Como o cinema representa o desejo de morrer? No próximo encontro do LYSIS, conversaremos sobre Gosto de Cereja (Ta’m e guilass), de Abbas Kiarostami, e Saute ma ville (Exploda Minha Cidade), primeiro curta-metragem de Chantal Akerman.
Em Gosto de Cereja, Abbas Kiarostami acompanha Badii pelas estradas poeirentas das colinas nos arredores de Teerã. Ao volante, ele conversa com diferentes pessoas e lhes faz um pedido difícil: que voltem ao lugar onde pretende passar a noite e verifiquem o que aconteceu; se ele estiver morto, que o enterrem. Cada encontro abre uma conversa sobre a morte, a responsabilidade e aquilo que pode manter alguém ligado à vida. Mas o filme não transforma essas conversas numa explicação definitiva para a decisão de Badii. A câmera permanece muitas vezes dentro do carro, próxima aos rostos e às pausas, enquanto a paisagem passa pela janela. O percurso se prolonga, e o espectador também fica diante de uma pergunta que o filme não resolve por ele: o que significa ouvir o desejo de alguém sem reduzi-lo a uma resposta pronta?
Em Saute ma ville, Chantal Akerman concentra a ação no espaço estreito de uma cozinha. Uma jovem entra, fecha-se ali e começa a realizar tarefas domésticas (limpar, arrumar, cuidar de si) de maneira cada vez mais imprevisível. O que poderia compor uma rotina reconhecível se converte numa sequência de gestos desajustados, acompanhados por uma energia ao mesmo tempo cômica e inquietante. Akerman transforma o cotidiano doméstico em matéria de cinema e faz daquele espaço familiar um lugar de confinamento, transgressão e ruptura. O filme não nos entrega uma biografia que explique inteiramente a personagem; faz com que acompanhemos seu corpo, seus gestos e a transformação da cozinha até um desfecho radical.
Os dois filmes não tratam a morte do mesmo modo, nem a aproximam do espectador pela mesma forma. Kiarostami constrói um percurso feito de encontros e conversas; Akerman concentra a experiência num espaço fechado e numa sucessão de gestos. Em ambos, porém, a forma cinematográfica importa tanto quanto o tema: o tempo das cenas, os silêncios, os movimentos e os limites do espaço impedem que os personagens se tornem apenas exemplos de uma ideia. A conversa do LYSIS partirá dessas escolhas para pensar como o cinema representa o desejo de morrer… e o que muda quando, em vez de procurar uma explicação total, prestamos atenção à maneira como cada filme nos ensina a olhar.
A curadoria dos filmes e a condução da conversa ficarão a cargo de Débora de Camargo Cavalheiro, realizadora e roteirista audiovisual, educadora em cinema documentário e mestre em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP.
Data: 28 de outubro de 2026
Horário: 19h
Modalidade: encontro remoto
Local: Sala de Aula Virtual do LYSIS
Acesso: http://webconf.ufpel.edu.br/b/ale-cf2-si3-mcw
Assista aos filmes
Gosto de Cereja — https://www.youtube.com/watch?v=QD9hU53tvMk
Saute ma ville — https://drive.google.com/drive/folders/1-ooQoObjFOhb0sdQCpzs8XAz33c0K-5l?usp=sharing

