
Há algum tempo, publiquei no site do LYSIS uma lista com cinco livros que considero fundamentais para pensar o suicídio. Foram escolhidos O mito de Sísifo, de Albert Camus; Levantar a mão sobre si mesmo, de Jean Améry; Suicídio e alma, de James Hillman; Suicídio: estudos sobre o desespero humano, de Karl Menninger; e O suicídio, de Émile Durkheim.
Aquela lista, evidentemente, não pretendia constituir um cânone. Nenhuma seleção desse tipo poderia fazê-lo. O suicídio atravessa muitos campos: a filosofia, a literatura, a história, a sociologia, a medicina, a psicologia, a religião, o direito e as artes. Cada livro ilumina uma região do problema, mas deixa outras na sombra. Talvez seja essa, aliás, a condição de toda leitura séria sobre o tema: oferecer alguma luz sem alimentar a ilusão de que finalmente compreendemos tudo.
O suicídio não é um enigma que possa ser resolvido pela descoberta de uma causa. Uma vida não termina por uma única razão. Mesmo quando encontramos uma doença, uma perda, uma humilhação, um conflito ou uma experiência de abandono, ainda não encontramos a totalidade daquela vida. Encontramos apenas uma parte de sua história.
Por isso, compreender não pode significar classificar rapidamente. Significa demorar-se diante daquilo que não se deixa reduzir. Significa escutar sem transformar imediatamente a palavra do outro em sintoma, pecado, crime, fraqueza ou diagnóstico. Os sete livros reunidos nesta segunda lista percorrem caminhos diferentes. Alguns investigam historicamente a morte voluntária; outros procuram descrevê-la clinicamente; outros entram no território do romance, da memória e da criação literária.
Eles não oferecem uma visão única. Felizmente. E isto é, segundo penso, o que precisamos.
1. O Deus Selvagem: um estudo do suicídio, de A. Alvarez
Publicado originalmente em 1971, O Deus Selvagem permanece como uma das obras mais inquietantes sobre as relações entre suicídio, literatura e imaginação. A. Alvarez não escreve como alguém protegido pela distância acadêmica. Sua reflexão nasce do convívio com poetas, de sua proximidade com Sylvia Plath e também de sua própria experiência de sofrimento e tentativa de morte. A posição a partir da qual escreve é, portanto, instável: ele é crítico literário, testemunha, sobrevivente e personagem de parte da história que procura compreender.
Essa instabilidade constitui a força do livro. Também constitui seu perigo.
Alvarez percorre uma longa tradição cultural. Passa pelas condenações religiosas, pelas punições jurídicas impostas aos corpos dos mortos, pelo Biathanatos de John Donne, por Chatterton, pela agonia romântica, pelo dadaísmo e por Cesare Pavese. Seu fio condutor é a presença crescente da morte voluntária na imaginação ocidental. O suicídio deixa de ser apenas pecado ou crime e passa, sobretudo entre os modernos, a ser apresentado como revelação extrema da interioridade: o gesto que provaria a seriedade de uma dor, a autenticidade de uma obra ou a recusa radical do mundo.
Essa transformação merece atenção. Quando a morte passa a funcionar como certificado de autenticidade, o artista que morreu voluntariamente corre o risco de receber uma espécie de consagração póstuma. Seus escritos anteriores são reorganizados pelo último gesto. Poemas tornam-se presságios; imagens tornam-se sintomas; hesitações tornam-se anúncios. A obra inteira começa a ser lida de trás para frente, como se o desfecho estivesse secretamente contido em cada página.
É precisamente isso que torna a presença de Sylvia Plath tão importante e tão problemática. Alvarez a conheceu, publicou seus poemas e acompanhou de perto parte de seus últimos anos. Seu testemunho oferece uma proximidade que nenhum arquivo poderia substituir. Ao mesmo tempo, essa proximidade não elimina a incerteza. Alvarez procura interpretar intenções, distinguir desejo de morrer, pedido de socorro, risco calculado e acidente. Mas até que ponto alguém pode reconstruir, depois da morte, o grau exato de uma intenção? Quando a testemunha se transforma em intérprete, aquilo que viu mistura-se inevitavelmente àquilo que acredita ter compreendido.
O livro ensina, assim, uma primeira cautela a quem deseja estudar o suicídio: proximidade não significa transparência. Podemos conhecer alguém, ler seus cadernos, recordar suas conversas e ainda assim não possuir a chave de seu último gesto. A intimidade fornece elementos indispensáveis, mas não concede soberania sobre o sentido de uma morte.
Seu problema é também propriamente literário. Por que a morte voluntária exerceu tamanho fascínio sobre escritores e artistas? O que acontece quando o sofrimento se transforma em poema? A arte consegue aproximar-nos da dor alheia ou corre o risco de conferir beleza, coerência e grandeza ao que, na experiência vivida, talvez tenha sido desordem, medo e solidão? Como escrever sobre o suicídio sem silenciá-lo e, ao mesmo tempo, sem transformá-lo em espetáculo?
Alvarez não aceita que uma existência seja encerrada inteiramente num diagnóstico. Entretanto, tampouco apresenta a criação artística como proteção segura. A capacidade de produzir linguagem para o sofrimento não significa necessariamente dominá-lo. Escrever pode organizar a experiência, mas também pode aproximar o autor repetidamente das imagens que o ferem. O poema não é sintoma clínico nem salvação automática. Entre a obra e a morte permanece uma distância que nenhuma interpretação deveria apagar.
Há ainda outro aspecto importante: Alvarez inclui sua própria tentativa no campo de análise. Com isso, desfaz a divisão confortável entre o observador e aqueles que observa. O crítico que interpreta os mortos descobre que também pertence à região que procura descrever. Essa inclusão não transforma sua experiência em medida universal. Ao contrário, mostra como duas pessoas podem aproximar-se da morte por caminhos distintos, mesmo quando compartilham vocabulários, leituras e ambientes semelhantes.
Talvez essa seja uma das lições mais duradouras de O Deus Selvagem. A maneira como alguém morreu não deveria possuir retrospectivamente toda a sua vida. Quando permitimos que isso aconteça, Sylvia Plath deixa de ser autora de uma obra e se transforma na mulher que estava destinada a morrer. Todos os poemas se tornam bilhetes de despedida; toda angústia, preparação; toda imagem obscura, prova. A morte sequestra a existência e passa a explicar aquilo que, antes dela, permanecia múltiplo e aberto.
O livro deve, por isso, ser lido também contra algumas de suas próprias tentações. Sua linguagem é poderosa e, em certos momentos, aproxima perigosamente criação, coragem e autodestruição. O leitor precisa conservar a pergunta: estamos compreendendo a atração exercida pela morte ou participando de sua construção estética? A fronteira nem sempre é nítida.
O Deus Selvagem é uma leitura desconfortável. E deve ser. Seu mérito não está em resolver as relações entre arte e suicídio, mas em mostrar que escrever sobre elas exige responsabilidade. A literatura pode aproximar-nos da experiência alheia, desde que não confundamos compreensão com fascínio, intensidade com verdade e beleza com redenção.
Há edição brasileira publicada pela Companhia das Letras, com tradução de Sonia Moreira.
2. Quando a noite cai: entendendo a depressão e o suicídio, de Kay Redfield Jamison
Kay Redfield Jamison conhece a experiência do sofrimento psíquico por duas vias que raramente se encontram com tamanha força na mesma pessoa: como pesquisadora dos transtornos do humor e como alguém que viveu episódios graves de mania, depressão e aproximação da morte. Essa dupla posição não elimina a distância entre a experiência e a ciência. Ao contrário, torna essa distância mais visível.
Em Quando a noite cai, Jamison realiza uma das sínteses clínicas mais ambiciosas sobre o suicídio publicadas no final do século XX. O livro percorre a história das atitudes diante da morte voluntária, os problemas de definição e mensuração, as diferenças entre tentativa e morte, a psicologia do ato, os transtornos psiquiátricos, os métodos empregados, as hipóteses genéticas e neurobiológicas e as possibilidades de prevenção. Casos individuais aparecem ao lado de pesquisas epidemiológicas, cartas, histórias familiares e dados médicos.
Esse movimento entre números e vidas é importante. Sem estatísticas, não perceberíamos regularidades, diferenças entre grupos, alterações históricas ou o impacto de determinadas políticas públicas. Entretanto, toda regularidade cobra um preço: para que os casos possam ser comparados, parte de suas diferenças precisa ser abandonada. Uma taxa torna visível a dimensão coletiva do problema, mas não nos diz quem era aquela pessoa, o que ela perdeu, quais palavras lhe faltaram ou por que o futuro deixou de parecer habitável.
Jamison insiste na forte relação entre suicídio e transtornos mentais, especialmente os transtornos do humor. Essa relação não pode ser desprezada. A depressão grave, a mania, os estados mistos, as psicoses, o uso problemático de substâncias e outras formas de sofrimento psíquico podem alterar profundamente a percepção, reduzir o campo das possibilidades e transformar a morte na única interrupção imaginável. Recusar toda contribuição da psiquiatria seria abandonar conhecimentos e recursos que efetivamente preservam vidas.
Isso não significa que precisemos aceitar sem reservas todas as premissas do livro.
Uma leitura crítica deve perguntar como se estabelece, depois de uma morte, a presença de uma doença mental. Muitas conclusões dependem de prontuários, entrevistas com familiares e reconstruções retrospectivas. São procedimentos necessários, mas não infalíveis. Depois do acontecimento, toda tristeza pode parecer sinal, toda frase obscura pode adquirir a aparência de anúncio e toda dificuldade anterior pode ser reorganizada como etapa de um processo inevitável. A investigação corre o risco de encontrar no passado exatamente aquilo que já sabe ter ocorrido no final.
Também precisamos perguntar se uma associação frequente pode ser transformada numa explicação universal. Quando afirmamos que todo suicídio é consequência de doença mental, talvez consigamos afastar parte da antiga culpa moral. A pessoa deixa de ser pecadora ou criminosa para ser considerada doente. Há nisso uma mudança importante e, em muitos contextos, humanizadora. Mas a substituição de uma gramática por outra não dissolve todos os problemas. O julgamento pode ceder lugar à tutela, e a condenação pode reaparecer como incapacidade presumida.
A linguagem da doença produz ainda outro tipo de silêncio. Uma pessoa que fala sobre a própria morte pode descobrir que suas palavras já não são recebidas como reflexão, conflito ou pedido. Tudo o que disser será interpretado antecipadamente como sintoma. Quanto mais articulada for sua crítica à vida, maior poderá parecer a prova de que não está em condições de falar por si. Forma-se então um círculo difícil de romper: a palavra é considerada doente porque fala da morte, e fala da morte porque é considerada doente.
O livro de Jamison não se reduz, contudo, a essa operação. Sua escrita conserva atenção às histórias singulares e à ambivalência que frequentemente atravessa a experiência suicida. Desejar morrer não significa necessariamente desejar todas as consequências da morte. Há momentos em que a pessoa quer interromper uma dor, silenciar uma consciência, escapar de uma situação ou suspender um tempo que se tornou insuportável. A palavra “morte” reúne essas experiências, mas não as torna idênticas.
Para quem deseja estudar o suicídio, Quando a noite cai oferece também uma lição metodológica. A prevenção necessita de conhecimento clínico, observação cuidadosa, tratamento acessível, redução do acesso imediato a meios letais e proteção nos momentos de maior vulnerabilidade. Porém, esses recursos não substituem a pergunta pelo mundo em que o sofrimento se formou. Uma medicação pode modificar um estado de humor; não pode, sozinha, eliminar uma dívida, interromper uma violência, reconstruir um vínculo ou devolver a alguém um lugar numa comunidade.
O ponto decisivo talvez seja evitar duas simplificações opostas. A primeira consiste em reduzir toda morte voluntária a uma doença. A segunda, em rejeitar a psiquiatria de maneira tão completa que já não consigamos reconhecer doenças reais, sofrimentos extremos e tratamentos capazes de ajudar. Entre a medicalização absoluta e a recusa abstrata da medicina existe um trabalho mais difícil: discernir, em cada caso, de que cuidado aquela pessoa necessita e como oferecê-lo sem apagar sua voz.
O valor de Quando a noite cai está também nessa tensão. Ele nos permite conhecer uma interpretação clínica poderosa e, ao mesmo tempo, interrogar seus limites. Um bom livro não precisa confirmar integralmente nossas posições. Às vezes, sua importância está justamente em obrigar-nos a pensar contra ele, ao lado dele e para além dele.
A obra possui edição em português publicada pela Gryphus.
3. A redoma de vidro, de Sylvia Plath
A redoma de vidro não é um tratado sobre o suicídio. É um romance. Essa advertência é necessária porque a morte de Sylvia Plath frequentemente captura a leitura de tudo o que ela escreveu. Seus poemas e sua prosa passam a ser lidos como se contivessem, desde a primeira linha, uma decisão já tomada.
Mas um romance não é uma certidão de óbito antecipada. Esther Greenwood não deve ser tratada como simples transcrição de Sylvia Plath, nem sua trajetória como explicação retrospectiva da morte da autora. A proximidade biográfica existe, mas a ficção reorganiza, desloca e transforma a experiência. Quando confundimos imediatamente autora e personagem, retiramos do romance justamente aquilo que ele tem de criação.
Esther é uma jovem talentosa diante de um futuro que, visto de fora, parece aberto. Recebe reconhecimento, chega a Nova York, circula por ambientes aos quais muitas mulheres não tinham acesso e possui condições de imaginar uma carreira intelectual. Entretanto, as possibilidades que lhe são oferecidas revelam-se progressivamente estreitas. Trabalho, casamento, maternidade, sexualidade, independência e sucesso não aparecem como caminhos que possam ser livremente combinados, mas como destinos que exigem renúncias irreversíveis.
A imagem da figueira permite compreender esse conflito. Cada fruto parece conter uma vida possível: tornar-se escritora, formar uma família, viajar, amar, estudar, experimentar o mundo. Esther deseja todas essas vidas, mas lhe dizem que escolher uma significa perder as demais. Enquanto hesita, os frutos começam a apodrecer. O sofrimento não nasce, portanto, apenas da ausência de possibilidades. Pode nascer também de possibilidades apresentadas de modo excludente, como se a construção de uma vida exigisse o assassinato de todas as outras vidas imaginadas.
Essa dimensão é importante para pensar o suicídio. Às vezes, a pessoa não vê diante de si um vazio, mas um conjunto de futuros nos quais não consegue reconhecer-se. Há portas, mas todas parecem conduzir à perda de alguma parte essencial de si. A multiplicidade que deveria produzir liberdade transforma-se em paralisia.
A imagem da redoma é igualmente poderosa porque não descreve apenas uma tristeza interior. A redoma altera o ar, o espaço e a relação com o mundo. Esther continua vendo as outras pessoas, mas já não respira como elas. Continua cercada por vozes, conselhos e expectativas, mas experimenta uma solidão que nenhuma ordem para reagir consegue desfazer. A redoma pode acompanhá-la a qualquer lugar. Não está simplesmente dentro dela nem inteiramente no mundo: forma-se na relação entre uma consciência e o ambiente que a sufoca.
Isso impede uma separação demasiado simples entre doença e sociedade. Há sofrimento psíquico real, com alterações do sono, da percepção, da linguagem e da capacidade de agir. Mas há também um mundo que distribui de maneira desigual as possibilidades de existência, especialmente para as mulheres. O romance não nos permite escolher confortavelmente entre “a doença estava em Esther” e “a sociedade produziu tudo”. As duas dimensões atravessam-se.
O tratamento médico ocupa, por isso, um lugar decisivo. Esther encontra instituições e profissionais diferentes. A primeira experiência de eletroconvulsoterapia é marcada pelo medo, pela ausência de explicação e pela violência de um procedimento realizado sem que se tenha construído confiança. Mais tarde, sob os cuidados da doutora Nolan, um tratamento semelhante adquire outro sentido porque há preparação, presença e compromisso. O romance não oferece uma resposta simplista contra ou a favor da medicina. Mostra que a técnica nunca existe sozinha: o mesmo procedimento pode ser vivido como punição ou cuidado, conforme a relação em que se inscreve.
Essa distinção é indispensável para a prevenção do suicídio. Não basta perguntar se determinada intervenção é clinicamente indicada. É preciso perguntar como ela é apresentada, se a pessoa compreende o que lhe acontece, se participa das decisões e se encontra alguém capaz de permanecer ao seu lado. Um cuidado que retira toda voz do paciente pode preservar biologicamente uma vida e, ao mesmo tempo, aprofundar a experiência de não pertencimento a si mesmo.
O romance também evita representar a recuperação como vitória definitiva. A redoma pode levantar-se, mas sua possibilidade não desaparece para sempre. Esther não recebe uma garantia contra o futuro. Essa incerteza torna a narrativa mais honesta. Sobreviver a uma crise não transforma alguém numa pessoa definitivamente salva, assim como uma tentativa não condena ninguém a repetir o gesto. A vida permanece aberta — inclusive aos riscos, às recaídas e às transformações.
Ler A redoma de vidro apenas para procurar sinais da morte futura de Sylvia Plath seria repetir uma violência contra sua literatura. Seria permitir que a biografia fechasse aquilo que o romance mantém aberto. O livro merece ser lido porque dá forma a uma experiência que frequentemente permanece sem linguagem: a sensação de que todos os caminhos existem, mas nenhum parece verdadeiramente disponível; de que o mundo continua visível, porém o ar necessário para habitá-lo se tornou escasso.
Para quem deseja compreender o suicídio, o romance ensina que tornar uma vida habitável não significa apenas retirar uma pessoa do perigo imediato. Significa também ampliar os futuros que ela consegue imaginar e permitir que sua existência não seja reduzida às alternativas estreitas que lhe foram oferecidas.
Há diferentes traduções brasileiras. Entre elas, a edição da Biblioteca Azul, traduzida por Chico Mattoso, e uma edição ilustrada mais recente, traduzida por Ana Guadalupe.
4. Perto das trevas, de William Styron
Há sofrimentos que parecem destruir a própria possibilidade de narrar. A pessoa deseja explicar o que acontece, mas as palavras disponíveis — tristeza, desânimo, angústia, cansaço — parecem pequenas demais. William Styron escreveu Perto das trevas a partir dessa insuficiência.
O texto nasceu depois que Styron se incomodou com os julgamentos dirigidos a pessoas que morreram voluntariamente, entre elas Primo Levi. Havia, mesmo entre leitores cultos, a suspeita de que o suicídio desmentiria a coragem anterior de alguém ou revelaria uma falha de caráter. Styron percebeu que esse julgamento dependia do desconhecimento da dor depressiva. Decidiu, então, tornar pública uma experiência que até aquele momento pertencia à sua intimidade.
O livro é curto, mas não é uma leitura leve. Styron tenta descrever a alteração do tempo, do corpo, do pensamento e da percepção do futuro produzida por uma depressão grave. O sofrimento não aparece simplesmente como tristeza muito intensa. Ele modifica o mundo inteiro. As atividades perdem o vínculo com o prazer, as decisões mais simples exigem esforço desmedido, a noite adquire uma duração hostil e o próprio pensamento parece perder suas conexões.
Um dos méritos do relato está em resistir à linguagem sentimental. Styron procura metáforas porque a palavra “depressão” lhe parece fraca para designar a violência da experiência. Compara a mente a uma antiga central telefônica inundada: pouco a pouco, os circuitos deixam de funcionar. A imagem é valiosa porque mostra que não se trata apenas de pensamentos tristes. Faculdades que pareciam naturais — concentrar-se, desejar, esperar, decidir e reconhecer-se — tornam-se progressivamente inacessíveis.
A dor depressiva possui ainda uma característica difícil de comunicar: pode ser sentida quase fisicamente sem que exista um lugar preciso do corpo ao qual apontar. Isso explica parte da solidão de quem sofre. Uma ferida visível convoca cuidado; uma dor sem localização corre o risco de ser interpretada como exagero, fraqueza ou falta de vontade.
Uma das características mais terríveis do desespero é apresentar-se como conhecimento. A pessoa não sente apenas que o sofrimento continuará; ela acredita saber que continuará. O futuro deixa de ser uma região aberta e passa a repetir indefinidamente o presente. A morte pode então aparecer não como um desejo simples, mas como a única interrupção imaginável.
Styron nos ajuda a compreender por que frases como “isso vai passar” nem sempre alcançam quem sofre. Para aquele que as pronuncia, o futuro permanece aberto. Para quem está dentro da experiência depressiva, a própria capacidade de imaginar outro futuro pode ter desaparecido. A frase pode ser verdadeira e, ainda assim, não encontrar um lugar psíquico onde possa ser recebida.
Isso não significa que nada possa ser feito. Um momento decisivo do relato ocorre quando a música restabelece inesperadamente uma ligação com a vida e permite que Styron reconheça a gravidade do risco. Esse instante não o cura. Oferece-lhe, contudo, o intervalo necessário para pedir ajuda e aceitar a hospitalização. A diferença é fundamental: aquilo que interrompe a marcha em direção à morte não precisa resolver toda a vida. Às vezes, basta criar tempo para que o cuidado possa começar.
O hospital aparece como abrigo, embora Styron não o idealize. Há monotonia, perda de autonomia e convivência com outras pessoas em extremo sofrimento. Ainda assim, naquele momento, a instituição oferece proteção contra uma consciência que se tornara perigosa para si mesma. Essa experiência precisa ser lida com cautela. Nem todos encontram instituições acolhedoras, nem toda internação é necessária ou benéfica, e o próprio acesso de Styron a bons cuidados revela uma condição que não está disponível para todos.
Seu relato também mostra que a prevenção não se reduz ao instante heroico em que alguém impede um gesto. Ela depende de uma rede: a presença persistente da esposa, a possibilidade de reconhecer o risco, a existência de atendimento, a aceitação da ajuda e o tempo protegido até que a intensidade da crise diminua. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica sua sobrevivência.
O livro possui limites, e é importante reconhecê-los. Ele descreve uma forma de aproximação da morte, não todas. Nem todo desejo de morrer nasce da depressão, assim como nem toda pessoa deprimida deseja morrer. Nem todos experimentarão a recuperação de Styron ou responderão aos mesmos cuidados. Transformar um testemunho particular em explicação universal seria trair justamente aquilo que há de mais valioso no livro: a tentativa de falar a partir de uma experiência concreta.
Também devemos evitar que a ideia de doença encerre novamente o problema. A depressão de Styron envolve história familiar, luto, corpo, medicamentos, álcool, envelhecimento, criação literária e relações afetivas. Não há uma causa única. Seu testemunho é forte porque mantém esses elementos próximos sem fingir que conseguiu organizá-los numa explicação definitiva.
Perto das trevas não romantiza o sofrimento nem oferece uma fórmula de salvação. Seu gesto principal é construir uma linguagem para aquilo que, durante muito tempo, permaneceu quase indizível. Para quem deseja estudar o suicídio, essa linguagem possui um valor próprio: recorda que antes de interpretar, diagnosticar ou aconselhar é necessário tentar compreender a forma assumida pela dor para aquela pessoa.
5. Diário de um escritor, de Fiódor Dostoiévski
Dostoiévski não tratou o suicídio apenas em seus romances. Em Diário de um escritor, reuniu comentários políticos, notícias, reflexões religiosas, memórias, narrativas breves e análises da sociedade russa. O livro não obedece às fronteiras que hoje costumamos estabelecer entre literatura, filosofia e jornalismo. Essa forma híbrida permitia-lhe partir de um pequeno acontecimento publicado na imprensa e transformá-lo numa pergunta sobre seu tempo.
Entre os fatos que despertaram sua atenção estavam as numerosas mortes voluntárias noticiadas pelos jornais. Dostoiévski não recebia essas notícias como dados isolados. Perguntava o que elas revelavam sobre a Rússia, sobre a pobreza, sobre a desagregação dos vínculos, sobre a fé e sobre a incapacidade de uma sociedade reconhecer o sofrimento que se formava em seu interior.
Um dos textos mais perturbadores desse conjunto é “Dois suicídios”, publicado em outubro de 1876. Dostoiévski aproxima as mortes de duas jovens provenientes de mundos sociais e culturais profundamente diferentes.
A primeira, uma jovem cosmopolita criada fora da Rússia, morre depois de deixar um bilhete em francês, marcado por ironia e por uma referência quase mundana ao champanhe. Dostoiévski percebe na palavra chic uma mistura de revolta, tédio e desprezo. A morte parece envolvida por uma consciência que já não encontra no cotidiano algo capaz de justificar sua submissão à vida.
A segunda jovem é uma costureira pobre. Sem conseguir trabalho, lança-se de uma janela. Quando encontram seu corpo, ela ainda segura uma imagem religiosa. Aqui não há elegância, provocação ou elaboração filosófica. Segundo Dostoiévski, viver simplesmente se tornara impossível.
As duas mortes poderiam receber o mesmo nome e ocupar a mesma coluna estatística. No entanto, quase nada nelas é igual. Uma parece nascer da asfixia diante de um mundo considerado banal; a outra, da impossibilidade material de continuar existindo. Uma deixa um bilhete irônico; a outra conserva nas mãos um objeto de fé. Uma morte convida à interpretação psicológica; a outra denuncia a fome, o desemprego e o abandono.
Dostoiévski pergunta qual das duas teria sofrido mais. Logo reconhece que a própria pergunta pode ser impiedosa. Como medir sofrimentos? Que instrumento permitiria comparar duas solidões? O sofrimento da jovem pobre seria maior porque sua vida foi destruída pela necessidade? Ou a ausência de uma causa visível tornaria mais profundo o desespero da primeira? A tentativa de estabelecer uma hierarquia revela rapidamente sua violência.
É justamente essa impossibilidade que torna “Dois suicídios” tão relevante. Dostoiévski percebe que uma categoria comum pode ocultar diferenças essenciais. Dizer que ambas “se suicidaram” informa alguma coisa sobre a maneira como morreram, mas quase nada sobre os mundos que tornaram suas mortes possíveis.
O texto mostra ainda que o julgamento social não se distribui igualmente. Algumas mortes são interpretadas como tragédias espirituais; outras, como consequência quase natural da pobreza. Algumas despertam longas reflexões; outras desaparecem depois de uma pequena nota. O espaço concedido pelos jornais, a linguagem empregada e as hipóteses apresentadas revelam o valor que uma sociedade atribuía àquela vida antes mesmo de sua morte.
Essa observação permanece atual. Quando uma pessoa conhecida morre, procuram-se cartas, entrevistas, diagnósticos e acontecimentos capazes de explicar o gesto. Quando morre alguém socialmente invisível, a explicação pode reduzir-se a uma palavra: dívida, desemprego, droga, separação. A desigualdade continua depois da morte. Algumas existências recebem biografias; outras recebem apenas causas.
Em outros textos do Diário, Dostoiévski relaciona o crescimento das mortes voluntárias à perda de uma ideia superior da existência e à desorganização espiritual da sociedade russa. Sua resposta é profundamente cristã e pode não convencer o leitor contemporâneo. Há momentos em que a fé aparece como fundamento necessário sem que se investiguem suficientemente as formas pelas quais as próprias instituições religiosas produziram culpa, condenação e silêncio.
Ainda assim, a pergunta permanece: uma pessoa consegue viver sem experimentar algum vínculo com algo que ultrapasse a repetição imediata dos dias? Esse “algo” não precisa ser necessariamente Deus. Pode ser outra pessoa, uma comunidade, uma obra, uma responsabilidade, uma lembrança, uma causa ou a expectativa ainda frágil de que o mundo não terminou de se transformar.
O mais importante talvez seja perceber que Dostoiévski não separa inteiramente a pergunta individual da pergunta social. Diante da morte da costureira, ele escreve como se a notícia produzisse uma forma de responsabilidade compartilhada. Não conhecia a jovem, não poderia ter impedido diretamente sua morte e, mesmo assim, sente que aquele acontecimento também diz respeito a ele. A sociedade não é culpada de maneira simples por toda morte ocorrida em seu interior; mas uma sociedade que nada pergunta sobre essas mortes renuncia a compreender a si mesma.
Para quem deseja estudar o suicídio, “Dois suicídios” ensina a desconfiar da semelhança criada pelo nome. Duas pessoas podem morrer por um gesto aparentemente comparável e, ainda assim, suas mortes pertencerem a gramáticas inteiramente diferentes. A tarefa não consiste em descobrir rapidamente o elemento comum, mas em preservar as diferenças que a classificação ameaça apagar.
Ler Dostoiévski é entrar numa discussão em que não precisamos concordar com todas as respostas. Basta perceber que ele nunca trata o suicídio como um acontecimento simples. Cada morte abre um processo — não apenas contra aquele que morreu, mas contra a sociedade que testemunhou sua vida sem perceber que ela se tornava impossível.
6. A invenção do suicídio, de Alexandre H. Reis
Os dois últimos livros desta lista são de minha autoria. Incluí-los exige uma explicação.
Não os apresento com a pretensão de julgá-los à mesma distância empregada nos comentários anteriores. Há, confesso, alguma vergonha — ou talvez alguma modéstia — em colocá-los ao lado dos demais. Eles estão aqui porque nasceram precisamente das perguntas que orientam este percurso e animam as atividades do LYSIS. Se os outros livros entram nesta lista por escolha, estes entram também por intimidade.
Em A invenção do suicídio, investigo uma questão aparentemente simples: a ideia de suicídio sempre existiu?
Naturalmente, os seres humanos provocavam a própria morte muito antes do aparecimento da palavra e da formação do conceito. Encontramos mortes voluntárias nos poemas antigos, nas tragédias gregas, nas narrativas romanas, nos textos bíblicos e nas histórias dos mártires. Essas mortes, entretanto, não eram necessariamente compreendidas como manifestações de um único fenômeno.
Ájax, Lucrécia, Catão, Judas, as virgens cristãs, os mártires e os guerreiros derrotados não acreditavam pertencer à mesma categoria. Suas mortes eram interpretadas segundo diferentes gramáticas: honra, vergonha, sacrifício, testemunho, fuga, liberdade, fidelidade, desespero ou crime. Reuni-las imediatamente sob a palavra “suicídio” pode facilitar a comparação, mas também projeta sobre o passado uma unidade que seus protagonistas não conheciam.
O aparecimento e a consolidação da palavra “suicídio” permitiram reunir experiências profundamente distintas sob uma única denominação. Essa reunião não foi neutra. Muito antes da criação do termo, Agostinho já havia aproximado determinadas mortes voluntárias do homicídio de si. Aquele que morria pelas próprias mãos podia ser transformado, simultaneamente, em vítima e assassino. A palavra moderna herdaria parte dessa longa construção moral.
Perguntar pela invenção do suicídio não significa afirmar que as mortes anteriores eram irreais. Significa distinguir o acontecimento do nome que lhe foi atribuído. Pessoas morreram voluntariamente em diferentes épocas; mas a ideia de que todas essas mortes expressam um mesmo fenômeno moral, psicológico ou médico possui uma história. O livro investiga essa história porque nossos conceitos não são apenas instrumentos neutros de descrição. Eles selecionam semelhanças, escondem diferenças e orientam as respostas que consideramos legítimas.
Este é, contudo, antes de tudo, um livro sobre o nosso tempo. Sua genealogia não pretende simplesmente reconstituir uma história cronológica do suicídio — tarefa muito mais extensa, à qual reservei outro projeto —, mas investigar a origem das categorias com as quais ainda hoje julgamos, explicamos e procuramos impedir a morte voluntária. O passado é convocado porque continua agindo em nossa linguagem, mesmo quando já não reconhecemos sua presença.
Platão, Sócrates, Sófocles, Aristóteles, Agostinho, Montaigne, Kant, Nietzsche, Viktor Frankl, Esquirol, William James e muitos outros autores são convocados não como peças de um museu filosófico, mas como interlocutores necessários à compreensão dos conflitos do presente. Cada um permite examinar uma região do problema: a proibição e suas exceções, a liberdade diante da morte, o sofrimento, a dignidade, o pertencimento, a loucura, o cuidado, a autonomia e os limites do poder exercido sobre a vida alheia.
Agostinho ocupa um lugar decisivo nesse percurso. Ao interpretar determinadas mortes voluntárias como formas de homicídio, ele fornece uma gramática capaz de atravessar o cristianismo, o direito e a filosofia moral. Aquele que morre voluntariamente já não aparece apenas como alguém que realizou um gesto proibido. Passa a ocupar, ao mesmo tempo, os lugares de autor, vítima e criminoso. A expressão homicidium sui prepara uma compreensão na qual o sujeito volta contra si a violência do assassino.
Essa gramática não desaparece quando a condenação religiosa perde força. Parte de sua estrutura permanece na própria palavra “suicídio”, formada à semelhança de homicídio, parricídio e fratricídio. A morte continua inscrita no campo do crime, ainda que o culpado seja declarado doente em vez de pecador. A mudança histórica é real, mas não necessariamente completa.
No século XIX, os alienistas oferecem outra explicação. A morte voluntária passa a ser associada de maneira crescente à loucura. Esquirol desempenha papel fundamental nesse processo ao sustentar que o suicídio, embora não constitua uma doença autônoma, manifesta alguma forma de alienação mental. Essa formulação possui uma consequência ambivalente. De um lado, permite contestar punições morais e jurídicas impostas ao morto e à sua família. De outro, amplia o domínio da medicina sobre uma experiência que passa a ser interpretada antecipadamente como incapacidade.
O pecador torna-se doente; o sacerdote cede lugar ao médico; a proibição religiosa converte-se em necessidade terapêutica. Não se trata de afirmar que nada mudou. A psiquiatria desenvolveu conhecimentos e tratamentos importantes, e numerosas pessoas se beneficiaram deles. A genealogia procura mostrar, contudo, que uma nova linguagem pode conservar elementos da anterior. A autoridade que antes salvava a alma pode reaparecer como autoridade encarregada de salvar a vida, mesmo contra tudo o que a pessoa consegue dizer sobre si.
O problema chega até o presente na associação quase automática entre suicídio e doença mental. Em muitos casos, há efetivamente depressão, psicose, transtorno bipolar, uso problemático de substâncias ou outras formas graves de sofrimento psíquico. Reconhecê-las pode ser indispensável ao cuidado. A questão começa quando uma relação frequente é convertida numa identidade necessária e universal: se alguém deseja morrer, então está doente; se nega estar doente, essa negação torna-se prova adicional de que não possui consciência de sua condição.
Forma-se assim uma estrutura difícil de contestar. A pessoa pode falar, mas sua palavra já chega desautorizada. Pode apresentar razões, porém essas razões serão tratadas como sintomas. Pode pedir escuta, mas receber apenas avaliação. O livro não pretende resolver abstratamente todos esses conflitos. Procura mostrar que uma prevenção incapaz de ouvir corre o risco de proteger a vida biológica ao preço de retirar da pessoa qualquer participação na compreensão da própria experiência.
É nesse ponto que a crítica da Organização Mundial da Saúde, das campanhas públicas e da ideia contemporânea de tabu se torna necessária. Repetimos frequentemente que é preciso “falar sobre suicídio”. Mas falar como, com quem e sob quais condições? Nem toda fala rompe o silêncio. Uma campanha pode multiplicar mensagens e, ao mesmo tempo, impedir que alguém formule aquilo que realmente sente. Podemos convidar a pessoa a falar desde que ela aceite previamente o vocabulário que preparamos: doença, risco, sinal, encaminhamento, tratamento.
O conceito de tabu também merece ser interrogado. Dizer que o suicídio é tabu parece evidente, mas a sociedade fala continuamente sobre ele — em notícias, estatísticas, campanhas, protocolos, filmes e redes sociais. Talvez o problema não seja uma ausência absoluta de discurso. Talvez existam formas autorizadas e formas proibidas de falar. Podemos falar para condenar, diagnosticar e prevenir; temos mais dificuldade para escutar perguntas sobre liberdade, autonomia, cansaço, direito de morrer ou recusa de determinadas condições de vida.
O livro discute, por isso, questões que ultrapassam a história do conceito: a prevenção, o luto, a bioética, a eutanásia, o direito de morrer, a liberdade e o pertencimento. Esses temas não aparecem como problemas independentes. Perguntar quem pode decidir sobre a morte exige perguntar também quem teve condições de participar das decisões sobre a própria vida. A autonomia não existe fora dos vínculos, assim como o pertencimento não deveria transformar-se em argumento para aprisionar alguém numa existência insuportável.
Viktor Frankl permite examinar a busca de sentido, mas também seus riscos. A afirmação de que a vida conserva sentido em todas as circunstâncias pode oferecer força a muitas pessoas. Entretanto, quando transformada em exigência, pode acrescentar culpa ao sofrimento: além de não conseguir viver, a pessoa passa a sentir que fracassou em descobrir o sentido que todos afirmam existir. William James, por outra via, ajuda a pensar a possibilidade de permanecer sem possuir uma demonstração definitiva de que a vida vale a pena. Entre a certeza do sentido e a certeza do nada talvez exista o espaço frágil de uma aposta.
A obra foi escrita entre 2018 e 2021, quando eu ainda morava no Nordeste, para orientar minhas aulas na disciplina Preleções sobre o Suicídio. Ao longo de 2022 e 2023, realizei uma leitura lenta do material e uma revisão das fontes. O texto continuou amadurecendo antes de ser entregue aos pareceristas da Editora UFABC. Essa origem ajuda a explicar sua forma: os capítulos conservam algo da aula, do ensaio e da discussão coletiva. Foram escritos não apenas para apresentar respostas, mas para oferecer problemas que pudessem permanecer em debate.
Criticar as categorias de suicídio, doença mental e prevenção não significa negar o sofrimento nem renunciar ao cuidado. Significa perguntar que espécie de cuidado estamos oferecendo. A crítica não se opõe à prevenção autêntica; procura libertá-la de seus automatismos. Se uma prática de prevenção transforma toda palavra em sintoma, toda recusa em incapacidade e toda diferença em risco, talvez preserve protocolos enquanto perde a pessoa que pretendia alcançar.
A pergunta final do livro não é se devemos salvar vidas. É mais exigente: que vida estamos dispostos a ajudar a construir depois que o perigo imediato passa? Não basta impedir uma morte e devolver alguém às mesmas condições que tornaram sua existência insuportável. É preciso criar vínculos, comunidades e condições concretas capazes de tornar aquela vida novamente habitável.
Publicada em 2026 pela Editora UFABC, a obra está disponível gratuitamente em formato digital: A invenção do suicídio: genealogia dos nossos preconceitos morais e crítica da psiquiatria. A edição física permanece prometida pela editora para o final de 2026.
7. O Filósofo da Rua XV — O sorriso de Hegésias, de Alexandre H. Reis
Se A invenção do suicídio interroga as categorias com as quais pensamos a morte voluntária, O Filósofo da Rua XV procura descobrir o que acontece quando essas categorias são impostas a uma pessoa. O romance não apenas transpõe para a ficção alguns problemas filosóficos. Ele permite compreender algo que dificilmente poderia ser aprendido em um tratado: a distância entre aquilo que uma pessoa vive, aquilo que consegue dizer sobre sua própria experiência e a história que os outros constroem a seu respeito.
É por essa razão que o incluo nesta lista. Quem deseja estudar o suicídio encontrará no romance problemas que não aparecem da mesma maneira nas pesquisas históricas, nas classificações psiquiátricas ou nas estatísticas. Não porque a literatura possua uma verdade superior, mas porque consegue manter juntas experiências que nossas teorias costumam separar: o desejo de morrer e o desejo de permanecer; a liberdade e o pertencimento; a lucidez e a hesitação; a decisão íntima e o julgamento público; a morte escolhida e a morte imposta.
Ainda não sei se O Filósofo da Rua XV deve ser chamado de romance de ideias. Gabriela Weisman, numa crítica generosa e rigorosa, aproxima-o dessa tradição e mostra como o livro corre o risco de transformar personagens em porta-vozes filosóficos, mas consegue escapar dele. Não tenho condições de discutir sua classificação com a distância necessária. Estou próximo demais da obra e talvez ainda não tenha saído completamente de suas ruas. Permanece, contudo, minha hesitação. Espero que o romance não tenha sido escrito para demonstrar uma tese. Se há nele algum ensinamento, ele não está inteiramente nas ideias defendidas pelas personagens, mas no que acontece quando essas ideias são expostas às circunstâncias da vida.
O protagonista chega a Pelotas com uma decisão cuidadosamente meditada. Não age num momento de desespero, não desconhece a história da filosofia e não ignora os argumentos habitualmente empregados em favor da vida. Ao contrário, conhece-os talvez bem demais. Durante anos, ajudou pessoas que desejavam morrer. Escutou estudantes, acolheu desconhecidos e chegou a impedir que um homem endividado se lançasse de uma ponte. Entretanto, agora é ele quem pretende atravessar a fronteira sul em busca da própria morte.
Há nisso uma primeira dificuldade para quem estuda o suicídio: aquele que deseja morrer não constitui uma identidade humana separada. Não existe, de um lado, o especialista capaz de compreender e prevenir; de outro, o “suicida”, convertido em objeto de avaliação. A mesma pessoa pode oferecer razões para que alguém permaneça e, em outro momento, não encontrar essas razões para si. Pode conhecer os fatores de risco, os argumentos filosóficos e as técnicas de prevenção e, ainda assim, desejar morrer. O saber não nos coloca fora da condição que pretendemos conhecer.
O romance permite também acompanhar algo que uma categoria diagnóstica dificilmente registra: o desejo de morrer possui tempo. Ele pode persistir, recuar, transformar-se ou reaparecer. Não é uma substância alojada no interior de alguém, nem uma essência que permita definir definitivamente quem aquela pessoa é. O Filósofo chega à cidade com um plano; entretanto, entre a decisão e sua possível realização, interpõe-se o mundo. Um café, uma conversa, um livro que precisa ser devolvido, uma criança, dois cães, uma mulher, uma praça, um gesto de confiança. Nada disso constitui, isoladamente, um argumento suficiente contra a morte. Ainda assim, cada encontro introduz uma demora, e cada demora contém uma possibilidade que antes não existia.
Talvez uma das lições mais discretas do romance esteja precisamente aí: às vezes, prevenir não significa vencer uma discussão, demonstrar o valor abstrato da vida ou retirar de alguém toda possibilidade de decidir. Significa sustentar o tempo. Criar um intervalo entre o sofrimento e o movimento irreversível. Fazer existir alguma coisa que precise ser devolvida amanhã, alguma pessoa que ainda espere uma resposta, algum lugar ao qual seja possível retornar.
Hegésias não é simplesmente refutado ao longo da narrativa. O protagonista não encontra uma demonstração de que a vida possui um sentido universal, nem se converte facilmente à obrigação moral de viver. O que o romance coloca em questão é a relação entre liberdade e pertencimento. Pode alguém que já se observa como se tivesse deixado o mundo voltar a participar dele? Pode uma presença alcançar quem já organizou racionalmente sua despedida? E, caso isso aconteça, será por força de um argumento ou por alguma experiência para a qual nenhum argumento seria suficiente?
Isso não significa que Pelotas seja apresentada como uma comunidade simplesmente acolhedora. O romance distingue duas cidades. Há uma cidade feita de encontros frágeis, movimentos de cuidado, crianças, animais, amizades e reconhecimentos. E há a Cidade com letra maiúscula: o organismo coletivo que vigia, interpreta, espalha rumores, produz diagnósticos e transforma suspeitas em sentenças. Uma pode tornar a vida habitável; a outra pode tornar uma pessoa prisioneira da identidade que lhe atribuiu.
A Cidade decide que o protagonista é “o suicida” antes de escutá-lo. Depois passa a considerá-lo também perigoso: alguém capaz de contaminar os outros com suas ideias. Desse momento em diante, seus escritos, suas traduções, seu silêncio, sua passagem por Pelotas e sua intenção de cruzar a fronteira deixam de ser acontecimentos distintos e passam a compor uma única narrativa. Ele já não é alguém que pensa sobre a morte ou que, em determinado momento, desejou morrer. Torna-se o Filósofo Suicida, como se essa palavra pudesse esgotar tudo o que ele foi, é ou ainda poderia ser.
Em determinado momento, uma morte por envenenamento altera a relação da Cidade com o Filósofo e com o manuscrito atribuído a Hegésias. Antes mesmo que os fatos possam ser esclarecidos, versões começam a circular. A hipótese do suicídio revela-se especialmente atraente: é mais fácil de narrar, desperta curiosidade e permite imaginar uma alma corrompida, um livro perigoso e um filósofo capaz de envenenar consciências. A morte deixa de ser apenas um acontecimento a investigar e se transforma numa história que diferentes pessoas desejam controlar.
Aqui o romance toca num problema decisivo para qualquer estudo do suicídio: uma morte não chega até nós sem interpretação. Antes de se tornar estatística, prontuário, notícia ou exemplo de campanha, ela foi nomeada. Alguém reuniu determinados indícios, desprezou outros e atribuiu ao morto uma intenção que ele já não pode confirmar nem recusar.
Perguntar se uma morte foi voluntária não significa apenas examinar um corpo ou identificar uma substância num laudo. Significa reconstruir uma ação humana sem poder interrogar aquele que agiu. Significa distinguir, muitas vezes retrospectivamente, acidente, coerção, homicídio e vontade. Há nessa operação uma incerteza que frequentemente escondemos sob a aparente segurança das classificações.
O manuscrito atribuído a Hegésias acrescenta outra camada. A Cidade começa a imaginar que um livro pode matar e que aquele que traduz ideias sobre a morte poderia ser responsabilizado pelo que os outros fazem com elas. O romance não responde simplesmente que as palavras são inocentes. Elas podem ferir, transformar, persuadir e produzir consequências. Mas entre uma palavra e um gesto existe uma pessoa, com sua história, suas circunstâncias e sua maneira singular de interpretar aquilo que lê.
Atribuir a um livro uma causalidade direta permite à sociedade evitar perguntas mais difíceis. Em vez de investigar abandono, sofrimento, violência, dívida, solidão e ausência de pertencimento, procura-se um texto perigoso e alguém a quem culpar. A complexidade de uma morte é substituída pela simplicidade de uma acusação.
A Praça dos Enforcados alarga ainda mais essa reflexão. Diante da memória dos escravizados, dos corpos submetidos à fome, ao trabalho, à humilhação e à violência, torna-se impossível falar de morte voluntária sem perguntar pelas condições nas quais uma vontade se forma. Até que ponto uma morte pode ser chamada de escolha quando a existência foi cercada pela miséria, pelo medo ou pela perda de toda soberania sobre o próprio corpo? O romance aproxima a morte física da morte social e recorda que algumas pessoas começam a morrer muito antes de seus corpos cessarem.
Talvez esteja aí aquilo que a ficção pode ensinar de modo insubstituível. Um estudo conceitual pode demonstrar que o termo “suicídio” reúne experiências diferentes. O romance, porém, obriga o leitor a conviver com essas diferenças sem resolvê-las rapidamente. Faz com que acompanhe uma pessoa que deseja morrer, que ajudou outras a viver, que recusa ser chamada de suicida e que, no entanto, passa a ser aprisionada pela história que a Cidade escreve para ela.
A questão decisiva do livro não é, portanto, simplesmente se a vida possui valor. É mais difícil: em que momento uma vida pode voltar a ser sentida como própria? Uma vida pode ser escolhida sem que essa escolha resulte do medo, da culpa ou da obrigação? O pertencimento pode oferecer razões para permanecer sem transformar-se em argumento para impedir toda liberdade?
O romance mantém essas perguntas abertas. Não oferece ao leitor a segurança de uma campanha em favor da vida abstrata, tampouco a facilidade de uma defesa da morte. Investiga as condições nas quais alguém poderia voltar a experimentar o mundo como um lugar ao qual ainda pertence — e o perigo de uma sociedade que, mesmo quando pretende julgar ou proteger, retira dessa pessoa o direito de dizer quem é.
Quem pretende compreender o suicídio talvez precise aprender justamente isso: não basta perguntar por que alguém deseja morrer. É preciso perguntar que relações, instituições, palavras e formas de vida tornam possível esse desejo; quais delas o agravam; e quais poderiam abrir, no interior de uma decisão aparentemente concluída, algum futuro ainda não imaginado.
Publicado pela Editora Literíssima em 2026, O Filósofo da Rua XV — O sorriso de Hegésias conduz a reflexão sobre o suicídio até um ponto em que a filosofia, a psiquiatria e as políticas de prevenção precisam reconhecer seus limites. Ali, compreender já não significa apenas explicar uma morte. Significa perguntar pela comunidade que construímos ao redor daquele que já não encontra nela um lugar onde possa permanecer ou habitar.
Leia também a crítica de Gabriela Weisman: O Filósofo da Rua XV: um romance de ideias e os perigos do gênero.
Depois da última página
Esses sete livros discordam entre si sobre quase tudo.
Alvarez aproxima literatura, cultura e experiência pessoal. Jamison investiga a relação entre sofrimento psíquico e suicídio. Sylvia Plath transforma a asfixia de uma existência em romance. Styron tenta encontrar palavras para a depressão. Dostoiévski interroga as diferenças sociais e espirituais entre mortes aparentemente semelhantes. A invenção do suicídio pergunta pela história do conceito. O Filósofo da Rua XV transporta essas questões para o interior de uma vida ficcional.
O leitor talvez termine esse percurso com menos certezas do que tinha no início. Isso não seria um fracasso.
Em temas como esse, a certeza rápida costuma ser uma forma de violência. Ela nos permite deixar de escutar porque acreditamos já saber o que aconteceu. Dizemos que foi doença, fraqueza, egoísmo, falta de fé, impulso ou consequência de determinada circunstância. A palavra encerra aquilo que deveria abrir.
Compreender o suicídio não significa justificá-lo, condená-lo ou encontrar para ele uma explicação definitiva. Significa sustentar a pergunta durante tempo suficiente para que uma vida não desapareça atrás do nome dado à sua morte.
Talvez os livros possam ajudar porque ampliam nossa linguagem. E, quando o sofrimento encontra linguagem, surge também a possibilidade de compartilhá-lo.
Resta, contudo, a pergunta mais difícil: somos capazes de construir uma comunidade na qual alguém possa dizer que deseja morrer sem ser abandonado, julgado ou imediatamente reduzido a uma doença? Somos capazes de escutar essa palavra e, ao mesmo tempo, participar da criação de condições que tornem aquela vida novamente habitável?
Nenhum livro poderá responder sozinho.
Mas talvez uma leitura compartilhada seja uma das maneiras de começarmos.
Nota de cuidado: se você chegou a este texto não apenas por interesse intelectual, mas porque a morte lhe parece próxima ou a vida se tornou difícil de suportar, procure alguém com quem possa permanecer e conversar agora. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, durante 24 horas, e também pelo site cvv.org.br.
