Guerra, Economia e Política no Mundo Atual foram tema de palestra do projeto COMEX TALK

Nesta terça-feira (28/04), o Curso de Comércio Exterior da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) realizou mais uma edição do projeto COMEX TALK, tendo como tema a conferência “A Era da Instabilidade: Guerra, Economia e Política no Mundo Atual”, ministrada por José Renato Ferraz da Silveira, Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O encontro foi aberto pelo Professor Daniel Lena Marchiori Neto, coordenador do projeto e do Curso de Comércio Exterior da UFPel, e mediado pelo Professor Luciano Vaz Ferreira. Transmitido ao vivo no Canal do CCSO no YouTube, o evento reuniu estudantes, profissionais e interessados em Relações Internacionais e Comércio Exterior, contando com o suporte logístico do servidor Sidney Daniel Batista, Coordenador da Câmara de Ensino e Extensão do CCSO/UFPel.

O palestrante é Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM desde 2009, com Doutorado e Mestrado em Ciências Sociais (Política) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Bacharelado em Relações Internacionais também pela PUC-SP, Licenciatura em História pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) e Especialização em Ciências Humanas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Lidera o Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP) e o Grupo de Estudos Oswaldo Aranha (GEOA), além de coordenar o NEPRI-UFSM e o PARALELO 33. É editor-chefe da Revista InterAção — Revista de Relações Internacionais da UFSM (Qualis A-3) e editor associado da Scientific Journal Index. Suas análises têm sido veiculadas em meios como O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, RTP Portugal e o Diário de Santa Maria, além de sua atuação como comentarista no programa Redação Aberta, da Rádio Universidade 800 AM.

José Renato iniciou sua exposição assinalando que o mundo contabiliza atualmente mais de 120 conflitos armados ativos, cifra que supera amplamente os índices registrados nas duas décadas anteriores e que, por si só, denota uma inflexão histórica no padrão de violência organizada entre e dentro dos Estados. Esse cenário bélico se entrelaça, segundo Silveira, com um conjunto de crises econômicas agudas que reúnem, em diferentes proporções, hiperinflação, colapso cambial, endividamento externo crônico e deterioração institucional. Venezuela, Argentina e Líbano foram mobilizados como casos paradigmáticos dessa combinação perversa, aos quais se somam, em diferentes gradações, Zimbábue, Sri Lanka, Sudão e Síria.

No plano político, o professor recorreu ao Democracy Index 2024, publicado pela Economist Intelligence Unit em fevereiro de 2025, para fundamentar o diagnóstico de um desgaste estrutural da democracia liberal representativa. A nota média global caiu para 5,17, o patamar mais baixo desde o início da série histórica em 2006. Dentro dessa taxonomia, Brasil e Estados Unidos figuram entre as chamadas “democracias falhas”, categoria marcada pela hiperfragmentação partidária, pela fragilidade da confiança nas instituições, pelo personalismo político arraigado e por uma polarização que, no caso brasileiro, culminou nos episódios de 8 de janeiro de 2023, e que guarda paralelos estruturais com os eventos de 6 de janeiro de 2021 em Washington.

Ao examinar os efeitos econômicos dos conflitos em curso, Silveira detalhou como a guerra na Ucrânia desarticulou cadeias produtivas globais ao comprometer o fornecimento de trigo, milho, óleo de girassol e fertilizantes, com desdobramentos sobre os preços de alimentos em escala planetária. O Brasil, na condição de grande importador de fertilizantes russos, não escapa a essa lógica de contágio. Para dimensionar a magnitude dos danos, o palestrante mobilizou estimativas que indicam redução média de 2,5% no crescimento econômico durante períodos de guerra, elevação de 15% na inflação nos primeiros anos de conflito e contração de até 50% na produção industrial em zonas de combate, além de aumento de 30% nos gastos públicos destinados à defesa e à reconstrução.

No encerramento, Silveira voltou-se para a inserção do Brasil numa ordem internacional crescentemente fraturada pela rivalidade sino-americana. O país, disse ele, navega em águas turbulentas: China e Estados Unidos constituem polos indispensáveis de sua equação comercial e diplomática, e a oscilação entre eles implica custos políticos e econômicos de difícil mensuração. Nesse contexto, destacou como exemplo de pragmatismo bem calibrado a capacidade brasileira de redirecionar suas exportações de soja para o mercado chinês durante o acirramento das disputas tarifárias entre Washington e Pequim. Silveira concluiu defendendo o fortalecimento do Mercosul e dos fóruns regionais como condição necessária, ainda que insuficiente, para que países de porte médio consigam preservar alguma margem de autonomia num sistema internacional em acelerada reconfiguração.

Ao final, o debate foi aberto ao público, com questões que aprofundaram a discussão sobre os dilemas da inserção internacional brasileira e os impactos domésticos da instabilidade geopolítica global. A gravação completa da palestra está disponível no Canal do CCSO no YouTube.