A iminente assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, confirmada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o dia 20 de dezembro de 2025 (AGÊNCIA BRASIL, 2025), representa um divisor de águas na história diplomática e econômica dos dois blocos.
Após mais de duas décadas de negociações intermitentes, a formalização do tratado transcende a mera redução tarifária. Sob a ótica das Relações Internacionais, este movimento configura uma reafirmação estratégica do multilateralismo e do livre comércio em um cenário global crescentemente fragmentado e protecionista. A concretização deste pacto sinaliza um amadurecimento institucional do Mercosul e uma resposta geopolítica da Europa, que busca garantir cadeias de suprimentos confiáveis e aliados estáveis no Sul Global diante das incertezas geradas por outras potências globais (UOL, 2025).
O principal impacto prático do acordo reside na “redefinição da competitividade” brasileira e sul-americana, (PODER360, 2025). Ao integrar-se a um mercado de altos padrões regulatórios, o Brasil não apenas ganha acesso a consumidores com elevado poder de compra, mas também “importa” credibilidade institucional. O acordo funciona como uma âncora externa para reformas internas, exigindo modernização em áreas como compras governamentais, propriedade intelectual e normas ambientais. O apoio de autoridades europeias, como o ministro italiano que classificou o pacto como um “bom negócio” (TERRA, 2025), indica que, do ponto de vista econômico, o setor industrial e de serviços da Europa vê no Mercosul uma oportunidade vital de diversificação de mercado, superando resistências protecionistas tradicionais.
No entanto, a convergência para a assinatura não elimina os desafios estruturais de sua implementação. Analistas alertam para o risco de este ser um “terceiro anúncio sem efeito prático” imediato (GAÚCHAZH, 2025), rememorando os anúncios de 2019 e de momentos anteriores que esbarraram em entraves políticos. A distinção entre a assinatura pelo Executivo e a ratificação pelos legislativos é o ponto crítico. A arquitetura do acordo provavelmente exigirá aprovação no Parlamento Europeu e nos parlamentos nacionais dos estados-membros da UE, onde o lobby agrícola — especialmente o francês — mantém forte oposição. Portanto, o efeito prático de isenção tarifária e fluxo comercial desimpedido pode levar anos para se materializar plenamente, dependendo do modelo de “fatiamento” (splitting) do acordo que for adotado para acelerar a vigência da parte comercial (O GLOBO, 2025).
Apesar do otimismo diplomático (AGÊNCIA BRASIL, 2025), é imperativo reconhecer que a assinatura em dezembro é, primariamente, uma vitória política que abre uma nova fase de batalhas legislativas. A convergência atual foi possível graças a concessões mútuas em compromissos ambientais, que serviram para destravar a pauta, mas a vigilância europeia sobre o desmatamento e as normas sanitárias continuará a ser usada como barreira não-tarifária. O sucesso da ratificação dependerá da capacidade do Brasil e de seus sócios de demonstrarem, na prática, que a sustentabilidade é um pilar da produção, e não apenas retórica diplomática.
Em suma, a assinatura do acordo Mercosul-UE (O GLOBO, 2025) é de vital importância estratégica. Economicamente, oferece um choque de modernização e integração em cadeias globais de valor (PODER360, 2025). Geopoliticamente, consolida uma aliança “transatlântica” que serve de contrapeso à influência chinesa e ao isolacionismo norte-americano. Funciona como uma peça tática que reposiciona o Brasil como um player global comprometido com regras claras. Contudo, o caminho até a vigência plena permanece minado por armadilhas protecionistas (GAÚCHAZH, 2025), exigindo do Itamaraty uma diplomacia parlamentar intensa na Europa para garantir que a tinta da caneta presidencial se transforme em realidade comercial concreta.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Acordo Mercosul-UE será assinado em 20 de dezembro, diz Lula. Brasília, 23 nov. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-11/acordo-mercosul-ue-sera-assinado-em-20-de-dezembro-diz-lula. Acesso em: 25 nov. 2025.
GAÚCHAZH. Acordo Mercosul-União Europeia pode ter terceiro anúncio sem efeito prático. Porto Alegre, 23 nov. 2025. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/marta-sfredo/noticia/2025/11/acordo-mercosul-uniao-europeia-pode-ter-terceiro-anuncio-sem-efeito-pratico-cmid77bsp002d0160h6mnh0jn.html. Acesso em: 25 nov. 2025.
O GLOBO. Lula anuncia assinatura de acordo Mercosul-União Europeia. Rio de Janeiro, 23 nov. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/11/23/lula-anuncia-assinatura-de-acordo-mercosul-uniao-europeia.ghtml. Acesso em: 25 nov. 2025.
PODER360. Gilmar diz que acordo UE-Mercosul redefine competitividade. Brasília, 23 nov. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/gilmar-diz-que-acordo-ue-mercosul-redefine-competitividade/. Acesso em: 25 nov. 2025.
TERRA. Acordo Mercosul-UE é bom negócio, diz ministro italiano. São Paulo, 23 nov. 2025. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/acordo-mercosul-ue-e-bom-negocio-diz-ministro-italiano,a1413344f5252bc6f88d2c30f9931a52c9slvkjo.html. Acesso em: 25 nov. 2025.
UOL. Lula: Acordo União Europeia-Mercosul. São Paulo, 23 nov. 2025. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/11/23/lula-acordo-uniao-europeia-mrecosul.html. Acesso em: 25 nov. 2025.
Eduardo Grecco é pesquisador do LabGRIMA e GeoMercosul
