
(Sátira do Suicídio Romântico. ALENZA, Leonardo. Sátira del suicidio romántico. Óleo sobre tela, c. 1839. Museu do Romanticismo, Madri.)
A obra “Sátira do Suicídio Romântico” (1839), de Leonardo Alenza, é uma poderosa crítica visual ao ideário romântico que permeava a cultura europeia do século XIX, sobretudo a partir da exaltação do sofrimento individual, da morte voluntária e do heroísmo trágico. Pintada com um estilo expressivo, próximo ao esboço e com cores sóbrias que evocam a decadência e a desesperança, essa pintura se ergue como um libelo contra a teatralização da dor e do suicídio enquanto gesto estético. A composição se organiza em torno de um personagem central, um jovem homem pálido e de feições magras, com expressão vaga e melancólica, que se encontra no topo de um rochedo, prestes a lançar-se ao abismo. Ele segura em uma das mãos um punhal, símbolo clássico do suicídio trágico, mas a cena tem algo de grotesco, quase caricatural. O homem veste uma camisa branca aberta, desleixada, e calças amarrotadas, o que pode indicar tanto uma miséria material quanto um desinteresse deliberado pelas convenções sociais, figura típica do herói romântico em seu declínio.
A seus pés jazem emblemas da glória falida e dos ideais românticos destruídos: uma coroa de louros murcha (a glória artística ou heroica frustrada), uma cruz (o peso da religião ou da culpa espiritual), uma caveira (a inevitabilidade da morte e o memento mori), uma espada quebrada (a derrota militar ou existencial), e livros espalhados (o saber ou a poesia que não salvam). Esses objetos formam uma natureza-morta simbólica que ironiza os pilares do romantismo: arte, fé, heroísmo, e filosofia, todos esvaziados de sentido diante do gesto do suicida. Ao fundo, outros corpos indicam que o ato do protagonista não é único, trata-se quase de uma cena coletiva, uma epidemia da alma romântica. Um homem enforcado balança de uma árvore, outro jaz com o crânio partido no solo, enquanto uma paisagem cinzenta e desolada envolve todos. Essa repetição do gesto trágico revela a crítica de Alenza: o suicídio, longe de ser uma expressão única e autêntica da dor individual, tornou-se uma moda, um clichê romântico, um ritual estetizado e vazio. A pintura é, portanto, uma sátira feroz, mas profundamente reflexiva. Alenza não zomba do sofrimento humano, mas da sua instrumentalização estética. E este é um ponto importante. O romantismo, ao elevar o sujeito sofredor à condição de herói absoluto, termina por legitimar o ato de destruição como forma de arte e protesto. Para Alenza, essa elevação resulta numa estetização da morte que, em última instância, corrompe a própria dignidade do sofrimento.
Em termos filosóficos, a obra pode ser interpretada como uma meditação irônica sobre o niilismo romântico. O niilismo, enquanto negação do valor ou da finalidade da vida, encontra terreno fértil no romantismo ao dissolver os vínculos entre o sujeito e o mundo: Deus está ausente, a sociedade é corrupta, o amor é impossível, e a arte é insuficiente. O personagem de Alenza representa esse desamparo existencial radical, e, no entanto, é justamente essa forma de abandono que se converte em pose, em performance.
Aqui, a sátira filosófica se aproxima da crítica kierkegaardiana da desesperança. Para Søren Kierkegaard, o desespero pode ser silencioso ou histriônico, mas em ambos os casos revela um eu em conflito com sua própria possibilidade de ser. O suicídio romântico, nesse quadro, não é apenas um ato de desespero autêntico, mas um ato encenado, um modo de gritar a própria impotência ao mundo, ao mesmo tempo em que se recusa a confrontar o absurdo com responsabilidade. A repetição do gesto, o acúmulo de cadáveres trágicos no quadro de Alenza, denuncia essa fuga da autenticidade: a morte deixa de ser drama existencial para tornar-se espetáculo.
Outro aspecto filosófico relevante é a crítica à estética romântica como substituto da ética. Nietzsche já observara (ou do ponto de vista da obra, virá a observar) que, quando a arte se torna refúgio absoluto, ela também pode se tornar um vício: o artista trágico, na ausência de sentido maior, passa a buscar na dor o único valor possível. Alenza, em sua pintura, parece intuir esse risco — e mostra como, na ausência de transcendência real, o sujeito romântico termina por idolatrar a própria queda. “Sátira do Suicídio Romântico” é, enfim, um comentário agudo sobre a modernidade nascente. É uma denúncia da transformação do sofrimento em mercadoria cultural, do suicídio em gesto poético, da dor em performance social. Alenza oferece ao espectador uma cena grotesca, mas profundamente humana, na qual a beleza da morte trágica cede lugar ao ridículo de um gesto repetido, teatral e vazio. É uma meditação amarga sobre a condição do homem moderno: incapaz de crer, incapaz de agir, e, por fim, incapaz até mesmo de sofrer com dignidade.
Prof. (e aluno) Alexandre H. Reis
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