30 anos de história: O futebol feminino no Esporte Clube Pelotas

Em 1996, o futebol feminino buscava construir espaços no mundo esportivo. Os Jogos Olimpicos de Atlanta, nos Estados Unidos, ocorridos em julho e agosto daquele ano, marcaram a primeira vez da modalidade na maior competição multiesportiva do mundo, consequentemente, também era a estreia da seleção brasileira de futebol feminino no evento. Lideradas pela meia-atacante Sissi e com grandes nomes do esporte, como Michael Jackson, Meg, Tafarel e Formiga, as pioneiras conseguiram a 4ª colocação no mundial.

Do outro lado do continente americano, no interior do estado mais ao sul do Brasil, surgia uma iniciativa que, anos mais tarde, se tornaria o clube de futebol feminino mais antigo em atividade ininterrupta no estado.

Pelotas é um município ao sul do Rio Grande do Sul, a cerca de 250km da capital gaúcha. Fundada no ano de 1835, a cidade é conhecida como Princesa do Sul e detém o título de capital nacional do doce. Além da riqueza gastronômica e patrimonial, Pelotas também carrega forte tradição no futebol, com três clubes centenários na cidade: o Grêmio Esportivo Brasil, o Grêmio Atlético Farroupilha e o Esporte Clube Pelotas.

Em 1950, a cidade de Pelotas abrigava dois clubes que tinham algo em comum: ambos eram dedicados ao futebol feminino. Corintians e Vila Hilda eram pioneiros na modalidade e chegaram a ganhar destaque nacional pelo ineditismo. De acordo com jornais e registros, em novembro de 50, as jogadoras foram proibidas de praticar a modalidade por autoridades da época. O futebol feminino foi proibido no país por 40 anos. A proibição começou no ano de 1941, durante a Era Vargas, quando o presidente Getúlio Vargas assinou um decreto-lei excluindo as mulheres de praticar esportes, que, segundo ele, eram “incompatíveis com as condições de sua natureza”. A partir daquele ano, jogos femininos eram frequentemente cancelados por ordem do Conselho Nacional de Desportos (CND). As mulheres só voltaram a ter o direito de praticar o futebol em 1985, com o fim da ditadura militar. Em 1983, o CND considerou o futebol feminino aceitável e o regulamentou.

 

LEGENDA: Arquivo reportagem do Jornal Diário Popular sobre o futebol feminino / Acervo: Marli Decker

 

Passados 13 anos de regulamentação do futebol feminino, Marcos Planela e Marli Decker participavam de diferentes equipes de futebol e futsal feminino em Pelotas. De um lado, Sociedade Recreativa Guabiroba Futebol Clube, equipe na qual o treinador desenvolvia um trabalho amador com mulheres no bairro Fragata. Do outro lado, Marli Decker, gerente de uma loja esportiva da cidade e goleira, jogava na equipe Farmácia Caixeiral Douglas.

Quando Marcos foi buscar os novos uniformes do time da Guabiroba encontrou com Marli e os dois perceberam uma ideia em comum: Criar uma equipe profissional de futebol feminino na cidade. No ano de 1995 o primeiro passo para essa iniciativa foi dado, um amistoso entre as duas equipes aconteceu e a ideia ganhou ainda mais força. Posteriormente, os dois se reuniram com a diretoria do Esporte Clube Pelotas. Foi em 25 de julho de 1996, no salão de honra do clube – atual museu do Pelotas, que o projeto foi oficialmente apresentado. A equipe passou a ser formada por atletas vindas da Guabiroba, da Farmácia Caixeiral Douglas e de uma seletiva organizada na região.

 

LEGENDA: Cerimônia de criação do departamento feminino do Esporte Clube Pelotas

 

No ano de criação, as dificuldades de praticar a modalidade eram grandes, falta de estrutura, preconceito, poucas competições e entre outros entraves faziam parte do dia a dia das mulheres que escolhiam praticar o esporte. Nos primeiro anos, as Lobas – como as meninas do Esporte Clube Pelotas ficariam conhecidas, passavam por diversos obstáculos. Era preciso um esforço coletivo entre atletas e comunidade para conseguir manter as atividades. Flávia Betemps Sperling, atacante que atuava neste primeiro grupo, se lembra de quando ingressou na equipe: “Os desafios da época eram inúmeros. Pouca estrutura, pouco dinheiro, pouco reconhecimento, muito preconceito, mas mesmo com todos estes desafios conseguimos aos poucos ir ganhando respeito, admiração e visibilidade dentro da cidade e dentro do estado. Tínhamos completa noção que estávamos desbravando caminhos para que as futuras gerações pudessem ter o reconhecimento que o futebol feminino merece.”, afirma

 

 

LEGENDA: Arquivo reportagem do Jornal Diário Popular sobre o Esporte Clube Pelotas feminino / Acervo: Marli Decker

 

Flávia integrou as Lobas da criação até o ano de 2004 e deixou o seu nome na história como maior artilheira da equipe. Além de Flávia, centenas de mulheres passaram pelo clube e marcaram seu nome na história da equipe. Entre elas, estão nomes que se destacaram em outros clubes e até mesmo na seleção brasileira.

Ao todo, 29 atletas que jogaram na Boca do Lobo chegaram até a seleção canarinha. Em 2005, Beatriz Borchardt Borges, aos 16 anos, foi a primeira jogadora a ser convocada. A Bia, como é carinhosamente conhecida, cresceu junto com a equipe. No ano de 2000, aos 11 anos, participou de uma seletiva e passou a integrar o grupo. A atleta se destacou e conseguiu um feito histórico: além de ser pioneira das convocações das Lobas, também foi a única atleta a defender o Esporte Clube Pelotas e a Seleção Brasileira simultaneamente.

Outros nomes também fizeram parte da relação próxima entre o clube e a seleção. Andressa Cavalari Machry, a Andressinha, gaúcha de Roque Gonzales, iniciou sua trajetória no esporte no ano de 2009 nas Lobas, e, anos depois, disputou duas copas do mundo vestindo a camisa verde e amarela. A melhor jogadora do mundo de futebol de surdo, Stefany Krebs, também iniciou sua trajetória no futebol de campo nas Lobas. Além das mulheres que vestiram a camisa da seleção, o reconhecimento também se estendeu a Marcos Planela, fundador das Lobas e técnico desde o início do projeto. Em 2009, foi convocado para ser auxiliar na comissão técnica da Seleção Brasileira de base.

 

 

LEGENDA: Beatriz Borchardt e Stefany Krebys, atletas que representaram a seleção brasileira / Foto: Paulo Rossi

 

As Lobas têm tradição em revelar atletas, mas além disso também tem outra tradição: Vencer e conquistar títulos.

Ao longo dessas três décadas, conquistaram mais de 70 troféus, distribuídos entre diferentes modalidades e categorias. Os troféus reúnem conquistas do futebol de campo, futsal e beach soccer, todos eles presentes no Museu do Esporte Clube Pelotas e na sala de Futebol Feminino das Lobas.

Entre os maiores títulos, que formam as 5 estrelas das Lobas, estão as conquistas do Campeonato Gaúcho de Beach Soccer, o bicampeonato gaúcho Sub-15, o título estadual Sub-17 e a conquista do Campeonato Gaúcho da categoria principal. O clube também representou o Rio Grande do Sul em duas edições da Copa do Brasil, em 2008 e 2009.

 

 

LEGENDA: Comemoração da conquista do título gaúcho de 2008

 

No ano de seu 30° aniversário, as lobas mantêm o projeto vivo nas categorias de base.Em 2026, Marcos Planela, idealizador, técnico e coordenador das Lobas desde a sua fundação, receberá a medalha Rei Pelé pelos seus trabalhos no esporte. Para Marcos: “O trabalho com o futebol feminino começou, há mais de trinta anos atrás, como um “hobby”, um passatempo, uma curiosidade; depois, ganhou espaço, importância na minha vida, em uma dimensão que eu jamais imaginaria. Conheci lugares, pessoas, fiz amizades, hoje fundamentais em minha vida; errei, perdi, mas aprendi muito; em muito maior número, houveram conquistas e momentos especiais. Hoje, as LOBAS fazem parte de meu crescimento pessoal e de boa parte do meu dia a dia. Que venham os próximos 30 anos desta história, espero com mais reconhecimento, apoio e certamente, resultados ainda mais expressivos e geração de oportunidades para as atletas.”

 

LEGENDA: Em 2026, as Lobas completaram 30 anos, sendo a equipe mais antiga do estado em atividade ininterrupta no futebol feminino / Foto: Beatriz Alt

 

Por: Beatriz Alt

 

Você pode gostar...