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O Pacto da Dignidade: a morte de Freud entre a prática médica, a soberania do sujeito e a economia da pulsão de morte

     Prof. Alexandre H. Reis (Lysis/UFpel)

“No dia 21 de setembro, enquanto eu estava sentado à sua cabeceira, Freud pegou minha mão e me disse: ‘Meu querido Schur, você certamente se lembra de nossa primeira conversa. Você me prometeu, então, não me abandonar quando chegasse a minha hora. Agora isso não passa de tortura e já não faz mais sentido.’”

O testemunho de Max Schur acerca dos momentos finais de Sigmund Freud, tal como registrado em Freud: Living and Dying, ultrapassa em muito o estatuto de uma simples anotação clínica ou de um relato biográfico circunstancial, constituindo-se, antes, como um documento privilegiado no qual convergem, de maneira exemplar e quase paradigmática, três ordens distintas, porém profundamente imbricadas: a ética médica moderna em seu confronto com os limites do paternalismo terapêutico, a afirmação radical da autonomia do sujeito diante de sua própria finitude e, por fim, a inscrição, no plano da experiência vivida, de uma das hipóteses mais perturbadoras da metapsicologia freudiana: a saber, a noção de pulsão de morte.

Se nossa pretensão é ao menos esboçar um entendimento prévio da densidade desse episódio em toda a sua complexidade, é necessário retroceder à configuração da relação entre Freud e Schur, estabelecida no final da década de 1920, quando o primeiro já se encontrava profundamente marcado por um carcinoma invasivo da região maxilofacial, cuja progressão implicaria, ao longo dos anos subsequentes, uma sucessão de intervenções cirúrgicas mutiladoras, a instalação de próteses dolorosas e uma deterioração progressiva das funções mais elementares da vida cotidiana, como a fala e a alimentação. É nesse contexto de sofrimento prolongado (sofrimento que não se reduz ao registro da dor física, mas que incide diretamente sobre a dignidade do sujeito enquanto ser falante e pensante) que Freud impõe a Schur uma condição que, à época, subvertia frontalmente a lógica dominante da prática médica: a recusa explícita de qualquer forma de ocultação diagnóstica e a exigência incondicional de que sua vida não fosse artificialmente prolongada para além do ponto em que deixasse de ser vivível sob critérios que ele próprio julgava aceitáveis.

Tal exigência não deve ser compreendida como uma simples manifestação de vontade individual, mas como a formalização de uma posição ética rigorosa, na qual o saber médico deixa de ocupar o lugar de instância soberana e passa a ser reinscrito como instrumento a serviço de uma decisão que permanece, em última instância, intransferível. Ao aceitar tais termos, Schur não apenas se compromete com um paciente, mas se vincula a um pacto cuja força normativa atravessará toda a década seguinte, convertendo a relação clínica em uma espécie de aliança fundada sobre a verdade, a lucidez e a recusa de qualquer forma de tutela.

O consultório de Sigmund Freud em sua residência londrina, atual Freud Museum, preservado com seus objetos originais. Foi nesse espaço, durante o exílio e já em estágio avançado de carcinoma, que Freud viveu seus últimos meses e reafirmou, junto a seu médico Max Schur, o pacto ético que orientaria a condução de sua morte.

Fonte: FREUD MUSEUM LONDON. Freud’s Study. Londres, [s.d.]. Disponível em: https://www.freud.org.uk. Acesso em: 17 jun. 2026.

 

Durante esse período, o comportamento de Freud revela uma coerência notável com os princípios que ele mesmo estabelecera: a recusa sistemática de analgésicos que pudessem comprometer sua atividade intelectual, a insistência em manter-se produtivo apesar das limitações crescentes e a preservação, até onde fosse possível, de sua autonomia psíquica, mesmo em condições que, para a maioria dos sujeitos, justificariam plenamente o abandono de tais exigências. O exílio em Londres, imposto pela ascensão do regime nazista, não altera substancialmente essa orientação; ao contrário, reforça a centralidade da atividade intelectual como eixo organizador de sua existência. Contudo, quando a progressão da necrose atinge um grau tal que o sofrimento deixa de ser apenas intenso para tornar-se estruturalmente insuportável (comprometendo não apenas o corpo, mas a própria possibilidade de estar no mundo), o pedido formulado a Schur em setembro de 1939 emerge não como um gesto impulsivo ou desesperado, mas como a atualização de um compromisso previamente estabelecido.

É precisamente nesse ponto que a figura de Anna Freud adquire relevância decisiva, na medida em que sua inclusão explícita no processo decisório — “fale com Anna sobre isso, e se ela achar que está correto, ponha um fim nisso” — introduz uma dimensão relacional que impede qualquer leitura simplificadora da autonomia como isolamento absoluto. Ao contrário, o que se observa é uma articulação complexa entre soberania individual e reconhecimento da alteridade, na qual a decisão sobre a própria morte, embora ancorada na vontade do sujeito, se inscreve em uma rede de vínculos afetivos e responsabilidades compartilhadas. O consentimento de Anna, obtido não sem hesitação, confere à decisão uma legitimidade adicional, deslocando-a do registro de um ato estritamente individual para o campo de uma ética do cuidado na qual médico, paciente e familiar participam de uma mesma economia de responsabilidade.

No entanto, a singularidade desse episódio não se esgota em sua dimensão ética ou clínica; ela se intensifica quando considerada à luz da teoria freudiana da pulsão de morte, tal como formulada em Além do Princípio do Prazer. Nesse texto, Freud propõe, contra a primazia até então atribuída às pulsões de vida, a existência de uma tendência fundamental do organismo à redução absoluta das tensões, tendência essa que encontraria sua expressão limite no retorno ao estado inorgânico. Longe de constituir uma simples especulação abstrata, essa hipótese encontra, nos momentos finais da vida de Freud, uma espécie de encenação concreta, segundo minha leitura, na qual a experiência subjetiva do sofrimento extremo se articula com a lógica econômica descrita pela metapsicologia.

Quando Freud afirma que sua condição já “não faz mais sentido” e que se reduz a uma “tortura”, o que se evidencia é o colapso da capacidade do aparelho psíquico de manter, por meio das operações de ligação características de Eros, um nível de tensão compatível com a vida. Nesse cenário, a intervenção de Schur (a administração de doses sucessivas de morfina que conduzem ao sono, ao coma e, finalmente, à morte) pode ser interpretada não como a imposição externa de um término, mas como o acompanhamento médico de um processo já em curso, no qual o organismo tende, por sua própria dinâmica, à cessação.

Importa sublinhar, contudo, que essa leitura não autoriza a assimilação imediata do movimento de Freud a uma manifestação patológica da pulsão de morte. Penso que esse ponto é particularmente caro para as reflexões que temos desenvolvido no interior de nosso grupo Lysis. Ao contrário: o que distingue esse caso é precisamente o fato de que o movimento em direção ao fim não se dá sob a forma de um acting-out destrutivo ou de uma capitulação melancólica, mas é mediado por uma instância egóica que se mantém operante até o limite. Freud não apenas antecipa sua morte; ele a organiza, a negocia e a inscreve em um quadro ético e relacional cuidadosamente delineado. Nesse sentido, pode-se afirmar que, em seu gesto final, ele realiza de maneira exemplar a máxima que atravessa sua obra: a expansão do domínio do eu (Ich) sobre os processos que, de outro modo, permaneceriam submetidos à opacidade do isso (es).[i]

A descrição final de Schur, o desaparecimento da expressão de dor, a instalação de um sono tranquilo, a progressiva transição para o coma, convoca, inevitavelmente, a antiga associação mítica entre morte e sono, personificada nas figuras de Thanatos e Hypnos. Longe de qualquer dramatização, a morte de Freud se apresenta, assim, como uma passagem silenciosa, desprovida de violência espetacular, na qual a medicina, ao invés de se opor ao fim, atua como mediadora de sua suavização.

Se há, portanto, um ensinamento a extrair desse episódio, ele talvez resida na possibilidade de pensar a morte não como um evento meramente biológico ou como um escândalo a ser evitado a todo custo, mas como um momento que pode, em determinadas condições, ser integrado à própria economia da vida psíquica e à ética do sujeito. Freud, ao enfrentar sua morte sem recorrer a ilusões transcendentes e sem ceder à autocompaixão, inscreve seu fim na continuidade de sua obra, fazendo de seu último movimento não uma negação, mas uma espécie de confirmação prática de seu pensamento.

[i] A consagrada tradução dos termos freudianos Ich e Es por “Ego” e “Id”, consolidada sobretudo pela tradição anglo-saxã e reiterada nas versões brasileiras mediadas pelo inglês, introduz uma camada de latinização que tende a reificar instâncias que, no original alemão, permanecem deliberadamente próximas da linguagem ordinária. Enquanto Ich designa simplesmente o “eu” e Es o “isso”, Freud preserva uma ambiguidade fundamental entre experiência subjetiva e estrutura psíquica. A opção por “Ego” e “Id”, ao conferir-lhes uma aparência técnico-substancial, pode obscurecer essa indeterminação constitutiva, favorecendo uma leitura mais topográfica do aparelho psíquico em detrimento de sua dimensão dinâmica e enunciativa.

 

BIBLIOGRAFIA

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 18: O mal-estar na civilização, Novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

JONES, Ernest. Vida e obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. 3 v.

SCHUR, Max. Freud: living and dying. New York: International Universities Press, 1972.

STRACHEY, James (ed.). The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud. London: Hogarth Press, 1953-1974. 24 v.

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