Artistas _
Ali do Espírito Santo

Patrick Tedesco
Tainah Dadda
grupo T.E.L.A.
  / Laís Possamai
  / Nicolas Beidacki
  / Daniel dos Santos

Curadoria _
Nicolas Beidacki

Marcada pela relação experimental entre performance, paisagem, desencaixes e pertencimentos, a exposição aproxima práticas distintas sobre a necessidade de movimento e a pausa contemplativa frente a um lugar ou tempo que nunca cessam de recomeçar. Entrelaçadas por um contexto e observadas por suas dimensões poéticas, as obras de Ali do Espírito Santo, Tainah Dadda, Patrick Tedesco e do Grupo T.E.L.A procuram um diálogo entre o geopolítico e o geofísico, a catástrofe e o efêmero ou até mesmo entre o tempo histórico, ecológico, meteorológico e o inadiável cataclisma.

A fuga que promovem para um ponto de contemplação no horizonte evidencia um retorno íntimo e subjetivo para si e uma indagação sobre o jogo de dualidade e associação que existe entre o ambientado e o ambiente. Esse embate no qual nunca deixamos de exercer um papel crucial, tardio e muito provavelmente repleto de angústia. Sensações de “deixar para trás”, “ouvir o estrondoso silêncio”, “desviar-se de si” e “diluir a matéria” mesclam a interiorização de uma certeza que paira sobre os trabalhos: “nascer leva tempo”. Assim, sem deixar de abrir discussões sobre a linguagem da performance, da fotografia, da escultura e da instalação, as obras parecem sugerir a percepção de que existe uma inquietude, uma ruptura desconfortável com o lugar que nos cabe neste mundo. As águas do Guaíba, a Lagoa dos Patos, as margens, o objeto em chamas, o derretimento e o colocar-se na terra, por mais que se insiram numa lentidão visual programada, são intervenções de uma travessia, movimento, um turbilhão de delicadezas que avançam constantemente.

Avassaladora também é a sua radicalidade no vazio. A incerteza e a ambiguidade, partes fundamentais para as questões sobre os fins e começos, os lugares e não-lugares e o movimento interno e externo, vão surgindo quando todos os elementos utilizados nos trabalhos param, se desintegram, desambientam-se e voltam novamente a existir. Uma revelação de que tudo que conhecemos está permanentemente mudando, se desfazendo, ressurgindo e que não temos controle sobre a busca na qual seremos lançados. Nossa substância é um colocar-se no inesgotável fluxo que reúne o sentimento de “um mundo sem nós” e um “nós sem um mundo”, pouco a pouco andando, buscando o caminho do próprio caminho, numa travessia turva, triste e sombria. É a temporalidade daqueles que unificam passado e presente e estabelecem um mapa da compreensão do território de si, lançam uma cartografia da expressão mais íntima e veem a vida circular na terra.

Setembro de 2021

_

Nicolas Beidacki
Curador da exposição virtual No Horizonte Profundo


Deixar Para Trás, 2017
Tainah Dadda
Fotoperformance


Entre o parto e o estrondo, 2017
Ali do Espírito Santo
Videoperformance, 04’09”


Metadesivo, 2019
T.E.L.A.
Instalação


Obra em Derretimento nº4, 2020
Patrick Tedesco
Videoarte/Time-lapse, 03’57”

ENTREVISTAS

Confira as entrevistas com os artistas da exposição

  • Nicolas Beidacki _
    Dos horizontes que se impõem, o seu é o que parece, na maioria dos casos, não apresentar nenhuma saída. Num determinado momento, há uma parede de concreto à sua frente; depois, observamos você num frágil trapiche sobre as águas que banham o interior de Pelotas. Já em Portugal, que seria o lugar para a fuga, o projeto se realiza dentro de casa, trancada. Numa obra que fala sobre deslocamento, ir adiante, deixar para trás, não é possível notar como quase tudo está se impondo ao seu movimento?

    Tainah Dadda _
    A Física não era das minhas matérias favoritas, mas tenho alguma lembrança da relação entre a Força do Atrito e os corpos em movimento! Brincadeiras à parte, podemos mesmo pensar nesses termos, de que os obstáculos do espaço talvez sejam essenciais para o impulso da ação. Inclusive, foi a partir de uma maior percepção da hostilidade da cidade em que eu vivia para com seus artistas, que tive a motivação de me voltar para a paisagem urbana do interior do Rio Grande do Sul para desenvolver esse projeto.
    Lembrei também de uma leitura feminista que uma pessoa fez das imagens durante uma das primeiras exposições da fotoperformance. Ela me disse que era sobre a busca da mulher pelo seu próprio espaço. Se tomarmos essa ideia como ponto de partida, então a presença de obstáculos que se impõem ao movimento das identidades femininas em seus percursos de independência é ainda potenciada. Mas vamos nos ater à palavra “busca”. Talvez a intenção deste corpo pese mais do que a concretude da ação. Ao buscar, não há um compromisso, nem a garantia de êxito. Pode não haver saída no horizonte, mas nada impede que sua busca.
    Em outro sentido, a obra também não se define somente ao redor de grandes fugas, de partidas épicas, mas muito mais em torno das pequenas despedidas cotidianas, inerentes à vida. No dia a dia das cidades, há minúsculas mortes a todo o instante, breves perdas, mudanças constantes, deixar para trás é reconhecê-las e aceitá-las.
    Aliás, mesmo no isolamento entre quatro paredes esses pequenos lutos diários não param de ocorrer. A série feita em Portugal surgiu daí. É importante dizer que ela se deu literalmente em estado de exceção. Estávamos no processo de desconfinamento do primeiro lockdown que o país viveu, no início da pandemia da Covid-19. Por isso, a escolha do espaço da casa que, para todos nós que pudemos cumprir as regras sanitárias, se tornou muito mais do que um abrigo, mas todo o microcosmos que uma rua ou uma cidade é. A relação do corpo com aquele ambiente e com o tempo se alterou profundamente. Na imobilidade dos dias confinados, as semanas e os meses pareciam passar em alta velocidade. Tudo era mais impermanente e frágil do que jamais pareceu ser, “deixar para trás” se tornou um imperativo, um solo comum para parte da população mundial, como há tempos não parecia possível. Então, minha reação natural foi experimentar a ação no espaço doméstico.

    Nicolas Beidacki _
    A presença da cadeira como única bagagem que ainda sujeita essa personalidade que deixa para trás todo o resto na paralisação momentânea do movimento, implica, senão numa contemplação do ambiente exterior, numa reflexão sobre o pensamento interior da artista. Para onde se volta essa cadeira? E como a composição de interior e exterior dialogam com esse objeto?

    Tainah Dadda _
    Interior e exterior dialogam continuamente, esse duplo movimento de interação com o ambiente externo e de meditação ativa é fundamental para a realização da ação. E a cadeira desempenha muitas funções, desde as mais práticas, como auxiliar na construção de uma outra qualidade de presença, na medida em que altera o equilíbrio, o peso e o tempo do corpo em deslocamento, quanto as mais simbólicas: como prolongamento desse corpo, ou bagagem como a pergunta se refere, ou o simbolismo de presenças e ausências que se deixam ou não para trás. A cadeira se volta para o passado, para as distâncias percorridas, mas avança sempre em direção a um por vir. 

    Nicolas Beidacki _
    Quando pensamos o registro do movimento é comum relacioná-lo com a imagem em vídeo, uma vez que a fotografia permite uma certa paralisação do presente, em lugar e em tempo. Como se deu a escolha para o uso da fotoperformance, uma vez que ela parece induzir a uma contradição natural ao movimento?

    Tainah Dadda _
    A fotografia é um dispositivo mnemônico em sua origem e a relação entre corpo, memória afetiva e espaço está na base da concepção do projeto. Deixar para trás é sobre a impermanência, a transitoriedade das coisas, mas não se trata só de movimento, é também o esforço de capturar, de guardar o que se move. Ao final de cada percurso, a ação performática inclui uma etapa contemplativa, imóvel na cadeira, em que o trajeto percorrido é observado. Costumo dizer que é o “olhar de quem se despede”, aquela observação atenta de quem procura registrar na memória todos os detalhes, sons, cheiros… Mas é quase um trabalho de Sísifo, porque uma vez percorrido, o caminho já não é mais o mesmo. A fotografia então faz parte desta intenção de conservar o efêmero, fragmentar a ação, isolar o movimento para evidenciar detalhes que, no instante seguinte à captura da imagem, podem se alterar ou deixar de existir. 

    Nicolas Beidacki _
    O uso das cores na construção da imagem e na caracterização da pessoa que
    deixa para trás sempre é muito significativo no seu trabalho. Nos registros da série realizados no Brasil, vemos a alternância entre tons de preto na constituição da roupa que utiliza para a fotoperformance. Já em Portugal, é o vermelho que marca um contraste nos registros, tanto com relação ao ambiente da imagem, quanto com as imagens anteriores da série. O que motivou a mudança e como ela reflete nas características do próprio trabalho?

    Tainah Dadda _
    Devo mencionar que, assim como as cadeiras, os figurinos de Deixar para trás são sempre peças de roupas usadas, que são doadas ou emprestadas em cada cidade que realizo a ação. É importante que sejam objetos impregnados de memória, que “vestem” esse corpo momentaneamente, mas não pertencem a ele. Por isso, jamais fico com nenhum deles, ao final da performance. Assim, há sempre um espaço para o acaso. O critério principal é que sejam peças de cores sólidas e linhas minimais. A busca por contraste entre a figura humana e o ambiente urbano, no caso do Brasil, e doméstico, em Portugal, também está sempre presente.
    As séries no sul do Brasil foram realizadas, duas no outono, e uma ao final do inverno, enquanto em Portugal, era o auge do verão. Evidentemente, a questão climática e geográfica acarreta mudanças na composição das imagens em relação à luminosidade, mas não só, também na disponibilidade corporal tanto de quem performa, quanto de quem fotografa e outros aspectos sensoriais que são invisíveis, mas determinantes para o objeto fotográfico.
    Mas voltando às roupas e as cores, tive a opção de um vestido preto também no Porto, mas o vermelho contava mais histórias – pelo modelo, acredito que seja dos anos 70, a etiqueta dizia que fora feito em outro país europeu, e foi oferecido para mim por uma brasileira que que vivia há poucos meses em Portugal e o comprou de segunda mão. Colocar um tom tão permeado de intensidades e extroversão no ambiente introvertido e íntimo da casa, embora promova uma ruptura em relação às edições anteriores da fotoperformance, também estabelece um diálogo de oposições.

REPORTAGENS

Confira as reportagens sobre a exposição

Mostra ‘No Horizonte Profundo’ em Pelotas
Com realização do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg), exposição pode ser visitada por meio virtual

Mostra No Horizonte Profundo entra em cartaz no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, em Pelotas
Inauguração será nesta quarta-feira, 22, e visitação se estenderá até 31 de outubro, no site e nas redes sociais do Museu e dos artistas

Ali do Espírito Santo
@alidoespiritosanto

performer mato-grossense residente em Porto Alegre com graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e indicado ao Prêmio Aliança Francesa em 2017 com uma cosmogonia de trabalhos que envolviam performance, fotografia, vídeo e instalação.

Patrick Tedesco
@patricktedesco

graduado em Design Digital e pós-graduado em Artes Visuais – Ensino e Percursos Poéticos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), residente em Pelotas, artista multimídia com enfoque em literatura, escultura, fotografia, videoarte e performance.

Tainah Dadda
@tainahdadda

natural de Porto Alegre, com graduação em Teatro e habilitação em Direção Teatral pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atuante como encenadora, produtora cultural, artista visual e oficineira, colaboradora do coletivo artístico Cena Expandida e cofundadora e produtora executiva da Agência CKCO em Pelotas.

grupo T.E.L.A.
@teatrodaestrutura

composto por Laís Possamai, graduanda em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e artista visual; Nicolas Beidacki, graduado em Teatro pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Conselheiro de Cultura do Rio Grande do Sul, dramaturgo e artista visual; e Daniel dos Santos, graduado em Música pela Universidade Federal de Pelotas e músico independente.

PRIMAVERA DOS MUSEUS 2021
Cards de divulgação da exposição como programação da 15ª Primavera dos Museus


Comemorando a XV Primavera dos Museus em âmbito nacional, o MALG – Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo está inserido no calendário de eventos com a exposição “No Horizonte Profundo”. Parabenizamos os organizadores da XV Primavera dos Museus e desejamos que o legado dessa edição comemorativa traga bons frutos para um futuro próximo.

#PrimaveraDosMuseus2021


SOBRE O PROJETO


FotoTerritório: Trajetórias do Lugar e do Corpo é um projeto que tem como atividade principal uma exposição coletiva de âmbito virtual de fotoperformance de seis artistas do eixo Pelotas – Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a ser realizada através das redes sociais do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo – MALG, no segundo semestre de 2021. A proposta é desenvolvida pelos produtores culturais e artistas cênico-visuais Laís Possamai, Nicolas Beidacki e Tainah Dadda e foi selecionada para financiamento do Procultura Pelotas para sua realização.

Os artistas que compõem a exposição “No Horizonte Profundo”, resultado da pesquisa efetuada pelo projeto FotoTerritório, são Ali do Espírito Santo, performer mato-grossense residente em Porto Alegre com graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e indicado ao Prêmio Aliança Francesa em 2017 com uma cosmogonia de trabalhos que envolviam performance, fotografia, vídeo e instalação. Participará com o trabalho “Entre o parto e o estrondo”, de 2017; Patrick Tedesco, graduado em Design Digital e pós-graduado em Artes Visuais – Ensino e Percursos Poéticos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), residente em Pelotas, artista multimídia com enfoque em literatura, escultura, fotografia, videoarte e performance. Participará com o trabalho Obra em Derretimento; Tainah Dadda, natural de Porto Alegre, com graduação em Teatro e habilitação em Direção Teatral pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atuante como encenadora, produtora cultural, artista visual e oficineira, colaboradora do coletivo artístico Cena Expandida e cofundadora e produtora executiva da Agência CKCO em Pelotas. Participará com registros da performance “Deixar Para Trás”, de 2017; e o grupo T.E.L.A., composto por Laís Possamai, graduanda em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e artista visual; Nicolas Beidacki, graduado em Teatro pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Conselheiro de Cultura do Rio Grande do Sul, curador, dramaturgo e artista visual; e Daniel dos Santos, graduado em Música pela Universidade Federal de Pelotas e músico independente. O trabalho do grupo tem foco na produção de espaços que transitam entre a cenografia e a instalação. Participarão com registros da montagem da instalação “Metadesvio”, de 2019.

A curadoria é de Nicolas Beidacki. A proposta visa oferecer ao público uma mostra de projetos de fotoperformance que tenham em comum a relação espaço, deslocamento e movimento, e como essa relação se traduz na poética de cada artista. O projeto também prevê uma série de atividades ao redor do tema e da exposição, condensada em um box educativo a ser distribuído para cinco escolas públicas da cidade de Pelotas, para alunos do ensino fundamental e médio, em caráter virtual, devido à pandemia da Covid-19. O projeto educativo será ministrado pela artista, pesquisadora e mediadora Laís Possamai.

FICHA TÉCNICA


UFPel _ Universidade Federal de Pelotas

Reitora da Universidade Federal de Pelotas
Isabela Fernandes Andrade
Vice-reitora da Universidade Federal de Pelotas
Ursula Rosa da Silva
Presidente da Rede de Museus da UFPEL
Silvana Bojaoski
Diretor do Centro de Artes
Carlos Walter Alves Soares
Presidente da SaMALG
Luciana Dias da Costa Vianna

MALG _ Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo

Diretor do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo
Lauer Alves Nunes dos Santos
Equipe do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo

Fábio Galli Alves – Conservação e Restauro
Joana Soster Lizott – Museologia
Roberta Trierweiler – Secretaria, Documentação e Pesquisa
Bolsista
Daniel Moura

Design e expografia virtual
Amanda Machado Madruga
Renan Espirito Santo

Exposição virtual _ No Horizonte Profundo

Curadoria
Nicolas Beidacki
Artistas particiantes
Ali do Espírito Santo
Patrick Tedesco
Tainah Dadda
grupo T.E.L.A.
/ Laís Possamai
/ Nicolas Beidacki
/ Daniel dos Santos

REALIZAÇÃO


APOIO


FINANCIAMENTO


 

PRIMAVERA DOS MUSEUS 2021


 

No horizonte profundo

Convite  |  Catálogo


 

22/set _ 31/out/2021

Marcada pela relação experimental entre performance, paisagem, desencaixes e pertencimentos, a exposição aproxima práticas distintas sobre a necessidade de movimento e a pausa contemplativa frente a um lugar ou tempo que nunca cessam de recomeçar. Entrelaçadas por um contexto e observadas por suas dimensões poéticas, as obras de Ali do Espírito Santo, Tainah Dadda, Patrick Tedesco e do Grupo T.E.L.A procuram um diálogo entre o geopolítico e o geofísico, a catástrofe e o efêmero ou até mesmo entre o tempo histórico, ecológico, meteorológico e o inadiável cataclisma.

A fuga que promovem para um ponto de contemplação no horizonte evidencia um retorno íntimo e subjetivo para si e uma indagação sobre o jogo de dualidade e associação que existe entre o ambientado e o ambiente. Esse embate no qual nunca deixamos de exercer um papel crucial, tardio e muito provavelmente repleto de angústia. Sensações de “deixar para trás”, “ouvir o estrondoso silêncio”, “desviar-se de si” e “diluir a matéria” mesclam a interiorização de uma certeza que paira sobre os trabalhos: “nascer leva tempo”. Assim, sem deixar de abrir discussões sobre a linguagem da performance, da fotografia, da escultura e da instalação, as obras parecem sugerir a percepção de que existe uma inquietude, uma ruptura desconfortável com o lugar que nos cabe neste mundo. As águas do Guaíba, a Lagoa dos Patos, as margens, o objeto em chamas, o derretimento e o colocar-se na terra, por mais que se insiram numa lentidão visual programada, são intervenções de uma travessia, movimento, um turbilhão de delicadezas que avançam constantemente.

Avassaladora também é a sua radicalidade no vazio. A incerteza e a ambiguidade, partes fundamentais para as questões sobre os fins e começos, os lugares e não-lugares e o movimento interno e externo, vão surgindo quando todos os elementos utilizados nos trabalhos param, se desintegram, desambientam-se e voltam novamente a existir. Uma revelação de que tudo que conhecemos está permanentemente mudando, se desfazendo, ressurgindo e que não temos controle sobre a busca na qual seremos lançados. Nossa substância é um colocar-se no inesgotável fluxo que reúne o sentimento de “um mundo sem nós” e um “nós sem um mundo”, pouco a pouco andando, buscando o caminho do próprio caminho, numa travessia turva, triste e sombria. É a temporalidade daqueles que unificam passado e presente e estabelecem um mapa da compreensão do território de si, lançam uma cartografia da expressão mais íntima e veem a vida circular na terra.

Setembro de 2021

Nicolas Beidacki
Curador da exposição virtual No horizonte profundo

 

realização _ Teatro da Estrutura Latino-Americana