Por Milena Szalyga Cordeiro/Superávit Caseiro
“Uma economia que diz que precisa primeiro estabilizar, depois crescer, depois distribuir, é uma falácia, e tem sido uma falácia. Nem estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui. E esta é a história da economia brasileira, desde a pós-guerra.” Quem disse isso foi a professora e economista Maria da Conceição Tavares (1930-2024), em uma entrevista concedida ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Considerada uma das maiores intelectuais do país, Maria transformava a sala de aula em um espaço de transformação e acreditava que a educação era um ato de cidadania e resistência.
Natural de Aveiro, uma pequena cidade localizada em Portugal, Maria nasceu em 24 de abril de 1930. Viveu sua infância e juventude no país e formou-se em Matemática, em 1953, pela Universidade de Lisboa, cidade onde cresceu com os pais. Em fevereiro do ano seguinte, sentindo-se sufocada pelo regime fascista que vigorava na época, veio para o Brasil, onde se naturalizou em 1957.
Filha de pai anarquista e mãe católica, Maria cresceu em uma família que recebia refugiados da Guerra Civil Espanhola. Na época, Portugal vivia sob o regime de António de Oliveira Salazar, ditador que impôs ao país um sistema político autoritário e repressivo, que perdurou até 1974, quando ocorreu a Revolução dos Cravos.
Em entrevista concedida ao programa “Papo UFRJ”, Maria comenta, rindo, sobre sua vinda ao Brasil, ela relembrou: “aí é muito divertido, porque eu tinha vindo em busca de uma democracia, cheguei em fevereiro e em agosto o Getúlio se suicidou e disse ‘puxa, mas olha onde eu vim amarrar meu cavalo, vai ter outra ditadura’”. O que Maria não sabia era que seriam poucos os anos em que poderia aproveitar a democracia brasileira, já que, em 1964, o então presidente João Goulart foi deposto pelo golpe militar que deu início a uma ditadura que perduraria por mais de 20 anos.
Ao chegar no Brasil, Maria instalou-se no Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar como estatística para o Instituto de Imigração e Colonização (Inic), que se transformaria no Instituto Nacional Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 1955. Entre 1958 e 1960, Conceição trabalhou como analista matemática no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), atual Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Foi nesse período que a economista participou da elaboração do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek, ao mesmo tempo em que se formava em Economia pela Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Além disso, fez pós-graduação em Desenvolvimento Econômico na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), onde atuou como economista até 1974. Em 1975, concluiu seu doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia, com a tese “Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil”, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Na área acadêmica, atuou como professora de várias gerações de economistas brasileiros no atual Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ) e no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no estado de São Paulo, onde foi uma das fundadoras do curso de pós-graduação em Ciências Econômicas. Atualmente, suas aulas estão disponíveis on-line, em pequenos cortes de gravações realizadas na época.

Maria Conceição foi uma das principais críticas da política econômica do regime militar
Maria também publicou diversos livros e artigos sobre a economia brasileira e suas transformações, reconhecidos até hoje como referências importantes para pesquisadores do tema. Um de seus ensaios mais conhecidos é “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações”, publicado em 1972. A obra tornou-se um clássico da literatura econômica latino-americana e um marco nos estudos sobre o processo de industrialização do Brasil. No estudo, Maria argumenta que as formas de acumulação de capital no Brasil apresentavam desequilíbrios e que o problema estava, em grande medida, na forma de inserção do país no capitalismo: dinâmica, mas excludente.
A economista dedicou parte de suas pesquisas ao tema e desenvolveu novas hipóteses em textos que se tornaram referências no ensino de economia, como “Acumulação de Capital e Industrialização do Brasil”, de 1975, e “Ciclo e Crise: o movimento recente da economia brasileira”, de 1978.
Mesmo diante de suas contribuições, Conceição, assim como outros estudiosos, enfrentou as consequências da ditadura brasileira. Em razão de suas críticas à política econômica do regime militar e de seus discursos em defesa da democracia, Maria foi presa em 1974. Mas foi libertada alguns dias depois, após pressão de integrantes do próprio governo, entre eles o então ministro Mário Henrique Simonsen.
Durante o processo de redemocratização, Conceição filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), em 1980, onde atuou até o final da década. Posteriormente, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Maria foi eleita deputada federal em 1994. No Parlamento, durante a legislatura de 1995 a 1999, destacou-se por suas críticas à política econômica implantada pelo governo. Também atuou como membro da Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados e participou da elaboração e discussão de projetos relacionados às pautas de seu partido. Ao terminar o mandato, decidiu não retornar ao Parlamento brasileiro.
Sendo na academia ou no Parlamento, Maria Conceição Tavares deixou um legado na economia brasileira. A economista contribuiu com seu pensamento crítico e com sua dedicação à construção de um Brasil mais justo. Hoje, mesmo após seu falecimento, no dia 8 de junho de 2024, Maria ainda é considerada uma das mais brilhantes economistas brasileiras.
Fontes:
https://g1.globo.com/economia/noticia/2024/06/08/quem-foi-a-economista-e-escritora-maria-da-conceicao-tavares.ghtml
https://www.politize.com.br/maria-da-conceicao-tavares/
http://www.interpretesdobrasil.org/sitePage/231.av
https://www.youtube.com/watch?v=sGkHR-EueEU&t=146s