Por João Miguel Rico Donini/Superávit Caseiro
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, os eleitores brasileiros se deparam com duas visões distintas para a economia do país. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a atuação do Estado como indutor do desenvolvimento e a proteção do poder de compra da população, o senador Flávio Bolsonaro (PL) aposta na redução da máquina pública, na diminuição de impostos e na ampliação do espaço para a iniciativa privada como caminhos para estimular investimentos e impulsionar os negócios.
A convergência entre as candidaturas aparece na discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. O programa de Lula defende a adoção de uma jornada semanal de 40 horas, sem redução salarial, e o fim do modelo de seis dias de trabalho para um de descanso. A proposta já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados, mas ainda dependia da tramitação no Senado. O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não apresenta compromisso equivalente com o fim da escala 6×1, mesmo com o senador tendo votado a favor, concentrando suas propostas trabalhistas na redução dos custos de contratação e na flexibilização das relações de trabalho.
Para além dessa pauta, as estratégias para o mercado de trabalho e os salários voltam a se distanciar. Lula defende a continuidade da política de valorização do salário mínimo, com reajustes acima da inflação, além da ampliação do acesso ao crédito e de políticas públicas de qualificação profissional. Já Flávio Bolsonaro propõe reduzir gradualmente o custo do trabalho, especialmente para estimular a contratação de jovens em busca do primeiro emprego e de trabalhadores com mais de 50 anos. Sua plataforma também prevê maior espaço para a negociação entre empregadores e empregados, com prioridade para os acordos negociados em relação à legislação em determinadas situações.
No campo fiscal, o programa de Lula prevê a manutenção do atual arcabouço fiscal, com controle do crescimento das despesas, melhoria da eficiência do gasto público, combate à sonegação e medidas de justiça tributária. A proposta busca conciliar o equilíbrio das contas com a manutenção das políticas sociais e dos investimentos públicos. Em contraposição, Flávio Bolsonaro defende uma revisão das regras fiscais, a redução de despesas administrativas, a profissionalização da gestão pública e o corte de pelo menos dez ministérios, além da diminuição de cargos comissionados. A candidatura também estabelece como objetivo manter a inflação no centro da meta e reduzir a dívida pública.
A divergência se repete nas diretrizes para investimentos e impostos. A candidatura petista prevê o fortalecimento da Nova Indústria Brasil, com estímulos à inovação, à inteligência artificial, à produção industrial e ao desenvolvimento de tecnologias estratégicas. O programa também propõe dar continuidade ao Novo PAC, articulando recursos públicos, financiamentos de bancos públicos, concessões e investimentos privados em infraestrutura. A transição energética e o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono aparecem como oportunidades para ampliar a competitividade brasileira.
Por sua vez, Flávio Bolsonaro estabelece a meta de alcançar crescimento econômico sustentado de 4% ao ano ao longo da próxima década, com ênfase no investimento privado, na segurança jurídica e na competitividade da indústria, do agronegócio e dos serviços. O plano prevê R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura ao longo de quatro anos, incluindo rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias, além de defender desestatizações e maior participação do capital privado. A candidatura também aposta na abertura comercial, no desenvolvimento de minerais estratégicos e na expansão do mercado de carbono como instrumentos para atrair recursos e ampliar a inserção internacional do país.

Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno das eleições presidenciais 2026
Na área tributária, Lula defende a consolidação da reforma dos impostos sobre o consumo, que prevê a simplificação do sistema, a redução da cumulatividade e mecanismos de devolução de tributos para famílias de baixa renda. O programa também destaca a tributação mais progressiva, com maior contribuição dos mais ricos, e a redução da carga sobre os segmentos de menor renda. Já Flávio Bolsonaro propõe rever as alíquotas do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), reduzir a tributação sobre o consumo e a produção e ampliar a desoneração de investimentos e exportações. A candidatura argumenta que a redução dos impostos e a simplificação das regras podem melhorar a competitividade das empresas e estimular a atividade econômica.
As três principais diferenças entre as propostas econômicas
- O papel do Estado na economia: Lula aposta na coordenação estatal, no investimento público, no crédito direcionado e em políticas industriais para estimular o crescimento. Flávio Bolsonaro prioriza a iniciativa privada, as desestatizações, a abertura comercial e a redução da estrutura administrativa do governo.
- A estratégia para o equilíbrio fiscal: o programa petista busca conciliar o controle das despesas com a manutenção dos investimentos e das políticas sociais, recorrendo também à ampliação das receitas e à revisão de distorções tributárias. Flávio propõe cortes administrativos mais explícitos, redução de ministérios e revisão das regras fiscais, com o objetivo de conter despesas e diminuir o peso do Estado.
- A relação entre crescimento, trabalho e distribuição de renda: Lula coloca a valorização do salário mínimo, a proteção social e o fortalecimento da indústria entre os instrumentos de desenvolvimento. Flávio prioriza a redução dos custos de contratação, a flexibilização das relações trabalhistas e o estímulo ao investimento privado como meios de gerar empregos, elevar a produtividade e acelerar o crescimento.
O plano de governo de cada candidato pode ser acessado no site do TSE.
Candidato Flávio Bolsonaro: https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026/flavio-bolsonaro