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O Filósofo da Rua XV: um romance de ideias e os perigos do gênero

por Gabriela Weisman (ensaísta e tradutora, UFMG)

 

Romances filosóficos são raros; bons romances filosóficos, raríssimos. A razão é simples. A filosofia dispõe de conceitos, argumentos e sistemas; o romance dispõe de homens, mulheres, crianças, animais, ruas, cafés, equívocos, desejos. Quando o romancista esquece essa diferença, as personagens começam a falar como tratados e a ficção morre, embora as ideias talvez continuem respirando. O roman à thèse oferece numerosos exemplos dessa morte prematura.

O Filósofo da Rua XV, de Alexandre H. Reis, aproxima-se deliberadamente desse perigo. Não lhe faltam filósofos: Hegésias, Cícero, Agostinho, Montaigne, Pascal, Schopenhauer, Nietzsche. Há manuscritos, traduções, bibliotecas, um dicionário de grego, discussões sobre a morte voluntária e um protagonista que fez da filosofia não apenas uma profissão (em suas memórias, fora professor), mas uma espécie de destino. Material suficiente para produzir um ensaio disfarçado de romance.

O livro, entretanto, escapa sempre dessa armadilha. E escapa por uma razão que convém perceber desde o início: sua verdadeira matéria não é Hegésias. É o que acontece a um homem depois de ter convivido longamente com Hegésias.

A diferença parece pequena; na literatura, é enorme.

A literatura brasileira conhece muito bem a presença do pensamento no romance, embora raramente o apresente sob a forma explícita da história da filosofia. Machado de Assis pensava por corrosão. Não precisava colocar sistemas filosóficos na boca de Brás Cubas ou de Rubião: bastava deixá-los falar para que as certezas morais dos homens começassem a denunciar-se a si mesmas. O Humanitismo de Quincas Borba é filosofia e paródia da filosofia; sobretudo, é uma armadilha preparada para a vaidade humana. Machado desconfiava das ideias quando elas começavam a explicar demais.

Guimarães Rosa tomou outro caminho. Em Grande Sertão: Veredas, o pensamento não chega pronto ao romance: nasce dentro da língua. Riobaldo não aplica uma metafísica ao sertão; é o sertão, atravessado pela palavra, que o obriga a filosofar. Em Clarice Lispector, o pensamento avança para uma região ainda mais perigosa, aquela em que a consciência já não sabe distinguir descoberta de vertigem. Suas personagens não possuem propriamente uma filosofia. Eu diria: sofrem o pensamento.

Alexandre H. Reis entra por outra porta. Em seu romance, a tradição filosófica possui nomes, livros, datas, fragmentos, traduções. A história das ideias está materialmente presente. Esse procedimento é perigoso e constitui, ao mesmo tempo, a singularidade do livro. Hegésias não comparece como ornamento erudito. Um escrito atribuído ao obscuro filósofo cirenaico põe acontecimentos em movimento, aproxima desconhecidos, desperta suspeitas e começa, pouco a pouco, a escapar das mãos daqueles que julgam compreendê-lo.

Aqui, um livro pode ser perigoso. Não porque contenha alguma maldição, como nos romances fantásticos, mas por uma razão muito menos confortável: porque seres humanos fazem coisas com aquilo que leem, e coisas ainda piores com aquilo que não leram.

Borges é uma lembrança inevitável, mas enganadora se levada longe demais. Borges inventava livros para pôr o universo em dúvida; Reis põe um livro dentro do mundo para observar o que o mundo fará com ele. O manuscrito não abre propriamente um labirinto metafísico. Abre um labirinto humano. Pouquíssimos chegam de fato a lê-lo; nem por isso deixam de interpretá-lo. Circula antes a ideia do livro do que o livro. Surgem versões, suspeitas, notícias, acusações. Um objeto destinado à leitura converte-se em objeto social.

E começa sua segunda existência.

Também por isso O Filósofo da Rua XV pertence à velha família dos romances em que livros, bibliotecas e manuscritos produzem acontecimentos. Dom Quixote está na origem remota dessa família; Borges e Umberto Eco são parentes muito mais próximos. Mas o parentesco não deve esconder a diferença. No romance de Reis, a biblioteca desemboca na rua.

E a rua é a Rua XV de Novembro. [A escolha será apenas topográfica? Ou haverá alguma ironia no fato de que boa parte do romance se passe numa rua que traz no próprio nome a data inaugural da República brasileira, isto é, a promessa de uma vida pública fundada na cidadania, enquanto nela se forma, pouco a pouco, outra espécie de res publica, feita de olhares, rumores, preconceitos e julgamentos?]

Essa passagem do livro para a cidade talvez seja a melhor invenção do romance. O protagonista chega a Pelotas trazendo consigo uma longa intimidade com a morte. Conhece argumentos, genealogias, condenações religiosas, justificações filosóficas. Sabe muito sobre o assunto… talvez demais. Mas uma coisa é conhecer a história das ideias; outra, bastante diferente, é descer de um ônibus numa manhã úmida, entrar num café, observar desconhecidos, sentir o cheiro de uma livraria, conversar com crianças, esperar por alguém… e encontrar um gato.

Esse gato merece alguma atenção.

Quando aparece pela primeira vez, está numa pequena livraria, deitado sobre um volume de Montaigne. É rajado, insolente e soberanamente indiferente aos homens, aos livros e provavelmente à metafísica. Há no estabelecimento cheiro de madeira úmida, papel antigo e urina de gato, combinação pouco sublime, mas literariamente mais convincente do que muitas bibliotecas ideais. O animal parece considerar-se o verdadeiro proprietário do lugar. O Filósofo se interessa imediatamente por ele.

Na visita seguinte, o Gato mudou de filósofo: abandonou Montaigne e dorme sobre Pascal. A brincadeira é excelente porque não precisa ser explicada. O cético francês, o pensador da aposta, o homem angustiado diante dos espaços infinitos: para o Gato, dá no mesmo. Ele ergue a cabeça quando incomodado, olha os homens com desprezo e torna a deitá-la. O Livreiro observa que talvez o animal prefira “o mundo da vida”. O Filósofo chega a suspeitar de coisa ainda mais grave: aquele bicho seria uma personificação mais convincente da liberdade do que muitas páginas escritas sobre ela. Pois o Gato não argumenta que existe.

Existe.

Eis uma das ironias mais felizes do romance. Um homem atravessa séculos de filosofia à procura de razões; o animal, deitado sobre os filósofos, não precisa de nenhuma. Não conhece o problema do sentido da vida e, por isso mesmo, talvez esteja mais próximo da vida do que aqueles que fizeram dela um problema. Sua psicologia, se é permitido atribuir psicologia a um gato que certamente desprezaria a atribuição, é feita de soberania, indiferença, curiosidade seletiva e uma capacidade quase aristocrática de decidir quando os homens merecem sua atenção. Não é dócil por princípio. Não distribui afeto democraticamente. Aproxima-se quando quer, retira-se quando quer, observa mais do que participa. Seu afeto, justamente porque não é obrigatório, tem o seu próprio valor.

O Gato é uma pequena refutação de trezentas páginas que jamais precisa formular uma premissa. Não é o único.

Há Luna, a husky de olhos diferentes, que se comporta diante da estátua de Simões Lopes Neto como se percebesse no bronze alguma coisa que os homens já não conseguem perceber. Há o outro cão, majestoso e impassível. Há a Senhora Pequenina com suas sacolas; as Irmãs do Balanço; as crianças do Mercado; o Livreiro; a Bibliotecária; a Mulher do Olhar Inteiro. Há figuras que aparecem por minutos e deixam no protagonista uma perturbação desproporcional à duração do encontro.

Nenhuma delas refuta Hegésias. Seria literariamente desastroso se tentassem. Fazem coisa pior para um filósofo: tornam insuficiente uma verdade que parecia completa. O romance nasce dessa insuficiência.

Não é difícil reconhecer, naturalmente, a biografia intelectual do autor atrás dessa construção. Antes da ficção vieram seus livros: Vita — breves pensamentos sobre a vida e a morte, História do Suicídio, A Invenção do Suicídio e Os Filósofos e a Morte. Seria fácil concluir que O Filósofo da Rua XV é a continuação desses livros por outros meios. Seria também inexato.

Um ensaio pode perguntar o que significou a morte voluntária para gregos, romanos ou cristãos. Pode reconstruir conceitos, distinguir épocas, confrontar argumentos. O romance está obrigado a uma tarefa mais ingrata: precisa sujar os conceitos de mundo. Precisa colocar alguém numa rua. Fazê-lo sentir frio, fome, medo, atração, vergonha. Fazê-lo entrar numa livraria que cheira a gato. Dar-lhe um livro que deverá ser devolvido. Pôr uma criança diante dele. Fazer uma mulher tocá-lo. Deixá-lo esperar. Fazer com que olhe o relógio e descubra que o tempo dos filósofos não é exatamente o mesmo tempo dos homens que esperam por alguém.

A passagem do ensaio ao romance começa quando a ideia ganha corpo. E, sobretudo, quando ganha relógio. Há nisso uma vingança da literatura contra a filosofia, amistosa, talvez, mas completa. O conceito deseja estabilidade ao passo em que a vida introduz circunstâncias. O sistema procura coerência; uma criança atravessa a rua. Um homem formula uma teoria; um gato boceja sobre Pascal. A filosofia pergunta pelo sentido da existência; duas meninas brincam num balanço. Quem venceu a discussão? A pergunta é absurda. E por isso é boa.

O Filósofo da Rua XV é mais interessante justamente quando compreende que uma vida não muda necessariamente porque encontrou um argumento melhor. Às vezes, o pensamento é deslocado por coisas muito menores: um movimento pequenino, um animal, uma conversa sem importância aparente, uma lembrança, a obrigação de devolver alguma coisa que pertence a outra pessoa. A grande tradição filosófica permanece no romance, mas perde o monopólio da verdade. Montaigne continua sendo Montaigne. Pascal continua sendo Pascal. Hegésias continua sendo Hegésias. Apenas já não estão sozinhos.

Por isso seria pobre classificar o livro simplesmente como “um romance sobre o suicídio”. A morte voluntária está em toda parte: em Hegésias, no manuscrito, nas pesquisas do protagonista, em suas conversas, no passado que ele carrega consigo. Mas é antes uma porta pela qual o romance entra em questões mais antigas e mais vastas: quanto de nossa vida realmente nos pertence? Até onde uma ideia pode conduzir aquele que a leva a sério? O que devemos aos desconhecidos que cruzam nosso caminho? E o que acontece quando os outros começam a construir, a nosso respeito, uma história na qual já não nos reconhecemos?

É então que Pelotas deixa de ser apenas endereço ou cenário. Apartir do capitulo XIII, o autor começa a grafá-la com letra maiúscula: Cidade. Sem deixar de ser Pelotas, com suas ruas, seus casarões, seus cafés, sua umidade, seus monumentos, sua memória e seus mortos, a Cidade cresce até adquirir outra dimensão. Torna-se uma experiência da sociedade: o lugar em que os homens se encontram e também se vigiam; conversam e deformam o que ouviram; recordam algumas coisas e esquecem outras; transformam impressões em juízos, juízos em certezas e certezas, às vezes, em sentenças.

O Filósofo percorre a Biblioteca Pública, o Mercado, o Café Aquários, a Rua XV, a Praça dos Enforcados, a Catedral. São lugares reconhecíveis por qualquer pelotense, mas não é necessário conhecer Pelotas para reconhecê-los. Eis o momento em que uma cidade entra verdadeiramente na literatura: quando continua sendo inconfundivelmente ela mesma e, no entanto, passa a existir também para quem nunca pisou em suas ruas.

Dublin não deixou de ser Dublin por causa de Joyce. São Petersburgo não deixou de ser São Petersburgo depois de Dostoiévski. As cidades literárias tornam-se universais não quando perdem seus nomes, mas quando alguma coisa da condição humana começa a andar por suas calçadas.

É o que Reis procura fazer com Pelotas.

E encontrou uma cidade especialmente apropriada para isso. A beleza dos casarões não consegue separar-se inteiramente da riqueza que os ergueu; o refinamento arquitetônico convive com a memória da escravidão; monumentos preservam alguns nomes enquanto outros desapareceram. Há uma praça cuja designação popular, Praça dos Enforcados, parece guardar na língua aquilo que a história oficial preferiria tornar menos visível. O passado não está atrás da cidade. Está debaixo dela.

Mas o presente é mais rápido do que a memória. O tempo presente, no romance, fala e muitas vezes fala alto. Uma notícia passa de boca em boca. Uma frase perde uma palavra. Uma interpretação encontra outra e volta modificada. Alguém viu. Alguém ouviu dizer. Alguém sabe de fonte segura. Um manuscrito que ninguém leu começa a adquirir uma existência pública. Um homem chega à cidade trazendo seus livros, seus hábitos, seu passado e suas razões; pouco depois, descobre que desconhecidos sabem a seu respeito coisas que ele próprio ignora.

Nesse momento, O Filósofo da Rua XV muda discretamente de gênero.

O romance de ideias começa a adquirir a inquietação do romance policial, mas se recusa a obedecer inteiramente às suas regras. Há um morto. Há um delegado. Há um manuscrito. Há perguntas para as quais diferentes pessoas oferecem respostas incompatíveis. E há, sobretudo, a matéria de que são feitos muitos crimes antes mesmo que apareça um criminoso: versões.

É aqui que o livro se torna perigoso para o crítico, porque contar mais seria começar a destruí-lo.

Basta dizer que Hegésias atravessou mais de dois mil anos para chegar a Pelotas. Quase nada sabemos do filósofo histórico. Algumas referências antigas foram suficientes para lhe dar uma reputação extraordinária: Peisithanatos, o persuasor da morte. Teria falado contra a vida com tal eficácia que suas lições acabaram proibidas. História? Lenda? Exagero transmitido pelos antigos? Para o historiador da filosofia, começa aí um problema de fontes. Para o romancista, começa algo muito melhor. Reis não precisa ressuscitar Hegésias. Basta-lhe fazer reaparecer alguma coisa que talvez tenha pertencido a ele.

Um manuscrito pode ser verdadeiro ou falso. Pode ter sido compreendido ou incompreendido. Pode passar de uma mão para outra. Pode ser traduzido por alguém que conhece grego e comentado por quem não conhece uma palavra da língua. Pode ser objeto de pesquisa, mercadoria, lembrança, prova, notícia, acusação. E já não será exatamente o mesmo manuscrito em cada uma dessas existências.

Entre aquilo que está escrito e aquilo que uma cidade acredita ter sido escrito abre-se uma distância. É nessa distância que começa o verdadeiro mistério de O Filósofo da Rua XV.

Talvez por isso uma das personagens mais sábias do romance seja justamente aquela que não lê. Enquanto os homens discutem Hegésias, Montaigne, Pascal, a morte, a liberdade e o sentido da existência, o Gato muda de livro, ajeita o corpo sobre a capa, fecha os olhos e dorme.

Não sabemos se ele compreendeu tudo. É possível que tenha compreendido apenas o necessário.

SERVIÇO

O Filósofo da Rua XV (O sorriso de Hegésias)
Alexandre H. Reis
Belo Horizonte: Literíssima, 2026
298 páginas
ISBN 978-65-5079-679-2

Lançamento em Pelotas
15 de outubro de 2026, às 18h
Museu do Doce da UFPel — Casarão 8
Praça Coronel Pedro Osório, Pelotas (RS)

O livro foi lançado em Belo Horizonte em agosto de 2026 e terá seu lançamento em Pelotas no dia 15 de outubro, com encontro com o autor e convidados e sessão de autógrafos. Será lançado no dia 24 em Curitiba e no 16 de novembro em Florianópolis, na UFSC.

Onde encontrar: Amazon Brasil, Magalu, Editora Literíssima, etc.

 

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