
Não preparei propriamente um artigo para esta semana, mas reuni algumas anotações e sugestões de leitura que considero essenciais para uma formação humanística mais robusta, sobretudo quando lidamos com o problema da morte voluntária, questão central ao nosso grupo de pesquisa Lysis.
Há livros que considero simplesmente incontornáveis: obras essenciais para quem busca compreender a gravidade e a complexidade do suicídio. Embora eu pudesse estender essa lista, correria o risco de perder o leitor, afinal, como advertia Schopenhauer, quando compramos um livro, ele não vem com o tempo para lê-lo. Por isso, opto por reunir aqui apenas cinco obras fundamentais, que me marcaram profundamente. Para quem está começando, essas leituras exigem tempo e dedicação, mas posso garantir que o esforço valerá a pena. Algumas dessas obras farão parte das leituras do nosso ciclo de estudos no Lysis.
Antes de apresentar as obras, contudo, considero essencial compartilhar algumas reflexões introdutórias sobre o tema, algumas anotações de meus cadernos, que podem conduzir à prática do pensamento.
A Decisão pela Própria Morte como Recusa do Silêncio. A decisão pela própria morte é, talvez, a mais íntima e radical das escolhas humanas e, simultaneamente, a mais refratária ao discurso coletivo. Envolve, geralmente, sofrimento, angústia e o desejo de libertação, e convoca uma verdade que as sociedades preferem manter oculta: a de que existe quem já não suporta mais viver. Quando essa pessoa pensa em morrer, por que ela nem sempre encontra espaço para falar? Será que a recusa a ouvi-la não reforça o impulso ao ato? Essas perguntas exigem meditação. Dificilmente reconhecemos, com urgência ética, o desejo de morte antes que ele se consuma como gesto.
Suicídio como Gesto Contra a Impossibilidade de Diálogo. Pela minha experiência, que deve ser sempre somada ou corrigida pelo leitor, o suicídio, quando irrompe, é simultaneamente um ato contra si mesmo e, ao mesmo tempo, um grito surdo contra a ausência de diálogo. Muitos que pensam em morrer não encontram espaço legítimo para falar sobre sua dor, dúvidas, vontade de desaparecer, nem alguém que os escute sem pressa de corrigir, sem medo de se comprometer, sem imediata patologização. E, privados dessa escuta cuidadosa, frequentemente não encontram mais nada.
A Importância do Tempo, do Espaço e da Linguagem. Decisões verdadeiramente amadurecidas e reversões possíveis de escolhas em curso exigem tempo, espaço e linguagem. Ninguém pode deliberar com lucidez diante de angústias profundas se não tiver com quem conversar abertamente. A verdadeira miséria dos suicidas não é apenas a dor, mas o silêncio que lhes é imposto. Silêncio entre paredes, pensamentos alimentados em segredo, angústia sem nome, até que reste apenas o ato, um gesto muitas vezes solitário, irremediável, impiedoso.
Silêncio como Construção Cultural e Patologia Social. Essa condenação ao silêncio não é natural: é política, cultural e histórica. É marca de uma sociedade que tolera o desejo de morte apenas como patologia ou ameaça. Mas, se queremos evitar o suicídio, se a vida é um valor a preservar, a luta não deve se dar contra quem pensa em morrer, e sim contra uma cultura que impede que esse pensamento seja antes parte do discurso. Pois o que não pode ser dito, cedo ou tarde, repito, acaba se encenando.
O Desejo de Morrer como Linguagem, Não como Patologia. Em outras palavras: o desejo de morrer precisa ser reconhecido como linguagem, não apenas como sintoma ou efeito. E, ao reconhecê-lo dessa forma, talvez possamos deslocá-lo para algo que o afaste do ato. Não é o silêncio que salva: é a palavra. E não há ética do cuidado sem espaços onde a morte possa ser nomeada, discutida, pensada, antes que precise ser encenada.
Escuta Difícil como Imperativo Ético. Se queremos compreender o suicídio com seriedade e, sobretudo, evitar que ele seja a única saída possível, precisamos sustentar essa escuta difícil. Devemos responsabilizar-nos por como nossas comunidades, instituições e culturas falam (ou calam) diante do desespero. Para isso, é fundamental começar por aqueles que, em diferentes momentos, ousaram pensar o suicídio sem reduzi-lo a escândalo, sem exorcizá-lo com pressa, sem anestesiá-lo com moralismo.
Cada uma das cinco obras indicadas abaixo não oferece respostas propriamente, nem janelas que se abrem e revelam alguma essência do problema, mas eu diria que oferecem frestas que nos possibilitam escutar o silêncio do outro e responder com humanidade ao nosso próprio silêncio diante do fenômeno. Desde que leiamos com o coração aberto, e não apenas como exercício acadêmico.
- O Mito de Sísifo, Albert Camus (1942)
Albert Camus nasceu em Mondovi, na Argélia, então parte do império colonial francês, em 7 de novembro de 1913. Filho de pai francês e mãe espanhola, Camus cresceu em um contexto de pobreza e lutas pessoais, o que mais tarde refletiria em suas ideias filosóficas. Sua obra está profundamente marcada pelo contexto histórico da Segunda Guerra Mundial, pela luta contra o totalitarismo e pela busca por um sentido para a vida em um mundo que parece, à primeira vista, desprovido de sentido. Camus ficou famoso por seu conceito de absurdo, que ele detalha em O Mito de Sísifo (1942). Para Camus, a vida é inerentemente sem sentido e o ser humano constantemente busca encontrar sentido em um universo que não oferece respostas. Ao invés de se entregar ao desespero ou ao suicídio, que seriam reações naturais ao confronto com o absurdo, Camus propõe uma revolta: a decisão de continuar vivendo, mesmo diante da total falta de significado.
Pouca gente sabe, mas Camus esteve no Brasil em 1949, quando fez uma série de conferências e palestras no país. Ele foi convidado para a Universidade de São Paulo (USP), onde proferiu algumas de suas principais ideias. A recepção de sua filosofia no Brasil foi significativa e influenciou muitos intelectuais brasileiros, principalmente aqueles envolvidos com as questões existenciais, políticas e sociais da época. Durante sua estadia, Camus se aprofundou nas tensões políticas e sociais do Brasil, que vivia sob o regime de Getúlio Vargas, e interagiu com pensadores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Sua crítica ao totalitarismo, seja de direita ou de esquerda, encontrou ressonância com os intelectuais brasileiros que viviam em um país marcado pela ditadura e pelas tensões da Guerra Fria.
Permitam-me mais algumas notas. Camus é amplamente conhecido por sua filosofia do absurdo. O absurdo, para ele, surge quando o ser humano percebe que a busca por sentido é uma busca inútil. Não há razão última para a vida, e o universo não oferece respostas satisfatórias. No entanto, ao invés de ceder ao suicídio ou à desesperança, Camus propõe uma resposta radicalmente positiva: a revolta. A revolta contra o absurdo não é um ato de revolução política, mas sim uma postura pessoal diante da vida. A verdadeira resposta ao absurdo é continuar vivendo, sem esperar que a vida tenha um sentido maior, mas criando sentido a partir de nossas próprias ações.
Outras Obras Importantes:
Além de O Mito de Sísifo, Camus escreveu outras obras fundamentais que exploram sua filosofia do absurdo e da revolta, como:
O Estrangeiro (1942): A história de Meursault, um homem aparentemente indiferente à vida e que se vê envolvido em um assassinato. A indiferença de Meursault frente à vida e à morte é a encarnação do absurdo camusiano.
A Peste (1947): Uma alegoria da resistência à opressão e do sentido da vida diante do sofrimento coletivo, a obra aborda como a humanidade lida com a peste (uma epidemia) que afeta uma cidade.
A Queda (1956): Uma reflexão sobre a culpa, a queda do homem e o sofrimento individual.
Embora influenciado pelo existencialismo, Camus se distanciou de figuras como Jean-Paul Sartre por discordar de alguns pontos centrais dessa filosofia. Enquanto Sartre acreditava que o ser humano, em sua liberdade radical, poderia criar significado para a vida, Camus via essa busca como fútil. Em sua famosa crítica, Camus afirmou: “O existencialismo, e especialmente a versão de Sartre, falha ao não reconhecer que, apesar da liberdade do homem, o absurdo está imerso em toda a condição humana.” Se fosse possível conter a crítica de Camus ao existencialismo em um única afirmação, eu diria simplesmente que, para ele, a a liberdade não é a chave para a criação de um sentido universal, pois a busca por sentido, por si mesma, já é absurda. A revolta, portanto, é aceitar essa condição absurda e viver sem ilusões.
Camus morreu tragicamente em um acidente de carro em 1960, aos 46 anos. Sua morte prematura impediu que ele continuasse a desenvolver suas ideias filosóficas, mas sua obra permanece uma das mais influentes do século XX, especialmente nas áreas da filosofia existencialista, da literatura e da política. Camus sempre se manteve distante de ideologias políticas fechadas, como o marxismo ou o fascismo, e sua filosofia reflete uma busca constante pela dignidade humana e pela resistência ao totalitarismo.
No Mito de Sísifo, Camus questiona a razão pela qual alguém deve continuar a viver em um mundo que parece não ter sentido. O ensaio é uma reflexão sobre o suicídio como uma resposta ao absurdo da vida. Camus começa com a constatação de que, diante do absurdo da existência, o suicídio parece uma solução lógica. Contudo, ele rejeita essa ideia, defendendo que a verdadeira revolta do ser humano é continuar vivendo, apesar de saber que a vida não tem um sentido predefinido. A escolha de viver ou morrer diante da falta de sentido da vida é a questão fundamental que qualquer filosofia deve responder.
Sísifo, condenado a empurrar uma pedra montanha acima apenas para vê-la rolar de volta ao fundo, simboliza a dignidade humana. A verdadeira revolta é aceitar o absurdo e continuar a viver apesar disso.
Para quem se questiona sobre o propósito da vida, especialmente em tempos de crise existencial, Camus oferece uma reflexão poderosa e libertadora. Sua obra é um chamado à resistência da vida, mesmo sem a promessa de um significado final. No Lysis, neste segundo semestre de 2025, ou no mais tardar, no primeiro de 2026, leremos cuidadosamente essa obra.
- Levantar a Mão sobre Si Mesmo: Discurso sobre a Morte Voluntária, Jean Améry (1976)
Jean Améry, um filósofo de origem judaica, é um dos pensadores mais provocadores e radicais do século XX, especialmente em sua análise sobre o suicídio e a morte voluntária. Sua obra Levantar a mão sobre si mesmo: Discurso sobre a morte voluntária (1976) se distingue por uma reflexão sem precedentes sobre a escolha da morte como uma afirmação de liberdade, uma resposta existencial ao sofrimento insuportável e uma crítica à visão moralista e patologizante do suicídio. A obra de Améry é uma das minhas leituas preferidas. Efetivamente, sua escrita é feita com sangue: é um testemunho de sua própria experiência de tortura e sofrimento nos campos de concentração nazistas, que moldaram seu entendimento radical sobre a dignidade humana e a liberdade individual.
Jean Améry nasceu Hans Chaim Mayer em Viena, em 1912, e teve sua vida devastada pela Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, ele se juntou à resistência antifascista belga, mas acabou capturado pelos nazistas e enviado para os campos de concentração de Auschwitz, Buchenwald e Bergen-Belsen. O sofrimento físico e psicológico vivido por Améry durante esse período de cativeiro teve um impacto profundo em sua filosofia posterior. A tortura, a perda de familiares e a desumanização nos campos de concentração foram experiências que transcenderam a biografia pessoal de Améry, transformando-se em temas centrais de sua obra filosófica.
Após a guerra, Hans Chaim Mayer adotou o pseudônimo “Jean Améry”, renunciando à sua identidade anterior como uma forma simbólica de reconstrução após o trauma. Seu pseudônimo foi, de certa forma, uma reinterpretação do “amor” (derivado da palavra “amare”), simbolizando sua tentativa de reconstruir sua relação com o mundo e com sua própria identidade após o horror vivido. Améry rejeitou as tentativas de “cura” pela psicanálise convencional, buscando uma reflexão filosófica mais profunda, e se tornou um dos principais pensadores que abordaram as consequências do Holocausto.
Em Hand an sich legen. Diskurs über den Freitod (Levantar a mão sobre si mesmo), Améry rejeita a ideia de que o suicídio é uma falha, uma doença mental ou um ato irracional. É, até onde minhas leituras vão, o autor que mais radicalmente combateu a associação entre suicídio e doença mental. Ele o vê como uma escolha lúcida, e em muitos casos, como um direito humano. Em uma de suas declarações mais emblemáticas, Améry escreve que quem escolhe a morte não está necessariamente em estado de loucura, nem tem uma patologia que precise ser tratada. Esse é um ponto crucial de sua filosofia, já que ele contesta tanto as abordagens psiquiátricas que patologizam o suicídio quanto a moral tradicional que o condena. Améry vê o suicídio como um ato de soberania pessoal, no qual o indivíduo recusa a opressão da dor insuportável e afirma seu direito de escolher sua própria morte. Ele desafia a concepção de que a vida é sempre um bem a ser preservado a todo custo, propondo que a morte voluntária seja entendida não como um ato de fraqueza, mas como uma escolha radical diante da incapacidade de suportar a dor que a vida impõe.
O suicídio, para Améry, é inseparável da liberdade. Seu conceito de “liberdade radical” desafia qualquer concepção utilitarista ou conservadora sobre o valor da vida. A liberdade, para Améry, não se limita a uma simples escolha entre o bem e o mal, mas se estende à capacidade do indivíduo de fazer escolhas em face do sofrimento. Em sua obra, ele argumenta que, para aqueles que não conseguem mais suportar a dor insuportável, o suicídio pode ser a única forma possível de recuperar a liberdade. O suicídio é, assim, em seus ensinamentos, o último direito de um ser humano que quer fazer uma escolha em um mundo que lhe nega qualquer forma de escolha. Este ponto é de particular importância, pois coloca o suicídio fora das categorias normativas de doença e moralidade, sugerindo que ele pode ser compreendido como um gesto de resistência. É uma afirmação radical da autonomia em um mundo em que a dor crônica, o sofrimento psicológico e a humilhação social impedem a liberdade do indivíduo.
Os psiquiatras e os profissionais da saúde mental falham em compreender a profundidade do sofrimento que leva ao suicídio, tratando-o apenas como um sintoma de uma doença mental. Isso ainda me parece um ponto importante em sua obra: Améry afirma que essa abordagem desconsidera a complexidade do ato suicida e suas raízes existenciais, culturais e sociais: quando o suicídio é tratado como uma patologia, o sofrimento subjacente se perde em um diagnóstico. O que se perde é o ser humano que, em sua dor, luta contra as forças que tentam aprisioná-lo à vida.
Essa crítica não se limita à psiquiatria, mas também se estende à moralidade que, de acordo com Améry, impõe um peso sobre os indivíduos que desejam morrer. Ele argumenta que a moral tradicional, que vê a vida como sagrada e inviolável, falha em reconhecer o direito de um ser humano decidir sua própria existência ou a falta dela. A moralidade, para Améry, muitas vezes é uma forma de opressão, que ignora as condições de vida dos indivíduos e não leva em conta as realidades dolorosas que podem levar alguém ao suicídio.
Uma das questões mais provocadoras na obra de Améry é a sua análise da solidariedade social em relação ao suicídio. Ele sugere que o suicídio muitas vezes ocorre em um contexto de isolamento social, quando o indivíduo não encontra mais formas de se conectar com outros ou com uma comunidade. Améry, contudo, também argumenta que o suicídio não é apenas um ato individual, mas também um reflexo das falhas da sociedade em lidar com o sofrimento humano. Ele faz um apelo para que se construa uma solidariedade social mais profunda, que permita que o sofrimento das pessoas seja reconhecido e tratado antes que chegue ao ponto da morte voluntária.
A obra de Jean Améry teve um impacto profundo em várias disciplinas, incluindo filosofia, psicologia e sociologia. Sua crítica ao conceito de moralidade e à patologização do suicídio ajudou a abrir um novo campo de investigação, que se afastou das abordagens clínicas tradicionais e passou a considerar o suicídio como um fenômeno social e existencial. Em países como França, Alemanha e Estados Unidos, estudiosos de filosofia existencialista e fenomenológica adotaram a obra de Améry como uma importante contribuição para a compreensão do sofrimento humano, da liberdade e da autonomia. Ao explorar as intersecções entre a dor, o suicídio e a liberdade, Améry se torna uma figura central para debates contemporâneos sobre a ética da morte, a liberdade individual e o papel da sociedade na formação da dignidade humana.
Vale a pena a leitura? Améry nos obriga a refletir sobre os limites da vida, da dor e, acima de tudo, sobre a dignidade do ser humano em face da opressão e da perda de sentido. Esse filósofo, tão querido, morreu em 1978, aos 66 anos, pelas próprias maõs, o que, para muitos, conferiu um trágico desfecho à sua própria filosofia. Sua morte não foi somente um fim físico, mas também um ato político e filosófico, que reforçou a ideia central de sua obra: o suicídio como um direito ético e uma forma de liberdade radical.
Sua morte deixou um legado significativo para a filosofia e para os estudos do sofrimento humano, da humilhação, da opressão e do direito à autonomia. Ele se tornou um dos principais filósofos a escrever sobre o suicídio de maneira não moralista, mas com uma abordagem existencial e ética, mostrando que o suicídio não deve ser apenas visto como um tabu ou uma falha, mas como uma decisão existencial válida e complexa.
Jean Améry nunca deixou de ser uma figura controversa e suas ideias sobre o suicídio e a liberdade humana continuam a gerar debates filosóficos. Acredito que a leitura de sua obra não deixe que nela entre sair do mesmo modo como sai.
Aqui um pequeno aperitivo:
“Nada mais há a dizer. Ou eu teria de começar novamente com a situação ‘antes do salto’. E tudo se repetiria, sem fim, como um cânone, uma canção que ninguém canta até o final. Daqui em diante, não há mais caminho para o pensamento. O círculo está fechado, vamos observá-lo, ficamos perplexos; não encontramos seu começo, assim como seu fim. O pensar sobre o suicídio leva, finalmente, a este resultado: mas este não é vivido de forma alguma, como a morte em si. O que pode ser experimentado é apenas a absurda realidade de viver e morrer e – quando o suicídio é escolhido – uma absurda euforia de liberdade. Seu valor experiencial não é insignificante. Pois, como um raio, quando chega o momento, nos atravessa a percepção de que todo o conjunto era falso. Reconhecimento, por si só, não serve para nada na vida. Pois até o suicida, ao se aproximar do limiar do salto, deve enfrentar as exigências da vida, caso contrário, não encontraria o caminho para a liberdade e seria, como o prisioneiro de campo de concentração que não ousa correr para a arame farpado, ainda desejando devorar a sopa da noite, depois a quente bebida de bolota pela manhã e novamente a sopa de beterraba ao meio-dia, e tudo continuaria. Porém: a exigência da vida aqui é – e não apenas aqui – a exigência de escapar de uma vida sem dignidade, humanidade e liberdade. Assim, a morte se torna vida, como se a vida, desde o nascimento, já fosse morrer. E a negação, então, de repente se transforma em positividade, embora inútil. A lógica e a dialética falham em um trágico consenso. O que importa é a opção do sujeito. Mas os sobreviventes têm razão, pois o que são dignidade, humanidade e liberdade diante do sorriso, da respiração, do caminhar? Vale então o que é contra o direito e a correção? Dignidade contra a premissa de qualquer dignidade? E humanidade contra o homem como ser vivo, sorridente, respirante, caminhante? Não vai bem para o suicida, não foi bem para o suicida. Devemos respeitar o que ele faz e o que deixa de fazer, devemos expressar nossa solidariedade, especialmente porque nós mesmos não fazemos figura brilhante. Nos vemos lamentáveis, qualquer um pode perceber. Então, devemos lamentar, com postura moderada, cabeça baixa, o que nos deixou em liberdade.” Améry, 1976, p. 172-174.
- Suicide and the Soul (1964), de James Hillman
James Hillman (1926-2011) foi um psicólogo e filósofo estadunidense, um dos principais fundadores da Psicologia Arquetípica. Com uma formação baseada na psicanálise junguiana, Hillman desafiou as concepções tradicionais da psicologia ao propor uma leitura profundamente simbólica e mitológica do comportamento humano. Ele acreditava que os padrões comportamentais não poderiam ser explicados unicamente por fatores biológicos ou psicológicos, mas também por influências arquetípicas e culturais que permeiam a psique humana. Ao longo de sua carreira, Hillman rejeitou a visão reducionista e patologizante da psicologia tradicional, abraçando uma abordagem que valorizava a complexidade da alma humana e a necessidade de entender as emoções e ações humanas a partir de uma lente mais profunda e simbólica.
Hillman propôs que a psique humana deve ser entendida como uma teia de imagens simbólicas e arquétipos, que se manifestam em mitos, histórias e expressões culturais. Em sua obra Suicide and the Soul, ele aplica essa abordagem ao suicídio, tratando-o como uma expressão de um conflito interno mais profundo, que vai além da simples doença mental ou distúrbio psicológico. O suicídio, segundo Hillman, não é apenas um ato de desespero ou um sintoma de uma mente doente, mas uma manifestação de uma alma que está em busca de algo mais, algo que a vida não pode mais proporcionar.
Suicide and the Soul me foi apresentado pela psicóloga Jalane Moura, de quem tenho o orgulho de ter sido orientador de mestrado. Esse livro propõe uma visão radicalmente diferente do suicídio. Hillman argumenta que, ao contrário das abordagens tradicionais que veem o suicídio como uma falha biológica ou mental, o suicídio deve ser tratado como um sintoma simbólico da alma. Para Hillman, o suicídio é uma expressão de um conflito interior profundo, algo que está acontecendo dentro do indivíduo em um nível simbólico, psíquico e arquetípico.
Hillman se afasta da perspectiva médica, que tende a patologizar o suicídio e tratá-lo como uma doença, como algo que deve ser curado. Esse tipo de leitura, até onde compreendo, deveria ganhar mais espaço entre aqueles que se engajam nas campanhas do setembro amarelo, tão fortemente marcada por reducionismo psiquiátrico, sobretudo em nosso país. Ao contrário deste tipo de leitura enviesada pela psiquiatria, o leitor encontra nesse livro uma perspectiva que reconhece o suicídio como uma expressão legítima de uma crise existencial. Hillman argumenta que o suicídio pode ser visto como uma tentativa de resolver um conflito arquetípico interno, uma forma de expressão da alma que não encontra saída em outros lugares.
Essa visão oferece uma alternativa poderosa e desafiadora à visão convencional do suicídio, que normalmente está centrada em tratamentos médicos e psicológicos para “curar” o suicida. Hillman sugere que os terapeutas e profissionais da saúde mental devem, em vez disso, se aproximar do suicídio com uma atitude de escuta profunda, buscando entender os símbolos e arquétipos que estão sendo encenados na vida do suicida.
Algumas notas do meu caderno de leitura:
O suicídio como desejo da alma:
Hillman sugere que o suicídio pode ser compreendido como uma reivindicação da alma contra o corpo e o bem-estar físico. Ele vê o suicídio como uma expressão simbólica do desejo da alma de se afirmar, de se libertar de uma situação opressiva ou irremediável. Para Hillman, o suicídio não é apenas um ato de desesperança, mas uma tentativa de dar à alma uma forma de expressão. A alma pode reivindicar contra o corpo e nosso bem-estar físico, e o suicídio muitas vezes é isso: a alma fazendo suas próprias exigências: há aqui uma síntese dessa ideia central de que o suicídio pode ser visto como um reflexo de um profundo anseio da alma para escapar de uma vida que ela sente ser insustentável.
A fantasia mítica por trás do suicídio:
Hillman argumenta que para entender o suicídio, é necessário compreender as fantasias míticas que estão sendo representadas por meio desse ato. O suicídio, segundo Hillman, não pode ser compreendido como uma falha individual ou patológica, mas como um enredo simbólico que reflete os arquétipos e as imagens presentes no inconsciente coletivo. Ele sugere que, como em um mito, o suicídio pode ser visto como uma espécie de ritual de passagem ou uma tentativa de resolver um conflito arquetípico profundo que não pode ser resolvido de outra forma. Para entender um suicídio, precisamos compreender que fantasia mítica está sendo encenada: isso é central para sua proposta de que o suicídio pode ser visto como parte de um drama simbólico, onde o indivíduo está tentando realizar algo dentro de si, por meio de um ato radical.
A simbologia do suicídio:
Hillman sugere que, em vez de ver o suicídio como um ato de destruição, ele deve ser entendido como uma forma de expressão simbólica da alma. Para ele, a alma não age apenas de maneira patológica ou errônea; ela também se manifesta por meio de ações que podem ser compreendidas como tentativas de resolver problemas internos profundamente enraizados. O suicídio, então, é tratado não como um “erro” ou “falha”, mas como uma expressão de uma crise existencial que precisa ser compreendida simbolicamente.
O suicídio como uma resposta ao sofrimento existencial:
Hillman também vê o suicídio como uma resposta ao sofrimento existencial que não pode ser resolvido dentro das limitações da vida cotidiana. A pessoa que escolhe o suicídio, de acordo com Hillman, pode estar tentando escapar de um sofrimento que é maior do que a capacidade da vida para proporcionar significado. O suicídio, nesse sentido, é uma tentativa de transcender os limites da existência e escapar do sofrimento de uma vida que não parece mais suportável.
Suicide and the Soul foi uma obra inovadora para sua época, oferecendo uma perspectiva psicanalítica que se distanciava das visões biomédicas e patologizantes do suicídio. A abordagem simbólica de Hillman influenciou não apenas a psicologia arquetípica, mas também outras áreas do conhecimento, como a filosofia existencial e a psicologia transacional. Sua visão do suicídio como um fenômeno simbólico e arquetípico propôs uma maneira nova e mais profunda de entender os suicidas, não como pessoas que sofreram uma falha biológica ou mental, mas como indivíduos cujas ações podem ser compreendidas dentro de um drama mais amplo da alma humana.
O trabalho de Hillman foi fundamental para a psicologia humanista, que, em contraste com as abordagens psicanalíticas tradicionais, enfatiza a importância de ouvir e compreender a pessoa em um nível profundo e simbólico. Essa abordagem mais holística, que considera a alma e os arquétipos como componentes fundamentais do comportamento humano, ainda é relevante para aqueles que estudam o suicídio e outros comportamentos extremos.
Vale a leitura: Suicide and the Soul de James Hillman oferece uma nova lente através da qual podemos compreender o suicídio. Em vez de simplesmente patologizá-lo ou vê-lo como um erro, Hillman nos convida a olhar para ele como uma manifestação simbólica profunda da alma, um grito de liberdade que vai além da biologia e da psicologia convencionais. Seu trabalho continua a ser uma leitura essencial para psicólogos, psiquiatras e filósofos interessados em compreender a complexidade da alma humana e a profundidade do sofrimento existencial.
- Suicídio: Estudos sobre o Desespero Humano (1938), de Karl Menninger
Karl Menninger (1893-1990) foi um psiquiatra americano altamente respeitado, conhecido por seu trabalho pioneiro na psiquiatria e por fundar a Menninger Clinic, um centro inovador de tratamento psiquiátrico. Menninger é amplamente reconhecido por seu esforço em humanizar a prática da psiquiatria, sendo um dos primeiros a tratar as doenças mentais com uma abordagem empática, ao invés de estigmatizá-las como defeitos do caráter. Ele acreditava que, para se tratar adequadamente os transtornos mentais, era necessário levar em conta a totalidade do ser humano: as emoções, as relações interpessoais e as dimensões existenciais. Seu trabalho ajudou a estabelecer a psiquiatria como uma disciplina científica, mas com uma profunda preocupação ética com os pacientes.
Menninger também foi um dos primeiros a discutir de maneira aberta e acadêmica a questão do suicídio. Em sua obra Suicídio: Estudos sobre o Desespero Humano, ele aborda o suicídio de forma integral, considerando seus aspectos psicológicos, sociais e emocionais, oferecendo uma perspectiva que transcende o diagnóstico clínico tradicional e o estigma que o rodeia. Ele destacou a importância da compreensão do suicídio como um fenômeno multifacetado e não como um ato isolado de desespero, abordando a necessidade de prevenção, intervenção e apoio psicoterapêutico.
Publicado em 1938, Suicídio: Estudos sobre o Desespero Humano propõe uma visão integradora e complexa do suicídio, que vai além da mera análise clínica ou diagnóstica. Menninger aborda o suicídio como uma resposta a uma série de forças internas e externas, que englobam não apenas fatores psicológicos, mas também aspectos sociais e culturais. Ao contrário de muitos psicólogos de sua época, que viam o suicídio apenas como uma falha individual ou uma reação patológica, Menninger desenvolve uma teoria na qual o suicídio é considerado uma forma de agressão voltada para o próprio indivíduo, uma reinterpretação do conceito de homicídio. Ele propõe a visão do suicídio como “homicídio invertido”, onde a agressividade e a raiva que normalmente são direcionadas para fora acabam se voltando para o próprio ser.
Menninger divide os impulsos suicidas em três categorias centrais:
- Matar (raiva) – A raiva que uma pessoa sente, geralmente reprimida ou não resolvida, é uma das forças motrizes do suicídio. Menninger observa que, em muitas situações, o indivíduo não consegue expressar essa raiva de maneira adequada, e ela acaba sendo internalizada, voltando-se contra si mesmo. O suicídio, então, seria uma tentativa de escapar dessa raiva, um modo de “punir” a si mesmo.
- Ser morto (culpa) – A culpa é outro fator central no impulso suicida. Para Menninger, muitas pessoas que cometem suicídio o fazem porque sentem que não merecem viver ou não conseguem lidar com o peso da culpa, seja por ações passadas ou por sentimentos de inadequação ou vergonha. Essa culpa frequentemente está associada a falhas percebidas no próprio caráter ou em relação a normas sociais e familiares.
- Matar-se (desespero) – O desespero, como uma perda de esperança e uma visão sombria do futuro, é a última categoria de impulso suicida que Menninger aborda. Quando uma pessoa sente que todas as suas opções estão esgotadas e que não há mais possibilidade de mudança ou alívio, o suicídio pode ser visto como a única saída para o sofrimento insuportável.
Menninger, portanto, não vê o suicídio como uma falha ou um ato irracional, mas como uma resposta complexa a uma série de pressões internas e externas. Sua obra oferece uma análise profunda das razões emocionais, psicológicas e sociais que levam um indivíduo a considerar o suicídio, e nos desafia a tratar a questão com a seriedade e a empatia que ela merece.
A importância da esperança para prevenir o suicídio:
Uma das principais conclusões de Menninger é que “A esperança é uma necessidade para a vida normal e a principal arma contra o impulso suicida.” Ele argumenta que o suicídio pode ser prevenido, em parte, por meio da restauração da esperança. Quando as pessoas têm um sentido de propósito e de conexão, elas são menos propensas a cair no desespero que frequentemente leva ao suicídio. Menninger enfatiza a necessidade de cultivar a esperança tanto para o indivíduo quanto para as comunidades, como uma forma de diminuir os riscos associados ao suicídio.
O papel crucial do apoio social:
Menninger também salienta que “Os amigos que nos escutam são aqueles a quem nos dirigimos; queremos permanecer no raio de sua presença.” Ele argumenta que o suporte emocional e social é uma das formas mais eficazes de prevenção do suicídio. O contato humano e a escuta empática podem oferecer o alicerce necessário para um indivíduo que esteja passando por uma crise, ajudando a aliviar o sofrimento emocional e psicológico.
O suicídio como expressão de um conflito interno:
Menninger sugere que o suicídio é uma maneira de o indivíduo expressar raiva, culpa e desespero, levando esses sentimentos ao extremo. Ele descreve o suicídio como uma tentativa de resolver conflitos internos intensos e, muitas vezes, não resolvidos, que são profundamente afetados pelas relações familiares e sociais. O suicídio, assim, é mais do que uma falha mental ou emocional; é uma maneira de tentar lidar com pressões externas e internas, um reflexo de um desejo de escapar do sofrimento prolongado.
A obra de Menninger se insere no contexto de uma psiquiatria em transformação, na qual a psicopatologia era muitas vezes vista de forma desumanizante e reducionista. Menninger, ao contrário, promovia um tratamento mais holístico, reconhecendo a importância do contexto emocional e social dos pacientes. Ele acreditava que o suicídio deveria ser estudado de uma maneira que levasse em conta os aspectos emocionais, históricos e sociais que contribuem para esse fenômeno. Sua abordagem ajudou a estabelecer uma base para o entendimento do suicídio como um problema multidimensional, que não pode ser resolvido apenas com intervenções médicas ou farmacológicas, mas que exige também um olhar atento às condições sociais e psicológicas do indivíduo.
Embora a psicologia contemporânea tenha evoluído desde a época de Menninger, suas ideias sobre a relação entre raiva, culpa e desespero continuam a ser relevantes, especialmente para os profissionais de saúde mental que lidam com pacientes em risco de suicídio. O trabalho de Menninger permanece como um marco no campo da psiquiatria, oferecendo uma visão profunda e humana de um dos fenômenos mais complexos da psicologia humana.
Convite à leitura: Suicídio: Estudos sobre o Desespero Humano é uma obra fundamental para qualquer profissional de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e sociólogos que desejam compreender o suicídio de maneira técnica, mas também profundamente humana e empática. Menninger oferece uma análise do suicídio não como um simples desvio patológico, mas como um ato complexo que envolve uma série de fatores psicológicos, sociais e emocionais, todos interligados. Ele nos convida a repensar o suicídio, tratando-o com o respeito que ele merece como um fenômeno humano, que deve ser abordado com compreensão, prevenção e suporte social.
- O Suicídio, Émile Durkheim (1897)
No primeiro capítulo de Le Suicide, Durkheim expõe sua premissa central: o suicídio não pode ser entendido apenas como um fenômeno individual, psicológico ou patológico, mas deve ser abordado como um fenômeno social. Ao contrário da visão comum da época, que tratava o suicídio como um reflexo de problemas mentais individuais, Durkheim sugere que o suicídio é influenciado por fatores sociais estruturais. Durkheim se opõe à abordagem dos “alienistas” (psiquiatras de sua época) que tratavam o suicídio como uma doença mental ou como um sintoma isolado de desequilíbrio psíquico. Ele critica a visão reducionista de que o suicídio pode ser explicado unicamente pela psicopatologia, destacando que a sociedade desempenha um papel fundamental na determinação da taxa de suicídios.
A crítica de Durkheim aos “alienistas”, que penso ser a parte do livro mais atual, não é uma rejeição completa da importância da psicologia, mas uma chamada para a superação do entendimento fragmentado. Chama, eu diria, para uma superação do reducionismo psiquiátrico, que ainda nos acossa.
Durkheim também discute a teoria do contágio social (atualmente chamado inadvertidamente de efeito Werther), um conceito predominante na época, que sugeria que o suicídio poderia se espalhar de forma epidêmica por meio de influências sociais. Durkheim refuta essa ideia, argumentando que o suicídio não se propaga como uma doença contagiosa, mas sim como um reflexo das condições sociais em que os indivíduos vivem. O suicídio pode ser influenciado por fatores sociais, como a estrutura familiar, a religião, as leis e os padrões econômicos, que afetam as escolhas dos indivíduos, mas ele não “contagia” de maneira direta como uma epidemia. Durkheim demonstra que o suicídio é um reflexo das normas sociais e culturais que regulam a vida do indivíduo, sendo moldado pelas relações entre os indivíduos e as estruturas sociais nas quais estão inseridos. Portanto, ele propõe que o suicídio não é um fenômeno de “contágio social”, mas um reflexo de desorganização ou disfunção social.
Suicídio egoísta, altruísta, anômico e fatalista
Em sua análise, Durkheim apresenta os quatro tipos de suicídio, que são abordados ao longo do livro:
- Suicídio egoísta: Ocorre quando um indivíduo está isolado, sem vínculos com a sociedade ou com sua comunidade. A falta de integração social é a principal causa desse tipo de suicídio. Durkheim associa esse tipo a sociedades excessivamente individualistas, onde os laços sociais são fracos ou ausentes.
- Suicídio altruísta: Neste caso, o indivíduo se sacrifica pelo bem de outros ou da coletividade. Esse suicídio ocorre quando a pessoa está excessivamente integrada ao grupo, e suas ações são dirigidas pelo bem do coletivo, como no caso de suicídios no contexto militar ou religioso, onde se coloca a necessidade do grupo acima das necessidades do indivíduo.
- Suicídio anômico: Este tipo é o resultado da falta de normas sociais claras, que ocorre especialmente em períodos de grande crise econômica, mudanças sociais ou desorganização. Quando as normas sociais que regulam o comportamento individual se tornam instáveis ou falham, o indivíduo pode perder seu rumo, levando ao suicídio.
- Suicídio fatalista: Este tipo ocorre quando a pessoa vive sob condições extremas de repressão e controle, como em regimes autoritários ou em contextos de opressão, onde a vida do indivíduo está severamente restringida e controlada. Nesse caso, o suicídio é visto como uma forma de escapar de um sofrimento insuportável.
Durkheim conclui que, ao contrário da visão moralista e reducionista, o suicídio é uma resposta complexa às tensões sociais e que suas causas estão enraizadas na falta de equilíbrio entre a integração e a regulação social. Ele argumenta que as taxas de suicídio são mais elevadas em sociedades que não conseguem equilibrar a individualidade com a coletividade.
Durkheim também critica as interpretações moralistas do suicídio, que o tratam como uma falha moral ou como um ato de desespero, sem considerar as influências sociais que o provocam. Para ele, é necessário entender o suicídio no contexto das condições sociais que determinam as ações dos indivíduos, como a religião, o estado e a estrutura familiar. Ao analisar os dados de suicídio, ele propõe uma abordagem científica que leve em consideração a estrutura social e a cultura. Em vez de focar apenas nas razões individuais, ele analisa como diferentes sociedades influenciam as taxas de suicídio, mostrando que a solidariedade social e o grau de regulação moral têm um papel decisivo no comportamento suicida.
Reflexões sobre os serviços sociais e assistência social
Nos capítulos finais de Le Suicide, Durkheim dedica atenção à importância dos serviços sociais e da assistência social como formas de intervenção para prevenir o suicídio. Embora a maior parte de seu foco seja sobre as causas estruturais, ele reconhece que a assistência social pode desempenhar um papel importante na redução das taxas de suicídio, especialmente por meio do fortalecimento dos laços sociais e da promoção de um equilíbrio entre a autonomia individual e os vínculos sociais. Sugere que as políticas sociais devem procurar integrar os indivíduos na sociedade e criar uma rede de apoio social que ajude a prevenir o isolamento e a alienação, fatores cruciais que contribuem para o suicídio egoísta. Ele destaca que o fortalecimento das instituições sociais e a construção de uma rede de suporte pode mitigar o impacto de crises econômicas e sociais, reduzindo as taxas de suicídio em momentos de desorganização social.
Vale a leitura? Sim, e uma leitura lenta e programada. A obra de Durkheim sobre o suicídio continua sendo uma contribuição fundamental para a sociologia e não só para os estudos sociológicos. Sua abordagem, que vai além da psicopatologia, oferece uma compreensão rica e multidimensional das causas sociais do suicídio. Ele nos ensina que o suicídio não é um fenômeno isolado do indivíduo, mas sim um reflexo das condições sociais e culturais nas quais os indivíduos estão imersos. Durkheim também nos alerta sobre os perigos de uma abordagem excessivamente moralista e nos chama a examinar as estruturas sociais para entender os fatores que influenciam as decisões de vida e morte dos indivíduos. Sua análise continua relevante, especialmente em tempos de crise social, em que a busca por um equilíbrio saudável entre o individual e o coletivo se torna mais urgente. Resta, é claro, e com o devido cuidado, analisar se Durkheim não cai em um determinismo sociológico.
Algumas edições que sugiro em português:
- DURKHEIM, Émile. O suicídio. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
- CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
- AMÉRY, Jean. Hand an sich legen: Diskurs über den Freitod. Stuttgart: Ernst Klett Verlag, 1976. Não temos tradução para o português. Existem edições em espanhol: AMÉRY, Jean. Levantar la mano sobre uno mismo. Discurso sobre la muerte voluntaria Valencia: Editorial Pre-Textos, 2017 [1976]. Infelizmente, no Brasil foi publicado apenas um livro do autor, uma coletânea de ensaios, que vale muito a leitura: AMÉRY, Jean. Além do crime e castigo: tentativas de superação. Tradução Marijane Lisboa. São Paulo: Contraponto, 2013.
- HILLMAN, James. Suicídio e a alma. São Paulo: Cultrix, 1992.
- MENNINGER, Karl. Suicídio: estudos sobre o desespero humano. São Paulo: Ibrasa, 1970.
