Pernas pra que te quero #6 – Um caminho diferente
Explorando outro local, correndo na Avenida Bento Gonçalves
Júlio Gemiaki
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Estava sendo um dia comum demais, então decidi que teria que ir para algum lugar diferente na minha corrida. Imediatamente pensei: “acho que vou pro lado do Quartier, já tem um tempo que não corro dez quilômetros”. E logo depois disso me vieram as palavras do senhor que correu comigo há algumas semanas atrás dizendo que é preciso ser cauteloso ao aumentar a distância (tem registro disso lá no terceiro episódio). Então, automaticamente frustrado, já indo para onde eu queria, cruzei a faixa na Avenida João Goulart de um lado para o outro e fui rumo à Avenida Bento Gonçalves, uma das mais tradicionais e movimentadas de Pelotas.
A Bento é uma rua um pouco enigmática para mim. Eu costumava ir todo o final de semana para lá quando era criança para ver meus avós e meu pai trabalhando. Era divertido quando eu estava andando, vendo as bancas, cumprimentando amigos da família e comendo alguma batatinha frita, pipoca ou churrasquinho, lembro até de levar brinquedos algumas vezes. Mas quando eu estava parado era um saco. É claro que era. Não tem como ver um adulto trabalhar ser interessante para uma criança que não conseguia ficar muito tempo parada. Ainda assim, tenho muito mais memórias boas do que ruins desse tempo, consigo até me lembrar da sensação de provar alguns dos produtos dos feirantes, desde merenguinhos até calçados, roupas e cobertas.
Voltando para o presente. Fui lá correr. Horas que não ia ali para simplesmente estar ali. Ultimamente, a avenida fazia mais sentido como uma via que levava até o Shopping Pelotas. Isso faz com que eu naturalmente tenha uma percepção diferente sobre o percurso. O local é bem arborizado, sempre foi. O espaço é amplo, isso é inegável. Mas é claro que existe um problema bem grande: semáforos intermináveis. Além de um trânsito confuso que não sabe se vai ou se volta e faixas de segurança que vão trocando de esquerda para direita a depender de que quadra se está. Para um corredor, um pesadelo completo.
Não existia nenhuma memória minha parecida com isto. É claro, eles trancam algumas das ruas quando há feira, por isso fica tudo mais pacífico e aconchegante. Mas enfim, o caos só durou até chegar à Praça Dom Antônio Zattera, meu alvo principal para praticar o esporte. É um lugar bonito e, assim como os seus arredores, tem muitas árvores. Bancos, corredores, pista de skate, campo de futebol, brinquedos, na sua maioria melhor cuidados do que eu imaginava. Isso foi uma coisa positiva de perceber durante o caminho. Aquele quadrado que serve como espaço de troca e convivência surgiu como um respiro de ar fresco em meio ao meu trajeto caótico.
Mas nem tudo são flores, me deu vontade de ir ao banheiro e a única opção que me sobrava era o banheiro da praça. Acho que não preciso dizer o quão desagradáveis são banheiros públicos no Brasil. Por sorte, não era lá uma emergência, foi só mais uma ida a um banheiro precário. É ruim? é ruim, mas é algo que todo mundo já passou.
Aliás, passa também o tempo, não só pelo relógio, ele nos atravessa e percorre as ruas, casas, praças e estabelecimentos. Pisar com alguma tranquilidade na Avenida Bento Gonçalves me fez pensar nisso, e em muitas outras coisas que simplesmente vêm à cabeça de repente enquanto se corre. Mas mesmo isso passa. O que antes era um local que existia só na minha infância se tornou uma coisa bem diferente nesta última lembrança que construí e venho relatando por meio deste texto. A praça não é mais a mesma, eu também não sou mais o mesmo. Filosófico, não acha?
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Esta crônica saiu mais reflexiva do que eu pensei originalmente. Aliás, saiu também menos a ver com corrida do que eu gostaria hahaha. Mas acho que reflete bem o meu dia de modo geral, correr também fez parte dele e foi uma espécie de algo transformador dentro do meu fim de tarde.
Procuro dizer sempre exatamente os locais por onde ando correndo a fim de conceituar melhor por onde estou passando e o que está passando por mim. O que vocês acham disso? devo continuar?
Estou deixando um monte de perguntas nestas pequenas seções após o fim do texto. Não sei se funcionam e tampouco sei se alguém irá lê-las, quem dirá respondê-las!
Mas perguntar é minha forma de dizer que, apesar de satisfeito com meu trabalho, vejo que existe sempre alguma coisa que não sei, o que me faz pensar constantemente, não deixando essa passagem infinita das coisas tão irracional assim.
