Pernas pra que te quero #3 – Entrevista inesperada
O que era pra ser mais uma corrida de cinco quilômetros se transformou em uma troca de favores
Júlio Gemiaki
Foi mais um dia normal, fui me exercitar porque sobrou um tempo em meio aos períodos de estudos para a faculdade. Não pensei muito, coloquei boné, bermuda, tênis, fones de ouvido e saí pela rua. O objetivo era fazer um ritmo de 5:30 minutos por quilômetro como eu vinha fazendo ultimamente. Como sempre, não controlei muito bem a minha cadência e acabei fazendo um pouco abaixo do que eu pretendia (no sentido de ter ido mais rápido).
Quilômetro um, quilômetro dois, 2,75 km, parei. Pausa para caminhar um pouco, acabei me empolgando demais. Estava próximo do Stok Center quando um senhor passou por mim correndo. Notei que ele corria um pouco e desacelerava para tirar o suor do rosto e, eventualmente, caminhar, assim como o que eu estava fazendo.
Meu pensamento nessa hora foi: “Assim que eu voltar a correr, vou alcançar esse tio e gritar ‘bora tio’”. Só que essa ideia não durou muito tempo. Rapidinho ela passou a ser: “Se seguir assim, nunca mais eu vejo esse cara na vida”, porque à medida que eu quase me arrastava, ele se distanciava cada vez mais.
Pois bem, passei pelo poste que estabeleci mentalmente como meta para voltar à atividade e segui com a mesma frequência que estava antes da pausa para descansar. Pouco a pouco, eu ia me aproximando do cara que tinha me deitado para trás. Até que, de repente cheguei e, como o planejado, falei “bora tio!”. O que eu não esperava é que iríamos emparelhar e correr juntos até o fim do meu trajeto.
Conforme íamos conversando, ele me contava algumas coisas sobre ele. Tinha 64 anos, estava retornando para a corrida depois de um tempo por causa de uma lesão no ligamento do calcanhar. Isso, inclusive, era um dos motivos que faziam ele dar eventuais paradas no exercício dele, não era só para limpar o suor ou controlar algum excesso de ritmo, havia desconforto no pé e ele mesmo assim seguia.
Juntos, ele me fez acelerar, independente de qualquer condição. Inicialmente eu havia marcado tempos de 5:19 e 5:16, em companhia fizemos 5:12 e 5:10 (min/km). Só no meu último quilômetro que diminuímos um pouco a velocidade, forçados pelo sol das 14:00 horas.
Em meio a esta experiência, mais aprendi do que qualquer outra coisa. Este senhor conta que corre desde a época de colégio, quando existiam disputas de atletismo entre os colégios aqui da cidade. Me recomendou um canal no youtube que se preocupa em ensinar corredores a correrem sem se machucar e me deu dicas de qual seria o jeito certo de aumentar as distâncias percorridas, sempre dando valor e respeitando o processo.
Ainda, me contou que a corrida voltou a pulsar no sangue dele quando se aposentou e passou a ter mais tempo para dedicar a si mesmo. O que também serviu para uma melhora geral em seu bem-estar. Acabou que passamos por isso sem saber os nomes um do outro, mas o que não era para ser uma entrevista acabou sendo e ele me permitiu escrever sobre ela.
No final, o senhor me agradeceu “tu me deu uma baita força, correr sozinho é muito difícil”. Eu nem tinha parado para pensar neste aspecto, mas agora vejo que foi uma troca de favores. Não fosse por esse momento, eu não estaria aqui voltando a escrever sobre corrida de tão bom humor quanto estou.
Chegando na rua Baltazar Brum, nos despedimos, eu retornei para a casa e o amigo que fiz em pouco mais de quinze minutos seguiu sua atividade rumo ao Centro. Pedi que, se fosse do interesse dele, seguisse nosso perfil do instagram para acompanhar a crônica. Com isso acontecendo ou não, espero que vez ou outra voltemos a nos encontrar na pista da avenida.
