A continuidade da hegemonia hemisférica: a “neo-Doutrina Monroe” de Trump e os desafios de segurança na América Latina por Eduardo Grecco

Em 05 de dezembro, a Casa Branca publicou uma recente reorientação da política externa dos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, caracterizada por um “reajuste da presença global” com foco renovado na América Latina (G1, 2025), sinaliza a reativação de preceitos históricos análogos à Doutrina Monroe.

Este movimento não representa apenas uma mudança de prioridades geográficas, mas uma estratégia de contenção geopolítica explícita. O documento que fundamenta essa nova postura busca restaurar a liderança norte-americana na região com o objetivo claro de limitar a influência crescente de potências extracontinentais, especificamente China e Rússia, e monitorar rotas comerciais e energéticas vitais que atravessam territórios como o brasileiro (SOCIEDADE MILITAR, 2025).

O principal impacto dessa estratégia é a securitização da agenda diplomática regional. Ao deslocar o foco para o combate ao narcotráfico e para a estabilidade política, Washington instrumentaliza questões de segurança pública como vetores de pressão externa. Relatórios recentes apontam para uma interferência crescente do crime organizado na política institucional de países latino-americanos, incluindo o Brasil (GAZETA DO POVO, 2025). A administração Trump tende a utilizar essa fragilidade institucional como justificativa para uma intervenção mais direta, sob a prerrogativa de proteger o hemisfério de “ameaças transnacionais”, o que pode resultar em pressões por alinhamento automático em fóruns de segurança e defesa, reduzindo a autonomia estratégica das nações sul-americanas.

A questão da Venezuela emerge como o epicentro dessa tensão. A política agressiva adotada contra o governo de Caracas coloca a América Latina em um momento de profunda incerteza (TERRA, 2025). Diferente de abordagens anteriores focadas em sanções econômicas ou isolamento diplomático multilateral, a nova retórica sugere uma disposição para o uso de hard power ou de táticas de desestabilização mais assertivas. Isso gera um dilema de segurança para os países vizinhos, que podem se ver impelidos a escolher lados em um conflito potencial, fragmentando ainda mais os mecanismos de integração regional que já se encontram debilitados.

Segundo a Record, (R7, 2025)  essa “nova estratégia” opera sob uma lógica de soma zero: para que a segurança dos EUA aumente, a influência de rivais globais na região deve ser eliminada. Isso coloca o Brasil em uma posição delicada, visto que a China é seu maior parceiro comercial. A intenção dos EUA de interferir em rotas de comércio e energia (SOCIEDADE MILITAR, 2025) sugere que a infraestrutura crítica sul-americana passará a ser vista por Washington como ativos de segurança nacional americana. A reinterpretação da Doutrina Monroe no século XXI, portanto, não visa apenas proteger o continente de colonização, mas garantir a primazia econômica e logística dos EUA frente à expansão da Nova Rota da Seda chinesa.

Em suma, a postura da administração Trump (BBC, 2025) é de vital importância para a compreensão do futuro imediato da região. Estrategicamente, o retorno da atenção americana impõe desafios à soberania dos países latino-americanos, que precisarão navegar entre a necessidade de cooperação no combate ao narcotráfico e a preservação de sua autonomia política e comercial. O cenário desenhado é o de uma América Latina convertida novamente em palco de disputa entre grandes potências, onde a instabilidade na Venezuela e o combate ao crime organizado servem como catalisadores para uma projeção de poder hegemônico que busca reverter a multipolaridade emergente no hemisfério.

Referências

BBC. O que é a Doutrina Monroe e como ela molda a visão de Trump para a América Latina. Londres, 08 dez. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckg9q0xnr15o. Acesso em: 09 dez. 2025.

G1. Governo Trump vai reajustar presença global e focar América Latina. Rio de Janeiro, 05 dez. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/12/05/governo-trump-vai-reajustar-presenca-global-focar-america-latina.ghtml. Acesso em: 09 dez. 2025.

GAZETA DO POVO. Relatório denuncia interferência crescente do crime na política do Brasil e outros países da América Latina. Curitiba, 08 dez. 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/relatorio-denuncia-interferencia-crescente-crime-politica-brasil-outros-paises-america-latina/. Acesso em: 09 dez. 2025.

R7. Nova estratégia dos EUA tem maior foco na América Latina. São Paulo, 08 dez. 2025. Disponível em: https://noticias.r7.com/record-news/jornal-da-record-news/video/nova-estrategia-dos-eua-tem-maior-foco-na-america-latina-08122025/. Acesso em: 09 dez. 2025.

SOCIEDADE MILITAR. Documento de Trump busca restaurar a liderança dos EUA na América Latina, limitar China e Rússia e interferir em rotas de comércio e energia que passam pelo Brasil. Rio de Janeiro, 08 dez. 2025. Disponível em: https://www.sociedademilitar.com.br/2025/12/documento-de-trump-busca-restaurar-a-lideranca-dos-eua-na-america-latina-limitar-china-e-russia-e-interferir-em-rotas-de-comercio-e-energia-que-passam-pelo-brasil-nbd.html. Acesso em: 09 dez. 2025.

TERRA. Política americana contra a Venezuela coloca América Latina em momento de incerteza. São Paulo, 08 dez. 2025. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/analise-politica-americana-contra-a-venezuela-coloca-america-latina-em-momento-de-incerteza,e2a8926fc3828ba321a2b91a0ec362062yrd9npm.html. Acesso em: 09 dez. 2025.

*Eduardo Grecco é pesquisador do LabGRIMA e GeoMercosul.

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