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“Paete, non dolet”: A incrível história de Arria e Paetus

(Benjamin West, Paetus e Arria, 1766. Óleo sobre tela, Yale Center for British Art.)

Escrevi sobre o caso retratado no quadro de Benjamin West em meu livro História do Suicídio. Após um longo percurso por diversas tradições antigas, escolhi encerrar o primeiro volume com a história de Arria e Paetus — tal como nos foi transmitida por Plínio, o Jovem, nossa fonte mais antiga. Essa cena é colocada como ponto de fechamento, depois de uma longa reflexão sobre como, em certo momento da história do Ocidente, a morte voluntária deixou de ser vista como um gesto de honra ou liberdade, passando a ser condenada como forma de homicídio.
Abaixo, as páginas finais do Livro 1 dessa História do Suicídio:

“Em uma carta destinada a seu amigo Nepos —, Plínio, o Jovem, imortalizou a história que ouviu de Fânia, filha do político Trásea, um herói estoico que fez oposição a Nero. Fânia viveu muitos anos e morreu no ano 103, quando Trajano era o Imperador. A história que deixou para Plínio foi sobre a sua avó, Arria, cujo marido, Aulus Caecina Paetus, havia sido acusado de participar de uma rebelião contra o imperador Cláudio, liderada por Lucius Scriboniau. Com a acusação de traição em suas mãos, Cláudio ordenou Caecina Paetus que abrisse suas próprias veias e se matasse. Mas a história tem nuances importantes e dramáticas. Conta Plínio, que Paetus se recuperava de uma doença que quase o levou à morte, mas que também se abatera sobre seu filho, que não sobreviveu. Arria escondeu do marido a morte do filho, que apesar de ter sobrevivido à enfermidade, estava condenado pelo imperador a abrir as veias com a adaga. Quando Paetus entrava no quarto do filho, ela tomava o cuidado de não o deixar se aproximar do leito vazio. Havia preparado todos os ritos fúnebres… cuidadosamente em silêncio. Dizia, segundo relata Plínio: “Ele descansou bem e fez a refeição com bastante apetite.” (1) E Paetus, que se recuperava da doença, saía do quarto pensando que o filho estava vivo. Quando já não mais suportava as dores desta perda, ainda mais tendo diante de si o marido prestes a cumprir a ordem do Imperador, Arria retirava-se escondida para um canto e caia ao chão desfazendo-se em lágrimas, deixando sua dor afluir.

Quando Lucius Scriboniau foi morto, depois da conspiração contra Cláudio, Paetus foi levado a um navio, para que cumprisse a ordem e se matasse. Arria implorou ao capitão da embarcação que permitisse a sua presença ao lado do marido, mas o pedido foi negado. Quando visitou a viúva de Scriboniau, Arria deixou clara sua intenção de morrer ao lado do esposo. Não é incomum encontrar relatos tanto entre os gregos quanto entre os romanos de viúvas que preferiram seguir seus companheiros aos campos de Hades e Perséfone. Arria tinha ainda outra filha, que também se chamava Arria. Seu genro, Thrasea, tentou persuadi-la com o seguinte argumento: ‘Você aconselharia sua filha a morrer comigo se minha vida devesse ser tirada de mim?’, ‘Certamente eu faria”, respondeu ela, “se tivesse vivido tanto tempo e em tanta harmonia com você quanto eu com meu Paetus.’ (2) Quando enfim conseguiu uma autorização para visitar e se despedir de seu marido, no dia em que este deveria se matar e cumprir a ordem imperial, Arria encontrou um Paetus abatido, pálido, com o punhal em mãos, mas sem coragem ou convicção de dar cumprimento à sua sentença. Arria tomou das mãos de Paetus a adaga e, abrindo os próprios punhos, devolveu-a dizendo-lhe: Paete, non dolet (3).

Já não havia a mesma dor, nem lágrimas, nem o luto de ser mãe,

quando já não era inteiramente… mãe. Agora morta, já não sofre, teriam se apartado seu corpo e alma com a adaga? Teria a desagregação de seus átomos trazido a paz eterna? Teriam os deuses a recebido em seu colo divino? Há agora mais vida em sua morte, tão doída para nós, mesmo dois mil anos depois, quando contemplamos sua imagem… tão longe e, no entanto, tão intimamente. Cada relato como esse coloca nossa tranquilidade aos avessos e reafirma nossa obrigação de compreender antes de julgar. O corpo agora, sem vida, à espera do retorno à terra sempre sagrada… A alma, agora, terá se juntado ao seu corpo morto? A lembrança de Fânia é agora nossa lembrança… e diante de nossa incerteza para com o destino da alma e da morte, evoquemos uma vez mais os mistérios antigos…”

  1. I LETTERS OF PLINY – By Gaius Plinius Caecilius Secundus Translated by William Melmoth Carta XXXIV, To Nepos. https://www.gutenberg.org/files/2811/ 2811-h/2811-h.htm#link2H_4_0003
  2. Plínio, Idem.
  3. “Paetus, não dói!” ibid

In. REIS, Alexandre H. História do Suicídio. Livro 1 – Variações Antigas e o Domínio do Cristianismo. Belo Horizonte, Páginas Editora, 2020. O trecho citado encontra-se entre as páginas 353 e 354.

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