Discurso do Lula na FAO: Os Impactos da Segurança Alimentar para a Projeção Internacional do Brasil por Eduardo Grecco

No dia 13 de outubro, na abertura do Fórum Mundial da Alimentação em Roma, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou acerca da importância de reposicionar o Brasil como um ator central no debate global sobre segurança alimentar e combate às desigualdades.

A fala do presidente, proferida na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), transcendeu o debate técnico sobre a produção de alimentos, inserindo-o em uma moldura geopolítica que conecta a fome à estabilidade democrática e à paz mundial. Sob a ótica das Relações Internacionais, a participação de Lula no evento representa um movimento de considerável relevância estratégica para a política externa brasileira, utilizando a experiência do país na erradicação da fome como um ativo de soft power para projetar liderança e influenciar a agenda multilateral.

O pilar do discurso de Lula foi a tese de que “a fome é inimiga da democracia” e “irmã da guerra” (AGÊNCIA BRASIL, 2025). Ao vincular a insegurança alimentar a crises de governabilidade e a conflitos, Lula eleva o tema a uma questão de segurança internacional. Essa abordagem busca criar um senso de urgência e responsabilidade compartilhada entre as nações, argumentando que a erradicação da fome não é apenas uma imperativo moral, mas uma condição necessária para a ordem global. A ênfase na soberania, definida como a capacidade de um país de “alimentar o seu povo” (GOV.BR, 2025a), reforça a ideia de que a segurança alimentar é um elemento indissociável da autonomia nacional e do desenvolvimento. Essa formulação ressoa particularmente com as nações do Sul Global, que frequentemente enfrentam desafios tanto na produção de alimentos quanto na manutenção de sua estabilidade política.

O principal impacto do discurso, contudo, é de natureza geopolítica e se reflete na tentativa de construir uma nova narrativa sobre o papel do Brasil no mundo. Ao destacar a retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU como um caso de sucesso, Lula não apenas valida as políticas públicas implementadas em seus governos anteriores, mas também oferece um modelo alternativo de desenvolvimento baseado na inclusão social (G1, 2025). Esta estratégia discursiva funciona como um contraponto ao consenso neoliberal, que por décadas priorizou o ajuste fiscal em detrimento do investimento social. A proposta de “colocar os pobres no orçamento” como uma política de Estado, e não como assistencialismo, é uma crítica direta a modelos econômicos que perpetuam a desigualdade e um chamado para uma reforma da arquitetura financeira internacional (GOV.BR, 2025b).

Pode-se interpretar a fala de Lula como uma tentativa de capitalizar a credibilidade do Brasil na área de segurança alimentar para fortalecer sua candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e para liderar a recém-lançada Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. O discurso em Roma serve como a plataforma de lançamento para esta iniciativa, que busca consolidar o Brasil como um articulador de consensos e um provedor de soluções para os grandes desafios globais. A ênfase no multilateralismo e na cooperação Sul-Sul, pilares da política externa de Lula, é apresentada como o caminho para superar a paralisia das instituições internacionais e para construir uma ordem mais justa e equitativa.

Apesar do tom assertivo, é imperativo reconhecer que a transposição da retórica para a ação concreta enfrenta obstáculos significativos. A implementação de políticas de segurança alimentar em escala global depende de um nível de coordenação e de investimento que o sistema internacional, atualmente fragmentado e polarizado, tem dificuldades em prover. As críticas de Lula aos gastos militares e aos subsídios agrícolas dos países desenvolvidos, embora pertinentes, tocam em interesses profundamente arraigados que não são facilmente alterados. A efetividade da liderança brasileira dependerá de sua capacidade de mobilizar recursos e de construir coalizões amplas, que incluam não apenas os países em desenvolvimento, mas também os atores do Norte Global.

Do ponto de vista conceitual, o discurso do Lula redefine a fome como uma ameaça à segurança internacional. Estrategicamente, utiliza o sucesso brasileiro no combate à insegurança alimentar para projetar o país como uma liderança global e para advogar por uma reforma da governança global. Funciona como uma peça tática que busca galvanizar o Sul Global em torno de uma agenda de desenvolvimento inclusivo e pressionar as potências mundiais a assumirem maiores compromissos com a erradicação da pobreza. O sucesso desta empreitada, no entanto, dependerá da habilidade do Brasil em traduzir sua autoridade moral em influência política e em navegar um cenário internacional adverso, onde os desafios para a cooperação e para a ação coletiva permanecem consideráveis.

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Fome é irmã da guerra, diz Lula no Fórum Mundial da Alimentação. Brasília, 13 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-10/fome-e-irma-da-guerra-diz-lula-no-forum-mundial-da-alimentacao. Acesso em: 15 out. 2025.

G1. ‘A fome é inimiga da democracia’, afirma Lula na abertura Fórum Mundial da Alimentação. Brasília, 13 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/10/13/a-fome-e-inimiga-da-democracia-afirma-lula-na-abertura-forum-mundial-da-alimentacao.ghtml. Acesso em: 15 out. 2025.

GOV.BR. “Um país soberano é um país capaz de alimentar o seu povo”, diz Lula na FAO. Brasília, 13 out. 2025a. Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/10/201cum-pais-soberano-e-um-pais-capaz-de-alimentar-o-seu-povo201d-diz-lula-na-fao. Acesso em: 15 out. 2025.

GOV.BR. Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na Sessão de Abertura do Fórum Mundial da Alimentação. Brasília, 13 out. 2025b. Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos-e-pronunciamentos/2025/10/discurso-do-presidente-lula-na-sessao-de-abertura-do-forum-mundial-da-alimentacao-em-roma. Acesso em: 15 out. 2025.

 

Eduardo Grecco é pesquisador do LabGRIMA e GeoMercosul

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