
RAPHAEL (Raffaello Sanzio). La Scuola di Atene [A Escola de Atenas] (detalhe). 1509–1511. Afresco. 500 × 770 cm. Stanza della Segnatura, Vatican Museums.
Em 2026, terei a oportunidade de ministrar, na Universidade Federal de Pelotas, a disciplina “Preleções sobre o suicídio”, oferecida no Banco Universal e aberta a estudantes de diferentes cursos. Trata-se, até onde sei, da primeira vez que uma disciplina inteiramente dedicada à reflexão filosófica, histórica e cultural sobre o suicídio é oferecida na universidade. A criação de um espaço acadêmico para pensar esse tema não é a manifestação de uma curiosidade intelectual, mas uma verdadeira necessidade formativa. O suicídio é um dos grandes problemas humanos e, ainda assim, permanece frequentemente cercado por silêncio, simplificações e preconceitos. Pensá-lo exige reflexão, debate público e formação intelectual.
Nesse processo, o Lysis tem desempenho um papel importante. O projeto procura contribuir, ainda que modestamente, para a construção de uma cultura capaz de tratar o suicídio como um tema que deve, por obrigação moral, ser submetido ao exercício do pensamento e ao debate público. Trata-se de reconhecê-lo como uma questão que exige rigor intelectual, sensibilidade humana e responsabilidade ética. Pensar o suicídio exige também conhecer a sua história — não a história das pessoas de carne e osso que morreram por suas próprias mãos, e que merecem, antes de tudo, respeito e silêncio, mas a história das ideias, dos juízos morais e das interpretações culturais que diferentes sociedades elaboraram para compreender esse tipo de morte.
A disciplina “Preleções sobre o suicídio” constitui, por si mesma, um passo importante nesse caminho. No exercício semanal da sala de aula, ela cria um espaço para o diálogo, para o debate e para o estudo sistemático do tema. O curso foi concebido dentro de um programa que procura conduzir os estudantes à compreensão de duas teses fundamentais. A primeira delas é que a ideia de suicídio não é um dado natural, mas uma construção histórica que emerge em determinados contextos culturais e morais. Isso exige distinguir cuidadosamente duas coisas: por um lado, o fenômeno da morte voluntária (que acompanha a história humana desde a Antiguidade) e, por outro, a ideia de suicídio, que surge quando essa morte passa a ser interpretada a partir de certos juízos morais específicos. A segunda tese examinada na disciplina diz respeito à nossa própria forma contemporânea de compreender o suicídio. Aquilo que hoje frequentemente interpretamos como sintoma de doença mental ou de transtorno psíquico possui uma história intelectual precisa. Em grande medida, essa interpretação nasce no interior da psiquiatria do século XIX, profundamente marcada por uma moral higienista que buscava normalizar comportamentos e definir patologias sociais.
O suicídio costuma aparecer em nossos discursos públicos sob a forma de números, diagnósticos e protocolos. Fala-se dele como um problema de saúde pública, como um fenômeno clínico ou como um dado estatístico a ser administrado. Nada disso é irrelevante. Pelo contrário: essas abordagens são necessárias. Mas elas permanecem insuficientes. O suicídio não é apenas um fato médico ou epidemiológico. É também um problema filosófico, histórico e moral. Ele atravessa as grandes tradições culturais do Ocidente e reaparece, de modos distintos, na literatura, na religião, no direito e na medicina. Mais profundamente ainda, ele toca um ponto sensível da própria experiência humana: a relação entre sofrimento, liberdade, sentido e limite da existência.
A disciplina que agora chega à UFPel nasce de uma experiência anterior. Entre 2018 e 2021, tive a oportunidade de ministrá-la na Universidade Federal do Vale do São Francisco, onde criei, junto a um grupo de estudantes, a Thanátous – Liga Acadêmica para o Estudo da Morte e do Suicídio, que funcionou também nesse mesmo período. Foram anos de diálogo intenso com estudantes de diferentes áreas, em que procuramos examinar, com cuidado e rigor, as múltiplas interpretações que a morte voluntária recebeu ao longo da história. As aulas ali desenvolvidas não permaneceram apenas no espaço da sala de aula. O material dessas preleções foi posteriormente organizado e submetido à Editora da Universidade Federal do ABC. Após um longo processo de avaliação e discussão com pareceristas da universidade, um diálogo crítico que se estendeu por vários anos, esse trabalho assume agora a forma de um livro de ensaios intitulado A invenção do suicídio — genealogia dos nossos preconceitos morais e crítica da psiquiatria, que ficará pronto até o início de abril, com lançamento previsto na sequência. O livro reúne reflexões que nasceram diretamente da experiência pedagógica dessas aulas. Em certo sentido, ele é a continuação escrita de um curso universitário: uma tentativa de transformar discussões realizadas em sala de aula em ensaios capazes de dialogar com um público mais amplo.
A disciplina que ofereço procura justamente abrir esse campo de reflexão. Ao longo das aulas, examinamos autores fundamentais da tradição intelectual ocidental, de Platão e Aristóteles e os médicos gregos até Santo Agostinho, Michel de Montaigne, Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche e Viktor Frankl, buscando compreender como cada época pensou a relação entre vida, sofrimento, liberdade e morte. Essa perspectiva é particularmente importante para estudantes das áreas da saúde. Médicos, psicólogos, enfermeiros e outros profissionais inevitavelmente encontrarão, em sua prática, pessoas atravessadas por sofrimentos profundos e pensamentos de morte. Para lidar com essas situações, não basta apenas dominar protocolos clínicos ou diagnósticos psiquiátricos. É necessário desenvolver uma compreensão mais ampla do fenômeno, capaz de reconhecer suas dimensões culturais, morais e existenciais.
Mas a disciplina também possui um valor formativo essencial para estudantes das licenciaturas e das ciências humanas. Professores, cada vez mais, encontram em suas escolas jovens que enfrentam crises profundas de sentido. No entanto, raramente recebem formação que lhes permita abordar essas questões com segurança, sensibilidade e responsabilidade. Refletir filosoficamente sobre o suicídio não significa promovê-lo, justificá-lo ou banalizá-lo. Significa, ao contrário, criar condições para que possamos escutar com mais atenção o sofrimento humano, compreender os limites de nossas interpretações e examinar criticamente os preconceitos que herdamos de nossa cultura. Se existe algo que aprendi ao longo dos anos de estudo sobre esse tema, é que o suicídio não pertence a uma única disciplina. Ele exige um esforço coletivo. Psiquiatras, filósofos, sociólogos, psicólogos, historiadores, educadores e profissionais de saúde precisam trabalhar juntos. Nenhuma área do conhecimento, isoladamente, é capaz de compreender plenamente esse fenômeno. Por isso considero tão importante que uma disciplina como esta exista na universidade.
Ela não pretende oferecer respostas definitivas, nem oferecer técnicas de terapia e de escuta, o que foge à minha formação, por certo, mas permite aprender com visões diversas, talvez até esquecidas na tradição e abrir novas perguntas. Perguntas que talvez a nossa época não esteja fazendo, e que permitem mudar, revirar as nossas perspectivas atuais. Certamente, a disciplina não pretende contribuir para formar especialistas no tema, mas formar estudantes capazes de pensar criticamente, ouvir com atenção e reconhecer a complexidade do sofrimento humano e, sobretudo, capazes de aprender que existem visões diversas, que podem ser compreendidas, discutidas e, a juízo da crítica, aceitas ou refutadas. Em última análise, estudar o suicídio é também estudar algo mais amplo: as maneiras pelas quais as sociedades compreendem a vida, a liberdade e o sentido da existência. Se essa disciplina puder contribuir, ainda que modestamente, para ampliar nossa capacidade de reflexão e de cuidado, ampliar nossos saberes sobre esse assunto tão difícil, então ela terá cumprido o seu papel.
Alexandre H. Reis
