noticia/2019/07/com-pulso-firme-e-muito-estilo-christine-lagarde-sera-primeira-mulher-presidir-o-banco-central-europeu.ghtml. Acesso em: 13 maio 2026.
WIKIPÉDIA. Christine Lagarde. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Christine_Lagarde. Acesso em: 11 maio 2026.