O Pampa não é apenas uma paisagem de horizontes abertos; é um bioma de profundidades. Guardião de uma biodiversidade única e berço das águas do Aquífero Guarani, é o alicerce da identidade gaúcha e platina. Hoje o mosaico vivo de pastagens nativas cede lugar à monotonia da soja. Onde havia diversidade, hoje impera a monocultura. Onde pulsava o ofício e a vida comunitária, avança o vazio demográfico. Nossa pesquisa mergulha nesta transformação para questionar: o que estamos perdendo em nome de um modelo que exporta commodities, mas deixa para trás o esgotamento do solo e o silenciamento da nossa história?
Conheça os achados de um território em resistência.
O Pampa e o continente
O bioma Pampa ocupa a região centro-sul da América do Sul, abrangendo cerca de 750 mil km², distribuídos entre Argentina (67%), Uruguai (20%) e Brasil (13,3%). A porção brasileira acha-se integralmente circunscrita ao estado do Rio Grande do Sul. A introdução dos rebanhos na região remonta às missões jesuíticas dos séculos XVI e XVII. As reduções guaraníticas foram o primeiro ciclo econômico nos confins austrais da América, baseado na atividade pecuária e nos produtos dela derivados (carne, couro e sebo).
Um bioma peculiar
Foi somente em 2004 que o Pampa foi oficialmente reconhecido como bioma brasileiro. Ocupa uma área de aproximadamente 177 mil km², ou o que corresponde a quase dois terços da superfície territorial do Rio Grande do Sul. Diferentemente de outros biomas brasileiros, o Pampa não apresenta florestas densas. É constituído predominantemente por campos naturais, onde a pecuária extensiva (bovinos, ovinos e equinos) se destaca como a principal atividade econômica. Por essa razão é frequentemente considerado um bioma de menor importância por parte da opinião pública e dos meios de comunicação.
Pampa e biodiversidade
O Pampa abriga uma expressiva biodiversidade, cerca de 3.000 espécies de plantas, incluindo mais de 450 tipos de gramíneas e cerca de 100 espécies arbóreas. A fauna também é diversificada, reunindo mais de 500 espécies de aves, cerca de 100 espécies de mamíferos, aproximadamente 50 espécies de anfíbios, 97 de répteis e 50 de peixes.
A atividade pecuária convive com essa rica biodiversidade há pelo menos 300 anos, contribuindo, em muitos casos, para a manutenção desse patrimônio ambiental. Além disso, o Pampa abriga importantes áreas de recarga do Aquífero Guarani, fundamentais para a sustentação de extensas redes hidrográficas no Brasil e nos países do Prata.
O Pampa e o gaúcho
A criação animal, iniciada no contexto das reduções jesuíticas, favoreceu o surgimento das estâncias — grandes propriedades rurais que estruturaram a base econômica e sociocultural da região. Esse processo esteve na origem da construção da figura do gaúcho e de práticas produtivas que marcaram historicamente o Sul do Brasil.
Não há como pensar o Rio Grande do Sul sem aludir à figura do gaúcho — o “centauro do Pampa” —, forjada na interação entre o homem e o meio, e na mescla de influências ibéricas com grupos indígenas, como minuanos, charruas e guenoas. Muitas atividades ligadas ao artesanato do couro e da lã, assim como a própria produção pecuária tradicional, correm um sério risco de desaparecer. O gaúcho pode acabar reduzido a uma simples estampa ou imagem icônica afixada na parede.