UFPel aprova a criação do Curso de Especialização em Política, Desenvolvimento e Relações Internacionais nas Fronteiras

A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) criou o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Política, Desenvolvimento e Relações Internacionais nas Fronteiras, pela Resolução nº 148, de 19 de outubro de 2026, do Conselho Universitário (CONSUN). A especialização fica vinculada ao Centro de Ciências Sócio-Organizacionais (CCSO) e será oferecida a distância, com financiamento do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB/CAPES). O curso terá 150 vagas e carga horária de 450 horas. O Regimento foi aprovado pelo Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão (COCEPE), no Parecer Normativo nº 155, de 16 de outubro de 2026.

O curso amplia a formação acadêmica e profissional voltada à compreensão das dinâmicas políticas, econômicas, institucionais e socioculturais dos territórios fronteiriços do Cone Sul. A proposta parte de uma perspectiva interdisciplinar, na qual as fronteiras deixam de ser vistas só como limites jurídico-territoriais da soberania estatal. Elas são tratadas também como espaços de interação, circulação, cooperação e conflito, onde se articulam processos de desenvolvimento regional, relações internacionais, políticas públicas e formas específicas de organização social.

Concepção acadêmica e trajetória institucional

A proposta foi elaborada pela Comissão de Criação do Curso, instituída pela Portaria nº 12, de 28 de julho de 2026, expedida pela diretora do CCSO, professora Isabel Cristina Rosa Barros Rasia. A comissão foi presidida pelo professor Daniel Lena Marchiori Neto, coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Comércio Exterior. Também participaram o professor Luciano Vaz Ferreira, coordenador adjunto da graduação, e as professoras Isabel Teresinha Dutra Soares e Larissa Ferreira Tavares.

Em treze dias, a comissão elaborou os instrumentos acadêmicos e normativos da especialização, que são o Projeto Pedagógico do Curso, o Regimento e os programas analíticos das disciplinas. A proposta foi submetida em 10 de agosto de 2026 e passou pelas instâncias de apreciação e deliberação da universidade até a aprovação final, pouco mais de dois meses depois.

A origem da especialização está ligada à consolidação do Curso de Comércio Exterior da UFPel. Os quatro integrantes da comissão compõem o Colegiado dessa graduação, criada em 2023 e reconhecida pelo Ministério da Educação em 2025 com conceito 5. A pós-graduação aprofunda campos de investigação que já existiam na formação em Comércio Exterior. A concepção parte da convergência teórica e metodológica entre três eixos, política, desenvolvimento e relações internacionais. Esses eixos costumam ser tratados por áreas do conhecimento diferentes, mas se encontram na análise dos territórios fronteiriços.

Na graduação, o eixo político aparece em Fundamentos de Ciência Política e em Cidadania e Direitos Humanos, disciplinas que introduzem questões sobre o Estado, as instituições, o poder político e a organização da vida coletiva. O desenvolvimento está em Fundamentos de Economia, Economia Internacional e Finanças Internacionais, voltadas às estruturas econômicas e aos processos de integração dos mercados. As relações internacionais são objeto de Introdução ao Comércio Exterior, Negociação Internacional, Regulação do Comércio Internacional e Análise de Cenários Internacionais. A articulação desses campos levou à proposta de uma pós-graduação que fosse além da abordagem técnico-operacional do comércio internacional. O novo curso inclui no estudo os condicionantes políticos, econômicos e sociais que estruturam as relações entre Estados, instituições e sociedades nos espaços de fronteira.

A especialização dá continuidade acadêmica à experiência da graduação, com uma interpretação interdisciplinar dos fenômenos contemporâneos. O próprio Regimento da pós-graduação inclui a integração com o Curso de Comércio Exterior entre seus princípios.

As fronteiras como objeto de investigação interdisciplinar

A proposta pedagógica considera que os territórios de fronteira têm configurações institucionais, econômicas e socioculturais que perspectivas disciplinares isoladas não conseguem explicar.

No Cone Sul, as fronteiras são espaços em que a territorialidade dos Estados nacionais convive com dinâmicas transnacionais de circulação de pessoas, mercadorias, capitais e práticas culturais. Nesses territórios, as assimetrias de desenvolvimento, a diversidade de regimes regulatórios, os processos de integração regional e as formas de cooperação interinstitucional criam desafios próprios para a formulação e a implementação de políticas públicas.

Por isso, a especialização examina as relações entre soberania, governança, desenvolvimento e integração regional. Estão no foco tanto os arranjos institucionais estabelecidos pelos Estados quanto as interações econômicas e sociais que ultrapassam os limites político-administrativos.

O estudo das fronteiras aproxima diferentes tradições de investigação e reúne contribuições da Ciência Política, da Economia, do Direito, das Relações Internacionais e de outros campos das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.

O objetivo é oferecer instrumentos conceituais e metodológicos para compreender a complexidade desses territórios e analisar criticamente as possibilidades e os limites das estratégias de desenvolvimento, das políticas de integração e dos mecanismos de governança regional.

Organização curricular e proposta formativa

O currículo tem 450 horas, distribuídas em três módulos de 150 horas. A organização segue uma progressão temática que vai dos fundamentos teóricos às questões institucionais e às aplicações na realidade dos territórios fronteiriços.

O primeiro módulo trata dos fundamentos políticos e institucionais das dinâmicas regionais. Os estudos abordam a organização do Estado, as instituições políticas e as relações internacionais no Cone Sul. O módulo inclui também uma disciplina introdutória sobre os fundamentos e as práticas da educação a distância.

O segundo módulo passa ao desenvolvimento econômico regional e às relações entre território, políticas públicas e governança. Nele estão os desafios da atuação estatal nas zonas de fronteira, os mecanismos de coordenação institucional e as questões de segurança nesses espaços.

O terceiro módulo aborda as dimensões econômicas e socioculturais da integração fronteiriça, com o comércio e a logística transfronteiriça, as relações entre sociedade e identidade e os processos de integração regional. Essa etapa reserva 60 horas ao Trabalho de Conclusão de Curso, momento de sistematização dos conhecimentos construídos ao longo da formação.

Com essa organização, o currículo procura evitar a fragmentação entre os campos disciplinares e propõe uma compreensão integrada dos fenômenos políticos, econômicos e sociais dos territórios de fronteira.

Democratização do acesso e compromisso com o desenvolvimento regional

O curso é aberto a quem tem graduação em qualquer área do conhecimento, de acordo com seu caráter interdisciplinar e com a diversidade de experiências profissionais ligadas às regiões fronteiriças. O público previsto inclui servidores e gestores dos diferentes níveis e poderes da administração pública, profissionais de organismos internacionais, integrantes de instituições de segurança, trabalhadores dos setores de comércio exterior e logística transfronteiriça e representantes de organizações da sociedade civil.

A oferta a distância pela UAB/CAPES faz parte da concepção do curso. Com a redução das barreiras geográficas de acesso à pós-graduação, o curso pretende alcançar em especial profissionais que moram em municípios fronteiriços e em localidades distantes dos principais centros universitários.

Essa orientação busca ampliar as oportunidades de qualificação em regiões que têm papel na integração territorial e econômica, mas costumam ter acesso mais limitado à formação continuada especializada. A educação a distância funciona, nesse caso, como um meio de ampliar o alcance territorial da universidade pública e sua presença na região.

Segundo o Projeto Pedagógico, a formação busca desenvolver competências analíticas e profissionais para compreender, formular, implementar e avaliar políticas de desenvolvimento, relações internacionais e governança em regiões de fronteira. A especialização associa formação acadêmica, reflexão crítica e os desafios concretos da atuação institucional, com o propósito de contribuir para a qualificação dos processos decisórios e para as respostas às demandas econômicas, políticas e sociais desses territórios.

Funcionamento e ingresso

As atividades combinam aulas síncronas e assíncronas, seminários, estudos dirigidos e oficinas.

O prazo máximo de integralização é de 18 meses a partir da matrícula.

O ingresso será feito por processo seletivo próprio, com regras, etapas e prazos definidos em edital. O edital será divulgado no site do curso, nos canais da Coordenação de Políticas e Tecnologias para Educação a Distância (CPTED) e nos meios oficiais de comunicação da UFPel.

Para a estruturação administrativa da nova pós-graduação, a Direção do CCSO encaminhou à Reitoria a solicitação de designação do professor Daniel Lena Marchiori Neto como coordenador pro tempore.